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Textos | A Devoção que Move o Coração
Namo Guruve
As Preces de Apelo ao Lama Que Está Longe são conhecidas de todos. A chave da invocação de bênçãos é a devoção, motivada pelo arrependimento dos antigos modos de ser e pela renúncia ao samsara. Esta devoção não é uma simples repetição de palavras vazias, mas vem do fundo de nosso coração, da medula de nossos ossos e da convicção de que não há Buddha além do Lama. Com esta completa certeza, cantamos:
Lama, pense em nós.
Bondoso Lama-raiz, pense em nós.
Essência dos Buddhas dos três tempos,
Fonte do verdadeiro Dharma em escritura e em realização,
Mestre da nobre assembléia do sangha,
Lama-raiz, pense em nós.
Grande tesouro de bênçãos e de compaixão,
Fonte dos dois siddhis,
Atividade búddhica que concede o que quer que se deseje,
Lama-raiz, pense em nós.
Lama Amitabha, pense em nós.
Olhe para nós a partir da vastidão do dharmakaya, livre de concepções.
Vagamos no samsara pela força do karma negativo;
Faça-nos renascer em sua terra pura de felicidade.
Lama Avalokiteshvara, pense em nós.
Veja-nos a partir da vastidão do luminoso sambhogakaya.
Pacifique completamente os sofrimentos dos seis tipos de seres
E transforme totalmente os três reinos do samsara.
Lama Padmasambhava, pense em nós.
Olhe para nós a partir do lótus luminoso de Ngayabling.
Nestes tempos obscuros, proteja prontamente com a sua compaixão
Os discípulos tibetanos, todos os desamparados e sem refúgio.
Lama Yeshe Tsogyel, pense em nós.
Olhe para nós a partir da cidade das dakinis, o lugar de grande felicidade.
Leve a nós, que cometemos ações negativas,
Através do oceano do samsara, até a grande cidade da libertação.
Lamas das linhagens do terma e do kama, pensem em nós.
Olhem para nós a partir da vastidão da sabedoria primordial, união da aparência e da vacuidade.
Rompam a prisão escura de nossa mente confusa
E faça se levantar o sol da realização.
Onisciente Drime Özer, pense em nós.
Olhe para nós a partir da vastidão das cinco luzes espontâneas.
Ajude-nos a realizar a grande manifestação da mente, primordialmente pura,
E a completar os quatro estágios da ati-yoga.
Incomparável Atisha e seu filho do coração,
Dentre as centenas de divindades, olhem para nós a partir de Tushita.
Realizem no fluxo de nossas mentes,
O nascimento da bodhichitta, a essência da vacuidade e da compaixão.
Siddhas supremos, Marpa, Milarepa e Gampopa, pensem em nós.
Olhem para nós a partir do espaço da grande felicidade-vajra.
Façam-nos capazes de atingir o supremo siddhi do Mahamudra, a felicidade e vacuidade inseparáveis;
Despertem o dharmakaya na essência de nossos corações.
Senhor do mundo, Karmapa, pense em nós.
Olhe para nós a partir do espaço onde todos os seres, em números vastos como o céu, são criados.
Faça-nos ver que todos os fenômenos são como uma ilusão, sem existência verdadeira,
E a realizar a aparência e a mente surgindo como os três kayas.
Lamas das quatro grandes e das oito menores linhagens Kagyü, pensem em nós.
Olhem para nós a partir do reino das aparências puras que surgem de modo natural.
Clareiem a confusão das quatro situações
e levai-nos a completar a experiência e a realização.
Cinco Sakyas ancestrais, pensem em nós.
Olhem para nós a partir da vastidão do samsara e do nirvana, inseparáveis.
Ajudem-nos a tornar inseparáveis a visão, meditação e ação puras;
Levem-nos pelo caminho supremo do Vajrayana secreto.
Lamas do inigualável Shangpa Kagyü, pensem em nós.
Olhem para nós a partir do reino totalmente puro dos Buddhas.
Treinem-nos corretamente nos métodos da prática que traz a libertação;
Levem-nos a descobrir o caminho de não mais aprender, a união última.
Grande siddha, Thangtong Gyelpo, pense em nós.
Olhe para nós a partir da vastidão da compaixão sem esforço.
Faça-nos capazes de alcançar a disciplina que traz a realização da
Não-existência última, e a dominar o prana e mente.
Pai único, Dampa Sangye, pense em nós.
Olhe para nós a partir do espaço da suprema atividade realizadora.
Traga para dentro de nossos corações a bênção da linhagem
E faça com que surjam sinais auspiciosos em todas as direções.
Mãe única, Labkyi Drönma, pense em nós.
Olhe para nós a partir do espaço da Prajna Paramita.
Faça-nos capazes de cortar pela raiz o apego ao ego, fonte do orgulho,
E de ver a verdade da ausência do ego, além da concepção.
Onisciente Dölpo Sangye, pense em nós.
Olhe para nós a partir do espaço dotado de todos os aspectos supremos.
Ajude-nos a trazer para dentro do canal central o prana da transferência
E a alcançar o imóvel corpo-vajra.
Jetsün Taranatha, pense em nós.
Olhe para nós do espaço dos três mudras.
Ajude-nos a viajar sem obstáculos, o caminho secreto do vajra,
E nos leve a alcançar o corpo de arco-íris, a fruição de todo o espaço.
Jamyang Khyentse Wangpo, pense em nós.
Olhe para nós a partir do espaço da sabedoria primordial que sabe.
Clareie o obscurecimento mental da ignorância;
Aumente a luminosidade de nossa suprema inteligência.
Ösel Tülpe Dorje, pense em nós.
Olhe para nós a partir da vastidão das cinco luzes do arco-íris.
Purifique as manchas do bindu, do prana e da mente,
E leve-nos à iluminação do corpo-vaso pleno de juventude.
Pema Dongag Lingpa, pense em nós.
Olhe para nós da vastidão da felicidade imutável e da vacuidade, inseparáveis.
Faça-nos capazes de satisfazer perfeitamente
Todas as intenções dos buddhas e bodhisattvas.
Ngawang Yönten Gyatso, pense em nós.
Olhe para nós a partir da vastidão do espaço e da sabedoria primordial em união.
Possamos parar de tomar as aparências como reais;
Desenvolva a nossa capacidade de levar para o caminho tudo o que surgir.
Bodhisattva Lodrö Thaye, pense em nós.
Olhe para nós a partir do seu estado de amor e compaixão.
Faça-nos ser capazes de reconhecer todos os seres como sendo nossos pais amorosos;
Desenvolva a nossa capacidade de fazer o bem aos outros do fundo de nossos corações.
Pema Gargyi Wangchug, pense em nós.
Olhe para nós a partir da vastidão da grande felicidade e luminosidade.
Liberte os cinco venenos na forma das cinco sabedorias;
Que desapareça nosso apego dualista a perda e ganho.
Tenyi Yungdrung Lingpa, pense em nós.
Olhe para nós a partir do espaço onde samsara e nirvana são iguais.
Engendre a devoção genuína em nossa mente;
Leve-nos à realização e libertação simultâneas.
Bondoso Lama-raiz, pense em nós.
Olhe para nós a partir do lugar de grande felicidade no topo de nossa cabeça.
Leve-nos a encontrar a própria face do dharmakaya, consciência de nossa própria natureza,
E, nesta mesma vida, leve-nos à completa iluminação.
É lamentável que os seres sencientes como nós, que cometeram ações negativas,
Vaguem pelo samsara desde tempos sem início.
Embora experimentando um sofrimento sem fim,
Não sentimos arrependimento por um instante sequer.
Lama, pense em nós, olhe prontamente para nós, com compaixão.
Abençoe-nos para que surja a renúncia do fundo de nosso coração.
Embora tenhamos alcançado um precioso nascimento humano livre e com recursos, o desperdiçamos em vão,
Constantemente distraídos pelas atividades desta vida vazia.
Quando se trata de realizar a grande meta da liberação, somos tomados pela preguiça,
E voltamos com as mãos vazias de uma terra cheia de jóias.
Lama, pense em nós, olhe prontamente para nós, com compaixão.
Abençoe-nos para que façamos desta uma vida significativa.
Não há ninguém nesta terra que não vá morrer.
Agora mesmo, estão morrendo pessoas, uma após a outra.
Também nós, em breve, devemos morrer,
Porém, como insensatos, fazemos planos para viver por muito tempo.
Lama, pense em nós, olhe prontamente para nós, com compaixão.
Abençoe-nos para que cortemos nosso hábito de planejar.
Seremos separados de nossos amigos mais chegados.
Outros desfrutarão da riqueza que guardamos qual avarentos.
Até o nosso corpo, que tanto estimamos, ficará para trás.
E a nossa consciência vagará sem direção nos bardos do samsara.
Lama, pense em nós, olhe prontamente para nós, com compaixão.
Abençoe-nos para que compreendamos a futilidade desta vida.
À frente, a negra escuridão do medo espera para nos envolver;
Por trás, somos perseguidos pelo fogo vermelho e feroz do karma.
Os terríveis mensageiros do senhor da morte batem em nós e nos esfaqueiam,
E seremos obrigados a passar pelos sofrimentos insuportáveis dos reinos inferiores.
Lama, pense em nós, olhe prontamente para nós, com compaixão.
Abençoe-nos para que sejamos libertados dos abismos dos reinos inferiores.
Escondemos dentro de nós uma montanha de erros;
No entanto, humilhamos os outros e apregoamos seus defeitos, ainda que sejam menores que a semente do gergelim.
Apesar de não termos sequer a menor das qualidades, nos vangloriamos de nossa grandeza.
Temos o rótulo de praticantes do Dharma, mas praticamos somente o não-Dharma.
Lama, pense em nós, olhe prontamente para nós, com compaixão.
Abençoe-nos para que percamos o nosso orgulho e egocentrismo.
Escondemos dentro de nós o demônio do apego ao ego, que sempre nos leva à ruína.
Todos os nossos pensamentos fazem aumentar os venenos mentais.
Todos as nossas ações têm resultados não-virtuosos.
Nem mesmo chegamos a nos voltar em direção do caminho da liberação.
Lama, pense em nós, olhe para nós prontamente, com compaixão.
Abençoe-nos para que o apego a um "eu" seja extirpado pela raiz.
Um pequeno elogio nos faz felizes; uma pequena acusação nos faz tristes.
Com algumas palavras ásperas, perdemos a armadura de nossa paciência.
Ainda que vejamos aqueles que são desvalidos, a compaixão não surge.
Quando há uma oportunidade de sermos generosos, ficamos atados pela ganância.
Lama, pense em nós, olhe prontamente para nós, com compaixão.
Abençoa-nos para que nossa mente e o Dharma sejam uma unidade.
Pensamos que o samsara vale a pena, quando não vale.
Abrimos mão de nossa visão mais elevada em troca de comida e de roupas.
Ainda que tenhamos tudo de que precisamos, constantemente queremos mais.
Nossas mentes são enganadas por fenômenos irreais, ilusórios.
Lama, pense em nós, olhe prontamente para nós, com compaixão.
Abençoe-nos para que deixemos o apego a esta vida.
Incapazes de suportar a mais simples dor física ou mental,
Com uma coragem cega, não hesitamos em cair nos reinos inferiores.
Ainda que vejamos diretamente a lei infalível da causa e efeito,
Não agimos de forma virtuosa, e sim aumentamos nossa atividade não-virtuosa.
Lama, pense em nós, olhe prontamente para nós, com compaixão.
Abençoe-nos para que cheguemos a confiar completamente nas leis do karma.
Odiamos os nossos inimigos e nos apegamos aos amigos.
Perdidos nas trevas da ignorância, não sabemos o que aceitar ou o que rejeitar.
Quando praticamos o Dharma, caímos no torpor, na sonolência e no sono.
Quando não praticamos o Dharma, somos inteligentes e nossos sentidos são claros.
Lama, pense em nós, olhe prontamente para nós, com compaixão.
Abençoa-nos para que superemos nosso inimigo, os venenos mentais.
Por fora, parecemos verdadeiros praticantes do Dharma;
Por dentro, nossas mentes não se fundiram ao Dharma.
Escondemos nossos venenos mentais por dentro, como uma serpente venenosa;
No entanto, quando surgem situações difíceis, as faltas ocultas do mau praticante vêm à luz.
Lama, pense em nós, olhe prontamente para nós, com compaixão.
Abençoe-nos para que possamos, nós mesmos, domar nossa mente.
Não reconhecendo nossos próprios erros,
Assumimos a forma de um praticante do Dharma, e nos entregamos a afazeres não-Dhármicos.
Estamos habituados aos venenos mentais e à atividade não-virtuosa.
Vezes e vezes surgem intenções virtuosas; vezes e vezes elas são cortadas.
Lama, pense em nós, olhe prontamente para nós, com compaixão.
Abençoe-nos para que vejamos as nossas próprias faltas.
A cada dia que passa, mais e mais perto estamos da morte.
A cada dia que chega, nossa mente torna-se mais e mais rígida.
Embora sirvamos ao lama, nossa devoção obscurece gradativamente.
Nosso amor, afeição e olhar puro para com nossos amigos do Dharma diminuem.
Lama, pense em nós, olhe prontamente para nós, com compaixão.
Abençoe-nos para que domemos nossa mente obstinada.
Embora tenhamos tomado refúgio, gerado a bodhichitta e feito preces,
A devoção e a compaixão não surgiram no fundo de nosso ser.
A atividade do Dharma e a prática da virtude tornaram-se palavras vazias;
Nossas realizações vazias são muitas, mas nenhuma delas tocou nossa mente.
Lama, pense em nós, olhe prontamente para nós, com compaixão.
Abençoe-nos para que tudo o que fizermos esteja em harmonia com o Dharma.
Todo sofrimento surge de querermos a felicidade para nós;
Embora nos seja ensinado que se atinge a iluminação fazendo o bem aos outros,
Geramos bodhichitta ao mesmo tempo em que nutrimos nossos próprios desejos.
Não fazemos o bem aos outros e, ainda mais, lhes fazemos o mal até inconscientemente.
Lama, pense em nós, olhe prontamente para nós, com compaixão.
Abençoa-nos para que sejamos capazes de trocar a nós mesmos pelo outro.
Nosso lama é verdadeiramente a aparição do próprio Buddha, mas nós o consideramos um ser humano comum.
Chegamos a esquecer a bondade do lama ao nos dar instruções profundas.
Ficamos alterados quando não conseguimos o que queremos.
Vemos a atividade e o comportamento do lama através de um véu de dúvidas e de visões errôneas.
Lama, pense em nós, olhe prontamente para nós, com compaixão.
Abençoe-nos para que, livres dos obscurecimentos, aumente nossa devoção.
A nossa própria mente é o Buddha, mas não reconhecemos isto.
Todos os conceitos são o dharmakaya, mas não nos damos conta disto.
Este é o estado natural não-produzido, mas não conseguimos sustentá-lo.
Esta é a verdadeira natureza da mente, pousada em si mesma, mas somos incapazes de acreditar nisto.
Lama, pense em nós, olhe prontamente para nós, com compaixão.
Abençoe-nos para que a consciência espontânea seja liberada dentro de seu solo .
A vinda da morte é certa, mas somos incapazes de levar isto a sério.
O Dharma autêntico é certamente benéfico, mas somos incapazes de praticá-lo corretamente.
A verdade do karma, causa e efeito, é certa, mas não decidimos corretamente entre o que devemos rejeitar ou aceitar.
É necessário, com certeza, estar atento e alerta; tais qualidades, porém, não estão dentro de nós de forma estável, e somos levados pela distração.
Lama, pense em nós, olhe prontamente para nós, com compaixão.
Abençoe-nos para que permaneçamos atentos e sem distrações.
Por força do karma negativo anterior, nascemos no final desta época degenerada.
Todas as nossas ações anteriores tornaram-se causa de sofrimento.
Os maus amigos lançaram sobre nós a sombra de seus atos negativos.
Nossa prática da virtude está corrompida pela tagarelice sem sentido.
Lama, pense em nós, olhe prontamente para nós, com compaixão.
Abençoe-nos para que assumamos o Dharma com todo o nosso coração.
No início só existe o Dharma em nossa mente,
Mas no fim, o resultado é a causa do samsara e dos reinos inferiores.
A colheita da liberação é destruída pela geada da atividade não-virtuosa.
Nós, como selvagens, perdemos nossa visão última.
Lama, pense em nós, olhe prontamente para nós, com compaixão.
Abençoe-nos para que levemos, dentro de nós, o Dharma autêntico até a perfeição.
Abençoe-nos para que o arrependimento brote do fundo de nosso ser.
Abençoe-nos para que cortemos nosso hábito de planejar.
Abençoe-nos para que, do fundo de nosso coração, nos lembremos da morte.
Abençoe-nos para que desenvolvamos a certeza nas leis do karma.
Abençoe-nos para que nosso caminho seja livre de obstáculos.
Abençoe-nos para que sejamos capazes de empenhar-nos na prática.
Abençoe-nos para que coloquemos as situações difíceis dentro do caminho.
Abençoe-nos para que os antídotos, por seus próprios poderes, sejam totalmente eficazes.
Abençoe-nos para que surja a devoção autêntica.
Abençoe-nos para que vejamos a própria face da verdadeira natureza da mente.
Abençoe-nos para que a consciência espontânea desperte no centro de nosso coração.
Abençoe-nos para que as aparências ilusórias sejam completamente eliminadas.
Abençoe-nos para que alcancemos a iluminação em uma só vida.
Rogamos a você, precioso lama.
Bondoso lama, senhor do Dharma, a você clamamos com ardor.
Para nós, seres sem valor, você é a única esperança.
Abençoe-nos para que a sua mente se torne inseparável da nossa.
Alguns monges dedicados haviam pedido que eu escrevesse uma oração como esta, mas o tempo transcorreu. Foi então que, recentemente, Samdrub Drönma, uma praticante de nobre família, e Deva Rakshita, pediram-me sinceramente que compusesse este texto, e eu, [Jamgön Kongtrül] Lodrö Thaye [1813-1899], que nestes tempos degenerados sou apenas o reflexo de um lama, escrevi esta prece no grande lugar de retiro que é Dzongsho Desheg Dupa. Possam a virtude e a bondade aumentar!
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