
Esta é uma recensão ligeiramente diferente da vida de Shantideva, sob o nome de Bhusuku. O texto do Tengyur que apresenta a vida dos oitenta e quatro mahasiddhas foi escrito por Abhayadattashri com base nos cantos de Abhayashri.
O filho mais novo de uma família real
chegou à famosa academia monástica de Shri Nalanda para ser ordenado na ordem
Mahasanghika. Mas ele tinha sido muito mimado enquanto criança e achou não só
difícil como pouco razoável abandonar suas idiossincrasias anteriores.
Enquanto seus amigos monges estudavam, ele ficava deitado na cama. Enquanto seus
amigos passavam horas em meditação, ele passeava pelo jardim do monastério para
fazer a digestão. Seu outro grande prazer era a hora da refeição, onde ele
saboreava cada grão de suas cinco porções de arroz.
Seu jeito preguiçoso irritava profundamente seus companheiros, e eles passaram
a chamá-lo Bhusuku, o Indolente. Por trás faziam fofocas
sobre ele sem remorsos, diziam coisas igualmente rudes na sua cara, e
alimentavam o desejo de que logo fosse descoberto.
Era costume em Nalanda que as escrituras fossem lidas todo o tempo, pela manhã,
pela tarde e pela noite, em todas as estações. Para manter essa tradição,
cada monge pegava seu turno sentando no templo sob o dossel de monges recitando
sua parte memorizada dos sutras. Cada um fazia seu turno, sem exceção, menos
Bhusuku, é claro. Como ele não tinha memorizado nada, ele geralmente perdia o
turno. Numa instituição tão santa, a perturbação e inimizade que surgiram
disto foram realmente surpreendentes.
Finalmente o comportamento escandaloso de Bhusuku gerou uma severa advertência
do abade. Foi-lhe dito que se não tomasse jeito e pegasse seu turno como todos
os outros, ele seria expulso do monastério. Vários monges taparam o sorriso com
as mãos ao ouvirem isto, evidentemente esperando pelo pior.
"Mas eu não rompi nenhum voto," Bhusuku argumentou em defesa própria.
"Sou apenas um mau erudito. Isto é razão suficiente para me
expulsar?"
O abade foi irredutível. Cedo pela manhã seu turno chegou. Se ele perdesse sua
recitação dessa vez, ele estava fora. Os monges se deleitavam. Muitas fofocas
mesquinhas sobre a iminente queda de um certo preguiçoso inútil corriam pela
academia.
Apesar de sua advertência, porém, o abade era um homem muito gentil, e tinha
certa simpatia pelo malfeitor. Naquela noite, depois de todos irem para a cama
sonhar com a gloriosa comédia que aconteceria na aurora, o abade foi até a
cela de Bhusuku para dar alguns conselhos.
"Bem, meu filho," disse o abade, "tu estás bem enroscado por tua
própria culpa. Gastastes muito tempo favorecendo teu estômago e sendo um
vadio, tu certamente não aprendeste mais que uma meia dúzia de linhas de um ou
outro sutra. Certamente falharás amanhã, ao menos que sigas meu
conselho."
Bhusuku prostrou-se aos pés do abade e
implorou por ajuda. "Qualquer coisa, senhor. Diga e farei."
"Muito bem," disse o abade, adicionando severo, "mas isso significa
que não dormirás esta noite."
"Mesmo isto, senhor," disse o abalado monge.
"A única esperança para ti," disse o abade, "é passar a noite
recitando o mantra de Manjushri, o Bodhisattva da Sabedoria. Deves recitar o arapachana
mantra até os galos cantarem, e esperar pelo melhor." Ele então deu a
Bhusuku os preceitos secretos da prática de Manjushri, a bênção do mantra
e deixou o arrependido com sua tarefa.
Conhecendo bem sua fraqueza, Bhusuku tomou a precaução de amarrar a gola de
seu robe ao teto com uma corda forte para que não tombasse de sono durante a
noite. E toda a noite ele recitou o mantra que o abade havia ensinado — muitas
e muitas vezes, até que ficou num estupor de fadiga.
Logo antes da aurora, sua cela repentinamente encheu-se de luz. Bhusuku
sacudiu-se e decidiu que deveria ser o nascer do sol, e ali ele estava, nem um
pouco mais esperto do que na noite anterior. Então, uma grandiosa voz ecoou do
teto: "O que pensas que estás fazendo?"
Olhando para cima, o exausto monge viu uma figura enorme flutuando no ar sobre
sua cabeça. "Estou invocando a ajuda do Senhor Manjushri para me ajudar a
recitar um sutra hoje mesmo, e não aprendi nenhum. Mas quem és tu, e o que
queres de mim?"
"Que pergunta idiota," respondeu o incomum convidado. "Tens
estado me invocando por metade da noite."
"T-t-t-tu és o próprio Manjushri!", gaguejou o surpreso monge.
"O próprio. Agora me diz o que tu queres e me deixa continuar com as
minhas coisas."
Bhusuku teria ido ao chão se pudesse, mas ainda estava amarrado ao teto, então
colocou as mãos juntas no gesto de súplica, e implorou, "Por favor,
grande senhor, garanta-me o poder e realização de cada qualidade da perfeita
sabedoria."
"Feito!" disse Manjushri. "Recita teu sutra quando fores
chamado." E ele desapareceu tão repentinamente quanto tinha surgido.
O boato era de que hoje Bhusuku estava prestes a fazer um papelão, e o Rei
Devapala e toda sua corte vieram para o show. No altar havia grandes pilhas de
flores cheirosas que todos os visitantes haviam trazido com eles.
A platéia estava cheia de risinhos e cochichos quando Bhusuku chegou no grande
auditório. Eles surpreenderam-se quando ele caminhou confiante pela passarela e
sentou-se no trono do templo — todos esperavam que ele caísse de cara no chão.
Ao invés disso, chamou o dossel de monges e sentou-se em posição de lótus.
Olhou para a platéia com grande calma e esperou que fizessem silêncio. Quando
ficou claro que ele ao menos tinha chamado a atenção de todos, ele levitou no
ar sobre o trono, e seu corpo começou a brilhar com grande força, iluminando
todo o grande auditório.
Aqueles que vieram rir ficaram bobos de perplexidade. Entreolhavam-se
apavorados.
Bhusuku cumprimentou o rei e perguntou, "Devo recitar um sutra tradicional,
vossa majestade, ou preferiríeis algo de minha própria autoria?”
O rei começou a sorrir. "Disseram-me que teus hábitos alimentares são
muito incomuns," ele disse, "e que teus hábitos de sono e tua predileção
por passeios são objetos de grande maravilha para teus companheiros monges.
Parece-me de acordo que mantenhas teus padrões de originalidade e recites um
sutra de própria autoria."
Ao que Bhusuku começou a compor e recitar o sublime e profundo discurso que
veio a ser chamado Bodhicharyavatara, O Caminho para a Iluminação.
Quando ele completou o décimo e último capítulo, ascendeu aos céus numa
altura de sete palmeiras, inspirando renovada fé naqueles que estavam reunidos
aquele dia.
"Este não é Bhusuku, o Indolente", exclamou o rei. "É um
grande sábio". E renomeou o monge como Shantideva, Divina Paz.
As pessoas começaram a cobrir com flores os lugares onde os pés de Shantideva
haviam tocado, e os eruditos humildemente requisitaram um comentário sobre seu
discurso. Shantideva o concedeu, mas quando os monges pediram para que fosse seu
abade, ele recusou.
Naquela noite, ele deixou seus robes, sua tigela de esmolas, e todos os seus
artefatos sagrados sobre o altar como oferendas, e partiu secretamente.
À noite, ele deixou seu manto, sua tigela de esmolas, e todos os seus artefatos
sagrados sobre o altar como uma oferenda, e partiu secretamente. Viajando por
muitas terras, ele finalmente chegou em Dhokiri, uma cidade de cerca de duzentas
e cinqüenta mil famílias. Ali ele fez para si uma bela espada de madeira e
pintou-a com alguma tinta dourada. No dia seguinte ele seguiu até a corte,
prostrou-se diante do rei, e pediu um lugar como espadachim na guarda do palácio.
O rei decidiu que era um rapaz bem apessoado e o contratou sem hesitar, ao bom
pagamento de dez "tolas" de ouro por dia.
Shantideva serviu o rei fielmente por doze anos. De dia vivia como qualquer
outro soldado. À noite praticava sua sadhana, constantemente atento à natureza
última da realidade. Todo outono, durante o grande festival da Deusa Mãe,
Umadevi, ele acompanhou os guardas ao templo, como se ele mesmo fosse um devoto.
Ninguém havia percebido nada a respeito de sua verdadeira natureza até uma
tarde quando todos estavam no depósito de armas polindo suas armas e reparando
seus equipamentos. Um dos guardas olhou atentamente para a espada de Shantideva.
Parecia ser feita de madeira! Pensando no próprio benefício, o guarda foi
imediatamente relatar sua descoberta ao rei e expor o impostor. Shantideva foi
requisitado à sala do trono.
"Mostra tua espada," pediu o rei.
"Estaria satisfeito em fazê-lo, senhor," disse Shantideva, "mas
causarei um grande dano a ti se obedecer."
"Faz como digo!" ordenou o rei. "Que eu mesmo preocupe-me com os
resultados."
Enquanto Shantideva buscava pela bainha, ele implorou, "Ao menos cubra um
olho, senhor."
Rindo-se entre si, o rei e todos que ali estavam reunidos, cobriram um olho com
a mão. Ao que Shantideva desembainhou a espada do estado desperto. Enquanto ele
a apontava para cima, uma luz tão intensa quanto a de e dez sóis preencheu
todo o recinto, cegando cada olho desprotegido. Cada um ali, incluindo o rei,
caiu de joelhos perante Shantideva, implorando o perdão e misericórdia do yogi.
Shantideva foi a cada pessoa na sala, começando com o mais baixo servo, e
cuspindo em seu indicador, ele esfregou sua saliva curativa em cada olho
machucado, restaurando magicamente a visão perdida. O rei implorou para que ele
ficasse como seu sacerdote do palácio, mas Shantideva recusou e partiu de
Dhokiri naquele mesmo dia.
Ele tomou residência numa caverna nas montanhas isoladas e viveu ali praticando
sua sadhana por algum tempo. Mas sempre acabava um objeto de curiosidade para caçadores
e lenhadores que viviam nas redondezas, e eles mantinham-se atentos a suas
atividades.
Um dia, um caçador real chegou à corte com um jogo raro para presentear ao rei
e deixou dito que, com seus próprios olhos, ele havia visto Shantideva caçando
e matando gazelas e comendo sua carne assada no espeto.
O rei imediatamente seguiu para as montanhas com um vasto séqüito para
investigar essas sérias acusações. Eles chegaram à Shantideva sentado em uma
pele meditando em frente ao que parecia ser um simples muro de pedras.
O rei contou ao yogi o que havia ouvido, adicionando, "Tu que ensinastes o
rei de Nalanda a engolir o próprio orgulho e que restaurou minha visão e a de
minha corte, porque com tal poder a seu dispor tu machucas os seres vivos?"
"Eu não mato," disse Shantideva, "Eu curo." Ao que
gesticulou com a mão no ar, e a parede de pedra atrás dele abriu-se, revelando
a entrada de sua caverna. Dali saíam todos os tipos de animais imagináveis.
Enquanto eles iam pulando para a floresta, eles pareciam se multiplicar perante
os olhos perplexos do rei e do séqüito até que as criaturas cobriram cada
colina e encheram cada vale. E então elas desapareceram como se nunca tivessem
existido.
"Todos os elementos da experiência são apenas sonhos e ilusões,"
explicou Shantideva. "Compreenda que todas as coisas são apenas produtos
insubstanciais da imaginação, projeções da mente. Entra no caminho da liberação."
E então recitou esse verso:
As gazelas de que me alimentei
Nunca existiram nessa terra;
Ainda assim, nunca deixaram de existir.
Se não há o que definimos como substância,
Então não pode haver caçador, nem caçado.
Não sou eu o preguiçoso por aqui.
Ao que Shantideva converteu o rei de Dhokiri, e colocou todo o seu povo no caminho da verdade. Ele serviu-os fielmente por cem anos antes de ascender ao Paraíso das Dakinis.
[Adaptado da tradução de Padma Dorje para Dowman, Keith e Beer, Robert Beer, Buddhist Masters of Enchantment: The Lives and Legends of the Mahasiddhas. Inner Traditions: Rochester, 1998. Pág. 128-132. Para adquirir o livro, clique aqui.]