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Textos | Os Oito Versos
do Treinamento Mental
[1] Como aspiro às realizações mais elevadas,
Muito mais preciosas que uma jóia realizadora de desejos,
Momento a momento devo cuidar
De todos os outros seres sencientes.[2] Sempre que eu estiver com os outros,
Devo sentir que eu e os meus desejos não são importantes
E, das profundezas do meu coração,
Devo cuidar dos outros em primeiro lugar.[3] Atento a todas as minhas ações do corpo, da fala e da mente,
Em todos os momentos em que uma ilusão se manifestar,
Levando a mim e aos outros a agir inadequadamente,
Devo enfrentá-la e impedir que ele cresça.[4] Sempre que eu encontrar pessoas
Cheias de maldade e de emoções obscuras,
Devo considerá-las como muito especiais,
Como se tivesse encontrado um tesouro precioso.[5] Quando outras pessoas
Me causarem dificuldades devido à inveja,
Devo tomar para mim a derrota
E lhes oferecer a vitória.[6] Mesmo que alguém de quem eu tenha cuidado de forma especial
E em quem eu tenha depositado confiança
Se volte contra mim,
Devo enxergá-lo como meu mestre supremo.[7] Concluindo, eu devo oferecer, direta e indiretamente,
Cada benefício e felicidade a todos os seres, minhas mães,
E tomar para mim, secretamente,
Todas as suas dores e sofrimentos.[8] Livre dos distúrbios dos oito sentimentos desequilibrados
E enxergando todas as coisas como ilusões,
Que eu possa ser libertado da prisão dos pensamentos negativos.Geshe Langri Tangpa Dorje Senge, século XI
Comentários de Sua Santidade o Dalai Lama
[1] Como aspiro às realizações mais elevadas,
Muito mais preciosas que uma jóia realizadora de desejos,
Momento a momento devo cuidar
De todos os outros seres sencientes.Esta estrofe proclama que, para alcançar a condição de Buddha, devemos desenvolver um altruísmo infinito e criar boas ações. Dependemos profundamente de outros seres conscientes. Sem eles, não podemos desenvolver o altruísmo infinito nem alcançar o estado búddhico. Devemos nossa fama, riqueza e amigos a eles. Por exemplo, sem os outros seres sencientes, não teríamos roupas de lã, pois sem ovelhas, não teríamos lã. A mídia é responsável pela fama, e daí por diante. Até as reputações dependem por completo de outros seres sencientes. Desde o nascimento até a morte, nossa vida depende dos outros. É importante perceber como os outros seres sencientes são preciosos e úteis. Assim que o fazemos, nossa atitude negativa para com os outros seres muda.
[2] Sempre que eu estiver com os outros,
Devo sentir que eu e os meus desejos não são importantes
E, das profundezas do meu coração,
Devo cuidar dos outros em primeiro lugar.Nossa atitude para com as outras pessoas sempre deve ser positiva. Devemos nos preocupar com os outros sem sentir pena deles. Acima de tudo, devemos tratá-los com grande respeito, pois eles são preciosos. Devemos considerá-los sagrados e superiores a nós mesmos.
[3] Atento a todas as minhas ações do corpo, da fala e da mente,
Em todos os momentos em que uma ilusão se manifestar,
Levando a mim e aos outros a agir inadequadamente,
Devo enfrentá-la e impedir que ele cresça.[4] Sempre que eu encontrar pessoas
Cheias de maldade e de emoções obscuras,
Devo considerá-las como muito especiais,
Como se tivesse encontrado um tesouro precioso.Esses versos explicam como controlar as emoções negativas. Nossa mente é muito influenciada pelas emoções negativas por causa de nossas infinitas vidas passadas, e é extremamente difícil desenvolver o altruísmo. Sempre temos de lugar contra elas. Temos de usar métodos diferentes para lidar com as forças da raiva. É difícil controlar a raiva repentina e intensa. Você deve apenas tentar esquecer seu objeto e desviar sua atenção. Concentre-se na respiração. Isso a aplaca um pouco. Então tente pensar nos aspectos negativos da raiva e minimizá-la, ou se livrar dela.
Existe um outro tipo de raiva que não é eficaz. Uma maneira de lidar com a raiva pelo inimigo é focalizar as qualidades dele. Tente desenvolver o respeito e a simpatia. Como nos ensinamentos sobre a interdependência, todos os objetos têm muitos aspectos e faces, e quase nenhum pode ser de todo negativo. Tudo tem um lado positivo. Contudo, quando a raiva aparece, nossa mente só percebe o aspeto negativo.
Por um lado, nosso inimigo cria um problema para nós. Por outro, essa pessoa nos dá oportunidade para praticar a paciência e a tolerância, duas qualidades necessárias para a compaixão e o altruísmo. Quando surge a ganância extrema ou outras emoções negativas, deve-se estar preparado. Se você as trata com tolerância, elas se fortalecem. Então, rejeite-as e tente cortá-las pela raiz.
[5] Quando outras pessoas
Me causarem dificuldades devido à inveja,
Devo tomar para mim a derrota
E lhes oferecer a vitória.[6] Mesmo que alguém de quem eu tenha cuidado de forma especial
E em quem eu tenha depositado confiança
Se volte contra mim,
Devo enxergá-lo como meu mestre supremo.Isso é difícil de fazer, mas essencial se quisermos desenvolver o altruísmo genuíno. Algumas práticas do bodhisattva parecem impossíveis e irreais, mas elas são importantes. Se somos humildes e honestos, algumas pessoas podem tirar vantagens de nós. Mesmo nessas situações, não devemos dar abrigo aos sentimentos negativos. Em vez disso, devemos analisar a situação. Permitir que essas pessoas façam o que querem pode ser prejudicial a elas. Por isso, devemos adotar algumas medidas. Devemos fazer isso não porque a pessoa nos feriu, mas porque nos preocupamos com seu bem-estar a longo prazo.
Quando a raiva domina a mente, a melhor parte do cérebro humano, a que julga as situações, falha em sua situação. Então, sem querer, usamos palavras rudes. Palavras são ditas automaticamente, por falta de controle, quando não conseguimos lidar com a situação. Quando a raiva passa, ficamos envergonhados.
[7] Concluindo, eu devo oferecer, direta e indiretamente,
Cada benefício e felicidade a todos os seres, minhas mães,
E tomar para mim, secretamente,
Todas as suas dores e sofrimentos.Esta estrofe nos manda beneficiar os outros seres sencientes mais do que a nós mesmos e assumir seu sofrimento. Isso pode ser praticado por meio da respiração profunda — inspirando o sofrimento e expirando a felicidade. Isso pode ser feito por meio da visualização ou do treinamento da mente, focalizando-se o objeto da meditação.
[8] Livre dos distúrbios dos oito sentimentos desequilibrados
E enxergando todas as coisas como ilusões,
Que eu possa ser libertado da prisão dos pensamentos negativos.Para meditar sobre o altruísmo final, é importante compreender o conceito. No buddhismo, os vários níveis de dogmas conduzem a diferentes interpretações. Das quatro escolas filosóficas, a interpretação dada aqui é mencionada nos mais elevados ensinamentos buddhistas, o Prasangika Madhyamika. De acordo com estes ensinamentos, a vacuidade significa que nenhum fenômeno pode ter uma existência inerente. Compreendendo a falta de existência inerente de qualquer natureza, podemos entender a natureza irreal de todo fenômeno.
Pratique o altruísmo com a ajuda da sabedoria. É este o caminho.
(Adaptado de Amor, verdade, felicidade: reflexões para transformar a mente. Sua Santidade o Dalai Lama, compilação da edição indiana por Renuka Singh, introdução de Lama Thubten Zopa Rinpoche, tradução de Monica Fraga. Rio de Janeiro: Nova Era, 2001. Pág. 13-15.)
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