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Textos | Os Quatro
Pensamentos Ilimitados
Quer pratiquemos o Dharma ou não, todos possuímos a natureza de Buddha, a qual chamaria de uma insustentável ternura. Esta ternura é expressa em dois tipos de contexto: através do medo e através da coragem. Quando se expressa no contexto do medo, manifesta-se através do que chamamos de três venenos. Gostaria de dar um outro nome aos três venenos. A ignorância, eu preferiria chamar de inércia; o apego, de mentalidade do divã; e a raiva, chamaria de interferência.
Estes três fatores são a matéria da qual o medo é feito. Não falo necessariamente de um medo repentino; o medo pode tornar-se algo normal, quase insuspeitável por exemplo, os sentimentos que nos empurram em direção do aborrecimento ou da curiosidade.
Então, o que chamamos de obscurecimentos, as emoções negativas, existem como efeito destes três elementos. Quando estamos sob sua influência, isso é chamado de samsara.
De fato, estar no samsara é simplesmente interpretar esta profunda sensibilidade do modo menos difícil, primariamente com inércia: não temos vontade de nos mexer, de encontrar outro modo de traduzi-la. Não fazemos isso e, quando nos acostumamos a isso, desenvolvemos uma mentalidade de divã, que chamamos de apego. É confortável, estamos acostumados a ela, gostamos dela.
Cada vez que algo altera esse estado de coisas, cada vez que há um impulso ao movimento, à não-inércia, há um sentimento de interferência e nos tornamos defensivos. É assim que a maioria dos seres sofre no samsara dos seis reinos.
Porém, podemos encontrar outro modo de traduzir a insustentável ternura; agora, no contexto da coragem. É uma questão de ter coragem para ir mais longe, de fazer uma interpretação muito mais profunda. Temos falado da insustentável ternura: ousar a experiência do insustentável requer muita coragem.
Acho que a ternura existe nas profundezas de nós mesmos mas é difícil de nós vermos isso e preferimos interpretar essa ternura como um tipo de fragilidade, ou mesmo de vulnerabilidade.
Assim que sentimos esta vulnerabilidade, desenvolvemos todos os tipos de estratégia para nos protegermos, adotando uma atitude defensiva que pode até mesmo se tornar ofensiva. Mesmo se este for o caso, nas profundezas do ser, esta ternura está sempre lá. Sem ela, nenhum ser pode ser defensivo nem ofensivo. Quando vemos alguém zangado, desapontado, triste ou raivoso, sabemos que nada mais há do que um mal-entendido, uma má interpretação.
O que é esse outro modo de interpretação? Podemos expressar esta ternura através do que chamamos de Quatro Pensamentos Ilimitados. O primeiro é a equanimidade. O que isto significa? É uma grande tampa que cobre tudo? Qual é o perfume da equanimidade? Acho que essa equanimidade é o protesto de um certo aspecto de nossa mente que não quer mais ser dominada pelas emoções, que decide ser imparcial, que decide cruzar e superar cada ponto de referência que demos a nós mesmos. Por exemplo, apesar de nos treinarmos para desejar a felicidade de todos os seres, é possível que, às vezes, tenhamos o pensamento de que a felicidade deva estar do nosso lado, ou então do lado dos outros.
Em primeiro lugar, a imparcialidade simplesmente significa ousar acreditar que é possível ser imparcial. Quando dizemos, "Eu preciso praticar a imparcialidade", este "eu" ocupa muito espaço, é muito pesado. Um exemplo: quando penso sobre meus mestres, Khyentse Rinpoche ou Kangyur Rinpoche, e sobre as vidas que eles levaram, em primeiro lugar fico inspirado, e então essa inspiração fica tão grande que quero possuí-la. Mas ao invés disso, ao sentir essa inspiração, poderia também estar consciente de que me é possível sentir inspiração e simplesmente acolher este momento.
Khyentse Rinpoche muitas vezes disse que a grande dificuldade dos praticantes desta época é que, assim que ouvem falar de uma prática, querem obter imediatamente os resultados dela. Isso parece ser o caso conosco.
Se assistirmos a um desfile de moda e virmos uma pessoa magra vestindo roupas das quais gostamos, talvez logo iremos comprá-las e vesti-las. Por outro lado, podemos descobrir que somos muito gordos ou magros para vesti-las, e então ficamos deprimidos.
Para praticar a imparcialidade, devemos começar aplicando-a à própria prática da imparcialidade, ao invés de seguir o hábito de tomar atalhos. Isto é algo que muitas vezes esquecemos de praticar: as roupas que vestimos o que chamamos de personalidade, nosso caráter são muito difíceis de nós vermos. É como a história do homem que perdeu seu burro. Ele tinha oito deles. Um dia decidiu contá-los e descobriu que estava faltando um. Ele olhou em todos os lugares, procurando seu burro para cima e para baixo, sem encontrá-lo. Então alguém contou os burros e descobriu que o homem tinha esquecido de contar o burro sobre o qual estava montado.
Então, quando penso sobre a imparcialidade, não falo sobre uma imparcialidade com grandes lupas voltadas para dentro. De fato, os Quatro Pensamentos Ilimitados são um tipo de antena, direcionada tanto para o exterior quanto para o interior.
O que queremos, de fato, é encontrar a liberdade. Dizemos que estamos livres porque somos homens e mulheres vivendo em uma democracia. Porém, a maioria de nós usa sua liberdade porque acha que deve fazer isso: se uma opção existe, deve-se usá-la. Mas se você tiver que fazer algo, então não é mais uma liberdade.
De fato, queremos ir ainda mais longe daqui, obter mais liberdade em relação às nossas emoções. Normalmente, são a nossas emoções que determinam como nos comportamos em relação aos seres próximos. Porém, devido à noção da imparcialidade, queremos nos tornar nossos próprios mestres.
É difícil para nós, no presente, imaginarmos o que pode ser a imparcialidade dos Buddhas, mas esta prática deve começar no ponto onde estamos agora. Temos a inspiração da imparcialidade, e não somos obrigados a projetá-la imediatamente sobre os outros. O desejo de experienciar a imparcialidade não deve ser confundida com a imparcialidade em si. Não é que o primeiro tipo de imparcialidade seja ruim, mas ele não é necessariamente ilimitado. Ele é limitado pelo nosso desejo.
Normalmente, nossa imparcialidade é limitada a 180 graus: só podemos ver o que está em nossa frente. Devemos tentar cultivar a imparcialidade de 360 graus. Que tipo de imparcialidade? A imparcialidade baseada no fato de que o amor e a compaixão podem ser expressos para tudo. Desejamos ir além das fronteiras normais do amor e da compaixão. Mas o que é amor? Nos textos, o amor é definido como desejar o bem dos outros, como o desejo de um pai ou de uma mãe para que seus filhos tenham sucesso e felicidade. Não é realmente uma questão de desejar, mas sim de uma atmosfera de ternura e gentileza que esta sensação cria.
O que eu chamaria de amor parece mais uma abertura que não precisa de desculpas. Todos estamos obcecados por desculpas. Por exemplo, se tivermos alguns minutos livres, podemos querer nos sentar e fazer nada. Mas se alguém bate na porta, logo nos levantamos para abrir uma janela ou se sentar, para dar a impressão de que estávamos praticando, ou então dizemos que estamos cansados, mesmo quando não é verdade. Por que temos que achar uma desculpa? Esquecemos que, para sermos aceitos como humanos, não temos que nos esconder atrás da barreira protetora de nossas emoções, as quais consideramos como nossa mãe no samsara.
De fato, os Quatro Pensamentos Ilimitados não são quatro coisas diferentes, ma sim quatro face de uma mesma coisa. O que é essa coisa? É aquilo que estremece dentro de nós a cada vez que uma palavra é usada, a cada vez que vemos uma cor.
E o que é compaixão? Acho que é um sentimento insustentável. Não necessariamente terno, nem suculento, nem doce. Quando o estremecimento torna-se insustentável é a compaixão. Este sentimento de insuportabilidade é similar ao que se sente em relação à feiúra externa, no sentido de que onde quer que haja uma mácula, ela é intolerável. Internamente, essa mácula é o sofrimento dos seres.
É claro que, quando ele surge, os três venenos estão lá e até mesmo nos convidam a fechar nossos olhos, pensando, "Não posso suportar isso!", ou nos impele a tentar encontrar alguém sobre quem espalhar nossa compaixão. Esta é a mentalidade do divã, que nos dá este desejo. Isso não significa que não devamos fazer isto, mas devemos estar conscientes do que estamos fazendo. Ser capaz de reconhecer isso já é uma boa coisa. Nossos venenos trabalham apenas se não estivermos conscientes deles.
Gostaria agora de mudar um pouco a noção que temos sobre a compaixão. Neste contexto, diria que a compaixão é coragem: ousar não fechar os olhos quando é difícil, quando é doloroso. A pessoa mais tímida desmaia após alguns instantes, outras demoram mais. A compaixão significa nunca fechar os olhos, nunca aguardam nem um instante de divã, esperando que alguém faça algo por nós. A noção de feriado parece um convite à fraqueza interior.
Por exemplo, se alguém está andando a pé sobre um longo caminho e fica cansado depois de quatro ou cinco horas, deve dizer, "Agora mereço um descanso", e pára. A pausa é tão boa que é difícil voltar a caminhar novamente. Se alguém cede, logo pára, pensando, "Vou ficar um pouco mais", e assim nunca chega ao destino. Esta fraqueza, este apego, fica fixo dentro de nós. A atitude correta é como aquela que se faz ao cair de um cavalo volte logo, ou nunca mais poderá fazer isso.
A mentalidade do divã se instala. O único modo de nos livrarmos disto é contar para si mesmo que a vez do divã é impossível, um conceito que não existe no caminho do Buddha. Isso não significa que não haja algo como um descanso, mas sim outro tipo de descanso, que eu chamo de derreter.
Um gordo cansado pela caminhada tem dois modos de resolver o problema: ou ele se senta e descansa no caso, ele se sentará lá para o resto de sua vida ou então ele derrete a gordura, e assim não terá que parar a cada três passos. Esta última abordagem é a melhor mesmo que se demore mais para alcançá-la. A iluminação aqui significa derreter toda a gordura.
Então, o que é a alegria ilimitada? É a alegria que se espalha em todas as direções, em 360 graus. Não ter medo da alegria. Às vezes, quando temos um sentimento de alegria, dizemos a nós mesmos: "Não posso é apego, é orgulho, etc.", mas isso é o ego falando. O ego não quer parecer orgulhoso, então ele se abaixa. Mas, realmente, ele abaixa sua cabeça para colocar seu traseiro sobre um trono. Portanto, mesmo quando ele diz que não devemos pensar nisso, ou quando ele se sente culpado por estar feliz, isso não é o fim. Quando estamos felizes, podemos ousar, sentir alegria por nós mesmos, e não podemos necessariamente segurar nossa experiência com luvas, como se ela estivesse contaminada. Por exemplo, se praticamos e nos sentimos bem, por um lado estamos felizes, mas por outro temos medo de nos apegarmos à nossa prática e, então, colocamos luvas. Isto não é necessário.
Se colocarmos luvas a cada vez, um dia acabaremos com as mãos engessadas e não sentiremos mais coisa alguma. O amor e a alegria experienciados com esta noção de ilimitado não são um convite ao amor ou compaixão narcisistas. Mas, por outro lado, se sentimos algo, não devemos necessariamente reagir a ele pois, de fato, é um narcisismo disfarçado.
A confiança interior
Todos temos algo dentro de nós que estremece cada vez que uma palavra é usada ou a cada vez que vemos uma cor. A cada vez que sentimos este estremecimento, esta comichão, nós nos coçamos. Este mecanismo repete-se muitas vezes, sem que nosso ser esteja consciente disto. Os ensinamentos mostram-nos o que está faltando neste processo: a liberdade, ou espaço.
Quando nos tornamos conscientes do modo mecânico pelo qual nos coçamos ao menor comichão, quer físico ou mental, devemos tentar ver se não podemos esperar alguns segundos antes de agir. Devemos adquirir a liberdade de nos coçarmos quando quisermos, e não por impulso. Devemos esperar cinco segundos, talvez um minuto. Como podemos fazer isso? Tendo confiança em nossa mente, em nossa natureza de Buddha, no que eu chamaria de insustentável ternura do ser. De qualquer modo, se a comichão existe, é de fato porque temos essa ternura dentro de nós. É uma radiação, um reflexo do Buddha. Reconhecendo isso, sabemos que o estado búddhico é possível, e que se desenvolvermos a capacidade de não nos coçarmos imediatamente, podemos chamar isso de um despertar.
Outro aspecto desta ternura é o que chamaria de insustentável leveza, que é o aspecto da vacuidade, da liberdade. De fato, o que estamos tentando fazer é cortar alguns dos fios que estão amarrados na enguia que se agita incessantemente dentro de nós, e que nos faz dançar como uma marionete, seguindo os movimentos que são ditados para nós.
Vamos nos observar por um instante: a comichão se manifesta no fato de assumirmos uma postura. Todos temos uma postura através da qual nos sentimos à vontade. Se um dia alguém descobre isso e nos expõe, assumimos outra postura. Não nos coçarmos ao mudar de postura é fazer uso de nossa liberdade. Esta liberdade também está ligada à uma atitude de estabilidade, uma dignidade que não vacila o oposto de uma folha que é levada toda vez que o vento sopra.
Apenas quando reconhecemos esta comichão, nossa falta de liberdade, é que a idéia de refúgio vem à mente. O refúgio é a coragem da abertura, a inspiração, onde a bodhichitta nos permite encontrar um uso para essa inspiração. É por isso que o refúgio e a bodhichitta são artes úteis.
Hoje em dia, certos objetos de arte às vezes expressam apenas o non-sense e se tornam fontes de irritação, ao invés de se tornarem úteis. É claro que essa é uma questão de interpretação pessoal de cada um. Quanto a mim, acho que o Buddha é um artista revolucionário, no sentido de que sua arte pode ser realmente útil para nós. A inspiração da qual eu falo não é apenas o apogeu da arte, mas também tem um uso assegurado para todos aqueles que tomam refúgio.
Assim, aqui está uma arte que é prática e útil, e que não é apenas um outro tipo de exibicionismo. Há aqueles que mostram suas emoções no papel, outros através de vários materiais: há todos os tipos de exibicionistas. Este não é o caso aqui muito pelo contrário. É algo que ousa reconhecer a si mesmo, mas não necessariamente se mostra ao exterior. Toda prática espiritual, desde as práticas preliminares, é apenas um método para tentar oferecer à nossa mente os meios para encontrar confiança em si mesma.
(Jigme Khyentse Rinpoche. The Four Boundless Thoughts.
In: Adarsha, nº 1. Lisboa: Ogyen Kunzang Chöling, 1996. Pág. 21-26.)
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