Introdução | Tibet | Vajrayana | Tantra | Vajra & Gantha | Yidam | Mudra | Mantra
Mandala | Iniciação | Sadhana | Escolas | Biografias | Textos | Home
Textos | Perguntas e Respostas
Pergunta: Em vez de aprender a lidar com a raiva dos outros, por que não evitar as pessoas com raiva?
Resposta: É uma verdade. O praticante, no estágio inicial, opta por um lugar isolado. Mas isso não é solução a longo prazo; é um método temporário. Enquanto permanece isolada, a pessoa deve desenvolver uma força interior. Assim, quando volta à sociedade já está preparada. Alguém que se isola por completo da sociedade e evita a interação com outras pessoas, depois passa uma vida inteira em meditação, num refúgio solitário, pode se tornar um Arhat que se descreve como aquele que é como um rinoceronte.
Pergunta: Que provas temos da existência da natureza de Buddha? Como sabemos que todos possuem isso? E que temos em nós?
Resposta: Primeiro, no pensamento buddhista, um dos motivos é o fato de que a suprema natureza da mente é a não-substancialidade, que os buddhistas chamam de vazio. Portanto, a percepção da realidade intrínseca da mente é uma ilusão, um estado mental distorcido, sem fundamento na realidade. Por isso, pode ser eliminado e removido. Esse fato pode ser compreendido por inferência, sem depender da autoridade das escrituras. Mas isso exige não apenas uma compreensão inferencial e intelectual, pois deve ser combinada com uma experiência de meditação. Assim, através da combinação inferencial e intelectual, e da experiência de meditação, podemos chegar ao conhecimento de que a suprema natureza da mente é o vazio, e concluir que os estados ilusórios enraizados na percepção de uma existência intrínseca da mente podem ser eliminados.
Também é possível chegar bem perto da compreensão de que a natureza essencial da mente é pura ao focalizarmos a atenção no fato de que ao falarmos da consciência, o mais característico é que a consciência se situa na natureza de mera experiência. Não é física, não é material, mas está na natureza da mera experiência, ou luminosidade. É um fato que a pessoa também pode compreender, não necessariamente por completo, mas até certo ponto, através da inferência. Contudo, a plena compreensão da natureza essencial da mente sendo pura e sendo mera luminosidade pode exigir que a pessoa se baseie na autoridade das escrituras, porque precisará distinguir entre os vários níveis da mente. São explicados em termos de quatro estágios diferentes da mente sutil, culminando na consciência muito sutil, que é conhecida como a natureza da mente de "luz clara". É muito difícil dizer que podem ser compreendidas inteiramente através da razão, sem se basear nas escrituras.
O importante aqui é o nível de experiência pessoal para se chegar a um certo grau de compreensão. Há na literatura Vajrayana um raciocínio metafórico que tenta estabelecer a existência do que são conhecidas como "as oitenta concepções que são indicativas dos estados mentais sutis" e como se relacionam com os quatro estágios da mente sutil. Pessoalmente, acho muito difícil chegar plenamente à conclusão através da mera lógica e do raciocínio. Também encontramos e Sublime Contínuo, de Maitreya, o argumento de que a razão pela qual todos possuem esse desejo inato de procurar a felicidade e evitar o sofrimento é o fato de ser possível superar o sofrimento e alcançar a felicidade. Ele tenta apontar para a existência da natureza de Buddha.
Pergunta: O que o senhor acha dos mestres do Dharma que falam e escrevem muito bem sobre o Dharma mas não vivem de acordo?
Resposta: Porque sabia dessa conseqüência potencial, Buddha foi muito rigoroso ao prescrever as qualidades que são necessárias para alguém ser qualificado como mestre. Hoje em dia, ao que parece, esse é um problema sério. Primeiro, no lado do mestre; a pessoa que oferece algum ensinamento, que faz preleções sobre o Dharma deve ser treinada, culta e estudiosa. Depois, como o assunto não é história ou literatura, mas espiritual, o mestre deve adquirir alguma experiência. Quando essa pessoa fala sobre um tema religioso com alguma experiência, tem mais peso. Se não tiver experiência não será tão eficaz. Portanto, a pessoa que começa a falar para os outros sobre o Dharma deve compreender a responsabilidade, deve estar preparada. Isso é muito importante. Por causa dessa importância, Lama Tsongkhapa, quando descreve as qualificações que são necessárias para alguém se tornar mestre, cita os Ornamentos das Escrituras, de Maitreya. Ali, Maitreya relaciona as qualificações básicas que são necessárias da parte do mestre. Por exemplo, o mestre deve ser disciplinado, em paz consigo mesmo, compadecido e assim por diante. Na conclusão, Lama Tsongkhapa diz que as pessoas que desejam procurar um mestre espiritual devem primeiro ter conhecimento das qualificações necessárias para um mestre. Só depois de se adquirir essa noção é que se deve procurar um mestre. Da mesma forma, aqueles que desejam procurar discípulos e se tornarem mestres não apenas devem estar conscientes dessas condições, mas também devem ser capazes de julgar se possuem essas qualidades; se não possuírem, devem trabalhar para alcançá-las. Portanto, os mestres devem também compreender a grande responsabilidade envolvida. Se alguém, lá no fundo, procura na verdade dinheiro, então acho melhor procurar através de outros meios. Ou seja, se a intenção profunda é um propósito diferente, acho que é uma situação lamentável. Essa atitude é uma confirmação da acusação comunista de que a religião é um instrumento de exploração. O que é muito triste.
O próprio Buddha estava consciente desse potencial para abuso. Por isso, declarou categoricamente que ninguém deve levar uma vida que seja adquirida através dos cinco meios errados de subsistência. Um deles é o de ser insinuante e lisonjeiro com um benfeitor, a fim de obter o benefício máximo.
Por outro lado, os discípulos também têm responsabilidades. Primeiro, não devem aceitar o mestre cegamente. Isso é muito importante. Você pode aprender o Dharma de alguém que aceita não necessariamente como lama, mas sim como um amigo espiritual. Considere essa pessoa até conhecê-la melhor, até adquirir uma confiança total e puder dizer "Agora, ele pode ser meu lama". Até que essa confiança se desenvolva, trate essa pessoa como um amigo espiritual. Depois, estude e aprenda com ele ou ela. Você pode também aprender através dos livros. À medida que o tempo passa, há cada vez mais livros disponíveis. Por isso, acho que é um bom esquema.
Eu gostaria de abordar aqui uma questão que levantei há cerca de trinta anos sobre um aspecto particular do relacionamento lama-discípulo. Como temos visto no texto de Shantideva, Guia para o Modo de Vida do Bodhisattva, constatamos que, num contexto específico, certas linhas de pensamento são muito enfatizadas. Ou seja, a menos que você veja o argumento em seu contexto apropriado, há um grande potencial para o mal-entendido. O mesmo acontece no relacionamento lama-discípulo. Como o lama desempenha um papel tão importante como fonte de inspiração, bênção, transmissão e assim por diante, atribui-se uma tremenda ênfase em se manter a confiança indispensável e o relacionamento conveniente. Nos textos descrevendo essas práticas, encontramos uma prece específica: "que eu possa desenvolver respeito pelo lama, devoção ao lama, o que me permitiria ver cada ação sua como pura".
Há trinta anos eu já declarava que esse é um conceito perigoso. Há um tremendo potencial para abuso nessa idéia de tentar ver todos os comportamentos de um lama como puros, de ver tudo o que o lama faz como iluminado. Declarei que isso é como um veneno. Para alguns tibetanos, essa frase pode parecer um pouco extremada. Contudo, parece que agora, com a passagem do tempo, minha advertência tornou-se bastante relevante. Seja como for, essa é minha convicção e atitude. Baseio o comentário de que é uma idéia potencialmente venenosa nas palavras do próprio Buddha. Por exemplo, nos ensinamentos de Vinaya, que são as escrituras que descrevem a ética e a disciplina monástica, onde o relacionamento com o lama é considerado muito importante, Buddha declara que se deve conceder respeito ao lama, mas se por acaso o lama der instruções que contradizem o Dharma, então é preciso rejeitá-lo.
Há também declarações expressas nos sutras, em que Buddha declara que as instruções dadas pelo lama de acordo com o caminho geral do Dharma devem ser seguidas, enquanto as instruções que não estão de acordo com o Dharma devem ser descartadas.
É na prática do Yoga Tantra Superior, do Buddhismo Vajrayana, que o relacionamento lama-discípulo assume uma grande importância. Por exemplo, no Yoga Tantra Superior temos práticas como a ioga lama, uma ioga inteira dedicada à relação com o lama. Mas até mesmo nos Yoga Tantras Superiores encontramos declarações de que as instruções dadas pelo lama que não estiverem de acordo com o Dharma não devem ser seguidas. Você deve explicar ao lama os motivos pelos quais não pode cumpri-las, não deve segui-lo só porque o lama mandou. O que encontramos aqui é a constatação de que não somos instruídos para dizer: "Muito bem, farei qualquer coisa que você disser". Em vez disso, somos instruídos a usar nossa inteligência e julgamento, rejeitando instruções que não estão de acordo com o Dharma.
Mas descobrimos, se lermos a história do buddhismo, que houve exemplos de devoção total a mestres como Tilopa, Naropa, Marpa e Milarepa, que podem parecer meio exagerados. Mas verificamos que estes mestres, embora pudessem, superficialmente, parecer párias ou mendigos, ou ter estranhos comportamentos, levando outras pessoas a perderem a fé, possuíam, na verdade um fator para contrabalançar tudo isso, quando era necessário reforçar a fé de outras pessoas no Dharma e neles como guias espirituais: um elevado nível de realização espiritual. Podiam até exibir poderes sobrenaturais, para compensar os excessos que as pessoas viam neles, em termos convencionais. No caso de alguns mestres modernos, no entanto, todos cometem excessos em seus comportamentos antiéticos, mas carecem do fator de compensação, que é a capacidade de exibir poderes sobrenaturais. Isso pode acarretar muitos problemas.
Portanto, como discípulos, vocês devem primeiro observar e investigar meticulosamente. Não considerem alguém como mestre ou lama até que se tenham alguma confiança na integridade da pessoa. Isso é muito importante. Segundo, mesmo depois disso, se algumas coisas perniciosas acontecerem, você tem toda liberdade para rejeitá-las. Os discípulos devem tomar cuidado de não estragar o lama. Isso é muito importante.
Pergunta: Com todo respeito, fico sentado aqui pensando que é arrogante declarar que não existe um Criador. Contudo, sei que o buddhismo prega a humildade. Por que o senhor acha que a lógica pode compreender o todo maior? É apenas outra forma de convicção? Finalmente, que posição a intuição e o sentimento têm na declaração de que não há um Criador?
Resposta: Sobre a posição de que não há um Criador, há muitas referências expressas com relação a isso nas próprias escrituras de Buddha. Por exemplo, vamos pegar a escritura sobre a origem dependente, chamada de O Sutra da Muda de Arroz, em que Buddha declara que, porque a causa foi produzida ou gerada, os efeitos se seguiram. Também encontramos referências nas obras de pensadores buddhistas subseqüentes, como Shantideva e Chandrakirti. Shantideva é bastante explícito e muito claro sobre sua posição em toda a questão do Criador, no nono capítulo do Guia para o Modo de Vida do Bodhisattva. Chandrakirti também é muito claro na questão. Também encontramos Dharmakirti, no segundo capítulo de Exposição de Meios Válidos para a Cognição, adotando uma posição muito firme e explícita na questão. Dharmakirti ressalta num versículo que plenamente iluminado é aquele que se tornou aperfeiçoado. O verbo "tornar" é usado para indicar que não há crença num ser aperfeiçoado eterno ou absoluto. O Buddha Shakyamuni tornou-se plenamente iluminado através de causas, condições, treinamento e um processo. Daí a escolha de "tornar-se". Essa é a posição buddhista.
Afinal, como eu sempre digo, são cinco bilhões de seres humanos e uma ampla variedade de disposições diferentes. Portanto, de certa forma, acho que precisamos de cinco bilhões de religiões diferentes, porque há tantas disposições. Deve ficar bastante claro que, para certas pessoas, o conceito de um Criador é muito mais benéfico e mais confortador. Assim, é melhor que tais pessoas sigam essa tradição. A essência de tudo isso é que é importante que cada pessoas se lance no caminho espiritual mais condizente com sua disposição mental, temperamento e convicção.
Passemos à segunda parte de sua pergunta. De onde vem essa intuição ou sentimento para o Criador? Pode ter algumas explicações sociológicas; a tradição cultural pode desempenhar também um papel importante. O motivo para eu dizer isso é que, para muitos tibetanos, a intuição da vida depois da morte ou renascimento é natural; é inata e instintiva. Não há margem para questionamento.
O mais importante aqui é que eu acho errado utilizar uma religião ou filosofia diferente como argumento. Apenas viva aquilo que você acredita. O buddhismo é da conta dos buddhistas; o cristianismo é da conta dos cristãos. Isso deve ficar bem claro. Mesmo num restaurante, à mesma mesa, comemos pratos diferentes e ninguém contesta. É o direito de cada pessoa.
Pergunta: Se todas as nossas ações surgem como dependentes, como se pode optar por avançar para a iluminação? A pessoa escolhe ou apenas o próximo passo é inevitável?
Resposta: Não há possibilidade de progredir para a plena iluminação ou liberação apenas como resultado da evolução tempestiva. Ou seja, se a pessoa não toma a iniciativa, se não faz o esforço consciente de avançar pelo caminho espiritual para a perfeição, então não é possível evoluir naturalmente para um ser mais iluminado.
Em matéria de vazio, encontramos dezesseis tipos diferentes de vazio nas escrituras. O vazio de samsara é chamado de "vazio da ausência de início e da ausência de fim". Se não houver uma iniciativa, se não houver um esforço consciente, então nossa existência no estado não-iluminado vai se prolongar indefinidamente. Mas se houver um esforço consciente, se for tomada uma iniciativa, então haverá um fim para essa ausência de iluminação.
Encontro aqui uma grande inspiração num conceito no segundo capítulo de Ornamentos das Compreensões Claras, de Maitreya, em que ele fala sobre as cinco características do praticante Bodhisattva. Ele diz que em termos de inclinação natural imediata, há parâmetros objetivos: algumas pessoas são mais propensas para o caminho individual de liberação, enquanto outras preferem o ideal Bodhisattva, levando ao objetivo Mahayana do pleno estado búdico. Contudo, do ponto de vista supremo, todos os seres sencientes são iguais, porque a natureza de Buddha prevalece em todos. Neste ponto, diferenciamos entre o potencial que todos os seres possuem e sua capacidade de realizar esse potencial. [...]
Pergunta: Os buddhistas tentam "evangelizar" ou enviam missionários para o mundo? Há muita fome espiritual. Se não fazem isso, há algum motivo?
Resposta: Creio que durante o período Ashoka houve algumas missões buddhistas. Mas, basicamente, na tradição buddhista não há ênfase na evangelização, no envio de missionários para converter, ou num movimento para a conversão, a menos que alguém venha procurar os ensinamentos. Neste caso, é claro, temos o dever ou responsabilidade de ensinar. No passado, talvez fosse diferente, mas o mundo de hoje se tornou muito menor e o espírito de harmonia é essencial. Por isso, em minha opinião, o missionário buddhista é inadmissível. Tenho algumas reservas até mesmo ao trabalho missionário de outras tradições religiosas. Se alguém tenta propagar sua religião e o outro lado faz a mesma coisa, então, logicamente, há a possibilidade de conflito. Por isso, não considero que seja uma coisa boa.
Minha convicção é de que entre cinco bilhões de seres humanos há apenas uns poucos que são crentes sinceros e genuínos. É claro que não conto aqueles que dizem "Eu sou cristão" porque sua família é de origem cristã, porque em sua vida cotidiana eles podem levar muito em consideração a fé cristã. Assim, excluindo essas pessoas, aqueles que praticam sinceramente sua religião não devem passar de um bilhão. Isso significa que quatro bilhões, a maioria da população, são descrentes. Portanto, devemos encontrar um meio de tentar alcançar essa maioria, quatro bilhões de pessoas, para fazer com que se tornem bons seres humanos, ou pessoas morais, sem qualquer religião. Esse é o ponto. Em relação à compaixão e coisas relacionadas, considero que são apenas boas qualidades dos seres humanos, não necessariamente assuntos religiosos. Assim, alguém pode permanecer sem qualquer fé religiosa, mas se mostrar um ser humano bom e sensível, e ter um senso de responsabilidade ou compromisso por um mundo melhor, um mundo mais feliz. Sob esse aspecto, acho que uma educação apropriada é muito importante. E a mídia também é importante.
(S.S. o Dalai Lama. A arte de lidar com a raiva: o poder da paciência.
Tradução de A. B. Pinheiro de Lemos da tradução de Geshe Thubten Jinpa.
Rio de Janeiro: Campus, 2001. Pág. 137-144, 197-198. Para adquirir o livro, clique aqui.)
Introdução | Tibet | Vajrayana | Tantra | Vajra & Gantha | Yidam | Mudra | Mantra
Mandala | Iniciação | Sadhana | Escolas | Biografias | Textos | Home