Introdução | Tibet | Vajrayana | Tantra | Vajra & Gantha | Yidam | Mudra | Mantra
Mandala | Iniciação | Sadhana | Escolas | Biografias | Textos | Home
Biografias | Gampopa
Gampopa (tib. sGam po pa, 1079-1153) foi um dos principais discípulos do poeta tibetano Milarepa (tib. Mi la ras pa, 1040-1123). Gampopa combinou as práticas yógicas e as técnicas meditacionais dos primeiros mestres Kagyü com as estruturas monásticas dos Kadampas, resultando em uma nova escola que podia transmitir e preservar os ensinamentos yógicos de Milarepa e seus antecessores em uma estrutura monástica.
Quando se aproximou do lugar onde Milarepa estava meditando, ele encontrou um monge que o informou que a sua vinda tinha sido profetizada. Quando soube que Milarepa já estava esperando-o, Gampopa se encheu de orgulho e, para impedir isso, Milarepa recusou recebê-lo por duas semanas. Quando Milarepa finalmente consentiu em recebê-lo, Gampopa ofereceu-lhe um pedaço de ouro e chá. Milarepa informou-lhe que não tinha interesse em tais coisas, e ofereceu a Gampopa um pote de crânio com chang (uma bebida alcoólica feita de cevada).
Gampopa primeiramente ficou relutante em beber, já que isso entrava em conflito com os votos monásticos que o proibiam expressamente de tomar bebidas alcoólicas. Milarepa, lendo sua mente, ordenou-o a beber, o que Gampopa fez. Este ato começou um longo processo para tirar Gampopa de seu apego aos votos monásticos, que apesar de serem designados a ajudar as pessoas a escapar da existência cíclica, podem ser um obstáculo se houver uma falha ao perceber que mesmo os ensinamentos buddhistas poder se tornar objeto de apegos negativos.
Milarepa então perguntou quais iniciações Gampopa tinha recebido, e ele respondeu, "Do sábio de Mar-yül, recebi muitas iniciações, incluindo o Ornamento da Jóia Sêxtupla e o Samvara Tantra. Também estudei os ensinamentos relacionados às escrituras Kadampa, no norte de Uru, e experienciei um estado de transe sem sensações por treze dias."
Em resposta, Milarepa gargalhou e disse a Gampopa que tais práticas eram "inúteis para se alcançar a iluminação, mesmo que ficasse sem sensações por uma era inteira. Apesar das iniciações que você recebeu não serem totalmente insatisfatórias, agora você deve praticar de acordo com o meu sistema." Depois disso, Milarepa deu iniciações tântricas a ele.
Gampopa praticou diligentemente, de acordo com as instruções de Milarepa, e os Anais Azuis relatam que ele fez um progresso rápido. Ele aprendeu a utilizar a energia da respiração e a viver somente dela. Depois de atingir um alto nível de controle meditativo, Milarepa aconselhou-o a retornar ao Tibet central e a abandonar o mundo. Ele também o aconselhou a se aplicar diligentemente à prática de meditação, a evitar as pessoas más que poderiam distraí-lo, a freqüentar lugares solitários, e a permanecer separado da sociedade.
Em seu último ensinamento, Milarepa disse a Gampopa, "Você recebeu a transmissão inteira, dei todos os ensinamentos a você, como se eu tivesse esparramado água de um vaso para outro. Só há uma instrução essencial que não dei a você. Ela é muito secreta."
Milarepa acompanhou Gampopa até um rio, onde iriam se separar. Gampopa fez prostrações para partir e começou a atravessar, mas Milarepa chamou-o de volta, dizendo, "Você é realmente um bom discípulo. De qualquer modo, darei este último ensinamento."
Muito contente, Gampopa prostrou-se nove vezes e então esperou pela instrução. Milarepa virou de costas e levantou seu manto', mostrando suas nádegas a Gampopa e perguntando, "Você vê?"
Gampopa respondeu, "An... sim."
"Você realmente vê?"
Gampopa não estava certo do que deveria ver. Milarepa tinha calos em suas nádegas; pareciam como se fossem metade de carne e metade de pedra.
"Veja, é assim que alcancei a iluminação: sentando e meditando. Se você quiser alcança-la nesta vida, faço o mesmo esforço. Esse é o meu ensinamento final. Nada tenho a adicionar."
A tensão entre a vida monástica e as práticas tântricas de seu mestre continuou durante toda a vida de Gampopa. Depois de deixar Milarepa, ele foi para Nyel e ficou no monastério Kadampa de Sewalung, onde participou de cerimônias religiosas. Porém, isso levou a uma sensação de conflito, porque ele sentiu que tais ritos externos eram incompatíveis com a sua prática tântrica. Depois disto, ele se devotou à meditação por três anos, com o resultado de que ele compreendeu totalmente a verdadeira natureza luminosa da mente e percebeu diretamente a verdadeira natureza dos fenômenos.
Após deixar o monastério, ele continuou a seguir o conselho de Milarepa para que ficasse em lugares solitários, eventualmente chegando à região de Gampo (e por causa disso, ele posteriormente ficou conhecido como Gampopa, o Homem de Gampo). Ele foi visitado por alguns monges de Uru, que pediram para que ele trabalhasse pelo benefício de todos os seres sencientes. Ele respondeu, "Não tenho dúvida sobre o bem de todos os seres, mas eu não tenho mais do que 3 anos de vida." Um dos seus professores anteriores lhe deu um mantra que prolongaria sua vida, e recitando-o, ele foi capaz de viver além do tempo que esperava. Depois disto, ele atraiu um círculo de discípulos, e há registros de que deu as instruções que seriam as mais beneficiais. Para alguns ele deu os ensinamentos Mahayana das seis perfeições e do caminho do bodhisattva, e para outros ensinou as práticas tântricas básicas, enquanto aos mais avançados ele deu as instruções finais do Mahamudra. Deste modo, ele pavimentou o caminho para o desenvolvimento da ordem Kagyü, que atrairia um grande número de discípulos.
Os mestres anteriores tinham reservado suas instruções para um pequeno número de iniciados especialmente qualificados, mas Gampopa expandiu a extensão da escola Kagyü. Combinando os ensinamentos tântricos de Marpa e Milarepa com as práticas monásticas estabelecidas pelos Kadampas, ele fez possível desenvolver centros de treinamento, universidades monásticas e um currículo que poderia ir ao encontro das necessidades de buscadores espirituais de diferentes níveis de atingimento espiritual e com diferentes interesses e inclinações.
Este desenvolvimento é algo surpreendente à luz da aversão que tanto Milarepa quanto Marpa sentiam diante do monasticismo estabelecido. Milarepa foi um eremita que falava eloqüentemente sobre os perigos da sociedade, da vida familiar e do monasticismo, e Marpa foi um chefe de família que via a vida monástica como algo para pessoas de capacidade limitada. Para ambos, a vida de um desapegado yogi tântrico, livre de todas as obrigações artificiais da sociedade e da religião, era considerada como a melhor para se alcançar a iluminação.
Porém, Gampopa foi capaz de combinar ambos os elementos, e esta é a provável razão pela qual a linhagem Kagyü continua a ser uma das ordens mais dinâmicas do buddhismo tibetano. Ele combinou com sucesso os ensinamentos tântricos de Marpa e Milarepa com uma estrutura monástica, adequada para a preservação das palavras dos mestres anteriores. Além disso, esta ordem enfatiza muito a necessidade da prática meditativa, e dos praticantes Kagyü se espera passar por longos períodos de tempo em retiros solitários, Qualquer um que deseje se tornar um mestre deve ter completado um retiro meditativo de 3 anos, uma prática que testa severamente a firmeza da pessoa mais enérgica. Esta combinação de monasticismo e retiros solitários tem servido bem à ordem Kagyü, permitindo transmitir os ensinamentos e práticas a sucessivas gerações de estudantes, enquanto mantém uma continuidade espiritual com os yogis tântricos que foram seus fundadores.
(Adaptado do livro Introduction to Tibetan Buddhism,
John Powers, Snow Lion Publicationse Luminous Mind - The Way of the Buddha,
Kalu Rinpoche, Wisdom Publications)
Introdução | Tibet | Vajrayana | Tantra | Vajra & Gantha | Yidam | Mudra | Mantra
Mandala | Iniciação | Sadhana | Escolas | Biografias | Textos | Home