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Textos | A Natureza e a
Continuidade da Consciência


Na primeira linha do texto tibetano As Oito Estrofes sobre a Transformação da Mente, a primeira palavra é "eu" (dag). É muito importante que nos perguntemos exatamente qual é nossa compreensão desse termo. Para isso, precisamos situar os ensinamentos do Buddha dentro do contexto geral das várias tradições espirituais da Índia. Um ponto que distingue a doutrina buddhista de todas as outras tradições indianas clássicas é o de que rejeita qualquer noção de uma alma ou eu eterno, ou atman, definido como algo independente da nossa realidade física e mental, único, imutável e permanente.

Os buddhistas afirmam que aquilo que chamamos de "eu" ou "pessoa" somente pode ser compreendido como uma função dos nossos componentes psicofísicos. Esses são os "agregados" que, juntos, formam nossa existência. Se examinarmos a natureza desses agregados da mente e do corpo, descobriremos que eles estão em constante mutação. Logo, o eu não pode ser imutável. Eles são efêmeros; de modo que o eu não pode ser permanente ou eterno. Eles são variados e múltiplos; e o eu não pode ser único. É por esses motivos que o buddhismo rejeita a noção de uma alma eterna imutável.

Como todas as escolas buddhistas sustentam que a existência do eu tem de ser compreendida como uma função dos componentes físicos e mentais do indivíduo, isso quer dizer que o eu não deveria ser encarado meramente no nível tosco do corpo. Na realidade, as escolas buddhistas costumam definir o eu em relação a uma continuidade da consciência.

Há uma outra questão que é levantada com freqüência no que diz respeito ao eu. O eu tem um início e um fim, ou não?

Algumas escolas buddhistas, como a escola Vaibhashika, parecem aceitar a noção de ser possível que a continuidade do eu chegue a um fim. No entanto, a maioria das tradições afirma que ele não tem início nem fim, com base no entendimento do eu em relação à continuidade da consciência, e no fato de que as escolas buddhistas geralmente sustentam ser impossível pressupor um início para a consciência Se quiséssemos postular um início para a consciência, teríamos de aceitar um primeiro instante de consciência que não é provocado e que surgiu do nada. Isso contradiria um dos princípios fundamentais do buddhismo, que é a lei de causa e efeito. O buddhismo aceita a natureza dependente da realidade, segundo a qual tudo ocorre em conseqüência da reunião de certas causas e condições. Logo, se a consciência pudesse vir a surgir sem nenhuma causa, isso estaria em conflito com esse princípio fundamental. Os buddhistas consideram, portanto, que toda manifestação da consciência precisa ser produzida por causas e condições de alguma natureza. Das muitas causas e condições em questão, a causa principal ou material da consciência deve ser alguma forma de experiência, já que a matéria por si só não tem como gerar a consciência. A consciência deve originar-se de uma prévia manifestação de consciência.

Da mesma forma, se tentarmos investigar a origem do mundo material, descobriremos que, pelo menos a partir da perspectiva buddhista, o mundo também não tem início. Através da análise, podemos reduzir um objeto físico aos elementos que o compõe, em seguida às sua moléculas, suas partículas atômicas, e assim por diante, mas até mesmo estas últimas precisam ser produzidas por suas próprias causas e condições.

Exatamente como se diz que a mente não tem início, também se diz que ela não tem fim, porque não há nada que possa abalar a existência básica da nossa faculdade para o conhecimento e a experiência. Certos estados mentais, como as experiências sensoriais, dependem do corpo físico; e esses estados podem se encerrar quando seu suporte físico deixa de existir, digamos, no momento da morte. No entanto, quando afirmamos que a continuidade da consciência não tem início, não deveríamos confiar nosso entendimento da consciência ao nível material da existência. Pelo contrário, aquilo a que os buddhistas se referem é um nível mais sutil de consciência, especialmente o que chamamos de "natureza luminosa da mente"; e é isso o que dizemos ser contínuo e sem fim. Portanto, é com base nesse ponto que os buddhistas afirmam que o eu não tem começo nem fim.

Geralmente, quando pensam na consciência, as pessoas tendem a ter a impressão de que existe algum tipo de entidade monolítica chamada "mente". No entanto, esse não é o caso. Se nos aprofundarmos um pouco mais, veremos que aquilo que chamamos consciência abrange na realidade um mundo diverso e complexo de pensamentos, emoções, experiências sensoriais, e assim por diante.

Permitam-me ilustrar esse ponto com um exame do nosso modo de perceber as coisas. Para que a percepção possa chegar a ocorrer, é necessária a existência de certas condições. No caso da percepção visual, por exemplo, um objeto externo precisa entrar no campo de atuação do órgão físico, nossos olhos, para produzir o evento preceptivo. É então preciso que haja mais uma condição que permita ao órgão sensorial interagir com o objeto de tal forma que o evento ocasione uma cognição. Ora, os buddhistas argumentariam que a mente tem uma natureza luminosa, subjacente, que é o "mero fato" da experiência e da percepção. E é essa continuidade que permite que surjam cognições a partir da relação entre os órgãos sensoriais e seus respectivos objetos. Além disso, é essa essencial natureza luminosa da mente que transcende a existência temporal de uma vida especifica, já que mantém uma continuidade ininterrupta. Portanto, é isso o que os buddhistas entendem por expressões tais como "a natureza sem início da consciência" ou "a continuidade da consciência".

Como mencionei anteriormente, os buddhistas chegam a falar no mundo físico como algo que, em certo sentido, não tem início. "Mas e o Big Bang", poderia alguém perguntar. "Ele não foi o início do Universo?" Para um buddhista, o Big Bang não pode ser aceito como o verdadeiro início do mundo físico; e em vez de ser a solução para nosso problema, ele só provoca mais perguntas. Por exemplo, por que o Big Bang chegou a ocorrer? Quais são as condições que levaram ao Big Bang? De uma perspectiva buddhista, não se pode dizer nem mesmo que o mundo físico teve um início absoluto.

Eu deveria salientar que, quando dizemos que o mundo não teve início, estamos nos referindo a um nível "atômico" muito sutil. Além disso, é obviamente verdadeiro que um universo específico ou um planeta específico tenha um início no sentido de ter surgido num determinado ponto no passado; e de deixar de existir num determinado ponto no futuro. Quando afirmamos que o mundo físico não tem início, estamos, por conseguinte, falando do universo como um todo.

Portanto, tudo isso nos remete ao princípio fundamental de causa e efeito. Para avaliar plenamente esse princípio, é preciso que a pessoa aceite sua pertinência tanto no nível ínfimo dos acontecimentos isolados quanto no nível macroscópico mais amplo. O motivo pelo qual os ensinamentos buddhistas dão tanta ênfase à importância da causa e efeito não é por ser ela algum tipo de lei divina; mas, sim, porque ela proporciona uma compreensão mais profunda da natureza da realidade. Por que os buddhistas chegam a essa conclusão? Porque sabemos, a partir da nossa própria experiência e através da observação, que nada surge aleatoriamente. Tudo respeita uma certa ordem. Existe alguma correlação entre eventos específicos e causas e condições específicas. E mais, nada ocorre sem absolutamente nenhuma causa. Uma vez excluídas essas duas possibilidades, da existência aleatória e da falta de causalidade, somos forçados a aceitar a terceira alternativa, ou seja, a de que deve haver um princípio de causação latente, que atua num nível fundamental.

Vocês poderiam querer saber por que essa compreensão da causa e efeito é tão importante para o buddhista praticante. A razão está no fato de o buddhismo atribuir enorme importância à transformação do coração e da mente, bem como à realização de mudanças interiores nos nossos modos de ser e de entender. Além disso, no buddhismo, os métodos de contemplação, meditação e transformação da mente devem ser baseados em algo que exista na realidade. Se a realidade não estiver em harmonia com nossas práticas meditativas, não há nenhuma base real para esperar nenhum progresso no desenvolvimento pessoal. Logo, é por meio do aperfeiçoamento e desenvolvimento dessa compreensão que podemos começar a aplicar os métodos de meditação a nós mesmos e produzir uma transformação interior.

No buddhismo, observam-se certas práticas com o objetivo de enfrentar problemas específicos. Por exemplo, existem meditações destinadas a reduzir a intensidade do nosso apego e desejo sexual. Poderíamos visualizar toda a superfície da Terra coberta de esqueletos, por exemplo. Essas meditações são praticadas deliberadamente para superar tipos específicos de problemas, mas nesses casos o praticante não acredita de modo algum que a visualização represente a realidade. Ele ou ela tem plena consciência de que essa imagem em particular é cultivada propositadamente como um meio para lidar em certas emoções.

Em geral, o buddhismo salienta a importância de desenvolver um entendimento racional em relação a qualquer tópico de investigação que se escolha. Isso se dá a partir da simples premissa de que o aumento da nossa compreensão terá um efeito positivo sobre nosso coração e nossa mente; e de que é através do aumento da nossa compreensão e conhecimento que a mudança realmente ocorre. Diz-se que muitos níveis profundos de percepção espiritual resultam do conhecimento, do discernimento profundo e da compreensão. É por isso que o desenvolvimento do discernimento profundo é considerado um elemento tão crucial no caminho espiritual como um todo.

(Dalai Lama. Transformando a mente: ensinamentos sobre como gerar a compaixão.
Traduzido para o inglês por Geshe Thubten Jinpa, organizado por Dominique Side e Geshe Thubten Jinpa,
traduzido para o português por Waldéa Barcellos. São Paulo: Martins Fontes, 2000. Pág. 16-22.)


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