Chagdud Tulku Rinpoche


"Quando um grande mestre morre, segue-se um período em que bênçãos descem sobre quem quer que as peça com devoção. Este é o momento de rezar para que as suas aspirações mais elevadas se realizem."

— Sua Eminência Chagdud Tulku Rinpoche

Esta transmissão foi dada por ocasião do Parinirvana de um grande lama. O Rinpoche deu seu último suspiro durante a madrugada de domingo, dia 17 de novembro, no Khadro Ling, Brasil.

— Chagdud Khadro


Release de Imprensa do Chagdud Gonpa Brasil para a Mídia Brasileira
A Morte de Sua Eminência Chagdud Tulku Rinpoche

23 de novembro de 2002

O filho de Sua Eminência Chagdud Tulku Rinpoche, o Lama do Budismo Tibetano recentemente falecido, chegou da Califórnia para conduzir cerimônias tradicionais para seu pai. Jigme Tromge Rinpoche, 38, é o líder espiritual de um centro budista em Sebastopol na Califórnia.

Chagdud Rinpoche morreu do coração nas nas primeiras horas da manhã de domingo, 17 de novembro, em seu quarto no Khadro Ling, seu principal centro no Brasil. Além de seu filho, Rinpoche deixou esposa, Chagdud Khadro, 55, filha, Dawa Tromge, 32 e uma meia-irmã, Trinley Wangmo, que mora no Tibete oriental.

Jigme Rinpoche (em tibetano, Rinpoche é um título que significa "mestre precioso") vai conduzir no Brasil as cerimônias tibetanas tradicionais para o falecimento de um mestre de meditação. Ele conduzirá essas cerimônias com a ajuda de outros lamas tibetanos, dois dos quais, Lama Chodrak Gyatso e Lama Sonam Tsering, vieram dos Estados Unidos e já chegaram no Brasil. As cerimônias também estarão acontecendo nos Estados Unidos, Tibete, Nepal, Índia, Suíça e França, nos monastérios e centros budistas que eram coordenados por Chagdud Rinpoche ou associados a sua tradição, que é a Nyingmapa, ou "Escola Antiga" do Budismo Vajrayana.

A respeito da morte de seu pai e das cerimônias que serão realizadas, Jigme Rinpoche declarou:

Meu pai sofre de problemas cardíacos há bastante tempo. Nos últimos anos, ele esteve sob os cuidados de um excelente cardiologista em São Paulo. No entanto, nos últimos meses ele previu que este seria o período final de sua vida. Cancelou uma viagem aos Estados Unidos e, ao invés disso, entrou em um retiro muito restrito aqui no Khadro Ling. Insistiu em marcar ensinamentos sobre a transferência da consciência no momento da morte, e esses foram os ensinamentos que deu, até às 21h na noite anterior a sua morte.

No sábado à tarde, 16 de novembro, eu recebi um telefonema na Califórnia e me disseram que o Rinpoche teria dito: "Eu estou indo". Por um momento, fiquei chocado pois interpretei a mensagem como se ele estivesse se referindo à morte. No entanto, a pessoa que recebeu a ligação interpretou as palavras do Rinpoche como se ele estivesse indo ver seu cardiologista em São Paulo. Eu relaxei um pouco mas, na verdade, ele realmente acabou indo na manhã do domingo, por volta das 4h15min da manhã, quando seu coração parou.

Depois de seu último suspiro, meu pai permaneceu em um estado de meditação por quase seis dias que impediu que seu corpo entrasse em processo de deterioração. A habilidade em permanecer neste estado de meditação após a respiração parar é muito conhecida entre grandes mestres tibetanos, mas as circunstâncias necessárias que permitem que isso ocorra no Ocidente são raras. Chagdud Rinpoche permaneceu sentado em uma posição natural de meditação com pouquíssimas alterações visíveis em sua cor ou expressão. Durante este tempo ninguém tocou seu corpo.

Até o sexto dia, sexta-feira, dia 22 de novembro, Rinpoche ainda não tinha nenhum sinal físico que sua meditação teria acabado. Neste meio tempo, estávamos em constante contato com um advogado e outras autoridades sobre os costumes e leis locais. No meio do dia de sexta-feira sua meditação cessou e sua mente separou-se do corpo. Em poucas horas, sua aparência mudou e ele começou a apresentar os primeiros sinais que surgem nas primeiras 24 horas após a morte.

Oficiais da vigilância sanitária inspecionaram o corpo e uma empresa de serviços funerários o transportou até o local onde ele será embalsamado. Assim que todas as providências forem tomadas, seu corpo será levado para o Nepal, onde Chagdud Rinpoche tem um centro. Extensivas cerimônias vão ser realizadas por muitos lamas elevados. Elas continuarão por sete semanas após a morte do Rinpoche, até 5 de Janeiro de 2003. Daqui a algum tempo, cerimônia acompanhadas por pessoas de todo o mundo serão realizadas e o Rinpoche será cremado. As leis do Nepal permitem este adiamento na cremação.

Todas as cerimônias tibetanas têm o mesmo objetivo principal, que é o de purificar as falhas e obscurecimentos que encobrem a pureza natural de nossa mente e de gerar o mérito que aumenta a paz e o bem-estar de todos os seres vivos. As cerimônias fúnebres refletem esta mesma intenção de uma maneira bastante intensa. Para muitas pessoas, a turbulência do momento da morte pode fazê-los esquecer seu refúgio espiritual, seja ele budista, cristão, judeu ou de qualquer outra tradição espiritual.

Por esta razão, seus amigos e familiares procuram a orientação dos lamas, padres e pastores que são treinados nas orações e meditações que darão suporte à pessoa falecida em sua transição. Da mesma forma, na maioria das tradições se oferece luz, sejam lamparinas ou velas, que simbolizam a claridade que supera a escuridão. Também fazemos oferendas em nome do falecido. No Tibete, essas oferendas serão dadas aos monastérios. No Ocidente, as oferendas serão doadas a projetos de caridade.

As cerimônias fúnebres feitas para um mestre espiritual como meu pai têm objetivos semelhantes, mas são diferentes no sentido de que não são realizadas para este benefício específico. Sua Eminência Chagdud Rinpoche é capaz de direcionar completamente sua própria mente durante a transição da morte e seu vasto mérito é refletido por tudo que ele foi capaz de realizar. Particularmente no Brasil, ele construiu o primeiro templo tibetano na América do Sul, com belíssimos trabalhos de arte e decoração tradicional. Até mesmo o enorme tambor, feito no Brasil, seria o mesmo encontrado no Tibete.

Rinpoche também deixou um legado de estudantes bem treinados. Ele ordenou três brasileiros como lamas, como forma de reconhecimento de sua capacidades de ensinar e treinar estudantes. Seu principal cantor, um brasileiro de 17 anos, tem uma voz notável, com o som e timbre de um cantor tibetano. Rinpoche também treinou seus estudantes na arte e nos rituais. E, acima de tudo, estabeleceu muitos brasileiros no caminho espiritual. A paz interna e o insight da meditação que encontram em suas próprias vidas aumentam o bem-estar de suas famílias, amigos e conhecidos. A intenção máxima de nossa prática espiritual é beneficiar todos os seres, próximos e distantes, amigos e inimigos, sem nenhuma distinção.

Portanto, quando realizamos as cerimônias para o Rinpoche, invocamos suas bênçãos e as de todos os seres de sabedoria, em todos os reinos de existência, para que se dê continuidade às realizações do Rinpoche nesta vida. Pedimos que suas bênçãos e nossas preces se unam para que nossas aspirações espirituais sejam alcançadas.

A morte do Rinpoche foi uma rara e preciosa demonstração de uma meditação muito elevada. O estado que ele alcançou após sua última respiração é o tipo de evento espiritual que se tornaria fonte de lendas no Tibete. É maravilhoso que este fato tenha ocorrido no Brasil. Rinpoche escolheu vir para este país porque percebeu o enorme potencial espiritual contido em muitos brasileiros. Acredito que sua forma de morrer foi o seu último ensinamento espiritual aos estudantes e amigos que ele encontrou aqui.

A generosidade dos brasileiros tem se mostrado óbvia não só pelas oferendas para as lamparinas e cerimônias, mas também pela consideração oferecida a nós pelas autoridades com quem tratamos. Nós estamos profundamente agradecidos pela tolerância religiosa no Brasil. Como seu filho e aluno devoto, eu tenho muita gratidão ao Brasil e espero que uma infinidade de bênçãos cheguem a este país. E eu me comprometo a continuar o seu trabalho aqui.


Carta de Chagdud Khadro para a Sangha

Querida Sangha,

26 de novembro, 2002

A inspiração diante da maestria com que o Rinpoche lidou com o “pós-morte”, aliada à perda de sua presença física, a nós tão cara, deixa-nos sem saber o que dizer e o que pensar. Nesses dias que se seguiram ao falecimento, nós aqui no Brasil fizemos tudo o que estava ao nosso alcance para cumprir os desejos manifestos do Rinpoche e criar uma interdependência para a expansão de suas atividades em seu próximo nascimento. Em função da impossibilidade de realizar as cerimônias tradicionais para altos lamas de forma completa no Brasil, decidimos que o kun dung do Rinpoche (expressão honorífica: literalmente “corpo frontal” em tibetano, empregada apenas no caso de falecimento de altos lamas) será levado para seu centro de retiro em Parping, no Nepal. As pujas de 49 dias iniciadas nos centros do Rinpoche no Ocidente continuarão até domingo,5 de janeiro, no Nepal. Esperamos que o maior número possível de membros da sangha venha a se juntar a nós nesse período.

O filho do Rinpoche, Jigme Tromge Rinpoche, e também Lama Sonam Tsering, Lama Chokdrag Gyatso, Lama Jigme, Lama Sherab, Lama Tsering e Lama Norbu vêm compartilhando conosco sua sabedoria espiritual e seus conselhos práticos. O Rinpoche ficou em um estado ininterrupto de meditação por quase seis dias inteiros, algo que as circunstâncias no Ocidente raramente permitem. Ele permaneceu sentado em uma postura natural de meditação, igual a de uma pessoa viva, com muito pouca alteração de cor ou expressão, e nenhuma deterioração perceptível do corpo. A impressão que se tinha é que ele estava repousando, e que poderia acordar a qualquer momento. Durante esse tempo ninguém tocou em seu corpo. Meditar em sua presença era uma experiência indescritível.

Como muitos de vocês sabiam, há muito tempo o Rinpoche convivia com sérios problemas cardíacos. Nos últimos meses ele percebeu, em sua presciência, que estava entrando na transição que marca o final da vida. Comparando agora conversas que tivemos com ele, muitos de nós nos damos conta que ele nos deu muitas deixas, que nos passaram despercebidas. Ele também cancelou uma viagem que faria aos Estados Unidos, para ficar em retiro estrito no Khadro Ling. Contudo, ele insistiu que fosse programado um treinamento sobre transferência da consciência na hora da morte (p’howa), que ele ministrou até às 21 horas, na noite anterior ao seu falecimento.

Na tarde de sábado, 16 de novembro, Jigme Rinpoche recebeu uma chamada telefônica na Califórnia e foi informado de que o Rinpoche havia dito, “Vou estar partindo.” Por um momento Jigme Rinpoche ficou chocado; depois, a pessoa que o chamava interpretou as palavras como querendo dizer que o Rinpoche partiria em viagem para ver seu cardiologista. Jigme Rinpoche se tranqüilizou um pouco, mas Rinpoche de fato partiu na manhã seguinte, por volta das 4:15 horas, vitimado por uma falência cardíaca.

Assim que as sanghas foram informadas, uma torrente de amor, devoção e oferendas jorrou em direção ao Khadro Ling e ao Rigdzin Ling. A comunidade budista do Chagdud Gonpa, com sua enorme apreciação pela sabedoria do Rinpoche e também pelas suas cativantes qualidades humanas, tem compartilhado a dor dessa passagem. Essa dor seria forte demais para qualquer um de nós, isoladamente, suportar.

Após o Parinirvana de um grande mestre, cerimônias são realizadas para assegurar o mérito que permitirá a continuidade de suas atividades e a interdependência para um renascimento bem-afortunado. Embora tivéssemos a aspiração de conduzir todas essas cerimônias no Brasil, a presença de muitos grandes lamas no Nepal e outros fatores acabaram por nos levar a uma decisão unânime de remover o corpo de avião para o Nepal. O Rinpoche sempre viajou muito, e parece que esse padrão não se alterou.

No momento, temos tido que improvisar nossos planos de viagem e a logística a ser seguida no Nepal. Estamos aguardando a documentação do translado para o kun dung do Rinpoche e estaremos provavelmente chegando no Nepal com o kun dung às 14:40 horas de sábado, 30 de novembro. Jigme Rinpoche pede que as pessoas se juntem ao vôo, se de fato estivermos nele, mas que confirmem a data e os horários com a Kim no Rigdzin Ling ou com a Drica aqui. Estamos planejando ter como ponto de encontro o Hotel Norbu Sangpo em Boudhanath (fone: 977-1477301, fax: 977-1-492816); depois talvez aluguemos uma casa em Parping para estarmos mais próximos do centro de retiro onde as cerimônias serão conduzidas até o 49º dia. Uma outra alternativa é alugarmos um microônibus para nos transportar. Sem dúvida, é uma boa idéia trazer sacos de dormir e colchonetes.

Muitos de vocês têm indagado sobre os retiros de dzogchhen que são realizados todos os anos no Khadro Ling. A última semana das cerimônias que serão realizadas para o Rinpoche (28 de dezembro a 5 de janeiro) incluirão um drubchöd de Tara Vermelha, que será liderado pelos nossos três novos lamas brasileiros, Lama Sherab (Andrea), Lama Rigdzin (Chris) e Lama Yeshe (Sônia). Essa prática conduzirá aos retiros formais que ocorrerão em três segmentos: 1) O primeiro segmento se destina a praticantes do ngondro e a pessoas que estejam se dedicando a outras acumulações. 2) O segundo segmento se destina a praticantes de t’hregchöd que tenham concluídos suas acumulações do ngondro, que tenham recebido iniciação para a prática de dzogchhen e instruções sobre a natureza da mente de uma lama qualificado, e que desejam fazer práticas apoiados por uma estrutura com sessões programadas e pela presença de outros praticantes. Não serão ministrados ensinamentos sobre dzogchhen, mas à noite eu e os demais lamas presentes faremos palestras sobre Guru Yoga. 3) O terceiro segmento se destina a praticantes que tenham recebido a iniciação específica para a prática do “terceiro ano” e que tenham completado as práticas preliminares de dzogchhen (o retiro das práticas preliminares de dzogchhen, comumente chamado de “segundo ano”, está suspenso). Repetimos que não serão dados ensinamentos, mas o Khadro Ling oferece circunstâncias favoráveis para práticas intensas de terceiro ano.

Mais informações sobre o drubchöd de Tara Vermelha e os retiros de janeiro estarão em breve disponíveis na Internet, ou poderão ser obtidas telefonando para aqui ou para o Rigdzin Ling.

Não tenho palavras para expressar minha apreciação diante do carinho manifestado por todos vocês nesse momento presente. Mas tenho um pedido a fazer. Muitos de vocês têm histórias preciosas sobre suas interações com o Rinpoche. Se encontrar um tempo, peço que as escrevam e enviem para Lama Sherab no Khadro Ling <chagdud@terra.com.br>. Espero que possamos coletar uma série de pequenos relatos (500-700 palavras). Mais tarde poderemos reuni-los em um livro. Mas não esperem muito para escrever sua história: a memória não costuma melhorar com o passar do tempo!

Com amor e respeito pela sangha,

Chagdud Khadro


Solidariedade das Outras Sanghas


Sua Eminência o 16° Chagdud Tulku Rinpoche,
Padma Gargyi Wangchuk (1930-2002)

Chagdud Tulku Rinpoche nasceu no Tibet oriental em 1930 e começou o seu treinamento espiritual muito jovem. Após terminar o seu primeiro retiro de três anos num mosteiro Drugpa Kagyü, Rinpoche completou seu estudo em sua posição no Chagdud Gonpa.

Muitos grandes lamas enriqueceram o treinamento de Rinpoche em sua juventude. Ele reverenciava particularmente Shechen Kongtrül, que lhe deu seus primeiros ensinamentos de Dzogchen (Grande Perfeição) e Tromge Trungpa, que o conduziu em direção à prática de Tara. Chagdud Rinpoche encontrou seu professor-raiz, o grande lama Nyingma, Khenpo Dorje, quando ele estava nos seus vinte anos. Dali em diante, ele tomou iniciações e ensinamentos de Sua Santidade Dudjom Rinpoche e de Sua Santidade Dilgo Khyentse Rinpoche.

Quando os comunistas invadiram o Tibet em 1959, Chagdud Rinpoche fugiu para a Índia e então para o Nepal. Nos vinte anos seguintes, ele trabalhou pelo bem-estar de refugiados tibetanos, fazendo o que podia para ir ao encontro das suas necessidades espirituais e materiais. Ele foi amplamente conhecido por suas habilidades curativas e treinou muitas pessoas na técnica de p'howa, a transmissão da consciência no momento da morte.

Rinpoche foi para os EUA 1979 e estabeleceu sua residência em Cottage Grove, Oregon. Ele continuou a viajar e ensinar nos EUA e em outros países. Ele mantém retiros de meditação em Oregon; em Ati Ling, seu centro de retiro em Napa, Califórnia; e através do ocidente. Em 1982, Rinpoche iniciou a Mahakaruna Foundation, que provê assistência a refugiados tibetanos.

Sua primeira visita ao Brasil foi em 1991. Bem impressionado com a receptividade, fé e espiritualidade que aqui encontrou, Rinpoche incrementou a freqüência de suas visitas ao país e, em 1995, a pedido de seus alunos brasileiros, transferiu-se formalmente para a cidade de Três Coroas (RS), sendo o primeiro mestre tibetano a fazer da América Latina sua residência permanente.