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Chagdud Tulku Rinpoche (1930-2002) pertencia à última geração de mestres que herdaram os tesouros dos ensinamentos e métodos Vajrayana. Filho de Dawa Drolma, uma das mais célebres mulheres lamas deste século, abade do secular monastério de Chagdud Gonpa no Tibet, Rinpoche viveu os primeiros vinte anos de exílio, depois da invasão chinesa de 1959, na Índia e no Nepal. Lá serviu à comunidade tibetana como lama, médico e promotor das artes.
Em 1979, chegou aos Estados Unidos. Quatro anos depois, Rinpoche criou a Chagdud Gonpa Foundation, hoje com centros também no Canadá, Suíça e Brasil, onde residia em Três Coroas (RS).
Aos domingos, quando estou em casa, as crianças daqui vêm até mim. Nos sentamos juntos no chão, comemos pipoca e eu conto uma ou duas histórias. Cada história tem um moral que sinto ser útil para as crianças. Por exemplo, uma história pode demonstrar os tipos de circunstâncias positivas que surgirão se praticarmos um bom coração, ou os tipos de circunstâncias difíceis que surgirão se os nossos pensamentos e ações forem negativos. Em essência, é assim que abordo o ensinamento do Dharma com as crianças. Não falo com elas formalmente.
É importante não empurrar as crianças para a prática do Dharma. É melhor ser bem espaçoso e não tentar incitá-las ou encorajá-las. Se viverem em um ambiente onde os pais e os outros membros da sangha estejam simplesmente fazendo a sua própria prática, elas naturalmente vão querer participar. Elas virão livremente, por sua própria escolha. Mas se tentarmos fazê-las se juntar a nós, elas resistirão. Em nosso centro, mesmo quando estamos fazendo prática intensiva — cerimônias longas por exemplo —, as crianças estão livres para ir e vir conforme agradá-las; não se diz para elas ficarem ou saírem. Ao invés de perturbar as crianças ou de criar dificuldades sobre o Dharma em suas mentes, forçando-as a praticar em tenra idade, precisamos ser muito gentis com elas. Então, elas virão ao Dharma — não porque seus pais a disseram para fazer isso, mas porque elas querem. E se elas não quiserem, elas não têm que fazer isso.
É importante que os adultos da sangha mantenham sua paciência. As crianças nem sempre sabem como se comportar, então precisamos fornecer modelos para eles. Se, por exemplo, estivermos fazendo prática enquanto as crianças vêm e vão, devemos nos focalizar sobre a nossa prática e não no ir e vir das crianças.
Quando as crianças começam a ir à escola, sempre digo a elas que, se as outras crianças perguntarem sobre o buddhismo, elas devem dizer que não sabem nada sobre isso, que é algo em que seus pais estão envolvidos. Digo para elas não dizerem "O buddhismo é melhor" e, se as outras crianças disserem, "O buddhismo é uma religião ruim" ou "O buddhismo é falso", digo para elas não discutirem com as outras crianças e simplesmente dizer, "Talvez você esteja certo, não sei". Isto as ajudará a se relacionar com as outras crianças.
Uma vez, o filho de um membro da sangha estava perto da casa do prefeito. E o prefeito disse algo sobre Deus. Esta jovem criança disse ao prefeito, "Deus não existe". O prefeito ficou com tanta raiva que pegou o triciclo do menininho e o jogou. A criança voltou para casa e disse à sua mãe o que tinha acontecido. No dia seguinte, falei com o menino e lhe disse, "Na última noite, Deus veio até mim e me disse que você não acredita em Deus."
A criança ficou surpresa, "O quê? Deus existe?"
"Por que não?", respondi. "Deus veio até mim na última noite e me disse isto".
Depois disso, o menino nunca mais disse a alguém que Deus não existia. Aconselhei-o a não falar sobre o Dharma a ninguém porque isso poderia fazer seu relacionamento com os outros ser difícil. Mas depois ele disse à sua mãe, "Por que não devemos falar às pessoas sobre o Dharma? Por que devo mantê-lo como um segredo? Ele beneficia os outros."
O modo mais efetivo para os pais ensinarem suas crianças sobre o Dharma é viver os ensinamentos — mostrar, por suas próprias ações, que praticar o Dharma significa ter respeito, bondade amorosa e compaixão. Representando os ensinamentos deste modo, elas realizarão muito mais do que fariam se disséssemos às crianças como se comportar. Quando os pais mostram, por exemplo, a bondade amorosa e o respeito por seus pais e pelos outros, elas estão estabelecendo um padrão que filhos delas poderão seguir.
Lentamente, então, contando histórias e estabelecendo bons exemplos, os pais criam as condições nas quais as crianças começarão a aprender sobre o Dharma. Antes de as crianças terem onze anos de idade, nunca dou a elas os votos de refúgio formais, embora, se quiserem, elas podem participar da cerimônia enquanto os outros estão tomando o voto de refúgio. Mas depois de completarem onze anos, se elas decidirem tomar refúgio por si mesmas, fazemos disto uma grande coisa. Damos a elas seus próprios mantos, todos os membros da sangha oferecem-lhes os echarpes cerimoniais e colocamos uma foto delas no jornal. Quando as crianças mais velhas vêm isto, elas naturalmente passam a querer participar também. Uma vez que uma criança tenha tomado refúgio, sugiro que ela se junte a nós na prática pelo menos uma vez por semana. Mas se ela não vier, tudo bem; apenas deixo-a ser.
Tenho a atitude tibetana diante das crianças: que os pais e mães devem disciplinar suas crianças, não estragá-las; sinto que o modo ocidental de criar as crianças é muito frouxo. Às vezes, quando as crianças em nosso centro comportam-se mal, se elas não mostram respeito por seus pais ou se são selvagens, fico muito irado com elas. Por exemplo, posso gritar com elas ou bater na mesa, o que realmente as surpreende. Então elas ficam quietas e ouvem. Mas na maior parte do tempo, sou muito gentil com as crianças. E às vezes, quando viajo, compro presentes para todas elas, o mesmo presente para cada. Cuido delas e as amo como se fossem meus próprios filhos, e tento manter minha paciência.
Pergunta: Algumas das crianças a quem ensino são muito indisciplinadas, mas também muito sensíveis para serem disciplinadas. Elas foram abusadas em casa. Como posso disciplinar estas crianças?
Rinpoche: É difícil dizer. Se os pais disciplinam seus filhos, é fácil para alguém de fora discipliná-las também. Mas basicamente, a disciplina não é efetiva se ela não acontecer em um ambiente de bondade amorosa. Ela também deve ser administrada muito consistentemente; de outro modo, as crianças não terão respeito para com aqueles que estão as disciplinando. Isto é difícil aqui no Ocidente porque não há muito acordo dentro das famílias — ou entre as famílias e professores — sobre como disciplinar as crianças. Por exemplo, se uma criança diz a seus pais sobre como uma professora a disciplinou e os pais respondem dizendo, "Que coisa terrível que a sua professora fez!", a criança perderá o respeito pela professora. Mas se os pais dão apoio ao que a professora faz, se os pais e a professora trabalharem juntos, então a disciplina pode ser efetiva.
Do mesmo modo, os pais precisam apoiar um ao outro. Se, por exemplo, o pai é irado com a criança, ela corre para a mãe chorando, e então a mãe diz, "Estou muito triste. Por que o papai fez isso para você?", então todo o poder de disciplina do pai é perdido. Se, por outro lado, a mãe apóia o pai dizendo, "Seja cuidadoso, não faça isso de novo. O que o seu pai está dizendo é verdade", ela estará reforçando a idéia de que isto é algo que não deve fazer. Se a mãe ignora ou questiona o que o pai disse, a criança também o fará. Então é importante que os pais trabalhem juntos, assim com é importante que eles trabalhem com a professora. Uma abordagem unificada para disciplinar será mais efetiva.
Se há um ambiente de bondade amorosa e cuidado, a criança tem um profundo senso de segurança, e portanto funciona ser irado às vezes. Há uma grande diferença entre raiva e ira. A raiva e as ações que seguem a raiva vêm dos venenos da mente. Mas a ira vem da compaixão, das profundezas do coração, e da motivação de beneficiar a criança. Em um ambiente vazio de bondade amorosa ou verdade, a disciplina apenas perturbará ainda mais a criança; apenas fará a criança ficar mais emotiva.
No Tibet, tanto nos monastérios quanto entre as pessoas leigas, as crianças são disciplinadas muito estritamente e elas raramente têm dificuldades emocionais que algumas crianças têm aqui. A disciplina é muito consistente; onde quer que a criança tibetana vá, a disciplina — assim como a bondade amorosa — é a mesma.
Pergunta: Rinpoche, você tem um conselho sobre como trabalhar com adolescentes?
Rinpoche: Devemos tentar ser pacientes com os adolescentes porque as tentativas de discipliná-los não funcionarão realmente. Podemos ajudá-los principalmente apoiando-os e compartilhando idéias do que seria útil para eles de um modo geral, ao invés de aconselhá-los diretamente sobre sua vida pessoal. Quando não estão no meio de um problema difícil, falo com eles e tento ajudá-los a entender os efeitos do que estão fazendo. Minha experiência é que se você for muito estrito com adolescentes, eles simplesmente resistem. Se os apoiarmos deste modo, eles se sentirão livres para falar de seus problemas. Por exemplo, uma vez um adolescente me perguntou se ele deveria dizer à sua nova namorada — cujos pais são cristãos muito estritos — que ele é buddhista. Aconselhei-o a dizer a verdade, que seus pais são buddhistas e que ele não pratica muito mas respeita o buddhismo.
Pergunta: Tenho duas filhas. Uma tem doze anos, a outra tem nove. A mais velha sempre tem ciúmes da mais nova e é muito mesquinha com ela. Como devo lidar com isto?
Rinpoche: É muito tarde para tentar disciplinar a filha mais velha. O momento para se começar a disciplinar as crianças (verbalmente e, se necessário, batendo nelas) é quando elas são jovens, desde os três ou quatro anos até os sete ou oito. Quando você os disciplina em tenra idade, os bons hábitos que você instila nelas durarão. Mas é mais difícil, numa idade mais velha, tentar mudar um padrão há muito estabelecido.
Você pode tentar trabalhar o problema com sua filha falando com ela abertamente. Eu mesmo, quando era jovem, era muito mesquinho com minha irmã. Até mesmo bati nela algumas vezes. Então, quando eu tinha onze anos e ela tinha dois, nossa mãe morreu e meu professor de leitura e escrita me disse, "Por que você trata sua irmã assim? Agora que sua mãe partiu, você é a única família que ela tem. Ela confia em você e o ama muito." Quando pensei sobre o que ele disse, eu chorei. Percebi que minha irmã era mais nova e que dependia de mim, que eu precisava ajudá-la. Por que eu deveria ser mesquinho com ela? Então minha mente mudou completamente e fiz uma decisão, das profundezas de meu coração, de nunca mais machucá-la novamente.
Converse com sua filha — não quando ela estiver com raiva ou perturbada, mas quando vocês estiverem se divertindo juntas. Fale a ela sobre a impermanência; diga a ela que não sabemos quanto tempo durará o relacionamento entre irmãs ou entre mãe e filha. Não sabemos se nossas vidas serão longas ou curtas, então durante o tempo em que estivermos juntos, devemos ser muito amáveis e bondosos um com os outros.
Você poderia também explicar que o karma que ela está fazendo amadurecerá depois, e ela sofrerá. Seu comportamento não a fará ficar feliz; não fará aqueles ao redor dela ficarem felizes. Explique que a questão não é quem está certo ou errado, mas sim que, se ela agir com raiva, alguém pode ficar com raiva também e ambos sofrerão. Então toda a família ficará mais infeliz. Já que nosso tempo juntos nesta vida é tão breve, por que usar este caminho?
Se você conversar assim com sua filha algumas vezes, quando as coisas estiverem indo bem, então talvez, gradualmente, ela mudará. Não há muita escolha e realmente não há nada a perder. É muito tarde para tentar uma disciplina estrita ou tentar bater nela.
Pergunta: Não estou certo do quanto disciplinar minha filha de dezesseis anos. Ela assiste muita televisão e tem problemas para ir à escola na hora de manhã.
Rinpoche: Tentar disciplinar sua filha nesta idade não será muito útil. Quaisquer problemas que ela tenha com respeito a assistir televisão são muito pequenos se comparados com os tipos de problemas que ela — e você — poderiam ter. Então é melhor não ser muito estrita neste ponto. Se houvesse um problema sério que pudesse criar danos à sua filha e aos outros, você precisaria tentar ajudá-la usando mais disciplina, quer ela goste ou não. Mas assistir muita televisão não é esse grande problema. Quanto mais estrita você for, mais ela resistirá e se afastará. É melhor apoiá-la.
Quanto a ela chegar tarde na escola, apenas fale com ela. Diga a ela, "Ou posso ajudá-la a acordar de manhã, ou você por levantar por si mesma. Mas se eu deixar isso com você, e você chegar atrasada na escola, então terá que lidar com o problema na escola e aprender sua lição desse modo."
Uma vez passado o tempo para disciplinar as crianças durante estes primeiros anos, é melhor não ser a "inimiga" de seus filhos, mas sim ser muito bondosa e paciente com elas. Às vezes, quando você estiver tendo uma conversa feliz com sua filha, diga a ela muito gentilmente que você não está sendo muito estrita com ela agora, já que ela está crescendo. Então sugira que ela pode tentar fazer as coisas diferentemente, que ela pode achar um modo mais efetivo e ser mais feliz com esses resultados. Se você tiver este tipo de relacionamento e puder compartilhar suas idéias, vocês ficarão mais próximas, enquanto se você tentar ser estrita, isto apenas criará mais problemas.
Quando você falar com filhos desta idade, é muito efetivo elogiá-los. Você pode dizer, "Você está indo realmente bem. Talvez você descubra que se fizesse assim e assado, as coisas iriam ainda melhor." Criticá-los não funciona. Realmente, isto não é verdade apenas para crianças, mas para adultos também.
Pergunta: Então a idade dos três aos oito é um bom tempo para disciplinar uma criança?
Rinpoche: Sim, mas a disciplina deve acontecer sobre um fundamento de bondade amorosa e de cuidado. Apesar de poder haver uma disciplina estrita, também deve haver uma grande gentileza, para que a criança veja ambas. Ser apenas irado não funcionará.
Entretanto, se uma criança fizer um grande erro que possa ser prejudicial para ela ou para os outros, os pais devem ser bem irados. A ira pode ajudar a conquistar o orgulho e a raiva de uma criança, que precisam ser desencorajados.
É claro, esta é apenas a minha abordagem, a abordagem tibetana, mas é o que encontrei como efetiva. Aqui no Ocidente, as crianças têm mais educação e mais brinquedos que as crianças tibetanas, e seus pais são muitas vezes gentilíssimos com elas, porém tenho visto que as crianças tendem a não ter respeito suficiente por seus pais. No Tibet, não temos muita tecnologia, as crianças não têm muitos brinquedos e somos muito irados com elas. Por exemplo, não as deixamos interromper quando os adultos estão falando; dizemos para elas irem brincar. Mas quando crescem, elas tendem a ter mais respeito. Então, talvez as idéias tibetanas sobre como cuidar das crianças têm algum mérito.
Acho que a razão de as crianças ocidentais serem às vezes mais emotivas que as crianças tibetanas é que, logo após os bebês ocidentais nascerem, eles são separados de seus pais e colocados em suas próprias camas. Eles não podem falar ou expressar seu medo, solidão e insegurança, então se tornam mais emotivos. No Tibet, uma criança ficará na cama da mãe até a idade dos três ou quatro anos. Se houver duas crianças, ambas permanecerão na cama da mãe. Ela é como uma mãe-pássaro alimentando seus filhotes. Também, há sempre alguém em casa com a criança, geralmente a mãe. Então, a criança nunca está sozinha.
Pergunta: Meu filho de quatro anos está aprendendo sobre a violência na televisão e brincando jogos violentos com outras crianças. Como devo lidar com isto?
Rinpoche: Isto está bem. Conforme ficar mais velho, ele estará cercado por mais e mais crianças que estarão brincando deste modo. Você não será capaz de protegê-los. Se você disser a ele, "Não brinque com armas de brinquedo", você apenas fará uma impressão maior em sua mente e ele vai querer brincar com elas ainda mais; ele fará um esforço maior para brincar com as outras crianças que as têm. Mas se você o deixar sozinho, após alguns meses ou anos, ele naturalmente se tornará menos fascinado com estes jogos e brinquedos.
Em geral, entretanto, devemos disciplinar as crianças quando seus pensamentos, fala ou ações são prejudiciais; devemos ensiná-las a não discutir, brigar ou usar palavrões. Se corrigirmos este tipo de pensamento e comportamento, não importará muito com que tipos de brinquedos elas brincam.
Pergunta: Meu marido foi psicologicamente abusado quando era criança e agora o acho muito controlador, especialmente com as crianças. Eu posso ajudá-lo?
Rinpoche: Não há muito que você possa fazer, exceto ser paciente. Você entende que ele foi abusado; ele tem alguns desequilíbrios físicos e mentais que você não tem, então é mais fácil para você manter a paciência. Faça o que puder para ajudá-lo e apoiá-lo. E então, quando ele estiver com raiva, não responda.
Isto é uma pratica do Dharma. Um tipo de prática do Dharma envolve a meditação formal, mas um outro tipo envolve ser paciente, estender a bondade amorosa e ajudar compassivamente apesar das dificuldades. Isto é prática. A prática do Dharma precisa começar na família. Mantenha a paciência e estenda a bondade amorosa. Além disso, não há muito a fazer.
Também vi que alguns remédios homeopáticos podem ser extremamente úteis para pessoas com problemas emocionais, mesmo profundos. Alguns remédios podem ser tomados uma vez por mês ou a cada seis meses.
Pergunta: Sinto-me mais um amigo do que o pai de minha filha cinco anos. Isso está tudo bem?
Rinpoche: Você precisa acessar o que a criança precisa a longo prazo. Um amigo não necessariamente faz isso. Um amigo diz, "O que quer que esta criança precise, o que quer que a faça feliz, é bom". Mas é a responsabilidade dos pais pensar sobre as necessidades da criança desde agora até a sua morte. Apesar de ser bom ser amigo de sua filha, você deve responder a qualquer coisa que ela esteja fazendo ou dizendo que possa ser prejudicial a ela agora ou no futuro. E também, os pais tendem a ser mais próximos, mais cuidadosos e protetores que um amigo.
Ser um pai não apenas significa pensar sobre como estar em contato com uma criança. Significa considerar como beneficiar a criança, como oferecer às crianças as melhores oportunidades. Às vezes isto também significa fazer algo que possa desconcertar a criança temporariamente, mas que impedirá que um hábito prejudicial se desenvolva. Por exemplo, se uma criança gosta de brincar no meio da rua e os pais repetidamente tiverem que trazê-la de volta, talvez se torne necessário bater nela. Bater não é pelo benefício dos pais; a motivação é ajudar a criança a aprender como se proteger do perigo. Em outras palavras, a motivação para bater, para qualquer tipo de disciplina, deve ser um bom coração.
Pergunta: Quando um divórcio é apropriado e quais são os efeitos do divórcio sobre uma criança?
Rinpoche: Em geral, é melhor poder manter um relacionamento ao invés de deixá-lo acabar. No samsara, em nosso reino humano, você nunca encontrará uma pessoa que seja como um deus. Todos têm algum tipo de problema. Um novo relacionamento pode parecer maravilhoso por dois ou três anos, mas gradualmente problemas surgirão. Isto é normal porque não somos seres iluminados. Temos venenos mentais — ciúme, desejo, raiva, orgulho, ignorância.
Entretanto, se um relacionamento simplesmente não está funcionando, se apesar de seus melhores esforços para ser amável, bondosa e compassiva, você e seu cônjuge estiverem sempre sofrendo, e a raiva e a luta estiverem criando um ambiente desagradável para seus filhos, então eles também desenvolverão dificuldades emocionais. Nesse caso, seu relacionamento não estará beneficiando nem a vocês mesmos nem aos seus filhos. Vocês podem dizer um para o outro, "Por mais que tivéssemos tentado resolver as coisas, nosso relacionamento não está fazendo nenhum de nós feliz. Então por que empurrá-lo? Temos nossos corpos humanos apenas por um tempo muito curto. Se não pudermos trazer felicidade para o nosso relacionamento, se estivermos apenas criando não-virtude e mais sofrimento a curto e longo prazo, criando um karma infernal através de nossa raiva e luta, então provavelmente devemos pedir um divórcio." Se você decidir terminar um relacionamento por causa da raiva, então essa decisão não durará muito porque ela mudará quando você não tiver mais raiva. Ao invés disso, você deve pensar sobre o assunto claramente e chegar a uma decisão bem considerada.
Porém, se for possível encontrar um modo de melhorar o relacionamento, de trazer felicidade para ele, é melhor mantê-lo, reconhecendo que nenhum relacionamento é ideal, que sempre há alguma raiva, algumas pequenas discussões. É melhor continuar porque você nunca terá um relacionamento em que não haja raiva, em que não haja emoções. É uma questão de graus.
Pergunta: O que podemos fazer se formos pais solteiros ou mães solteiras? Temos completa responsabilidade pelas nossas crianças; temos que fazer tudo. É difícil!
Rinpoche: É difícil, não há como fugir. É como tentar segurar um pote de argila que está quente; se você jogá-lo, ele quebrará; se você não jogá-lo, ele queimará suas mãos. Tudo o que puder fazer é o melhor que você poderá fazer.
É importante não sentir culpa. Como você diz, você está fazendo tudo o que ambos os pais fariam, servindo seu filho de muitos modos. Quando você está disciplinando a criança, você não está fazendo isso para o seu próprio benefício, mas sim pelo benefício da criança. Às vezes funcionar dizer, "Não faça este tipo de coisa, não será útil para você agora nem no futuro". Mas se a criança não ouvir, você deve estabelecer algumas regras.
O que quer que você tenha feito é o que você podia fazer. O que quer que você não possa fazer — não sinta culpa sobre isso porque você fez tudo o que pôde. Você é humano. Esteja satisfeito com o que você foi capaz de oferecer; você está fazendo o melhor que pode.Este livreto foi produzido a partir da transcrição de um encontro realizado em abril de 1992 em Boulder, Colorado, entre Chagdud Tulku Rinpoche e membros da sangha do Karma Dzong, traduzido por Lisa Leghorn. Possam todos os seres se beneficiar!
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