
O Bodhicharyavatara é composto por dez capítulos. O primeiro faz elogio aos imensos benefícios proporcionados pela bodhichitta. Para nos prepararmos para ela, devemos antes de mais nada acumular méritos e purificar o nosso ser. É o tema do segundo capítulo que, depois da oferenda em sete pontos, é dedicado à confissão. O terceiro mostra como adotar a bodhichitta. Estes três primeiros capítulos são dedicados à produção da bodhichitta.
Os capítulos seguintes ensinam como pôr a bodhichitta em prática pelo exercício das seis perfeições. A primeira perfeição, a generosidade, é ensinada no decorrer de todo o texto; por essa razão, nenhum capítulo lhe é especialmente reservado. A aplicação e a vigilância são indispensáveis par a preservação da pureza da disciplina, a segunda perfeição. O quarto e quinto capítulos são-lhes dedicados. Os quatro seguintes referem-se respectivamente às quatro últimas perfeições: paciência, perseverança, contemplação e sabedoria transcendente. O texto termina, no décimo capítulo, pela dedicatória dos méritos ao bem dos seres.
No seu comentário, Minyak Künzang Sönam descreve o paralelo estabelecido por Patrül Rinpoche entre a estrutura do Bodhicharyavatara e a da célebre quadra que resuma a prática da bodhichitta:
Que a preciosa bodhichitta
Nasça em mim, se não a concebi.
Após o seu nascimento, que não decline jamais
Mas sempre se desenvolva.
O primeiro ponto, o nascimento da bodhichitta, corresponde aos três primeiros capítulos: o elogio da bodhichitta, a confissão que nos prepara para isso e a sua tomada ou produção. O segundo ponto, como evitar o seu declínio, é explicado nos três capítulos que se referem à aplicação da bodhichitta, à vigilância e à paciência. O terceiro ponto, como desenvolvê-la continuamente unindo sabedoria e meios hábeis, é pormenorizado nos capítulos sobre a perseverança, a contemplação e a sabedoria transcendente. O décimo capítulo é a dedicatória, graças à qual os méritos resultantes da bodhichitta tornam-se inesgotáveis e não param de aumentar.
[Adaptado de Dalai Lama, Como um relâmpago rasgando a noite: As grandes linhas do budismo. Traduzido por Marta Roldão. Lisboa: Instituto Piaget, 1992. Pág. 41-42.]