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Escolas | Mi-tsung / Shingon
A escola tântrica chinesa da Palavra Verdadeira ou do Mantra (chin. Chen-yen) deu origem às manifestações místicas que posteriormente formaram a Escola dos Segredos (chin. Mi-tsung ou Tsang-mi-tsung), fundada na China pelos monges indianos Shubhakarasimha (chin. Shan-wu-wei, 637-735), Vajrabodhi (ou Vajrajnana, chin. Chin-kang-chih, 663-723) e Amoghavajra (ou Amoghatripitaka, chin. Pu-k'ung, 705-774). Apesar de Amoghavajra ter obtido apoio e incentivos do imperador chinês T'ai-tsung, esta escola não chegou a ter grande força entre camadas populares da China. Séculos depois, durante a dinastia Yuan (1279-1368), o buddhismo tântrico tibetano chegaria à China.
Amoghavajra transmitiu os mantras e os dharanis, séries de sílabas para que invocar os buddhas, passados oralmente de mestre a discípulo. Shubhakarasimha traduziu o Discurso do Grande Buddha Vairochana (sânsc. Vairochana Bhisambodhi Sutra ou Maha-vairochana Sutra, jap. Dainichi-kyô) para chinês, que se transformou no texto fundamental desta escola.
Vairochana, o buddha primordial (sânsc. adi-buddha), é considerado o emanador dos cinco dhyani-buddhas (Amitabha, Amoghasiddhi, Akshobhya, Ratnasambhava e uma versão mais sutil do próprio Vairochana) e dos três buddhas Vajrasattva (Vajradhara, Vajradharma e o próprio Vajrasattva).
Segundo os fundadores desta escola, estes ensinamentos foram originalmente transmitidos por Vairochana ao buddha Vajrasattva. Então, Vajrasattva teria guardado os ensinamentos (o Vajrasekhara Sutra e o Maha-vairochana Sutra) em um relicário (sânsc. stupa) de ferro no sul da Índia. Finalmente, o monge indiano Nagarjuna (século II-III) teria conseguido acessar o relicário, recebendo a iniciação (sânsc. abhisheka) de Vajrasattva revelando os dois sutras.
Nagarjuna teria então transmitido os ensinamentos a Nagabodhi, passando então para Shubakarasimha, Vajrabodhi, I-hsing, Amoghavajra, Hui-kuo e Kûkai.
No Maha-vairochana Sutra, o próprio Vairochana descreve a Vajrasattva (jap. Kogôsatta) o caminho para obter a sabedoria do Buddha. Segundo este texto, a aspiração ao despertar é a causa, a grande compaixão é a base e os meios hábeis são o caminho da realização; observar a verdadeira natureza da mente é adquirir a sabedoria do Buddha.
Procure completamente pela iluminação e onisciência dentro de sua própria mente. Por que assim? Porque essa mente é por natureza completamente puro, não observável dentro ou fora, ou em algum lugar no meio. [...] Filho ou filha da linhagem, já que você deseja compreender completamente a iluminação, procure completamente a natureza de sua mente.
(Maha-vairochana Abhisambodhi Sutra)
O sutra também trata das cerimônias e de outros aspectos da prática, como os gestos simbólicos (sânsc. mudra), as sílabas místicas (sânsc. mantra) e o diagrama do ventre/embrião (sânsc. Garbhadhatu Mandala). Outro texto importante para desta é o Vajrasekhara Sutra (jap. Kongôchô-kyô), que descreve o diagrama do reino do diamante/raio (sânsc. Vajradhatu Mandala). Estes dois diagramas sagrados são fundamentais para as práticas meditativas desta escola. Eles representam dois aspectos inseparáveis de Vairochana; uma mandala é reflexo da outra, uma complementa à outra, leva à outra. Elas representam o cosmo em si, o todo e o nada, a unidade.
O Garbhadhatu Mandala (jap. Taizôkai Mandara), diagrama do ventre/embrião, simboliza o feminino, o princípio ou verdade, o absoluto, a matriz de todas as os fenômenos. Vairochana aparece no centro, fazendo o gesto da meditação, representando a natureza básica de todos os fenômenos.
Já o Vajradhatu Mandala (jap. Kongôkai Mandara): o diagrama do reino do diamante/raio, simboliza o masculino, o aspecto da sabedoria do dhyani-buddha Vairochana. Ele aparece no topo do diagrama usando a coroa dos cinco buddhas e fazendo o gesto da sabedoria. A coroa representa as cinco sabedorias e o mudra representa a unidade dos seres com os buddhas.
O Tathagata Maha-vairochana é a natureza desperta de nossas mentes e todas as várias divindades — tão numerosas quanto as partículas de poeira — são seus estados mentais atendentes, criados através das cinco sabedorias. [...] As trinta e sete divindades, as nove mandalas [de Vajradhatu], as treze grandes assembléias e a mandala quádrupla [do Garbhadhatu] interpenetram-se umas com as outras, assim como a rede divina de Shakra [Indra], e possui hostes santas nas terras, tão numerosas quanto os grãos de areia. Estes são os seres sencientes permanecendo dentro destes mundos físicos. Tanto os mundos físicos quanto os seres sencientes neles contidos são infinitos, e todos são soberanos e perfeitos.
(Gyônen, Hasshû Kôyô)
Os seis elementos — terra, água, fogo, ar, espaço e consciência — são considerados emanações do dhyani-buddha Vairochana. Cada ser é visto como um microcosmo em que todo o universo aparece — não apenas por analogia, mas como uma identidade com a realidade última do Buddha. Como isto é obstruído pela por sua visão errônea dos seres, torna-se necessário experienciar a realidade última através da prática dos três mistérios ou três segredos (sânsc. triguhya) — os atos do corpo, da fala e da mente são considerados ações, palavras e pensamentos do Buddha. Os gestos, posturas e implementos esotéricos são usados para invocar treze buddhas (jap. jûsan-butsu), expressando o "segredo do corpo" iluminado. A recitação de seus mantras e dharanis representa o "segredo da fala" iluminada. As cinco sabedorias desenvolvidas através da meditação sobre as mandalas constituem o "segredo da mente" iluminada.
Shingon
Quando esteve na China, o monge japonês Kûkai (ou Kôbô Daishi, "grande mestre da difusão do Dharma", 774-835) recebeu os ensinamentos do monge Hui-kuo da escola Mi-tsung. Retornando ao Japão, Kûkai fundou a escola da Palavra Verdadeira (jap. Shingon) no monastério do monte Kôya-san. Sua escola também conhecida é como Mandara-shû, Darani-shû, Ryôbu-mandara-shû, Himitsu-shû e Sanmitsu-yuga-shû. Ela floresceu principalmente durante o período Heian (794-1184).
Kûkai nasceu na província de Sanuki, na ilha de Shikoku. Aos quinze anos de idade, ele foi para Nara, que não mais era a capital do Japão. Antes de estudar o buddhismo, ele estudou a língua chinesa, o taoísmo e o confucionismo com sua tia materna, Ato No Ôtari.
Aos dezoito anos, ele entrou no colégio confucionista de Nara e acabou conhecendo o monge buddhista Gonsô, da escola Sanron. Com ele, Kûkai aprendeu a prática da recitação do mantra do Bodhisattva Akashagarbha (jap. Kokûzô Bosatsu) e então decidiu entrar em retiro para completar um milhão de recitações do mantra de Akashagarbha. Após terminar esta prática, aos vinte anos de idade, ele foi ordenado monge. Quatro anos depois, ele escreveu a Verdade Final dos Três Ensinamentos (jap. Sangô Shiiki), um estudo comparativo do buddhismo, do taoísmo e do confucionismo. Apesar de admitir um certa complementaridade entre os três sistemas e de reconhecer a existência do "caminho do meio" nos clássicos chineses, Kûkai afirma que o buddhismo é superior ao taoísmo e ao confucionismo.
No ano 804, Kûkai foi para a China e se instalou em Chang'an, a capital da dinastia T'ang. Durante cerca de três anos, ele estudou os sutras e as mandalas com o mestre Hui-guo (746-805), sétimo patriarca da escola Mi-tsung e detentor da autoridade suprema do buddhismo esotérico chinês. Com um mestre chamado Prajna, Kûkai também a escrita sânscrita siddham e as suas implicações simbólicas e místicas.
Em 806, após a morte de Hui-go, Kûkai retornou ao Japão com objetos rituais, textos esotéricos e duas grandes cópias das mandalas de Vajradhatu e Garbhadhatu. Estes objetos sagrados serviriam como ferramentas para atestar a legitimidade de sua escola. Inicialmente, ele passou a residir no Kanzeon-ji, na província de Tsukuchi da ilha de Kyûshû. A partir de 816, ele obteve das autoridades imperiais uma concessão de território no monte Kôya, nas montanhas ao sul da península de Kii. Kûkai foi responsável pela construção do Monastério do Pico Vajra (jap. Kongôbu-ji), que se tornaria o centro de difusão do buddhismo esotérico durante o período Heian. Em 823, ele ficou encarregado do Templo do Leste (jap. Tô-ji), um dos dois templos estatais de Kyôtô, recebeu autorização para construir a Casa da Palavra Verdadeira (jap. Shingon-in) dentro do palácio imperial.
Kûkai sintetizou seus ensinamentos nos dez estágios da consciência religiosa:
- A consciência animal de um bode, das pessoas comuns e ignorantes; conduz ao renascimento nos três reinos inferiores.
- A consciência infantil tola daqueles que se apegam a preceitos desnecessários; conduz ao renascimento humano.
- A consciência infantil daqueles que não têm medo; conduz ao renascimento divino.
- A consciência daqueles que conhecem apenas os agregados e que não há um eu inerentemente existente; conduz ao estado de um ouvinte (sânsc. shravaka).
- a consciência daqueles que desarraigaram as sementes do karma; conduz ao estado de um realizador solitário (sânsc. pratyekabuddha).
- a consciência Mahayana que sente um relacionamento com os outros; refere-se ao ensinamento dos três veículos (sânsc. triyana), isto é, o veículo dos ouvintes, dos realizadores solitários e dos seres da iluminação (sânsc. bodhisattvas).
- a consciência que conhece a verdadeira natureza da mente e sabe que os fenômenos são não-surgidos; também se refere aos ensinamentos dos três veículos.
- a consciência que conhece que há apenas um veículo e que a verdade é não-criada; refere-se ao ensinamento do veículo único (sânsc. ekayana).
- a consciência que sabe que não há uma auto-natureza absoluta; também se refere ao ensinamento do veículo único (sânsc. ekayana).
- a consciência secretamente adornada; referes-se ao Vajrayana, o ensinamento último.
Kûkai combinou os ensinamentos da escola chinesa Mi-tsung com elementos japoneses; por exemplo, ele introduziu divindades do shintoísmo na escola Shingon, identificando-as como bodhisattvas. Alguns dos seus sucessores, combinando o Shingon com o shintoísmo, deram origem a um movimento sincrético chamado Ryobu-shintô.
Após o falecimento de Kûkai no Kongôbu-ji, a escola Shingon se dividiu em vários ramos. No período Kamakura, diferenças de interpretação levaram à formação da escola dos novos ensinamentos (jap. Shin-gi) no monte Negoro.
Os ensinamentos tradicionais do monte Kôya e do templo Tô-ji passaram a ser chamados de ensinamentos antigos (jap. Kogi). As principais linhagens atuais são o Kôya-san, o Buzan-ha e o Chisan-ha. Atualmente, a escola Shingon conta com aproximadamente 13 mil templos e monastérios.
Kûkai deixou muitos tratados, incluindo o Jûjûshin-ron, o Sokushin Jôbutsu-gi e o Nikyô-ron. O mais antigo dicionário do Japão, o Tenrei Banshô Meigi, também foi compilado por ele. Kûkai é considerado o pai da cultura japonesa, tendo sido um grande educador, escritor, poeta, lexicógrafo, calígrafo, pintor e escultor. A tradição atribui a ele a invenção dos caracteres japoneses kana, e até hoje a seqüência do kana é ensinada de forma semelhante à seqüência das vogais do sânscrito.
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