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Textos | Morte e a Arte de Morrer
Bokar Rinpoche nasceu de uma família de pastores nômades do Tibet, no ano de 1940. Foi reconhecido aos quatro anos de idade como o tülku do anterior Bokar Rinpoche, pelo 16º Karmapa, e estudou nos monastérios de Bokar e Tsurph'u. Em face da invasão chinesa do Tibet, deixou sua terra natal aos 20 anos e tornou-se discípulo do grande yogi e mestre tibetano Kalu Rinpoche, completando, sob sua direção, duas vezes o tradicional retiro de três anos, no monastério de Sonada, na Índia. Por suas notáveis qualidades e profunda e autêntica realização, sucedeu a Kalu Rinpoche como chefe da linhagem Shangpa Kagyü, uma das oito grandes linhagens originais pelas quais o buddhismo passou da Índia para o Tibet. Fundou em Mirik o seu próprio monastério, próximo ao de Kalu Rinpoche, especialmente destinado à prática de Kalachakra. É considerado, hoje, um dos principais mestres de meditação da linhagem Kagyü, tendo sido escolhido por Kalu Rinpoche para dirigir os centros de retiro de Sonada, e por S.S. o 16º Karmapa para dirigir o centro de retiro de Rumtek, no Sikkhim, nova sede dos Karmapas.
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O termo tibetano bardo pertence ao vocabulário do tempo. Designa um intervalo temporal marcado por um início e um fim definidos: uma conferência, por exemplo, começa em um ponto preciso do tempo e termina em outro ponto preciso. O tempo de seu transcurso poderia receber a denominação de bardo. Assim, o termo não se aplica apenas à morte, mas a toda experiência ou a todo fenômeno cujos limites temporais são definíveis, de duração longa ou breve. O tempo de um estalar de dedos poderia muito bem caber nessa definição. Elaborar a lista dos bardos desembocaria num enunciado sem fim. Por comodidade, restringimos seu número a algumas grandes categorias, duas, quatro ou seis, segundo as abordagens.
Vejamos aqui o que são os seis bardos:
- O bardo do nascimento à morte, que se interrompe aos primeiros sinais da agonia;
- O bardo do sonho, delimitado entre o momento em que adormecemos e aquele em que despertamos;
- O bardo da concentração: do início ao fim de uma meditação.
Esses três primeiros bardos pertencem à vida presente.
- O bardo do momento da morte: do início do processo da morte até a morte efetiva.
- O bardo da natureza em si: do momento da morte até o aparecimento das divindades no estado post-mortem.
- O bardo do vir a ser: do fim do precedente até o nascimento.
Esses três últimos constituem os bardos da morte.
A essência da mente de todos os seres é o que denominamos a Essência do Despertar. Deste ponto de vista, que é o da verdade última, não existe bardo. No entanto, não temos conhecimento desse modo de ser último, e é por isso que se produzem todos os tipos de manifestações ilusórias sobre o modo relativo, dentre os quais os seis bardos, fonte de inumeráveis sofrimentos. Os ensinamentos do Buddha visam dissipar esse tipo de experiência errônea e os sofrimentos que dela decorrem.
Esses ensinamentos ressaltam a importância primordial de ter uma prática espiritual durante os três bardos desta vida. Uma sólida base espiritual desenvolvida a partir de agora torna mais fácil a passagem pelos três bardos da morte.
Melhor ainda, a realização do modo de ser da mente tornará vão o aparecimento dos três bardos da morte. Nesse caso, é um pouco como tomar um elevador para subir à cobertura de um imóvel: apertamos o botão e não necessitamos parar nos andares intermediários. Mesmo que essa realização não seja alcançada, o desenvolvimento espiritual adquirido nesta vida tornará mais fácil a experiência dos bardos da morte, permitirá eventualmente reconhecer sua natureza e libertar-se dela.
Os seis bardos não são seis domínios existindo independentemente de nós mesmos. Eles estão ligados à nossa mente, que vive no erro. Sua manifestação procede de nossa mente. É nossa mente que reconhece seu caráter enganador e deles se liberta.
A maneira como são vividos os seis bardos depende unicamente de nossa mente, pois que são o reflexo da mente. Suponhamos uma casa composta de seis cômodos. As paredes de cada um dos cômodos são recobertas de espelhos. Um homem habita essa casa. Ele é sujo, hirsuto, esfarrapado, trejeitador. Ele passa de um cômodo a outro, mas os espelhos sempre lhe retornam a mesma imagem, a de um homem sujo, hirsuto, esfarrapado e trejeitador. Da mesma forma, quando nossa mente está marcada por muito karma negativo cada um dos seis bardos retorna-lhe o sofrimento como um reflexo. O habitante da casa pode — ao contrário- ser limpo, bem vestido, sorridente. Passando de um cômodo a outro, ele vê em toda parte um rosto claro e sorridente. A casa é a mesma, mas não há mais nenhuma feiúra nem visões apavorantes. Em vez disso, uma visão agradável e tranqüila. Quando nossa mente está livre do karma negativo e das paixões que a perturbam, os seis bardos retornam-lhe também uma imagem semelhante a si mesma, cheia de paz e felicidade.
Agradáveis ou desagradáveis, as aparências não dependem dos seis cômodos, que são neutros. O indivíduo que neles se encontra os impregna com sua própria natureza. Do mesmo modo, as experiências errôneas dos seis bardos não dependem dos bardos, mas de nossa própria mente.
Vejamos o processo dos três bardos da morte.O bardo do momento da morte
Nosso corpo é composto dos quatro elementos, repartidos da seguinte maneira:
- a carne, os ossos, os constituintes sólidos formam o elemento terra;
- o sangue, a fleuma, os diferentes líquidos formam o elemento água;
- a temperatura forma o elemento fogo;
- o processo respiratório forma o elemento ar.
No momento da morte, esses elementos reabsorvem-se uns nos outros, dando lugar a uma dupla série de fenômenos, exteriores e interiores.
Em primeiro lugar, o elemento terra reabsorve-se no elemento água. Exteriormente, os membros tornam-se incapazes de mover-se. Interiormente, a mente vê como miragens.
O elemento água reabsorve-se em seguida no elemento fogo. Exteriormente a boca e a língua tornam-se secas. Interiormente, percebemos fumaças que passam ou que se elevam.
Quando o elemento fogo reabsorve-se no elemento ar, exteriormente o calor abandona os membros, das extremidades em direção ao centro. Interiormente surge um grande número de faíscas.
Depois o elemento ar reabsorve-se na consciência individual. Exteriormente, a respiração cessa. Interiormente vemos como chamas de lamparinas à base de manteiga que bruxuleiam.
A esse processo de reabsorção gradual dos quatro elementos sucede o processo dos três caminhos, concomitante com uma fase denominada aparição-extenção-obtenção.
Antes de tudo, a consciência individual reabsorve-se na aparição. No mesmo momento o thigle [gota de energia sutil] branco do princípio masculino, situado no alto da cabeça, desce até o coração. Essa fase é denominada o caminho branco. Interiormente, uma grande luminosidade branca invade a mentes.
Em segundo lugar, a aparição reabsorve-se na extensão. O thigle vermelho do princípio feminino, situado na base do tronco, sobe até o coração. É o caminho vermelho, caracterizado pela manifestação de uma grande luminosidade vermelha.
Enfim, o princípio masculino branco e o princípio feminino vermelho juntam-se no coração. É o caminho negro. A mente, por um instante, faz a experiência da vacuidade, depois cai na obscuridade.
Essas descrições técnicas dos diferentes fenômenos que se manifestam no momento da morte não têm apenas um valor documentário. Se, com efeito, não temos nenhum conhecimento do processo de reabsorção dos elementos uns nos outros, e da sucessão dos três caminhos, sua aparição pode nos deixar desamparados e causar-nos muito pavor. Ter um certo conhecimento disso desde já é estar prevenido e, portanto, não ser arrebatado pelo medo do desconhecido.
Podemos também ir mais longe, desenvolvendo uma compreensão mais profunda. Com efeito, para além de sua manifestação, esses fenômenos têm uma essência pura à qual podemos nos referir.
Os quatro elementos têm por essência pura as "quatro deusas". No momento do desenvolvimento dos fenômenos causados pela reabsorção dos elementos, pensamos que esses fenômenos são a manifestação das quatro deusas:
- Buddhalochana: o elemento terra;
- Mamaki: o elemento água;
- Pandaravasini: o elemento fogo;
- Samayatara: o elemento ar.
Essas quatro deusas existem naturalmente na mente desde sempre. Saber reconhecer sua expressão é também escapar do medo.
Se essas noções de deusas são para nós difíceis de aceitar ou de assimilar, podemos desenvolver uma abordagem diferente pensando: "Os fenômenos que agora se produzem são manifestações ilusórias de minha mente. Eles não existem em si mesmos, são apenas uma produção de minha mente".
Os três caminhos têm igualmente por essência pura os três Corpos de Buddha:
- o caminho branco: o Corpo de Manifestação [sânsc. nirmanakaya];
- o caminho vermelho: o Corpo de Glória [sânsc. sambhogakaya];
- o caminho negro: o Corpo Absoluto [sânsc. dharmakaya].
Eles não são, portanto, apavorantes em si mesmos.
Se, além disso, temos agora uma boa prática do mahamudra, reconheceremos o fim do caminho negro como sendo a manifestação da "clara luz fundamental". Reconhecer essa clara luz fundamental é "tornar-se Buddha no Corpo Absoluto do momento da morte". Dizemos ainda que é ser "liberto enquanto Buddha no primeiro bardo". Quando o Despertar é assim alcançado, o bardo não prossegue.
Se, em contrapartida, a clara luz fundamental não é reconhecida, a mente mergulha num estado de profunda inconsciência, de uma duração variável, mas fixada, em regra geral, em três dias e meio.
O conjunto do período que se estende desde o começo da dissolução dos elementos até o fim dos três dias e meio de inconsciência constitui o bardo do momento da morte.
Pergunta: Quando se diz que os elementos "reabsorvem-se" uns nos outros, o que significa aqui "reabsorver-se"?
Resposta: "Reabsorver-se" significa, nesse caso, que a energia que rege cada um dos elementos deixa de ser funcional e reabsorve-se na energia do elemento seguinte.
Esse processo de reabsorção dos quatro elementos não ocorre apenas no momento da morte, mas também, de maneira extremamente sutil, quando, por exemplo, dormimos ou quando um pensamento desaparece da mente.
Pergunta: Vimos que na seqüência da reabsorção dos quatro elementos desenvolvia-se um outro processo sutil, denominado "aparição-extenção-obtenção". Por que esses termos são utilizados? Trata-se da aparição, da extensão e da obtenção da clara luz?
Resposta: Não, não exatamente. Esses termos não são utilizados para descrever o processo de nascimento ou de cessação de um estado mental, seja no momento da morte ou em outras circunstâncias, como o sono ou o pensamento. Conforme se trate de uma cessação ou de um começo, há dois sistemas:
- o sistema progressivo, quer dizer, o movimento do exterior para o interior;
- o sistema regressivo, quer dizer, o movimento do interior para o exterior.
No momento da morte, é o sistema progressivo que entra em jogo.
O sistema regressivo é ilustrado pelo processo de acordar. Durante o sono profundo, a consciência é absorvida no potencial de consciência. Todas as consciências — visual, auditiva, olfativa, gustativa, tátil e mental — então, em estado latente. Quando despertamos, elas saem desse potencial. O instante preciso em que, abandonando a virtualidade, elas põe-se em funcionamento, corresponde à aparição. É o primeiro instante de seu funcionamento, antes mesmo da percepção de um objeto. A segunda fase, a extensão, corresponde ao momento em que, por intermédio do olho — se tomamos o exemplo da consciência visual — uma forma é vista pela consciência visual. Esta fase é denominada extensão, pois marca um aumento da experiência cuja aparição era o começo. É o segundo instante dessa experiência. Enfim, vem a identificação do objeto percebido, por exemplo: "Isto é um copo". É a obtenção.
Esse sistema regressivo aplica-se tanto ao nascimento de um indivíduo quanto à concepção de um pensamento.
O sistema progressivo, aquele que vimos para a morte, é também ilustrado pelo adormecimento. Se representamos o exemplo do copo, a percepção do copo é a aparição. Quando, em razão da chegada do sono, ele cessa de ser percebido, diz-se que a aparição reabsorve-se na extensão. Depois, quando nos aprofundamos mais no sono, a extensão reabsorve-se na obtenção. A extensão enceta o processo de absorção no potencial de consciência. Quando a absorção é concluída é "a obtenção-clara luz", ou ainda "a clara luz do modo de ser fundamental". De fato, ela só é verdadeiramente a clara luz se é identificada. Caso contrário, é simplesmente a ignorância, a obscuridade inconsciente.Pergunta: Vimos que existe uma relação entre as três fases aparição-extensão-obtenção e os três Corpos do Despertar. Como ela explicita-se?
Resposta: A aparição equivale ao caminho branco. Quando ele não é reconhecido pelo que ele é na realidade, é percebido como uma experiência de cessação da produção de agressividade no mental. Se reconhecemos sua essência, é o Corpo de Emanação.
A extensão equivale ao caminho vermelho. Se ele não é reconhecido, é percebido como uma experiência de cessação da produção de desejo-apego. Sua essência é o Corpo de Glória.
A obtenção equivale ao caminho negro. Não reconhecido, é percebido como uma experiência de suspensão da produção de opacidade mental. Sua essência é o Corpo Absoluto, que designa também a expressão "clara luz fundamental".
Às três fases previamente citadas, acrescentamos, às vezes, uma quarta, denominada "total obtenção". Este termo significa que é reconhecida a essência do caminho negro. Ele se refere, portanto, à experiência da clara luz. Obtenção e total obtenção possuem um sentido quase idêntico, a não ser pelo fato de que o primeiro situa-se no instante precedente do reconhecimento da clara luz, enquanto o segundo no instante que o segue.Pergunta: O que é a clara luz?
Resposta: A clara luz é permanecer no modo de ser da mente, permanecer em sua essência sem ser iludido pelos pensamentos. Quando, durante a meditação, mantemos a mente em sua própria essência, isto é a "clara luz do caminho". No momento da morte, após a aparição-extenção-obtenção, aparece a "clara luz fundamental".
Se reconhecemos esta última, dizemos então que a clara luz filhe e a clara luz mãe encontram-se, o que significa que a experiência da clara luz do caminho expande-se na clara luz fundamental. É o que denominamos tornar-se Buddha no primeiro bardo.
Pergunta: No momento da morte, distinguimos a cessação da respiração exterior e a cessação do vento interior. Como reconhecemos que ocorre esse segundo fenômeno?
Resposta: Em primeiro lugar, a respiração exterior para: vem um estertor gutural seguido de uma última longa expiração ou de uma última longa inspiração. Isso é facilmente observável. Em contrapartida, não existe sinal permitindo revelar de maneira absolutamente precisa a suspensão do vento interior. Todavia, consideramos que ele é efetivo quando todo movimento cessou na carótida. De uma maneira geral, ele transcorre aproximadamente cinco minutos entre a parada da respiração exterior e o fim do vento interior. No Tibete, diz-se tradicionalmente: "O tempo de comer uma tigela de tsampa". Porém, isso não é uma regra fixa. Pode ser mais breve ou mais longo.
Em seguida, deve-se evitar tocar no corpo até que se tenha operado a transferência de consciência (p'howa), ou então, durante três dias. A regra, no Tibete, era de nunca tocar no corpo nos três dias que se seguiam à morte.
Pergunta: O momento preciso da morte é a cessação da respiração exterior ou a cessação do vento interior?
Resposta: A morte começa na cessação da respiração exterior, mas só se torna efetiva no momento do caminho negro. Também é no momento do caminho negro que se interrompe o vento interior, ou seja, quando o thigle branco do alto da cabeça e o thigle vermelho do umbigo reúnem-se no coração. A mente, então, cai na inconsciência. A queda na inconsciência e a cessação do vento interior são concomitantes.
Pergunta: Em caso de morte acidental súbita há, todavia, um processo de reabsorção dos elementos?
Resposta: A reabsorção dos elementos sem dúvida ocorre mesmo em caso de morte acidental súbita, mas o processo desenvolve-se de maneira tão acelerada que não é possível tomar consciência dele.O bardo da natureza em si
Ao final dos três dias e meio de inconsciência, começa um outro período denominado o "bardo da natureza em si". É um pouco como se se saísse de um sono profundo. Durante esse período vão manifestar-se os Buddhas das cinco famílias, intrinsecamente presentes em nossa mente, enquanto expressão das cinco sabedorias. É o segundo bardo da morte, denominado o bardo da natureza em si.
No primeiro dia desse segundo bardo da morte, aparece o Buddha Vairochana. Ele manifesta-se seja sob a forma de um Buddha, seja sob a forma de luzes ofuscantes de cor azul organizando-se em figuras geométricas diversas. Ao mesmo tempo que essa luz azul, aparece um clarão branco, mais suave, que corresponde ao mundo dos deuses. Para quem não tem nenhuma noção do que se passa, a luz do Buddha, pela potência de seu brilho, tem algo de pavoroso que leva a pessoa a se desviar dela. Está-se, ao contrário, mais inclinado a seguir o clarão do mundo dos deuses, suave e agradável.
Duas atitudes corretas permitem fazer face a essa situação:
- A primeira consiste em tomar consciência de que a cegante luminosidade azul manifesta a presença do Buddha Vairochana, e em seguida rogar-lhe para dissipar os sofrimentos e os fenômenos do bardo.
- A segunda requer um conhecimento mais profundo que o precedente. Trata-se de reconhecer que a luminosidade que aparece não tem existência exterior, que ela é a manifestação de um dos cinco Buddhas primordialmente presentes em nossa mente. É seu aspecto manifestado que se exprime exteriormente, mas na verdade, sua luz não tem existência exterior intrínseca. Ela é a luminosidade de nossa própria mente. Isso vale para o Buddha Vairochana assim como para os outros Buddhas que aparecem nos dias seguintes.
Permanecer plenamente consciente de que a luz e a própria mente são uma só e ser liberto do sofrimento do bardo. Ao contrário, deixar-se seduzir pelo clarão branco do mundo dos deuses e a ele apegar-se é ser conduzido a renascer no mundo dos deuses.
No segundo dia aparece a Buddha Vajrasattva, bem como uma luminosidade branca. Manifesta-se ao mesmo tempo a luz escura do mundo dos infernos.
No terceiro dia, aparece o Buddha Ratnasambhava, assim como uma luminosidade amarela. Manifesta-se ao mesmo tempo o clarão azul do mundo dos homens.
No quarto dia, aparece o Buddha Amitabha, bem como uma luminosidade vermelha. Manifesta-se ao mesmo tempo o clarão amarelo do mundo dos espíritos ávidos.
No quinto dia aparece o Buddha Amoghasiddhi, assim como uma luminosidade verde. Manifesta-se ao mesmo tempo o clarão vermelho do mundo dos animais e dos semideuses.
No dia seguinte, os cinco Buddhas aparecem simultaneamente, ao mesmo tempo que o conjunto das luzes das seis classes de seres. No total, quarenta e duas divindades pacíficas vão manifestar-se em nossa mente, seguidas de cinqüenta e oito divindades irritadas. Essas manifestações duram aproximadamente três semanas.
Se, sem ceder ao pavor, reconhecermos essas divindades e sua luminosidade pelo que elas são, somos liberados nesse segundo bardo, e não entramos no terceiro bardo da morte.
Caso contrário, começa o bardo do vir a ser.O bardo do vir a ser
No transcurso do bardo do vir a ser, a pessoa compreende que ela está morta. É uma experiência dolorosa. Desejosa de renovar seus laços habituais com seus entes queridos da vida passada, ela busca falar-lhes. Estes, inconscientes do que se passa, não podem responder-lhe. A pessoa experimenta muito ressentimento e sofrimento.
A mente do bardo não tem corpo no sentido material do termo, mas possui, todavia, um corpo mental dotado de faculdades sensoriais semelhantes às nossas. Esse corpo mental desloca-se à velocidade do pensamento. Num instante ele pode, portanto, encontrar-se em qualquer lugar do universo.
Todos os tipos de fenômenos pavorosos produzem-se no transcurso desse bardo do vir a ser, sejam de caráter luminoso, sejam, mais ainda, de caráter sonoro. Ouvimos ruídos terrificantes: o estrondo de uma montanha que desmorona, o ribombo da tempestade sobre o oceano, a crepitação do fogo, o uivar do vento. Nesse caso, não devemos ceder ao medo, mas pensar que são apenas manifestações ilusórias de nossa própria mente, sem existência real.
Em seguida, progressivamente, os condicionamentos de nossa mente que nos ligavam à nossa vida passada interrompem-se, ao mesmo tempo que entram em jogo os condicionamentos do nascimento vindouro.
Aquele que, durante a sua vida, habituou-se a orar ao Buddha Amitabha para renascer no Campo de Beatitude pode então orar novamente com força e libertar-se durante o terceiro bardo, de modo que não precisará renascer.
No caso contrário, somos levados a um futuro renascimento, e temos a visão de nossos futuros pais. Nesse caso, devemos meditar sobre nós mesmos sob a forma de um yidam, como Chenrezig, pensar que esse yidam dissolve-se na vacuidade e permanecer na vacuidade. Além disso, quando temos a visão de nossos futuros pais que se unem, devemos visualizá-los como dois yidams em união. Não temos, então, a liberdade de escolher nosso renascimento. A força do karma nos arrasta. Podemos, entretanto, dar uma certa orientação desejando obter um bom renascimento que nos permita praticar o dharma, trilhar a senda do Despertar para o bem dos seres.
Conquanto a duração do bardo do vir a ser seja variável, ela é geralmente fixada em vinte e quatro dias. Adicionando os três bardos da morte que acabamos de descrever brevemente, obtemos uma duração teórica de quarenta e nove dias, mas ela pode estar sujeita a inúmeras variações.(Bokar Rinpoche. Morte e Arte de Morrer no Budismo Tibetano. Tradução de Plínio Augusto Coelho,
revisão técnica de Antonio Carlos da R. Xavier. Brasília: ShiSil, 1997. Pág. 15-32.)
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