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Textos | Minha Terra e Meu Povo
Nasci em um pequeno povoado chamado Taktser, no nordeste do Tibet, no quinto dia do quinto mês do Ano do Porco Selvagem no calendário tibetano — isto é, em 1935. Taktser fica no distrito de Dokham, que é um nome descritivo, pois Do significa a parte mais baixa de um vale que se junta a uma planície e Kham é a região oriental do Tibet onde vive a distinta raça de tibetanos chamada khampa. Portanto, Dokham é a região do Tibet onde nossas montanhas começam a baixar até as planícies do leste, em direção à China. Taktser fica 2.700 metros acima do nível do mar.
A região era muito bonita. Nosso povoado, pousado em um pequeno platô, ficava praticamente rodeado por campos férteis de trigo e cevada. O platô, por sua vez, era circundado por uma cadeia de montes cobertos de relva — densa e de um verde forte.
Ao sul do povoado havia uma montanha mais alta que as demais. Seu nome era Ami-chiri, mas os aldeões também se referiam a ela como "A Montanha que Penetra o Céu", e era considerada moradia da deidade guardiã do lugar. Suas encostas mais baixas eram cobertas de florestas e, acima delas, podia-se ver uma rica extensão de relva. Ainda mais alto, a pedra aflorava, e no topo havia uma cobertura de neve que jamais derretia. Na face norte da montanha cresciam zimbros, álamos, pessegueiros, ameixeiras e muitas espécies de frutas silvestres e flores perfumadas. Fontes de águas límpidas jorravam em cascatas e pássaros e animais selvagens — veados, asnos selvagens, macacos, alguns leopardos, ursos e raposas — vagavam sem medo da presença do homem, pois o povo buddhista jamais pensaria em fazer mal a um ser vivo.
Em meio ao esplendor dessa beleza natural ficava o mosteiro Karma Shar Tsong Ridro, um lugar famoso na história religiosa do Tibet. Foi fundado por Karma Rolpe Dorje, a quarta reencarnação de Karmapa, que por sua vez foi a primeira reencarnação reconhecida no Tibet. Nesse mosteiro nosso grande reformador Tsongkhapa foi iniciado como monge no décimo quarto século da era cristã. Mais abaixo havia um segundo mosteiro, chamado Amdo Jhakyung, magnífico com as montanhas ao fundo. Os telhados dourados e o emblema chamado dharma chakra (roda de religião), sustentado a cada lado por dois veados de cobre e ouro, além de acrescentar cor à paisagem, emprestava uma atmosfera de santidade a toda a vizinhança. Bandeiras de prece nos telhados de todas as casas do povoado realçavam esse clima de espiritualidade.
Taktser era uma comunidade agropastoril e seus habitantes se alimentavam basicamente de farinha de trigo e tsampa — uma comida à base de cevada —, além de carne e manteiga. Suas bebidas eram chá amanteigado e uma cerveja chamada chang, feita à base de cevada. Existem diferentes opiniões entre os buddhistas acerca do consumo de carne, mas tratava-se de uma necessidade para quase todos os tibetanos. Na maior parte do Tibet o clima era rigoroso, e, embora a comida fosse abundante, sua variedade era muito limitada, o que fazia com que fosse impossível manter-se saudável sem comer carne — costume anterior à chegada do buddhismo no país. Os tibetanos consideravam pecado matar qualquer animal, por qualquer motivo que fosse, mas não consideravam pecado ir ao mercado e comprar a carne de um animal que já estivesse morto. Os açougueiros que abatiam os animais eram considerados pecadores e desclassificados.
A cevada e o trigo excedentes de Taktser eram vendidos nas cidades mais próximas — Kumbum e Sining — em troca de chá, açúcar, tecidos de algodão, adornos e utensílios de ferro. As pessoas usavam roupas tipicamente tibetanas: os homens, gorros de pele, botas de couro de cano alto e capotes de formas variadas. As mulheres usavam longos vestidos de lã sem mangas com blusas vistosas de algodão ou seda e, em ocasiões especiais, colocavam ornamentos nos cabelos que desciam pelas costas até a cintura. No inverno todos usavam casacos de pele e roupas com forros grossos de feltro. Como as mulheres de qualquer parte do mundo, as mulheres de Taktser apreciavam jóias e pedras preciosas, mas o maior orgulho dos homens do povoado vinha do fato de as mulheres serem excelentes cozinheiras.
Havia muitos outros mosteiros e templos nos arredores, onde qualquer um podia rezar e fazer suas oferendas — fosse monge ou não. Na verdade, toda a vida do lugar era baseada em sua religião. Dificilmente haveria alguém, no Tibet inteiro, que não fosse um buddhista fiel. Até mesmo as crianças, quando mal sabiam falar, gostavam de visitar os locais onde os emblemas das Três Jóias — Buddha, Dharma e Sangha — eram guardados. As crianças brincavam também de construir templos de barro, colocando oferendas diante deles e fazendo gestos de devoção que pareciam conhecer por instinto, sem que ninguém lhes ensinasse. Todos, ricos ou pobres (à exceção de alguns miseráveis), gastavam toda a sua renda excedente — depois de suprirem as necessidades físicas da vida — construindo monumentos religiosos, dando sua contribuição aos templos, doando oferendas às Três Jóias, fazendo caridade aos pobres e salvando a vida de animais, comprando-os dos açougueiros.
Chefes de família abastados sempre tinham um santuário em suas casas, onde muitos monges faziam refeições em troca de preces perpétuas. Às vezes essas pessoas recebiam centenas de monges para a recitação, por vários dias consecutivos, de textos sagrados: remuneravam-nos e os alimentavam bem por esse serviço. Até mesmo as pessoas muito pobres tinham um pequeno altar e uma imagem do Senhor Buddha em suas cabanas, onde lamparinas de manteiga permaneciam sempre acesas.
A população de Dokham, em sua maioria, era de boa estatura, forte, resistente e corajosa por natureza. A essas qualidades acrescentava-se a bondade, proveniente de sua fé. Humildade, caridade, temperança, benevolência, afeição e consideração por todos os outros seres eram as virtudes incentivadas por suas crenças. Em nosso povoado havia o costume da ajuda mútua, sempre que uma família estivesse precisando de auxílio ou passando por qualquer dificuldade.
Foi entre essas pessoas afáveis que eu nasci, numa família de pura origem tibetana, cujos antepassados vieram do Tibet Central. Como eles se estabeleceram na região leste do Tibet é uma história simples. Há centenas de anos, no reinado de Mangsong Mangsten, uma tropa do exército tibetano posicionou-se no nordeste do Tibet para proteger as fronteiras. Na nossa região de Dokham acampou uma guarnição de Phempo, que fica no Tibet Central. Segundo a tradição familiar, meus antepassados vieram com essa guarnição. Em nosso dialeto familiar ainda usávamos muitas palavras oriundas do distrito de Phempo.
Com exceção das duas últimas gerações, um membro de minha família foi sempre o chefe de nosso povoado, com o título de Chija Nangso: Chija era o nome do lugar e Nangso significa "sentinela interior". Sempre me senti feliz por ter vindo de uma família humilde de camponeses. Deixei meu povoado ainda muito jovem, mas anos depois, quando voltava da China, fiz uma rápida visita a Taktser e não pude deixar de sentir orgulho quando vi meu povoado e minha casa. Sempre achei que, se tivesse nascido em uma família rica ou aristocrática, não teria sido capaz de entrar em sintonia com os sentimentos e emoções dos tibetanos das classes mais humildes. Mas, graças à minha origem inferior, posso compreendê-los, ler em suas mentes, o que gera em mim extrema solidariedade e afeto por eles e faz com que eu tente ao máximo melhorar sua sorte nesta vida.
Nossa família era grande: duas irmãs e quatro irmãos, com uma grande diferença de idade entre nós. Minha mãe teve dezesseis filhos, mas nove morreram ainda muito novos. A família toda era unida pelos mais fortes laços de amor e bondade. Meu pai era um homem cuja extrema bondade convivia com um temperamento um tanto irascível, mas sua irritação nunca durava muito. Não era especialmente alto ou forte, nem estudara muito, mas era dotado de brilho e inteligência naturais. Tinha uma especial afeição por cavalos e costumava cavalgar bastante, possuindo o dom de escolher bons cavalos e de curá-los quando ficavam doentes. Minha mãe é uma pessoa bondosa, amorosa. Ela se importa com qualquer pessoa e cede com prazer seu próprio prato de comida a quem estiver com fome, mesmo que fique faminta. Embora muito suave, sempre comandou a família. É também adaptável e previdente. Depois de a minha posse ter aberto novas possibilidades para a família, ela se empenhou especialmente para que seus outros filhos recebessem uma educação adequada.
Nosso sustento vinha principalmente da agricultura, embora também criássemos gado e cavalos e cultivássemos verduras na horta. Normalmente tínhamos cinco pessoas trabalhando em nossa fazenda e grande parte do trabalho era feito pela família. Nas épocas de semeadura e colheita, contratávamos por alguns dias entre quinze e quarenta homens que eram pagos com mercadorias. Quando minha mãe saía para trabalhar no campo e eu ainda era um bebê, ela me carregava nas costas e me deixava dormindo num canto da plantação sob um guarda-sol amarrado a uma estaca.
Nossa casa era uma construção quadrada com um pátio no meio. Tinha um só andar, sendo a parte mais baixa construída em pedra e a mais alta, em barro. Os beirais do telhado plano eram revestidos de ladrilhos turquesa. O portão principal, voltado para o sul, na direção de Ami-chiri, tinha sua parte superior decorada com lanças e bandeiras à maneira tradicional do Tibet. Bandeiras de prece tremulavam no topo de um grande mastro no meio do pátio. Nos fundos da casa havia um quintal onde ficavam nossos cavalos, jumentos e gado, e em frente ao portão um cão tibetano protegia a casa, contra intrusos, amarrado a um poste.
O gado era composto de oito vacas e sete dzomos, que é o cruzamento do iaque com a vaca. (A palavra iaque refere-se somente ao macho, como a palavra touro. A fêmea do iaque é chamada de dri.) Minha mãe costumava ordenhar as dzomos e, logo que aprendi a andar, habituei-me a segui-la ao estábulo, com minha tigela entre as dobras da bata, para tomar o leite morno das dzomos. Havia também galinhas, e eu tinha licença para entrar no galinheiro e recolher os ovos. Esta deve ser uma das minhas lembranças mais remotas. Eu me lembro de subir até um dos ninhos e lá ficar sentado cacarejando como uma galinha.
A vida de nossa família era simples, mas muito feliz. Muito desse contentamento devia-se a Thupten Gyatso, o Décimo Terceiro Dalai Lama, que foi por muitos anos o governante espiritual e temporal do Tibet. Durante seu governo, ele esclareceu e definiu o status do Tibet como nação independente e conseguiu melhorar bastante as condições de vida do povo. O distrito oriental onde vivíamos estava sob o domínio secular da China, mas o Dalai Lama era seu líder espiritual e, como residira ali por quase um ano, a população local esteve sob sua influência direta. Em uma declaração dirigida a todo o seu povo, ele disse: "Depois que assumi as tarefas da administração espiritual e secular, não tive mais lazer, nem tempo para entretenimentos. Dia e noite, refleti com ansiedade sobre problemas da religião e do Estado, de modo a decidir sobre o melhor caminho para ambos. Eu devia levar em conta o bem-estar dos camponeses, qual a melhor forma de eliminar suas tristezas e como abrir as três portas da Presteza, da Imparcialidade e da Justiça."
A devoção do Dalai Lama trouxe para o povo do Tibet um longo período de paz e prosperidade. Ele próprio disse: "Desde o Ano do Touro das Águas até o presente Ano do Macaco das Águas, esta terra do Tibet tem sido feliz e próspera. É como uma terra renovada. Todas as pessoas estão tranqüilas e felizes."
Mas no Ano do Pássaro das Águas, isto é, em 1933, Thupten Gyatso partiu deste mundo, deixando o povo do Tibet desolado. Meu pai, que soubera da triste notícia no grande mosteiro de Kubum, a trouxe para o nosso povoado. O Décimo Terceiro Dalai Lama havia feito tanto pela paz e pelo bem-estar do país, que o povo do Tibet resolveu erguer um magnífico mausoléu dourado como testemunho de sua homenagem e respeito. De acordo com o antigo costume, esse túmulo grandioso foi construído dentro do Palácio Potala, em Lhasa, a capital do Tibet.
Com o falecimento do Décimo Terceiro Dalai Lama, começou imediatamente a busca por sua reencarnação, pois cada Dalai Lama é a reencarnação de seu antecessor. O primeiro, nascido no ano de 1391 da era cristã, era uma encarnação de Chenresig, o Buddha da Misericórdia, que fez um voto de proteger todos os seres vivos.
Antes de mais nada, um regente deveria ser indicado pela Assembléia Nacional para governar o país até que a nova reencarnação fosse encontrada e atingisse a maturidade. Depois, de acordo com costumes e tradições consagradas pelo tempo, os oráculos do Estado e lamas de grande sabedoria eram consultados — como primeiro passo para achar o lugar onde a reencarnação apareceria. Curiosas formações de nuvens foram vistas a nordeste de Lhasa. Foi lembrado que, depois da morte do Dalai Lama, seu corpo fora colocado sentado e voltado para o sul em um trono em Norbulingka, sua residência de verão em Lhasa. Mas, após alguns dias, verificou-se que seu rosto se voltara para o leste. E numa coluna de madeira que ficava no lado nordeste do sacrário onde jazia o corpo apareceu subitamente um fungo em forma de estrela. Tudo isso, além de outras evidências, indicava a direção onde o novo Dalai Lama deveria ser procurado.
Depois disso, em 1935, Ano do Porco Selvagem tibetano, o regente foi ao lago sagrado de Lhamoi Latso, em Chokhorgyal, cerca de cento e quarenta quilômetros a sudeste de Lhasa. O povo do Tibet acredita que visões do futuro podem ser vistas nas águas desse lago. Há muitos lagos sagrados no Tibet, mas Lhamoi Latso é o mais famoso de todos. Dizem que às vezes as visões aparecem em forma de letras, e outras, sob a forma de imagens de lugares e futuros acontecimentos. Vários dias foram dedicados a preces e meditações, e então o regente teve uma visão de três letras tibetanas — Ah, Ka e Ma — seguidas pela imagem de um mosteiro de telhado verde-jade e dourado e uma casa com azulejos turquesa. Uma descrição detalhada dessas visões foi escrita e mantida sob absoluto segredo.
No ano seguinte, lamas graduados e dignitários foram enviados por todo o Tibet, levando consigo os segredos das visões, para procurar o lugar que o regente vira nas águas.
Os sábios que se dirigiram para o leste chegaram em nossa região de Dokham no inverno e observaram os telhados verdes e dourados do mosteiro de Kumbum. No povoado de Taktser repararam de imediato numa casa com azulejos turquesa. O líder perguntou se a família que ali morava tinha filhos, e lhe disseram que tinham um filho com quase dois anos.
Ao ouvirem essa informação significativa, dois membros da comitiva dirigiram-se, disfarçados, à casa, juntamente com um criado e dois funcionários monásticos locais que lhes serviam de guias. Um jovem funcionário monástico da comitiva principal, que se chamava Losang Tsewang, fingia ser o líder, ao passo que o verdadeiro líder, o Lama Kewtsang Rinpoche, do mosteiro de Sera, vestia-se com roupas pobres e agia como um criado. No portão, os desconhecidos foram recebidos por meus pais, que convidaram Losang a entrar na casa, acreditando ser ele o mestre, enquanto que o Lama e os demais eram recebidos nas acomodações dos criados. Lá estava o menino da família, que, assim que viu o lama, andou até ele e pediu para sentar em seu colo. O lama vestia uma capa forrada de pele de carneiro e ao pescoço trazia um rosário que pertencera ao Décimo Terceiro Dalai Lama. O pequeno pareceu reconhecer o rosário e o pediu para si. O lama prometeu que o rosário lhe seria dado se ele fosse capaz de adivinhar quem ele, lama, era. O menino respondeu que ele era Sera-aga, que significava, no dialeto local, "um lama de Sera". O lama perguntou quem era o mestre, e o menino pronunciou o nome Losang. Ele sabia também o nome do verdadeiro criado, que era Amdo Kasang.
O lama passou o dia inteiro observando o menino com crescente interesse, até a hora em que a criança foi para a cama. A comitiva toda pernoitou na casa e, na manhã seguinte, quando se preparava para partir, o menino levantou-se e insistiu em ir com eles.
Esse menino era eu.
Até então, meus pais não haviam desconfiado da verdadeira missão dos viajantes que acolheram. Porém, alguns dias depois, a comitiva completa de lamas graduados e altos dignitários empenhados na busca veio à nossa casa em Taktser. Ao verem o numeroso grupo de distintos visitantes, meus pais compreenderam que eu poderia ser uma reencarnação, pois há muitos lamas encarnados no Tibet, e meu irmão mais velho já havia provado ser um deles. Um lama encarnado morrera pouco tempo antes no mosteiro de Kumbum, de modo que meus pais pensaram que os visitantes pudessem estar à procura de sua reencarnação. Em nenhum momento lhes ocorreu que eu pudesse ser a reencarnação do próprio Dalai Lama.
É comum crianças que são reencarnações lembrarem-se de objetos e pessoas de suas vidas passadas. Algumas são capazes de recitar as escrituras, mesmo sem conhecê-las. Tudo o que eu dissera ao lama em sua primeira visita indicou-lhe a possibilidade de que houvesse finalmente encontrado a reencarnação que procurava. A comitiva voltou para fazer novos testes. Trouxeram consigo dois rosários pretos idênticos, um dos quais pertencera ao Décimo Terceiro Dalai Lama. Quando me ofereceram os rosários, peguei o que havia sido dele e — assim me contaram — coloquei-o em volta do pescoço. O mesmo teste foi feito com dois rosários amarelos. Depois me ofereceram dois tambores: um bem pequeno, usado pelo Dalai Lama para chamar seus assistentes, e um maior e bem mais ornamentado e atraente, com alças douradas. Escolhi o tambor pequeno e me pus a tocá-lo da maneira como os tambores são tocados durante as preces. Por fim, trouxeram duas bengalas. Eu estendi a mão para a bengala errada, depois parei e fiquei olhando para ela por algum tempo. Em seguida peguei a outra, que pertencera ao Dalai Lama, e segurei-a em minha mão. Estranharam minha hesitação, mas descobriram mais tarde que a primeira bengala também havia sido usada em certa época pelo Dalai Lama e que ele a dera a um lama, que, por sua vez, a presenteara a Kewtsang Rinpoche.
Depois desses testes ficaram ainda mais convencidos de que a reencarnação havia sido encontrada e sua convicção foi reforçada pela visão das três letras que o regente tivera no lago. Eles acreditavam que a primeira letra, Ah, representava a palavra Amdo, que era o nome do distrito onde morávamos. Ka poderia representar Kumbum, que era um dos maiores mosteiros dos arredores e aquele que o regente contemplara em sua visão. Ou talvez as duas letras Ka e Ma poderiam significar o mosteiro de Karma Rolpe Dorje, localizado na montanha acima do povoado.
Eles também consideraram significativo o fato de, alguns anos antes, o Décimo Terceiro Dalai Lama ter se hospedado no mosteiro de Karma Rolpe Dorje ao voltar de uma viagem à China. Ele fora saudado pelo lama encarnado do mosteiro e recebera homenagens e reverências das pessoas do povoado, entre as quais meu pai, que tinha nove anos na época. Foi também lembrado que o Dalai Lama deixara um par de botas no mosteiro. Ele contemplara durante algum tempo a casa onde eu nasci e afirmara que aquele era um belo lugar.
Levando em consideração todos esses fatos, a comitiva de busca ficou absolutamente convencida de que a reencarnação havia sido descoberta. Informaram por telegrama todos os detalhes a Lhasa e pela mesma via chegou a ordem para que eu fosse levado imediatamente à Cidade Sagrada.
No entanto, como a região nordeste do Tibet onde vivíamos estava àquela época sob controle chinês, era obrigatório que o governador chinês fosse consultado em primeiro lugar. A comitiva de busca disse-lhe que tinha vindo procurar o novo Dalai Lama e pediu seu apoio para levarem possíveis candidatos até Lhasa. Não contaram que acreditavam ter feito a escolha final temendo que ele pudesse criar dificuldades.
E, de fato, não houve resposta. Por duas vezes o governador convocou todos os meninos que haviam sido considerados e, embora fosse muçulmano, decidiu fazer seu próprio teste. Foi um teste muito simples. Ele ofereceu uma caixa de balas a todos nós. Alguns dos meninos estavam muito assustados para pegar uma bala sequer, outros foram tão gulosos que encheram a mão de balas, mas eu, segundo me disseram, peguei uma bala e a comi discretamente. Isso, além de umas poucas perguntas, convenceu-o de que eu era a escolha mais provável, pois mandou todas as outras crianças para suas casas, presenteando cada uma com um rolo de tecido para seus pais. Ordenou então aos meus pais que me levassem ao mosteiro de Kumbum e lá me deixassem a cargo de meu irmão — que já era um estudante monástico.
Consta que o governador exigiu então um resgate de cem mil dólares chineses dos representantes do governo tibetano para deixar que eu partisse. Era uma quantia muito alta e ele não tinha qualquer direito de reivindicá-la. Quando o dinheiro lhe foi entregue, ele pediu mais trezentos mil. Os representantes do governo argumentaram que não havia certeza de que eu fosse realmente a reencarnação e disseram haver outros candidatos de outras partes do Tibet. Eles temiam que o governador, ao julgar que eu iria ser aceito como o Dalai Lama, subiria seu preço ainda mais, causando um atraso maior. Temeram também que o governo chinês aproveitasse a oportunidade para exigir algum tipo de autoridade sobre o Tibet.
Essas dificuldades tinham que ser encaminhadas a Lhasa. Parecia insensato discuti-las por meio de telegramas que passariam obrigatoriamente através da China — por isso as mensagens eram entregues em mãos na capital. A resposta demorou vários meses e ao todo quase dois anos se passaram desde o início da busca até o fim das negociações com o governador.
Durante todo esse tempo foi mantido sigilo absoluto sobre o assunto não apenas por receio daquilo que o governador chinês pudesse fazer, mas porque a descoberta não havia sido submetida à consideração da Assembléia Nacional do Tibet para aceitação oficial. Nem mesmo meus pais foram comunicados da firme convicção da comitiva de busca e, durante o longo período de espera, eles jamais suspeitaram que eu pudesse ser a reencarnação do mais graduado de todos os lamas. Depois que cresci, no entanto, minha mãe me contou que houvera sinais anteriores de um destino extraordinário para mim. Existe uma superstição, bastante difundida no Tibet, que diz que, antes do renascimento de um graduado lama encarnado, seu distrito natal irá sofrer. Durante os quatro anos anteriores ao meu nascimento, as colheitas em Taktser foram desastrosas, quer devido a chuvas de granizo que destruíram o milho maduro, quer devido à seca. Isso fez com que os habitantes do povoado começassem a dizer que uma encarnação deveria estar para nascer entre eles. Minha família, particularmente, enfrentou tempos difíceis. Grande parte do nosso rebanho, um dos poucos bens valiosos que possuíamos, morreu sem que meu pai conseguisse descobrir o motivo. E durante alguns meses antes de meu nascimento meu pai esteve gravemente enfermo, incapaz de se levantar da cama. No entanto, na manhã do dia em que nasci, ele se levantou, sentindo-se perfeitamente bem, ofereceu preces e encheu de manteiga as lamparinas que sempre luziam no altar de nossa casa. Minha mãe tem lembrança do quanto se sentiu irritada com esse episódio, pensando que ele ficara na cama por indolência. Mas meu pai garantiu que estava realmente enfermo e que agora se sentia curado. Quando minha mãe lhe falou "É um menino", ele disse apenas: "Ótimo. Gostaria de fazer dele um monge."
Enquanto as discussões com o governador prosseguiam, fui deixado no mosteiro. Eu tinha três anos e, naturalmente, no início fiquei muito triste por me separarem de meus pais. Além de meu irmão mais velho Thubten Jigme Norbu, meu terceiro irmão Losang Samten, então com cinco anos, também estava lá, mas suas aulas haviam começado e, enquanto ele ficava com seu tutor, eu não tinha ninguém com quem brincar. Ainda me lembro de esperar impacientemente do lado de fora de sua sala de aula e de, às vezes, espionar por trás da cortina no portal, buscando chamar sua atenção, sem deixar que seu tutor me visse. Mas o tutor era severo e Samten nada podia fazer.
Um tio nosso também estava lá e sinto muito dizer que Samten e eu cultivávamos uma antipatia infantil por ele — principalmente, penso eu, por causa de seu rosto escuro cheio de manchas, da barba hirsuta e preta (o que é raro entre os tibetanos) e do bigode que ele alisava cuidadosamente com freqüentes aplicações de gordura. Além disso, ele estava quase sempre zangado conosco — provavelmente com alguma razão. Lembro-me de seu rosário excepcionalmente grande e pomposo, com contas bem escurecidas pelo uso constante. E lembro-me especialmente de sua coleção de escrituras em folhas soltas, pois certa vez tentei examiná-las e misturei-as todas, recebendo em troco sonoros tapas daquele tio zangado. Quando esse tipo de coisa acontecia, Samten e eu fugíamos e nos escondíamos, deixando o tio à nossa procura por horas a fio. Não tínhamos noção da intensa aflição que isso lhe devia causar, em vista do valor que o governador colocara em mim. Mas essas travessuras mostravam-se eficazes, pois quando nos descobria ele abria negociações visando a um melhor relacionamento no futuro e, se tivéssemos sorte, ele nos pacificava com balas — que nunca oferecia quando nos comportávamos bem.
No todo foi uma fase solitária e bastante infeliz da minha infância. Às vezes o tutor de Samten me punha no colo, me envolvia em seu hábito e me dava frutas secas. Esta é uma das poucas fontes de conforto de que me lembro. Minha irmã se lembra que um dos meus passatempos solitários era brincar de preparativos de viagem: fazer trouxas e com elas partir num cavalinho de pau.
Mas finalmente, no começo do sexto mês do Ano da Lebre da Terra, correspondente a 1939, chegou a hora de minha viagem real ter início. Os representantes do governo não conseguiram levantar os trezentos mil dólares em dinheiro, mas felizmente havia alguns mercadores chineses muçulmanos que queriam ir a Lhasa como primeira etapa de sua peregrinação a Meca que concordaram em emprestar o dinheiro que faltava, com a promessa de que lhes seria restituído em Lhasa. Nessa altura, o governador chinês concordou em me deixar partir com a condição de que um funcionário graduado ficasse como refém de uma coleção de escrituras manuscritas em ouro e de um conjunto de roupas do Décimo Terceiro Dalai Lama que ele exigia fossem enviados a Kumbum se eu chegasse em segurança a Lhasa. Foi feito o acordo, mas fico algo feliz em dizer que, após minha chegada a Lhasa, houve um distúrbio político em Dokham durante o qual o refém conseguiu fugir e chegar, ele também, a Lhasa em segurança.
Partimos uma semana após meu quarto aniversário, numa viagem que deveria durar três meses e treze dias. Para meus pais foi triste deixar para trás Taktser, sua casa, sua fazenda e seus amigos, sem saber o que o futuro nos reservava. Havia aproximadamente cinqüenta pessoas e trezentos e cinqüenta cavalos e jumentos na partida da caravana, incluindo os membros da comitiva de busca, minha própria família e o grupo de muçulmanos cuja peregrinação seria ainda mais longa. Meus pais levaram dois dos meus irmãos mais velhos — Gyelo Thondup, de nove anos, e Losang Samten, de seis. Não havia carroças ou coches com rodas no Tibet, nem estradas para esses veículos. Samten e eu fomos num coche chamado treljam, que é preso a dois paus e apoiado no lombo de dois jumentos. Nas partes acidentadas e perigosas do caminho, os membros da comitiva de busca revezavam-se para me carregar. Viajávamos apenas entre o amanhecer e o meio-dia, como é costume no Tibet. À noite acampávamos em tendas, pois havia pouquíssimas casas pelo caminho. No início da viagem, durante algumas semanas, não vimos ninguém, com exceção de alguns nômades que vieram me pedir que os abençoasse.
Assim que fiquei a salvo, fora do controle chinês, a Assembléia Nacional foi convocada em Lhasa para decidir sobre uma proclamação. Foi apresentado à Assembléia um relatório detalhado onde constavam as visões do regente, os testes a que fui submetido com sucesso e as indicações deixadas pelo Décimo Terceiro Dalai Lama do lugar onde queria renascer. Explicou-se também que a busca e a investigação foram feitas de acordo com as recomendações dos principais oráculos e lamas. Assim, finalmente, a Assembléia confirmou por unanimidade que eu era a reencarnação do Dalai Lama e funcionários superiores foram enviados para juntarem-se a mim no caminho.
Encontramos o primeiro desses funcionários à beira do rio Thutopchu, depois de quase três meses de viagem. Ele trazia consigo dez homens e cem fardos de provisões, além de quatro canoas de couro para que pudéssemos atravessar o rio com nossas provisões. A partir daí a caravana começou a aumentar.
Alguns dias mais tarde, cruzamos um desfiladeiro chamado Tra-tsang-la e chegamos à cidade de Bumchen, que distava de Lhasa quinze dias de caminhada. Lá, fomos recebidos por outro emissário do governo, que não apenas me fez o oferecimento de echarpes, símbolo universal de saudação no Tibet, como também do Mendel Tensum, uma oferenda tripla de reverência e homenagem. Foi neste momento que meu pai e minha mãe tiveram certeza de que seu filho mais novo era a reencarnação do Dalai Lama e sentiram uma imensa alegria, admiração, gratidão e, por um momento, incredulidade — a natural relutância em acreditar nas notícias especialmente boas.
Um pouco adiante, a dez dias de Lhasa, encontramos uma comitiva de cerca de cem homens e ainda mais cavalos e jumentos. O grupo era liderado por um ministro do Gabinete tibetano e incluía muitas autoridades e representantes dos três mais importantes mosteiros de Lhasa. Todos me ofereceram as tradicionais echarpes e o Mendel Tensum. Haviam trazido consigo uma proclamação, emitida com a autoridade do regente, do Gabinete e da Assembléia Nacional do Tibet, declarando ser eu o Décimo Quarto Dalai Lama. Despi, então, minhas roupas de camponês e fui vestido com o hábito monástico. Assessores do cerimonial foram colocados a meu dispor e daí em diante fui carregado em um palanquim dourado que nós, tibetanos, chamamos phebjam.
Desse ponto o cortejo prosseguiu numa escala mais grandiosa. Em cada cidade ou povoado por que passávamos, encontrávamos procissões de lamas e monges carregando emblemas e ornamentações. Os habitantes desses lugares juntavam-se também às procissões, enquanto soavam cornetas, flautas, tambores e címbalos, e nuvens de fumaça subiam dos queimadores de incenso. Todos, leigos ou monges, vestiam suas melhores roupas e, enquanto eu passava, a multidão me saudava com as mãos juntas e um sorriso feliz nas faces. Sentado em meu palanquim, lembro-me de ver pessoas chorando de alegria. Músicas e danças me acompanhavam por toda parte.
A localidade importante em seguida foi Dum Uma Thang. Lá, fui recebido pelo regente e pelo abade oficial do Tibet, e fizemos uma pausa na viagem, ficando por três dias no mosteiro de Rating. Mas a recepção oficial só atingiu seu clímax quando chegamos a Döguthang. Ali se apresentaram para me saudar todas as demais autoridades graduadas: o primeiro-ministro, os membros do Gabinete e os principais abades dos mosteiros de Drepung, Sera e Gaden — os três pilares do buddhismo no Tibet. Lá, fui saudado também pelo Sr. Hugh Richardson, chefe da missão britânica em Lhasa. Estávamos então bem próximos a Lhasa e um pouco adiante juntaram-se a nós os representantes do Butão, do Nepal e da China. Nesse ponto, nosso cortejo era enorme, e prosseguimos numa longa procissão rumo à Cidade Sagrada. Nos dois lados do caminho, milhares de monges se postavam em fileiras, carregando estandartes coloridos. Vários grupos tocavam instrumentos e cantavam canções de boas-vindas. Os soldados de todos os regimentos do exército tibetano estavam perfilados para me apresentar as armas. Toda a população de Lhasa, homens e mulheres, velhos e jovens, com suas melhores roupas, juntou-se para me dar boas-vindas e me homenagear. Enquanto me viam passar, podia ouvi-los exclamar: "O dia da nossa felicidade chegou." Senti-me como se vivesse um sonho: era como se estivesse num vasto parque coberto de lindas flores, onde sopravam brisas suaves e pavões dançavam elegantemente diante de mim. Havia um inesquecível aroma de flores silvestres e um clima de liberdade e felicidade no ar. Eu ainda não havia acordado desse sonho quando chegamos à cidade. Levaram-me ao templo, onde fiz humildes reverências ante as imagens sagradas. Em seguida, a procissão dirigiu-se ao Norbulingka, a residência de verão do Dalai Lama e fui conduzido, ainda sonhando, aos magníficos aposentos do meu antecessor.
Já fora decidido que a cerimônia do Sitringasol seria realizada logo após a minha chegada. Esta foi a solenidade de minha entronização no Trono do Leão. Aquele era o décimo quarto dia do primeiro mês do Ano do Dragão de Ferro, correspondente ao ano de 1940. A data fora marcada pelo regente, em consulta à Assembléia Nacional, de acordo com as recomendações dos astrólogos do Estado. Telegramas haviam sido enviados ao governo da China, ao governo britânico da Índia, ao rei do Nepal e aos marajás do Butão e do Sikkim, informando-lhes a data da entronização.
A cerimônia realizou-se no Si-Shi-Phuntsok (o Salão de Todas as Boas Ações dos Mundos Espiritual e Temporal), na ala leste do Palácio de Potala. Ali estavam reunidos os representantes diplomáticos dos países vizinhos, funcionários do governo tibetano (tanto leigos quanto monásticos), lamas encarnados, abades e abades assistentes dos três mosteiros de Drepung, Sera e Gaden, e os membros de minha família. Ao entrar no salão, fui recebido pelo regente, que era meu tutor sênior, e pelo meu tutor júnior, pelos membros do Gabinete, pelo abade oficial chefe e pelo ecônomo sênior. Também estavam presentes o Mestre dos Hábitos, o Mestre das Cerimônias Religiosas, o Mestre da Mesa e outros, representando as antigas regiões do Tibet. Todos os presentes se levantaram à minha entrada, e fui escoltado até o Trono do Leão pelo abade-chefe e pelo membro mais velho do Gabinete, enquanto o ecônomo sênior liderava o séquito.
O Sengtri (o Trono do Leão) foi preparado de acordo com as instruções das escrituras tibetanas. Era quadrado e feito de madeira folheada a ouro, sustentado por oito leões — dois em cada canto —, também esculpidos em madeira. Havia nele quatro almofadas quadradas, cada uma forrada em brocado de cor diferente, de modo que sua altura atingia cerca de dois metros. Sobre uma mesa à frente estavam dispostos todos os selos do cargo do Dalai Lama.
A cerimônia começou com a entoação de preces especiais por um grupo de monges que vivia no Potala e era especialmente incumbido de acompanhar o Dalai Lama a todas as cerimônias religiosas. Esses monges também fizeram oferendas de símbolos auspiciosos, entoando preces indicadoras de sua importância.
Então o regente se aproximou e apresentou-me o Mendel Tensum. Sua essência eram três oferendas simbólicas: uma imagem em ouro do Buddha da Vida Eterna, um livro de escrituras referente a este mesmo Buddha e um pequeno chöten — miniatura do tipo tradicional de memorial que é familiar aos viajantes no Tibet. Significavam um apelo a mim para que vivesse uma vida longa, para que elucidasse nossa religião e tivesse pensamentos iguais aos dos Buddhas.
Então, o regente, meu tutor júnior e o primeiro-ministro ofereceram-me echarpes. Eu abençoei o regente e meu tutor tocando suas testas com a minha. Abençoei o primeiro-ministro, que era um leigo, tocando sua cabeça com minhas duas mãos.
Em seguida, o ecônomo sênior conduziu uma procissão de criados que me traziam droma, uma erva adocicada, em uma pequena xícara sobre um pires, ambos em ouro. Foi oferecida por outros criados a todos os presentes no salão. Servi-la faz parte de todas as cerimônias no Tibet, é um símbolo de boa sorte. Seguiu-se uma cerimônia em que foi oferecido chá (primeiramente a mim e depois a todos os demais) e arroz-doce. No decorrer dessas cerimônias de oferendas, dois eruditos dos mosteiros debatiam questões religiosas fundamentais. Terminado o debate, um grupo de meninos fez uma apresentação de mímica acompanhada de música. Depois, mais uma vez, debateram-se questões religiosas e, enquanto o debate prosseguia, foi disposta no centro do salão uma oferenda com frutas frescas e secas e bolos tibetanos conhecidos como khabse.
Então o regente ofereceu o Mendel Tensum em nome do governo do Tibet. Seguravam esse elaborado emblema do universo, de um lado, um membro do Gabinete e, do outro, o abade oficial. O regente explicou a importância da oferenda e anunciou que, após uma longa busca, com o apoio dos oráculos e dos lamas graduados, eu estava sendo empossado pelo governo e pelo povo do Tibet como o governante espiritual e temporal do Estado. Finalmente ele me pediu para viver uma vida longa em prol da prosperidade do povo do Tibet e da propagação da religião. Seguiu-se uma extensa procissão de funcionários, tanto leigos quanto monásticos, trazendo-me presentes do governo do Tibet. Houve então a oferenda da Roda de Ouro e da Concha Branca, os símbolos do poder espiritual e temporal. Depois vieram oito símbolos de prosperidade e felicidade e sete símbolos de realeza. A procissão terminou com uma coleção de outros presentes.
Chegou então minha vez de abençoar a assembléia. Os funcionários do governo tibetano foram os primeiros a serem abençoados ao modo espiritual. A seguir foi a vez dos representantes estrangeiros, que me presentearam com echarpes. Estas foram pessoalmente devolvidas por mim aos representantes de maior eminência, e pelo ecônomo, aos demais. Vários tipos de frutas que haviam sido colocadas diante de mim no centro do salão foram-me então oferecidas e depois distribuídas aos presentes. Seguiu-se outra apresentação de mímica. Depois disso, entrou uma procissão com pessoas usando máscaras e mantos representando os deuses e deusas dos oceanos e dos céus, entoando canções em louvor ao nosso país. Em seguida entraram quatro dançarinos mascarados representando os antigos acharyas indianos, e dois monges graduados narraram os melhores anos da história do Tibet e de sua religião. Seguiu-se mais uma apresentação de mímica. A cerimônia terminou com dois monges recitando versos compostos por eles, orando por uma vida longa para o Dalai Lama, pela vitória da religião em todo o mundo e pela paz e prosperidade de todos os seres sob a autoridade do governo do Dalai Lama. Eu dei bênçãos especiais a esses dois monges eruditos e lhes ofereci echarpes como agradecimento por seus versos.
Com isso, encerrou-se a cerimônia. Ela foi muito longa e fiquei sabendo que todos os presentes se sentiram satisfeitos em ver como, embora muito criança, eu tinha sido capaz de desempenhar meu papel com dignidade e tranqüilidade. De lá fui encaminhado ao Phuntsok Doe-Khyel (a Câmara das Boas Ações dos Desejos), onde me esperavam todas as autoridades que haviam me acompanhado ao salão da entronização. Todos os selos do meu cargo me foram apresentados e neste momento exerci meu primeiro ato simbólico de soberania: coloquei os selos em documentos transmitindo ordens aos mosteiros.
Assim, quando tinha quatro anos e meio, fui reconhecido oficialmente como o Décimo Quarto Dalai Lama, o governante espiritual e temporal do Tibet. Para todos os tibetanos o futuro parecia feliz e seguro.(Dalai Lama. Minha Terra e Meu Povo. Rio de Janeiro: Sextante, 2001. Para adquirir o livro, clique aqui.)
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