7. A Perseverança


[1] Agora que ganhamos a paciência, devemos cultivar a perseverança, pois é nela que a iluminação toma assento. Assim como sem vento não há movimento, sem perseverança o mérito espiritual é certamente impossível.

[2] O que é a perseverança? A perseverança é o entusiasmo pelo bem. Quem são os seus adversários? A indolência, o apego ao mal, o desencorajamento e o desprezo de si. 

[3] A inércia, o gosto pelo prazer e pelo dormir engendram a insensibilidade à dor das transmigrações; daí nasce a indolência.

[4] Presa desses pescadores que são as emoções negativas, desde que caíste na rede dos nascimentos, como não compreendeste ainda que entraste nas goelas da morte?

[5] Será que não vês os teus companheiros morrerem, uns seguindo aos outros? Como te deixas levar pela indolência, como um búfalo a caminho do abate?

[6] Yama, o senhor da morte, está à tua espera e qualquer outra saída te é vedada. Como consegues deleitar-te no comer e no dormir?

[7] A morte carrega sobre ti! Antes que ela chegue, acumula sabedoria e méritos. Na hora de morrer, mesmo que sacudas a tua indolência, que poderás fazer?

[8-9] "Isto não foi feito, aquilo mal comecei, isto ainda vai a meio e a morte apareceu de imprevisto. Ah! Estou perdido!" É assim que vais pensar quando, rodeado pelo desespero dos teus familiares, os olhos arregalados pela aflição e inflamados pelas lágrimas, estiveres diante dos mensageiros da morte.

[10] Quando, torturado pela lembrança dos teus erros, atordoado pelo clamor do inferno, sujo nos teus próprios excrementos, estiveres perdido e no auge do teu pavor, que vais fazer?

[11] Tu, que até nesta vida te assustas, como um peixe fora da água, que será de ti, malfeitor, face aos terríveis suplícios do inferno?

[12] Como podes permanecer tão tranqüilo quando tens perante ti os infernos que constróis com as tuas próprias ações? Não sentes já a tua carne delicada a fundir em contato com os metais em fusão?

[13] És um desleixado, mas invejas as recompensas. És um piegas e o teu destino são todos os sofrimentos. A morte já te abraça mas imaginas-te imortal. Ai de ti! O sofrimento vai destruir-te!

[14] Tens a barca do ser humano: não hesites na travessia do rio da dor! Tolo, não vês que não é a altura de dormir? Vai ser muito difícil encontrar esta barca de novo.

[15] Como consegues renunciar à excelente jóia que é o Dharma, uma nascente de alegrias sem fim, pelo prazer dos risos e distrações que apenas servem para engendrar a dor?

[16] A coragem, a armada dos antídotos, a aplicação, o domínio de si, o pensamento de que os outros são tão importantes como eu, a inversão de si pelos outros, são os fatores da perseverança.

[17-18] Não nos devemos desencorajar pensando, "Como hei de conseguir a iluminação?", uma vez que o Tathagata disse, em boa verdade, que outrora foram moscas, moscardos e mosquitos ou vermes os que, pelo seu esforço, obtiveram a iluminação, tão difícil de alcançar.

[19] Ora, eu que nasci como  humano, capaz de discernir o bem do mal, porque não haveria eu também, seguindo as regras dos oniscientes, de obter a iluminação?

[20] Mas não é que tremo com a idéia de dar as minhas mãos, os pés e os outros membros? Parece-me que, por falta de reflexão, confundo o que é grave com o que é insignificante.

[21-22] O que é grave é ser cortado, esquartejado, queimado e lacerado durante inumeráveis milhões de Kalpas e sem obter a iluminação. O que é insignificante é esta dor limitada, que leva à iluminação, semelhante à dor da extração de um espinho cravado na carne que põe fim ao sofrimento que causava.

[23] Todos os médicos curam recorrendo a operações dolorosas; por conseguinte, é preciso sofrer um pouco para eliminar grandes sofrimentos.

[24] Mas o médico supremo não utiliza estas operações ordinárias; é por métodos suaves que cura as mais graves doenças.

[25] Primeiro, o mestre prescreve ao seu discípulo que dê legumes e outros alimentos, depois, gradualmente, torna-o capaz de sacrificar mesmo a própria carne.

[26] Àquele que chega ao ponto de olhar da mesma maneira legumes e a própria carne, nada lhe custa sacrificar, nem a carne, nem os ossos.

[27] Virtuoso, está protegido do sofrimento físico, sábio, do sofrimento mental; pois a mente sofre pelos erros e o corpo pelos maus atos.

[28] O corpo está contente graças à virtude e a mente graças à sabedoria. Permanecendo no ciclo das transmigrações por compaixão dos seres, de que haveria de sofrer?

[29] Destruindo as suas faltas passadas e dessedentando-se de oceanos de mérito, pela força da Bodhichitta vai mais rápido que os Shravakas.

[Os Shravakas, "ouvidores", recebem os ensinamentos, praticam-nos e transmitem-nos.]

[30] Indo assim de alegria em alegria, que pessoa inteligente se desencorajaria, se recebeu esta carruagem que é a Bodhichitta, que o poupa a qualquer dor ou fadiga?

[31] Para realizar o bem dos seres é necessária uma armada de quatro corpos: aspiração, firmeza, alegria e renúncia. A aspiração adquire-se pelo receio da dor e pelo pensamento das vantagens da liberação.

[32] Assim, tendo afastado os inimigos da perseverança, com a aspiração, a confiança em si, a alegria e a renúncia, esforcemo-nos para a aumentar, graças à força da aplicação e ao domínio de si.

[Louis Finot omitiu este verso, julgando-o redundante. Preferimos reinseri-lo, seguindo assim as outras edições em sânscrito e tibetano.]

[33] Tenho de acabar com vícios inumeráveis, meus e dos outros. Mas nesta tarefa a destruição de cada vício só se consegue ao fim de uma infinidade de Kalpas!

[34] Para esta empresa da destruição dos vícios, não sinto em mim a mais pequena parcela de energia. Fadado às dores sem fim, não sei como o meu peito não se desconjunta!

[35] Preciso ganhar numerosas virtudes, para mim e para os outros, mas a prática de cada virtude só se obtém ao longo dos oceanos de Kalpas, e mesmo assim...

[36] Ora, ainda não adquiri a prática de uma única parcela de virtude. Que tristeza! Como pude desperdiçar este maravilhoso nascimento humano, tão difícil de obter.

[37] Nada ofereci aos Bhagavans, nem regozijei a Sangha com grandes festas de homenagem, nada fiz pelo Dharma e tão pouco fui capaz de satisfazer a esperança dos pobres.

[38] Aos seres em perigo não garanti segurança, aos que sofrem não ofereci o bem-estar e mesmo no seio da minha mãe não passei de um cravo doloroso.

[39] Nas minhas vidas anteriores, bem como na atual, pouco aspirei ao Dharma; eis a razão de me encontrar em tal infortúnio. Perante tudo isto, quem poderia abdicar da aspiração ao Dharma?

[40] O Buddha declarou que a aspiração é a raiz de todos os méritos; a aspiração tem por raiz a meditação constante sobre os frutos dos nossos atos.

[41] Dores físicas, dores mentais, perigos de todo o gênero, enfim, a ruína de tudo o que desejam, é o que espera os malfeitores.

[42] O desejo de fazer o bem que cumprem as pessoas virtuosas será, graças aos seus méritos, honrado em todos os lugares pelos frutos da virtude.

[43] O desejo da felicidade, que é formulado pelos malfeitores, será, em conseqüência da sua falta de mérito, despedaçado em todos os lugares pelos laivos da dor.

[44] Os Bodhisattvas, graças às suas boas obras, surgem na mente de grandes flores de lótus perfumadas e frescas, desenvolvem o seu corpo brilhante como alimento que lhes é dado pela palavra harmoniosa dos Jinas e, finalmente, emergem de seus cálices abertos, desabrochando à luz dos raios do Buddha e nascem supremamente formoso sob o seu olhar.

[Esta é uma descrição do nascimento dos Bodhisattvas em Sukhavati, a terra pura do Buddha da luz infinita, Amitabha.]

[45] O miserável, no seguimento das suas faltas, esfolado pelos servidores da morte, o corpo regado de cobre fundido ao calor do fogo e a carne lacerada por centenas de golpes de lanças e de espadas inflamadas, cai e volta a cair nos infernos pavimentados de ferro em brasa.

[46] Por isso, pratiquemos a aspiração ao bem. Depois de a ter claramente desenvolvido, devemo-nos entregar ao cultivo da confiança em si, segundo o método do Discurso do Estandarte Adamantino.

[O Discurso do Estandarte Adamantino, Vajradhvaja Sutra, é uma parte do Avatamsaka Sutra. Nele é dito, "Quando o sol brilha, Devaputra, ele ilumina o mundo inteiro apesar da cegueira dos seres e das cadeias de montanhas. Do mesmo modo, os Bodhisattvas manifestam-se para libertar os seres apesar dos obstáculos que neles estão presentes."]

[47] Verifiquemos, primeiro, a nossa força, depois lancemo-nos à obra ou não, pois mais vale abster-se que renunciar ao que foi começado.

[48] Senão, recomeçaremos nas vidas seguintes, o sofrimento sempre crescendo pelo mal agir, e mesmo qualquer ação que se complete apenas dará frutos incompletos e de pouca valia.

[49] A confiança em si aplica-se a três coisas: à ação, às emoções negativas e ao poder. "Agirei só!" — eis a confiança em si na ação.

[50] Dominado pelas emoções negativas, o mundo é incapaz de alcançar por si a sua salvação. Cabe-me, pois, a mim realizá-la por ele, pois não sou impotente como o mundo.

[51] Alguém faz um humilde serviço e eu fico para aqui sem fazer nada! Se é o orgulho que me impede de ajudar, morra então o orgulho!

[52] O corvo comporta-se como a águia perante uma serpente morta. A menor tentação abater-me-á se a minha mente fraquejar.

[53] Para quem fica inativo por desencorajamento, não tem fim a sua fraqueza. Quem for enérgico e confiante será capaz de enfrentar as maiores dificuldades.

[54] Por isso eu quero, com a mente firme, realizar a perda da minha perda. Querer conquistar o universo é ridículo se cedo aos atos negativos.

[55] Tenho de ser o vencedor de tudo sem ser vencido por nada. Esta é a força altiva que se deve levantar em mim, pois sou o filho dos leões, dos Jinas!

[56] Os homens vencidos pelo orgulho são uns covardes e não uns verdadeiros orgulhosos; o homem orgulhoso não se rende ao seu inimigo e esses aceitam o jugo do seu inimigo, o orgulho.

[57-58] O orgulho leva-os às condições lastimáveis e mesmo na condição humana vivem sem alegria, vão comendo o que lhes é dado por esmola; são escravos, tolos, feios e fracos, desprezados por todos, pobres diabos paralisados pelo orgulho. Se são esses os homens que se contam entre os orgulhosos, querem-me dizer quem são os desprezíveis?

[59] Os que põem o seu orgulho no vencer deste inimigo que é o orgulho são altivos, vitoriosos e heróicos. Tendo esmagado o orgulho, esse inimigo que tudo invade, realizam o fruto da sua vitória e satisfazem os desejos dos seres.

[Isto é feito tornando-se um Buddha e ensinando o Dharma.]

[60] Lançado no meio do bando das emoções negativas, que seja mil vezes mais forte do que elas, invencível entre as emoções negativas como o leão entre as gazelas.

[61] No auge do perigo protegemos os olhos. Também o Bodhisattva, apanhado entre duras provas, não cede às emoções negativas.

[62] Que eu seja queimado ou morto, que a minha cabeça caia! Nunca me inclinarei perante o meu inimigo, as emoções negativas! Seja qual for a circunstância, apenas realizarei o bem!

[Esta estrofe não figura na versão de Louis Finot. Segundo certos comentários, a autenticidade da segunda frase é contestada, mas ainda assim ela é geralmente incluída.]

[63] A atividade em que se empenhe dá-se com todas as suas forças, entrega-se apaixonadamente com uma mente insaciável, como um jogador devorado pelo desejo de ganhar.

[64] Todas as ações, trazendo-a ou não, têm por finalidade a felicidade. Mas para quem a felicidade consiste na própria ação, como poderá estar feliz se não age?

[65] Nunca nos cansamos dos prazeres do mundo, semelhantes ao mel sobre o fio de uma navalha. Como nos poderíamos dar por saciados do néctar das boas obras, que amadurece em frutos de pacífica doçura?

[66] Por isso, terminada uma ação que logo salte para outra, como o elefante escaldado pelo calor do meio-dia mergulha no primeiro lago que encontra.

[67] Se a sua força se esgota, que renuncie provisoriamente ao agir. Quando a obra está perfeita, que a deixe de lado, já na impaciência da que sucede.

[68] Que fique em guarda contra os assaltos das emoções negativas e pronto a contra-atacar vigorosamente, como quem esgrima com um hábil adversário.

[69] Da mesma maneira que num combate, quando a espada cai, rapidamente a apanha, com receio, quando perde a espada da atenção, que seja prestes a retomá-la, lembrando-se dos infernos.

[70] Como o veneno que, penetrando o sangue, se espalha no corpo, o vício, se encontra uma fissura, expande-se na mente.

[71] Como quem carrega entre espadachins um vaso repleto de óleo, ameaçado de morte ao mais pequeno gesto em falso, concentra a sua atenção, assim caminha quem se dirige para a perfeição.

[72] E como um homem que sente uma serpente no peito se levanta num ápice, assim reage prestemente o praticante ao aproximar da sonolência e da indolência.

[73] Arrependendo-se a cada falha, deve pensar: "Como hei de fazer para que isto não me volte a acontecer?"

[74] Compreendendo a importância da atenção em todas as circunstâncias, que haja uma aspiração a exercê-la e que, para tal, se procure a companhia dos sábios.

[75] Antes de agir, a fim de estarmos prontos para qualquer ocorrência, é bom relembrar os ensinamentos sobre a aplicação; depois então, devemo-nos lançar alegremente na ação.

[76] Como um floco de algodão obedece ao vaivém do vento, deixemo-nos conduzir pela perseverança; é assim que se atinge a finalidade!

[Adaptado de O Caminho para a Iluminação — Bodhicaryavatara. Coleção Espiritualidades, série Budismo, sob a direção do Ogyen Kunzang Chöling. Escrito por Shantideva, tradução para o português por Filipe Valente Rocha e outros praticantes da escola do Budismo tibetano Ogyen Kunzang Chöling. Lisboa: Livros e Leituras, 1998. Pág. 93-103. O texto foi gentilmente transcrito por Sherab Chötso.]


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