8. A Contemplação


[1] Tendo assim desenvolvido a perseverança, devemos fixar a mente na contemplação: o homem cuja mente se dissipa é presa das garras da cobiça.

[2] O isolamento físico e mental elimina qualquer possibilidade de distração. Por isso, renunciemos ao mundo e abandonemos as preocupações.

[3] Se não renunciamos ao mundo, é por apego ou por cobiça. Para ultrapassar estes obstáculos, o sábio faz a seguinte reflexão:

[4] É pelo Vipashyana associada ao Shamatha que conseguimos a destruição da cobiça. Por isso, devo antes de mais procurar o Shamatha e ela nasce de uma fervorosa renúncia ao mundo.

[Shamatha é a meditação da calma mental, enquanto Vipashyana é a meditação da visão penetrante.]

[5] Como pode um ser efêmero apegar-se a outros seres efêmeros, se nunca mais verá o objeto da sua afeição nas milhares de existências a vir?

[6] Se não o vê, afunda na tristeza e não consegue manter em recolhimento; quando o vê, nunca se satisfaz completamente e a sede da sua presença atormenta-o como antes.

[7] Deixa de ver a realidade, perde o gosto pelo mundo e é consumido pela tristeza, tal é a cobiça de se reunir a quem ama.

[8] Nesta preocupação, hora a hora vai lapidando a sua curta vida. Por um amigo passageiro abandona o Dharma imutável.

[9] Se imita os tolos, é empurrado pelo mau caminho e forçosamente dirige-se para os mundos inferiores; de que lhe serve a sua companhia?

[10] Hoje são nossos amigos, amanhã inimigos; pensamos que os satisfazemos e estamos a melindrá-los... não é tarefa fácil contentar o povo.

[11] Se os exorto ao bem, aborrecem-se e desviam-me a mim do bem; se não lhes dou ouvidos, irritam-se ainda mais e votam-se aos lugares de tormento.

[12] Invejoso dos que lhes são superiores, hostil perante os iguais e arrogante com os inferiores, inchado com os elogios e exasperado com as críticas, como há de um tolo produzir algo de bom?

[13] Exaltação de si mesmo, depreciação dos outros, conversas sobre os prazeres do mundo... não há maneira de um tolo deixar de receber outro algo de funesto.

[14] Aproximar um do outro é conjugar os males: nem um nem outro tirarão qualquer benefício.

[15] Passa bem ao largo do tolo. Se o encontrares, deves ter com ele um trato ameno, não para te ligares de amizade, mas tão só para permanecer cortês.

[16] Tomando simplesmente o que me serve para a prática espiritual, como a abelha que apenas recolhe o néctar das flores, permanecerei como um estrangeiro no mundo, sem comércio com ninguém.

[17] "Sou rico, honrado, procurado..." Bruscamente a morte aparece perante o aterrorizado mortal.

[18] Todo projeto onde a mente procura o prazer, enganada por uma falsa felicidade, transforma-se num sofrimento mil vezes maior.

[19] Se és sábio, não procures o prazer; tal busca engendra o perigo. Os objetos de prazer têm por natureza não durar; compreende-o e permanece firme.

[20] Houve tantos ricos e tantos ilustres... com toda a sua riqueza e glória, para onde será que eles foram? Ninguém sabe.

[21] Há quem me despreze, porque me hei de alegrar de ser louvado? Há quem me elogie, porque me hei de afligir de ser denegrido?

[22] Os homens têm aspirações muito diversas, nem os Buddhas os podem satisfazer, quanto mais um ignorante como eu! Porque me hei de preocupar com os julgamentos do mundo?

[23] Denigre-se o pobre e condena-se o rico; entre pessoas de tão difícil convívio, como se há de saborear o prazer?

[24] Um homem de vistas curtas não pode ser amigo de ninguém, disseram os Buddhas, pois ele só gosta do que lhe interessa.

[Esta estrofe do texto sânscrito não aparece em tibetano.]

[25] Nas florestas, os pássaros, os animais selvagens e as árvores nunca dizem nada desagradável e vivem juntos de um modo tão tranqüilo... Quando poderei viver entre eles?

[26] Vivendo num templo deserto, ao pé de uma floresta ou numa gruta, quando será que vou partir tranqüilo, sem olhar para trás?

[27] Nos lugares naturais de retiro, vastos e livres, quando será que vou permanecer desapegado e independente?

[28] Rico de uma única tigela de barro e de um manto inútil aos ladrões, quando será que vou ficar livre de qualquer receio, sem ter de proteger o meu corpo?

[29] Quando será que vou para os cemitérios, comparar o meu corpo aos cadáveres dos outros e compreender que ele também está destinado à putrefação?

[30] Aqui está o meu corpo; aqui está a podridão que ele vai ser. Até os chacais fugirão do mau cheiro.

[31] Se bem que tenha sido um todo, mesmo os ossos e a carne que o compunham se dispersarão por todo o lado, quanto mais os amigos.

[32] O homem nasce só e morre só; ninguém pode partilhar parte da sua pena. Então, o que são para ele os amigos? Meros escravos.

[33] Assim como o viajante que pára no albergue de uma etapa, o ser que faz a viagem da existência demora-se numa vida.

[34] Antes que os quatro coveiros o levem no meio dos gemidos dos que o rodeavam, que ele parta para a floresta!

[35] Sem apego e sem aversão, reduzido ao seu corpo solitário, já morto para o mundo, não vai afligir ninguém com a sua morte.

[36] E não tem ninguém a seu lado para lhe atravessar a mente com a sua mágoa, ninguém para o distrair do pensamento de Buddha.

[37] A solidão das florestas é uma delícia, é isenta de penas e afasta toda a distração. A ela me quero consagrar para sempre.

[38] Liberto de qualquer outra preocupação, concentrado sobre o meu objetivo, vou-me esforçar por guardar a mente em meditação e ganhar mestria sobre ela.

[39] A cobiça é uma fonte de infelicidade neste mundo e no outro. Nesta vida, a prisão, a morte, as mutilações... na outra, o inferno.

[40-42] Contempla esses ossos! Por eles fartaste-te de fazer vênias às casamenteiras, acumulaste vezes sem conta atos maldosos e desprezíveis, chegaste a arriscar a vida e acabaste por esbanjar a tua fortuna. Quando os abraçavas, sentias-te no auge da felicidade. Pois bem! Vês? São só ossos, sujeitos à interdependência e sem identidade. Como os podes ainda desejar? Que esperas para passar além do sofrimento?

[43-45] Este rosto que se baixava pudicamente, como era difícil fazê-lo levantar... um véu cobria-o do olhar dos que nunca o tinham visto e até dos que já o tinham visto; vês os abutres ocupados a desvelá-lo? Vês bem? Então, foges? Esta cara que foi o objeto de tanta consumição, que tanto protegias do olhar dos outros, vês como é devorada? Então, ciumento, já não a proteges?

[46] Vês esta massa informe de carne devorada pelos abutres e pelos outros animais; é este pasto que tu gostas de ornamentar com guirlandas, perfumar com sândalo e cobrir de jóias!

[47] Se te arrepia tanto ver este cadáver imóvel, como não tinhas medo quando a respiração fazia dele um cadáver em movimento?

[48] Quando estava coberto, atraía-te. Agora que o vês nu, provoca-te horror. Se não queres saber dele, porque o acariciavas quando se escondia?

[49] A saliva e os excrementos têm uma só e mesma origem — o alimento. Se os excrementos te repugnam, porque aprecias a saliva?

[50-51] Mesmo boas almofadas, bem forradas de algodão e macias, não têm o menor encanto para o debochado, falta-lhes esse cheiro a corpo impuro que o treslouca e do qual ignora toda a impureza. Como não o satisfazem, só o podem irritar!

[A estrofe 51 figura unicamente na versão tibetana; é em parte igual ao verso 50.]

[52] Se não gostas da impureza, porque abraças outra armação de ossos ligados por tendões e cimentados pela argamassa da carne?

[53] O teu próprio corpo já tem impurezas que cheguem; porque o utilizas sem paradas e buscas, oh amante de porcaria, outro saco de imundícies?

[54] Dizes que gostas desta carne, que tens desejo de a ver e de lhe tocar. Então porque não desejas uma carne sem vida?

[55] A alma que desejas não pode ser vista nem tocada, e o corpo, que pode, de qualquer modo não se percebe, é em vão que o abraças!

[56] Podes ignorar que o corpo dos outros seja feito de imundícies, mas não te dares conta que o teu próprio corpo é imundo, é deveras surpreendente!

[57] Se desdenhamos do botão de lótus abrindo-se aos raios de um sol sem nuvens, como podemos, com a mente embriagada de impurezas, encontrar o prazer num receptáculo de porcarias?

[58] Quando a terra está suja com porcarias, recusas-te a tocá-la. Como podes desejar tocar o corpo de onde elas saem?

[59] Se não tens o desejo da impureza, porque abraças um corpo que saiu de um germe impuro e se formou num lugar impuro?

[60] Desgostam-te os vermes imundos nascidos da porcaria, mesmo se são muito pequenos, mas gostas de um corpo, também ele nascido da porcaria e composto de uma enorme massa de imundice!

[61] Oh esfomeado de porcaria! Não só não te desgosta a tua própria imundice, como ainda procuras outros receptáculos de impurezas!

[62] As coisas atraentes, como a cânfora, o arroz e os condimentos, se são rejeitados pela boca, tornam-se na própria terra impura.

[63] Se não acreditas na impureza do teu corpo, apesar de tão evidente, olha os outros corpos horríveis, atirados para os cemitérios.

[64] Se lhe tirarmos a pele, a única excitação que o corpo provoca é a de um profundo horror. Sabendo como ele é, como podes extrair prazer dele?

[65] Se o corpo cheira bem, o bom cheiro vem do sândalo. Ora, porquê se apegar a um objeto por causa de um perfume que lhe é estranho?

[66] Se o corpo, que é naturalmente fétido, não excita a cobiça, tanto melhor! Porque hão de os homens, cheios de futilidade, ungi-lo de perfumes?

[67] Que interessa ao corpo que o sândalo cheira bem? Porque nos havemos de apegar a um objeto por causa de um cheiro que lhe é estranho?

[68] Se o corpo estiver sujo e cheio de lama, com os cabelos desalinhados e as unhas compridas, os dentes amarelos e por lavar, é repulsivo por natureza.

[69] Então porque o havemos de arranjar meticulosamente, como a uma espada, para se golpear a si próprio? A terra está cheia de tolos que passam o tempo todo a iludirem-se.

[70] A vista de alguns esqueletos no cemitério repugna-te, mas achas divertida a cidade, cheia de esqueletos ambulantes!

[71] E para obteres esses corpos impuros precisas de dinheiro; para isso dás-te à fadiga de o ganhar e aos tormentos do inferno.

[72] A criança não é capaz de ganhar. Quanto terá o jovem para os seus prazeres? A juventude é passada à procura de ganhos. Uma vez velho, que fazer com os prazeres?

[73] Uns, cheios de vil cobiça, passam o dia inteiro em trabalhos extenuantes e quando chegam a casa à noite deixam-se cair na cama como mortos.

[74] Outros partem de viagem, impõe-se as saudades de uma ausência e durante muitos anos não vêem nem a mulher nem os filhos de que tanto gostam.

[75] Ignorando o seu interesse, mesmo aquilo porque se vendem não o conseguem obter. Assim, desperdiçam em vão a vida ao serviço de outrem.

[76] Outros venderam-se a amos que lhes impõem um trabalho sem parar. As suas mulheres acabam por ter filhos no meio da selva e em lugares desertos.

[77] Outros, para viver, partem para a guerra, cheios de medo de perder a vida. Buscam o proveito e acabam como escravos! Que infelizes, cegos pela cobiça!

[78] Outros ainda, por causa da cobiça, acabam mutilados, empalados, queimados e assassinados a golpes de lança.

[79] O cuidado de a ganhar e conservar, mais a tristeza de a perder, fazem da fortuna um grande infortúnio, é bom que o saibas! Os que têm a mente apegada às riquezas estão distraídos e fora do concurso para se livrarem dos sofrimentos da vida.

[80] São assim as misérias dos homens, presas da cobiça, e as suas satisfações mesquinhas pouco mais valem que o magro petisco do boi que puxa a carroça.

[81] E é por este átomo de gozo, acessível ao grado, que o homem, cego pelo destino, deixa passar esta efêmera plenitude de uma existência tão difícil de obter.

[82] Por causa dos prazeres que de qualquer modo não duram, votamo-nos aos infernos e a todas as esferas da dor. Por objetivos tão pouco importantes, damo-nos a tantos trabalhos desde a origem dos tempos!

[83] Com um esforço mil vezes menor, teríamos atingido a iluminação. Os escravos da cobiça sofrem muito mais que os Bodhisattvas e não atingem a iluminação.

[84] Mesmo as espadas, o veneno, o fogo, os precipícios ou os inimigos, nada se pode comparar à cobiça se refletirmos nas torturas dos infernos.

[85] Por isso, deviam temer a cobiça; a vossa alegria devia estar na solidão, nas florestas tranqüilas, onde não há disputas nem penas.

[86] Em rochedos encantadores, espaçosos como terraços de um palácio, refrescados pelo sândalo ao luar. Feliz o que é acariciado pelas suaves e silenciosas brisas dos bosques e caminha meditando na liberação dos outros!

[87] Vivendo onde quer que seja, pelo tempo que quiser, numa cabana abandonada, ao pé de uma árvore ou numa gruta. Livre das preocupações de preservar o seu ganho, por onde quer que vá, vai descansado.

[88] Indo assim, à sua vontade, sem apego, sem estar ligado a ninguém, usufrui de uma alegria tal que nem o próprio Indra a consegue igualar.

[89] Com reflexões deste gênero sobre a excelência da solidão, apazigüemos o errar do pensamento e cultivemos a Bodhichitta.

[90] Primeiro devemos refletir maduramente sobre a similitude dos outros consigo mesmo: "Todos têm as mesmas penas e as mesmas alegrias que eu, devo protegê-los como a mim mesmo."

[91] O corpo, apesar da diversidade das suas partes, é protegido como um ser único. Devia ser assim neste mundo; os diferentes seres, quer experimentem a alegria ou a dor, têm todos em comum comigo o mesmo desejo de felicidade.

[92-93] Se a minha dor não se reflete nos outros corpos, não é por isso mais fácil de suportar, tal o apego que tenho a mim. Da mesma maneira, a dor dos outros, apesar de eu não a sentir, não lhes é menos difícil de suportar, por causa do apego que têm a si.

[94] Devo combater a dor dos outros porque é dor, como a minha. Devo fazer bem aos outros porque são seres vivos, como eu.

[95-96] Se todos temos igual necessidade de sermos felizes, porque privilégio devo eu ser o objeto único dos meus esforços para a felicidade? E se todos tememos o perigo e o sofrimento, porque privilégio tenho eu o direito de ser protegido, só eu e os outros não?

[97] "É que as dores dos outros não me tocam!" Será uma boa razão para não os defender? Os sofrimentos do próximo corpo também não me atingem, porque me hei de precaver para que não sofra?

[98] "Mas, nesse caso, trata-se de mim!" Erro; um o que morre, outro o que renasce.

[99] "Cabe ao que sofre defender-se contra o sofrimento!" Mas a dor do pé não é a dor da mão, porque há de a mão proteger o pé?

[100] "Talvez seja um ilogismo, mas é um ilogismo que procede do sentimento de personalidade!" Todo o ilogismo, na medida do possível, deve ser eliminado tanto em nós como nos outros.

[101] "Encadeamento" e "agregados" são ficções, como "assembléia" ou "exército". Não há sujeito para a dor, quem poderia portanto ter a "sua" dor?

[102] Todas as dores, sem distinção, são impessoais; devemos combatê-las enquanto dor. Porquê fazer restrições?

[103] "Se não existe o ser que sofre, porque se há de combater o sofrimento?" Porque toda a gente é unânime quanto a isso. Se se deve combater a dor, então que se combata por toda a parte; se não se deve, que não se combata em parte alguma, mas não mais em mim do que nos outros!

[104] "Mas se a compaixão gera grandes sofrimentos, porque a havemos de provocar com o nosso próprio esforço?" Se considerarmos os sofrimentos do mundo, será que podemos dizer que os da compaixão são grandes?

[105] Se o sofrimento de um grande número cessa graças ao sofrimento de um só, este deverá provocá-lo por compaixão pelos outros e por si mesmo.

[106] Foi por isso que Supushachandra, embora sabendo à partida o que teria que suportar o rei, não se quis poupar a esse sofrimento à custa da perdição de tantos infelizes.

[A história do Bodhisattva Supushachandra, que por ter ensinado o Dharma foi martirizado pelo rei Viradatta, está resumida no comentário do Prajnakaramati segundo o Samadhiraja Sutra.]

[107] Tendo assim cultivado os seus pensamentos, os Bodhisattvas, concentrando a sua alegria no apaziguar da dor dos outros, mergulham no inferno como os cisnes num lago coberto de flores de lótus.

[108] A liberação dos seres é para eles um oceano de alegria que tudo inunda. De que lhes serviria uma insípida liberação?

[109] Se se faz algo no interesse dos outros, que não haja orgulho nem complacência! Nada de desejo de retribuição! Uma só desejo — o bem dos outros!

[110] Por isso, da mesma maneira que me protejo de todo o mal, terei pelos outros pensamentos de proteção e de bondade.

[111] Por hábito, os homens ligam a noção de "eu" a gotas de esperma e de sangue que lhes são estranhas e sem qualquer substância.

[O sangue da mãe refere-se ao óvulo.]

[112] Porque não considerar então como "eu" os corpos dos outros? Reconhecer o nosso corpo como "outro" deixaria de ter qualquer dificuldade.

[113] Considerando que nós estamos carregados de defeitos e que os outros são oceanos de qualidades, apliquemo-nos a rejeitar o nosso egoísmo e a identificarmo-nos com os outros.

[114] Interessamo-nos pelos membros como partes do nosso corpo, porque não pelos homens como parte da humanidade?

[115] Por hábito aplicamos a idéia de "eu" a este corpo sem alma, porque não aos outros?

[116] Desta maneira, se fazemos bem aos outros, não sentiremos nem orgulho nem complacência. Ninguém está à espera de ser recompensado por se alimentar a si mesmo.

[117] Assim como tens vontade de te defender contra a mais pequena ofensa, é indispensável que o pensamento de proteção e de bondade para com os seres se torne em ti um hábito.

[118] Foi assim que o protetor Avalokiteshvara, em grande compaixão, abençoou o próprio nome para afastar dos homens o simples risco de serem intimidados diante de uma assembléia.

[No Gandavyuha Sutra, Avalokiteshvara diz: "Que não seja mais intimidado pela multidão, aquele que por três vezes se lembre do meu nome!"]

[119] Não se deixem abater pela dificuldade. Há coisas cujo mero nome nos fazia tremer e que, pela força do hábito, acabamos por não poder passar sem elas.

[120] Quem queira salvar-se rapidamente a si e aos outros, deve praticar o grande segredo — a troca de si pelos outros.

[121-123] O amor desmesurado pelo corpo faz temer o menor perigo. Quem não odiaria este corpo tão inquietante como um inimigo, e este "eu" que, por desejo de combater a doença, a fome e a sede, massacra pássaros, peixes e quadrúpedes, e torna-se inimigo de tudo o que vive? E que, por amor do ganho e das honrarias, seria até capaz de matar os próprios pais e de roubar o patrimônio das Três Jóias, o que faria de si o combustível dos fogos do inferno?

[124] Qual seria o homem sensato que gostaria de acarinhar, guardar e cuidar do seu corpo, sem ver nele mais do que o seu inimigo, fazendo dele um objeto de honra?

[125] "Se der, que terei para comer?" Este egoísmo fará de ti um ogre. "Se comer, que terei para dar?" Esta generosidade fará de ti o rei dos deuses.

[126] Quem quer que faça pensar os outros por si arderá nos infernos. Quem aceite penar pelos outros, terá direito a todas as felicidades.

[127] A mesma ambição de superioridade, que tem por efeito a estupidez e os suplícios nos mundos inferiores, produz, se a transferirmos para os outros, a honra e o respeito nos mundos superiores.

[128] Aquele que impõe a um outro a tarefa de trabalhar para si terá por retribuição a escravatura. O que se impõe a tarefa de trabalhar para os outros terá por recompensa o poder.

[129] Todos os que são infelizes, são-no por terem procurado a sua própria felicidade. Todos os que são felizes, são-no por terem procurado a felicidade dos outros.

[130] Para quê falar tanto? Basta comparar o palerma apegado ao seu interesse próprio com o santo que age no interesse dos demais!

[131] Uma coisa é certa; não há maneira de se obter a dignidade de Buddha, nem sequer a felicidade neste mundo das transmigrações, sem trocarmos o nosso bem-estar pela pena dos outros.

[132] Já não falando no outro mundo, não é verdade que neste, se o servidor não fizer o que lhe cabe, e o amo não pagar o que lhe deve, ficam todos comprometidos?

[133] Longe de trabalharem para o seu bem-estar comum, que é o princípio da felicidade nesta vida e nas vidas futuras, os homens só pensam em se prejudicar uns aos outros, e pagam este desvario com terríveis sofrimentos.

[134] Todas as catástrofes, todas as dores e todos os perigos do mundo provêm do apego ao "eu". Por que hei de me agarrar a este demônio?

[135] Se não desalojarmos o "eu", não podemos escapar à dor, assim como se não nos afastamos do fogo não podemos escapar à queimadura.

[136] Por isso, para apaziguar a minha dor e a dos outros, ofereço-me aos outros e adoto os outros como o meu "eu".

[137] Pertenço aos outros! Esta deve ser a tua convicção, oh minha mente. A partir de agora, o interesse dos outros deve ser o teu único pensamento.

[138] Não é conveniente que estes olhos e estas mãos, que pertencem aos outros, se movam em meu interesse, nem é conveniente que se movam contra o interesse de outrem.

[139] Preocupado unicamente com o bem dos seres, tudo o que vires de útil no teu corpo deves retirá-lo e pô-lo ao serviço dos outros.

[140] Considerando os humildes como sendo tu, e tu como sendo os outros, podes cultivar sem escrúpulos a inveja e o orgulho.

[Nos versos seguintes, Shantideva mostra o comportamento dos tolos.]

[141] "O quê? Aquele é bem tratado e eu não! Não ganho tanto como ele! Ele é honrado e eu sou desprezado! Sofro e ele está contente!"

[142] "Eu trabalho enquanto ele repousa!" Dizes que ele é grande pelas qualidades que tem e que eu sou pequeno pelas que não tenho.

[143] "Mas como conceber um homem desprovido de qualidades? Cada um tem as suas; há pessoas a quem sou inferior, e outras a quem sou superior.

[144-145] "Se a minha disciplina e a minha doutrina deixam a desejar, é pela força das emoções negativas e não da minha vontade. Tenho de me curar, se possível, e aceito de bom grado os sofrimentos do tratamento. Se este "eu" me julga incurável, porque me despreza? Que me importam as suas qualidades, se elas só a si lhe servem?

[146] "Nem sequer tem compaixão dos desgraçados que caíram nos abismos dos mundos inferiores e, no entanto, orgulhoso das suas qualidades, pretende ser mais do que os sábios!

[147] "Se reconhece um igual, logo se esforça para o ultrapassar; se necessário armadilhando umas tantas disputas para satisfazer a sua cupidez e ambição.

[148] "Queira o céu que as minhas qualidades gozem de uma celebridade universal, e que não se ouça falar das dele, quaisquer que elas sejam, em nenhum lado!

[149] "Possam os meus defeitos ficar escondidos! Possam todas as honras ser para mim e nenhumas para ele! Eis-me enfim na posse do meu ganho, eu sou honrado e ele já não é.

[150] "Que prazer vê-lo todo este tempo na miséria! Não descansarei enquanto não o vir vilipendiado e gozado por toda a gente.

[151] "Vejam só este miserável que ousa rivalizar comigo! Como pode comparar-se comigo? Ciência, sabedoria, beleza, nobreza, riqueza... tudo lhe falta!"

[152] E assim, ouvindo por todo o lado elogiar as qualidades deste "eu", até me arrepio de alegria. Que delícia! Que prazer!

[153] Se o outro possui algum bem, havemos de lhe tirar pela força; há de ficar apenas com o necessário para sobreviver, e na condição de nos servir.

[154] Há que derrubar a sua felicidade e fazê-lo carregar com as nossas penas. Por sua causa já sofremos cem vezes o suplício da transmigração.

[155] Passaste séculos inumeráveis em busca dos teus interesses e o preço que recebeste desse imenso esforço foi dor e mais dor.

[156] Empenha-te incondicionalmente no servir os outros, e mais tarde verás as vantagens, pois a palavra do Buddha é infalível.

[157] Se tivesses praticado mais cedo esta regra de conduta, não estarias agora em tal situação, já sem falar da bem-aventurada dignidade de Buddha que terias podido adquirir.

[158] Por isso, da mesma maneira que transferiste a noção de "eu" a gotas de esperma e de sangue que te são estranhas, faz o mesmo em relação aos outros.

[159] Sê o espião dos outros: tudo o que vires neste corpo rouba-o e põe-no ao serviço dos outros.

[160] "Eu estou contente e ele não está; eu estou na mó de cima, e ele na mó de baixo; eu recebo toda a ajuda, e ele não recebe nenhuma". Dá livre curso à tua inveja contra ti mesmo.

[161] Arranca o teu "eu" da sua felicidade e atrela-o à infelicidade dos outros e, para ver se ele comete faltas, vigia continuamente as suas ações.

[162] Faz com que caiam sobre a sua cabeça mesmo as faltas dos outros e, por muito pequena que seja, denuncia a mais pequena falta sua perante a assembléia dos seres.

[163] Arrasa a sua reputação exaltando a dos outros. Afeta-o como se fosse um serviçal de baixo estrato, às necessidades dos seres.

[164] Uma vez que, vicioso por natureza, não deve ser louvado por qualquer migalha de qualidade adventícia, age de maneira a que, mesmo que tenha alguma virtude, ninguém saiba.

[165] Numa palavra, todo o mal que fizeste aos outros no teu interesse, fá-lo cair sobre o teu "eu" no interesse dos outros.

[166] Nem sequer lhe toleres a audácia da arrogância. Obriga-o a guardar-se como uma jovem esposa, pudica, tímida e reservada.

[167] "Faz isto, não faças aquilo, porta-te desta maneira!" É assim que o deves vergar à tua vontade e que o deves punir quando transgride.

[168] E se quando eu te falo assim não me obedeces, oh minha mente, saberei como castigar-te, oh suporte de todos os vícios!

[169] Onde pensas que vais? Pensas que não te vejo? Darei cabo de todas as tuas veleidades. Já lá vai o tempo em que causavas a minha perdição.

[170] Renuncia à esperança de ainda teres hoje um interesse pessoal, vendi-te aos outros. Serve-os e sem resmungar!

[171] Se eu fizesse a loucura de não te entregar aos outros, não duvido que serias tu a entregar-me aos guardiões do inferno.

[172] Quantas vezes já não o fizeste! E o que eu tive de sofrer! Agora, recordando o teu ódio, esmago-te, oh servidor do egoísmo!

[173] Se procuras a alegria, não cuides de ti. Se te queres proteger, protege sempre os outros.

[174] À medida que vais cuidando do teu corpo, ele vai fenecendo e ficando decrépito.

[175] E mesmo nesse estado decadente, a terra inteira não chegaria para satisfazer a sua cobiça. Quem seria capaz de o satisfazer?

[176] Quem deseja o impossível recolhe uma triste ilusão. Quem abandona as expectativas usufrui de uma felicidade inalterável.

[177] Portanto, não se deve dar livre curso ao aumento da cobiça do corpo. Só é bom o que não aparece como desejável.

[178] O corpo! Figura impura horrível que tem a cinza por fim e conclusão, que é inerte e movido por um outro. Porque lhe hei de aplicar a noção de um "eu"?

[179] Para que serve esta máquina viva ou morta? Qual a diferença entre ela e um pedaço de terra? Oh sentimento de um "eu", porque não morres de vez?

[180] Cuidar do meu corpo só me trouxe sofrimentos. No entanto, ele não passa de um cepo. Que me importa a sua afeição ou o seu ódio?

[181] Protegido por mim ou devorado pelos abutres, o corpo nem gosta de mim, nem odeia os abutres. Porque o hei de considerar com afeição?

[182] Irrito-me quando ele é maltratado e fico contente com as honras que recebe, mas, uma vez que ele nem se dá conta disso, para que me hei de golpear?

[183] "Os que gostam deste corpo são amigos para mim". Seja, mas todos os homens gostam do seu corpo. Porque não hei de ter por eles a mesma amizade?

[184] Por isso, no interesse do mundo, renuncio sem reserva ao meu corpo. Se o conservo, apesar dos seus defeitos, é como um instrumento de ação.

[185] Para trás, conduta profana! São os sábios que quero seguir! Recordando os ensinamentos sobre a aplicação, combaterei a indolência e o torpor.

[186] Como o Bodhisattva transbordando de compaixão, vou assumir pacientemente a minha empresa. Se não fizer esforços constantes, noite e dia, será que algum dia verei o fim da minha miséria?

[187] Possa eu afastar do mau caminho a minha mente confusa, para escapar às trevas e deixá-la em equanimidade sobre o seu verdadeiro ponto de apoio.

[As duas últimas quadras deste capítulo apenas figuram na versão tibetana. Não se possui equivalente em sânscrito.]

[Adaptado de O Caminho para a Iluminação — Bodhicaryavatara. Coleção Espiritualidades, série Budismo, sob a direção do Ogyen Kunzang Chöling. Escrito por Shantideva, tradução para o português por Filipe Valente Rocha e outros praticantes da escola do Budismo tibetano Ogyen Kunzang Chöling. Lisboa: Livros e Leituras, 1998. Pág. 105-127. O texto foi gentilmente transcrito por Sherab Chötso.]


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