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Biografias | Virupa
A tradição Sakya tem suas origens na Índia, particularmente ao grande adepto (sânsc. mahasiddha, tib. drubthob chenpo / grub thob chen po) Virupa, que foi o primeiro humano a disseminar as práticas do Caminho e Fruto (tib. Lamdre / Lam 'bras). Virupa foi o mestre dos mahasiddhas Krishnapada e Dombipa.
De acordo com as histórias tradicionais, ele nasceu em Bengala, na provínica oriental de Tripura, e era filho do rei Suvarnachakra (tib. Sergyi Khorlo / gSer gyi 'Khor lo) de Venasa. Ao nascer, recebeu o nome de Rupyachakra (tib. Ngülkyi Khorlo / dngul-kyi 'khor lo). Os astrólogos da corte predisseram que ele desenvolveria grades poderes espirituais, e ainda criança entrou na universidade monástica de Somapura, no norte de Bengala.
Em Somapura, ele foi ordenado noviço por Vinitadeva e Acharya Jayakirti, recebendo o nome Dharmapala (tib. Chökyong / Chos skyong), protetor do Dharma. Ele se formou nas cinco principais ciências e se tornou um grande erudito em conhecimentos não-buddhistas e buddhistas, particularmente dos ensinamentos da escola Yogachara. Dharmapala também erigiu um templo de pedra no qual pôs imagens de Buddha e estabeleceu a tradição de se fazer oferendas para purificar as ações negativas dos pais falecidos.
Após concluir seus estudos, ele partiu para a universidade monástica de Nalanda, onde recebeu a ordenação monástica do abade Dharmamitra (Jayadeva) e o nome de Shri Dharmapala. Em Nalanda, ele adotou o currículo escolástico padrão e os estudos tântricos. Durante o dia, devotava-se às três tarefas de um monge erudito: debates, ensinamentos e escrituras.
À noite, ele se aplicava em segredo às práticas tântricas. O abade lhe concedeu a iniciação de Chakrasamvara, e Shri Dharmapala praticou assiduamente a meditação tântrica, mas sem qualquer resultado aparente. Ele repetiu 20 milhões de vezes o mantra de Chakrasamvara, e mesmo com 12 anos de prática, não teve sinais de progresso. Shri Dharmapala já estava com 70 anos, e sofria entristecidamente de muitas doenças, além de ataques de yakshas e outros seres malignos. Shri Dharmapala começou a temer que não tinha as conexões kármicas necessárias para a prática tântrica.
No que parecia ser uma confirmação desses temores, ele teve uma série de sonhos que continham imagens perturbadoras. Em um deles, ele viu um imenso fogo queimando a parte inferior de um vale, enquanto uma inundação vinha da parte superior. Em outro sonho, ele viu chuvas de granizo, imensas geleiras caindo, sincelos e icebergs no céu. Em um sonho ainda mais perturbador, ele viu seu mestre, sua divindade meditacional e suas guias espirituais de cabeça para baixo ou com seus rostos separados, narizes cortados, olhos para fora e sangue pingando.
Shri Dharmapala interpretou as imagens do sonho como indicações de que sua prática e realização estavam se degenerando. Então, em desespero, ele jogou suas contas de oração em uma latrina e resolveu se devotar apenas às práticas exotéricas do Mahayana. Na verdade, os sonhos significam que Shri Dharmapala estava para atingir a maior realização tântrica, mas não soube interpretá-los corretamente porque seu abade tinha falecido antes de lhe transmitir todos os ensinamentos essenciais.
Quando chegou a hora de suas preces noturnas, ele não tinha mais as suas contas de oração, mas a divindade tântrica Nairatmya (tib. Damema / bdag med ma), consorte de Hevajra (tib. Kyedorje / Kye rdo rje), apareceu para ele e o presenteou com contas de oração lindamente entalhadas. Ela disse que era a divindade com quem ele tinha uma conexão kármica, e que daquele momento em diante deveria tratá-la com sua divindade meditacional. Então, Nairatmya informou-o que a sua interpretação dos sonhos estava incorreta e que sua prática tinha sido efetiva.
O que ele tomou como sendo sinais não-auspiciosos eram, de fato, indicações de sua realização espiritual: Shri Dharmapala tinha atingido o nível do caminho de preparação denominado calor (sânsc. ushmagata, tib. drö / drod), e estava prestes a atingir o caminho da visão. A energia vital de sua mente estava prestes a emergir como as sílabas Ksha e Ma no chakra do abdômen (sânsc. nabhimandala, tib. tewenkhor / lte ba'i 'khor). O fogo que subia e a inundação que descia eram indicações do movimento imanente de suas energias vitais. A circulação de gotas (sânsc, bindu, tib. thig le) sutis foi simbolizada pelas chuvas de granizo, sincelos e icebergs. As aparências de seu mestre e preceptores eram indicações de que ele estava prestes a transcender o apego às aparências convencionais. Quando isto foi explicado a Shri Dharmapala, ele imediatamente percebeu que todas as aparências são manifestações da mente.
Um monge mais velho percebeu que os pombos tinham desaparecido e quando ele perguntou sobre isto, foi informado que Virupa tinha ordenado que se fizesse um torta com eles. O monge foi investigar esta história perturbadora e achou Virupa sentado em sua cela, comendo a torta e bebendo vinho. Injuriado, o monge fez com que Virupa fosse expulso do monastério por violação em flagrante. Virupa removeu seus mantos depois de se prostrar em frente a uma imagem de Buddha e saiu sem remorso, pois ele percebeu ter transcendido a necessidade de estruturas e restrições monásticas.
Ao sair pelo portão do monastério, ele atravessou um lago de lótus caminhando sobre as flores que ali estavam. Antes de partir definitivamente, Shri Dharmapala pediu que os monges trazessem os restos dos ossos e asas que tinham sobrado da torta, e então ele estalou seus dedos. Neste momento, os pombos voltaram à vida, ainda mais belos do que antes, e saíram voando pelo céu.
Shri Dharmapala disse aos impressionados espectadores que aquela torta e os pombos mortos eram meramente uma ilusão. Ele se tornou um mestre siddha (um adepto tântrico) e tinha controle sobre a vida e a morte. Ele podia criar aparências à vontade e as limitações das pessoas comuns não mais se aplicavam a ele. Antes de partir, ele renunciou ao seu nome monástico — Shri Dharmapala — e deu a si mesmo o nome Virupa, que significa Feio ou Rude, simbolizando seu não-apego às convenções mundanas.
Depois de deixar o monastério, ele viajou amplamente, e histórias de seus feitos milagrosos circulavam em todos os lugares por onde passava. Certa vez, quando estava às margens do Ganges, ele pediu à deusa do rio, Ganga Devi, que lhe desse comida e bebida. Como ela recusou, Virupa abriu as águas do rio e atravessou para a outra margem. Chegando a uma pequena aldeia, ele entrou em uma taberna e pediu comida e vinho. Depois de terminar o primeiro frasco, Virupa pediu mais e como continuou a beber muito. O taberneiro ficou preocupado com a possibilidade de Virupa não poder pagar a conta. Virupa assegurou que pagaria pela comida e pelo vinho e então fincou sua p'hurba (punhal) na mesa em sua frente, na linha entre a luz do sol e a sombra. "Quando o sol cruzar esta p'hurba, eu vou pagá-lo", disse ele. Satisfeito, o taberneiro esperou que o sol se movesse, mas com seu poder mágico, Virupa manteve o sol parado no céu.
Por quase 3 dias, Virupa ficou sentado na taberna, com o sol parado no céu, e bebendo quantidades enormes de vinho. Como conseqüências do karma coletivo dos aldeões, o sol secou a cidade, colocando as colheitas em perigo e fazendo com que as pessoas se queixassem do calor, até que elas finalmente pediram ao rei para salvá-las. Para deixar o sol se mover novamente, o rei pagou a conta do bar e Virupa permitiu que o sol continuasse em seu curso.
Em seguida, Virupa viajou ao país do rei Indra, governado por brâmanes que tinham construído uma estátua de Shiva Mahadeva com mais de 180 metros de altura. Os guardiões do templo ordenaram que Virupa se curvasse à imagem de Shiva, mas ele se recusou. O rei Indra, que tinha vindo cultuar a imagem, ordenou, "Curve-se ou morra!" Mas quando Virupa juntou as mãos para fazer a reverência, a imensa estátua de pedra quebrou-se no meio. Então, no no céu se ouviu a voz de Shiva dizendo a Virupa, "Sua palavra é uma ordem!"
"Então jure sua submissão ao Buddha", ordenou Virupa. "Eu ouço e obedeço", disse a voz se Shiva, e então a estátua colossal foi milagrosamente restaurada. As ricas oferendas amontoadas aos pés da imagem de Shiva foram dadas a Virupa, que as distribuiu. Virupa também ordenou que nunca mais fossem feitos sacrifícios de animais para Shiva. Este acontecimento foi tão poderoso que as pessoas ficarem livres da fome, de enchentes e de pestes durante muitos e muitos anos.
Durante suas viagens, ele continuou a impressionar as pessoas com exibições surpreendentes de seu poder yógico e viajou por toda a Índia, usando suas habilidades para converter os seres sencientes ao buddhismo. Diz-se que ele viveu 700 anos, durante os quais realizou inúmeros feitos de poder e finalmente atingiu a liberação completa, ascendendo ao paraíso das dakinis.
(Adaptado do livro Introduction to Tibetan Buddhism,
John Powers, Snow Lion Publicationse Buddhist Masters of Enchantmnet,
Keith Dowman e Robert Beer, Inner Traditions)
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