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Textos | O Caminho Completo
Homenagem ao todo-bondoso guia espiritual
Que é inseparável do bodhisattva da sabedoria
E que é o primordial Buddha Vajradhara
Realizando a dança de um ser humano.
O guia espiritual, todos os poderes unificados,
Em harmonia única com a natureza além-samsara de todos os buddhas das direções,
Não pode ser conhecido pelo intelecto
Nem descrito em simples palavras.
Para aqueles dentre nós nascidos nesta época corrompida,
Ele é mais bondoso que todos os buddhas;
Porque, assim como quem põe ouro nas mãos de um mendigo,
Ele nos mostra a riqueza dos sutras e dos tantras e aponta para o caminho livre de extremos.
Um mestre de tão grande bondade
Deve ser abordado com profundo respeito:
Olhe inflexivelmente para o rosto verdadeiro do mestre
Que compreende inteiramente a natureza suprema da mente.
Tudo aquilo que se deseja para si mesmo e para os outros
De uma forma humana é facilmente alcançado;
Liberte-se de esforços sem sentido,
Lute para realizar o mais elevado dos objetivos.
Como todas as coisas compostas são transitórias,
A vida muda e nunca subsiste;
Essa mudança é a base de todo o sofrimento
Porque a mente samsárica se enche de frustração
Ao observar suas criações se extinguirem continuamente.
Esse corpo formado pelo esperma e pelo óvulo
Exala odores repugnantes de cada orifício.
Não é uma coisa que se estime;
Ainda assim, devido ao poder da ilusão,
Nós nos tornamos seus escravos.
Sem falar em meses ou anos,
Sequer temos a certeza de que ele irá durar até a amanhã.
Se alguém está fraco e moribundo,
Que importa se a árvore está carregada de poder e de amigos?
Quando mais alto se sobe no samsara, mais alto é o rochedo ao qual se agarra;
Quando mais coisas se possui, mais apegado se fica;
Quando mais se amar alguém, maior a chance de se ser por ele magoado;
Quando mais rapidamente se vencem os inimigos, mais depressa aumentará o seu número.
Esse corpo é algo emprestado por um momento
E os bens materiais são coisas armazenadas para os outros.
Agora brincamos com eles,
Mas logo eles se perdem e, mal usados, não passam de fontes de infelicidades.
Por isso, não vale a pena o esforço
Para alcançar uma posição mundana.
Volte as costas para o que só traz desvantagens:
Uma mente livre é a maior alegria.
O objetivo mais elevado é seguir esse caminho:
Corpo, fala e mente mantidos imaculados graças ao controle máximo de si próprio,
A mente mantida em samadhi feliz e claro,
E a sabedoria vendo todas as realidades de cada situação.
Os seres maternais espalhados pelos seis reinos,
Para mim, seu filho, são pedaços do meu coração.
Pois muitas vezes eles aliviaram meus problemas
E de infinitos modos me trouxeram alegria.
Esses seres infinitos, tão bondosos, estão cobertos pelo nevoeiro da ignorância.
Constantemente açoitados pelos chicotes da ilusão,
Não têm nenhuma chance de renunciar
À carga de infelicidade das suas mentes.
Por isso, sempre que encontrar alguém,
Cumprimente-o com olhos sorridentes de amor.
Por que mencionar que não se deve sequer pensar
Em abrigar más intenções ou pensamentos enganadores?
Aspire à prática pura e abnegada.
Sem se desencorajar nem por um momento,
Empenhe-se nos caminhos do bodhisattva
Assim como faz um guerreiro das dez etapas.
O jeito de as pessoas e as coisas parecerem mais do que rótulos projetados
É uma distorção criada pela ilusão da mente.
Se olharmos para a raiz das coisas,
O vazio é facilmente compreendido.
E no vasto espaço da percepção do vazio,
Cessa o apego mental aos resultados.
Então, olha-se para a face do mundo,
Vê-se tudo como se não houvesse essência.
Compreendendo a interdependência, compreendemos o vazio;
Compreendendo o vazio, compreendemos a interdependência;
Essa é a visão intermediária que está além dos terríveis rochedos íngremes
Do eternalismo, do niilismo, de nenhum dos dois e de ambos.
O mestre tântrico, o que possui Vajradhara,
Deve então gravar as quatro iniciações na sua mente,
Apresentando-lhe ao bem-aventurado caminho dos três kayas
E à suprema natureza do corpo e da mente.
Assim, podemos banhar a consciência na luz clara e inata,
Moldar as energias na forma de uma divindade tântrica
E permanecer resolutamente na profunda e clara yoga
Que não separa a meditação da não-meditação.
Todas as coisas que aparecem no mundo
São vistas como uma inconcebível morada da sabedoria,
E os seres eternos que moram nesse lugar
São conhecidos como um oceano de buddhas.
Lá fora, a dança da consorte captura a mente
E espalha-se em todas as direções:
Interiormente, a pessoa experimenta o vasto caminho da união, da felicidade e do vazio:
Como um fluxo de um rio, busca esta prática.
E vocês que dominam métodos tântricos,
Heróis que têm realizado o ascetismo:
Tendo separado por completo a mente da obscuridade, do preconceito e do apego à vida terrena,
Vocês não vivem em alegria permanente?
Embora praticantes em estágios elementares
Sejam louvados pelos santos como supremos
Por realizarem o esforço mais insignificante,
Essa mesma ação, ó grandes, não conviria a vocês.
Pelas yogas profundas do caminho secreto,
Consumir alimentos como ambrósias oferecidas
Aos dakas e às dakinis que moram nos canais e forças energéticas do corpo,
Todas as nossas ações tornam-se prática tântrica.
Tendo se comprometido a salvaguardar o Dharma,
Vista a armadura da tenacidade mental
E com os quatro modos de beneficiar o mundo
Abra cem portas de bondade universal.
Possam os ensinamentos sublimes e bem-aventurados florescer;
Possam os detentores da linhagem ter longa vida;
E possam os seres vivos, infinitos como o espaço,
Ser impelidos a alcançar a iluminação.O cólofon: Essa canção sobre todos os pontos principais do caminho, combinando os sutras com os tantras, foi escrita [pelo Sétimo Dalai Lama, Kelsang Gyatso (1705-1757)] a pedido do grande Changkya Rinpoche, um ser supremo que realizou suas próprias preces e aspirações nobres, salvaguardando o Buddhadharma nesta época corrompida. Esse trabalho não contém nada que não exista na canção que lhes escrevi anteriormente, mas com ele insistentemente pediu outra, escrevia-a para satisfazê-lo.
(Kelsang Gyatso, O caminho completo. In: Ensinamentos do Budismo Tibetano.
Traduzido por Humberto Arcanjo Brito Rodrigues. São Paulo: Pensamento, 1989. Pág. 119-125.)
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