[1] Pelo mérito que adquiri compondo O Caminho para a Iluminação, possam todos os seres entrar na prática dos Bodhisattvas!
[2] Possam todos os que em todos os cantos do mundo sofrem dores do corpo ou da mente obter, graças aos meus méritos, oceanos de prazer e de alegria!
[3] Enquanto dure para eles a transmigração, que nunca a felicidade sofra um eclipse! Que os seres desaguem na felicidade sem limites dos Bodhisattvas!
[4] E que em todos os infernos do universo os seres gozem dos prazeres e das alegrias de Sukhavati!
[5] Que os condenados ao frio recebam o calor! Que os danados do calor sejam refrescados pelas imensas ondas vertidas pelas grandes nuvens que são os Bodhisattvas!
[6] Que para eles a floresta das folhas em lâminas de espadas passe a ser um magnífico jardim e as árvores Kutashalmali outras tantas
árvores dos desejos!
[Nos infernos, os adúlteros sentem um impulso irresistível de subir à gigantesca árvore Kutashalmadi, onde mulheres com dentes de ferro os agarram em abraços que os despedaçam. As árvore dos desejos (Kalpavriksha) tem como fruto tudo o que se deseja.]
[7] Que as regiões infernais conheçam o encanto dos lagos, salpicando a alegria das brincadeiras dos pássaros aquáticos e o perfume das flores de lótus luxuriantes!
[8] E que o montão de carvões ardentes se torne uma pilha de gemas! O chão escaldante, um pavimento de cristal! As montanhas esmagadoras, palácios celestiais decorados de oferendas e povoados de Buddhas!
[9] Que a chuva de lava, de pedras incandescentes e de espadas passe a ser uma chuva de flores! Que a batalha com armas passe a ser um agradável torneio de flores!
[10] Que os seres mergulhados no rio Vaitarani, de vagas escaldantes como o fogo, com as carnes despedaçadas e os ossos esbranquiçados como o jasmim, obtenham, pela força dos meus méritos, uma natureza divina e se divirtam com as deusas no rio
Mandakini!
[Vaitarani é um rio dos infernos, enquanto Mandakini é um rio do céu.]
[11] E vendo num repente os servidores da morte, corvos e abutres horríveis, encolher-se de medo, dizem: "De onde vem este generoso poder de dissipar as trevas e trazer a alegria?" Então, levantando os olhos, vendo erguer-se no céu o flamejante Vajrapani, que eles sejam libertos das suas faltas e se lancem alegremente ao céu para o acompanharem.
[12] Eis que cai uma chuva de lótus e água perfumada! Oh que felicidade! Sob o manto desta vaga vão-se apagando os fogos do inferno! "O que está acontecendo?", dizem os condenados, subitamente inundados de prazer. É Padmapani! Possa Padmapani lhes aparecer!
[Padmapani, "aquele que segura o lótus", é um dos dos nomes do Bodhisattva Avalokiteshvara.]
[13] "Amigos", gritam, "vejam, vinde rápido! Arredem todo o medo!" Eis que chega, libertando do medo o inferno, um jovem príncipe penteado com tranças. O seu poder elimina todas as calamidades e faz correr rios torrenciais de alegria: é o Bodhisattva com a mente transbordante de amor! A sua presença protege todos os seres do sofrimento!
[Chirikumara, "príncipe penteado com tranças", refere-se a o Bodhisattva Manjushri, que é caracterizado pelos epítetos de príncipe (kumara) e de ter três ou cinco madeixas de cabelo (respectivamente tricira ou panchacira).]
[14]. "Vejam! Sobre o lótus dos seus pés refletem-se diademas de centenas de deuses prostrados. Os seus olhos estão
úmidos de compaixão e sobre a sua cabeça cai uma chuva de flores; no seu palácio encantado vibram os cânticos de milhares de deusas celebrando as suas louvações: é Manjushri!" E vendo-o face a si, que os danados o aclamem!
[15] Pelo efeito dos meus méritos, que os danados tenham a alegria de encontrar as nuvens de chuvas e as brisas deliciosas, frescas e perfumadas, criadas por Samantabhadra e pelos puros Bodhisattvas!
[16] Que os animais parem de se devorar entre si! Que os fantasmas famintos sejam felizes como os homens de
Uttarakuru!
[Os Pretas, "fantasmas famintos", sofrem constantemente de fome e de sede. Uttarakuru é um dos quatro continentes (o do norte) que rodeiam o Monte Meru.]
[17] E que sejam saciados! Banhados e refrescados pelos regatos de leite que correm dos dedos de Avalokiteshvara!
[18] Que os cegos vejam, que os surdos ouçam, que as mulheres dêem à luz sem dor, como
Mayadevi!
[Mayadevi é a a mãe do Buddha Shakyamuni.]
[19] Que os maltrapilhos recebam roupas, os esfomeados encontrem comida e os sequiosos água e bebidas deliciosas!
[20] A riqueza aos pobres! A alegria aos aflitos! Que os corações despedaçados retomem a esperança, a força e o êxito!
[21] Que os doentes recuperem rápido a saúde e que a doença seja desconhecida no mundo!
[22] A coragem aos medrosos, a liberdade aos cativos, a força aos enfezados e a afeição recíproca a todos os seres!
[23] Que todas as regiões sejam propícias aos viajantes e que os ajudem no sucesso das suas viagens!
[24] Que os navegadores realizem os seus desejos! Que regressem tranqüilamente aos portos e se
regozijem com as suas famílias!
[25] Que os viajantes perdidos e dolentes encontrem companheiros e se façam ao caminho sem fadiga, ao abrigo do perigo dos ladrões e dos tigres!
[26] Que os deuses protejam as crianças, os velhos e os abandonados, adormecidos em regiões inóspitas e desertas, vencidos pelo cansaço!
[27] Que os seres estejam sempre ao abrigo das condições difíceis, cheios de fé e de sabedoria, de compaixão e de meios de subsistência puros, com boa conduta, relembrando-se das vidas anteriores.
[28] Que tenham tesouros inesgotáveis como Gaganaganja. Que vivam na harmonia, na paz, na independência!
[Gaganaganja é o nome de um Bodhisattva.]
[29] E que os seres sem esplendor se tornem resplandecentes! Se são marcados fisicamente pela provação, que ganhem corpos lindos e perfeitos!
[30b] Que os humildes se tornem grandes e os orgulhosos sem orgulho!
[31] Pelo poder dos meus méritos, possam todos os seres sem exceção desviar-se dos atos negativos e praticar o bem para todo o sempre!
[32] Que nunca se separem da Bodhichitta, sempre se aplicando na prática dos Bodhisattvas e favorecidos pela graça dos Buddhas! Abandonem os atos negativos!
[33] Que todos os seres gozem de uma vida ilimitada! Que vivam eternamente felizes! Que o nome mesmo da morte desapareça!
[34] E que todo o espaço fique repleto de Buddhas e de Bodhisattvas, embelezado de parques com árvores maravilhosas e encantadas pelo som do Dharma!
[35] Que por todo o lado a terra seja limpa de gravilhas e de outras asperezas, suave e una como a palma da mão e a natureza do
lápis-lazúli!
[36] Possam grandes assembléias de Bodhisattvas surgir por todo o lado, decorando a terra com o seu esplendor!
[37] Que os pássaros, as árvores, os raios de luz e o céu façam continuamente ouvir aos seres a voz do Dharma!
[38] Que os homens fiquem para sempre na companhia dos Buddhas e Bodhisattvas e que honrem com nuvens de oferendas o
preceptor do mundo!
[39] Que pela graça dos deuses chova quando é oportuno, que as colheitas sejam abundantes e o mundo próspero; que os reis governem segundo o Dharma.
[40] Que os remédios sejam eficazes e a recitação dos mantras coroada de êxito. Que as fúrias, os vampiros e os outros
demônios sejam compassivos!
[41] Que nenhum ser seja infeliz, maldoso, doente, temeroso, desprezado ou angustiado!
[42] Que os monastérios sejam abrigos de estudo florescentes! Que a harmonia reine na Sangha e que a sua obra triunfe!
[43] Que os monges desejosos de praticar encontrem ermidas tranqüilas. Isentos de qualquer distração, possam eles conquistar a mente pela meditação!
[44] Possam as monjas receber donativos e permanecer sem disputas e tranqüilas. E também que todos os religiosos observem rigorosamente as regras da disciplina!
[45] Que os que transgrediram os votos se arrependam e se apliquem sempre a destruir as suas faltas! Que alcancem os renascimentos felizes e nunca mais se separem da conduta justa!
[46] Que os sábios sejam respeitados, alimentados pela esmola, de um caráter puro e de reputação universal!
[47] Sem ter de suportar os tormentos do inferno, sem dificuldades particulares e com um único corpo, superior ao dos deuses, possam os seres alcançar o mais rápido possível o estado de Buddha!
[48] Que todos os seres venerem vezes sem conta todos os Buddhas e permaneçam constantemente felizes na inconcebível felicidade de Buddha!
[49] Que os votos formulados pelos Bodhisattvas para o mundo se cumpram! Possam os seres receber tudo o que os
protetores lhes desejam!
[50] Possam os Pratyekabuddhas e os Arhats permanecer serenos.
[Aqui, a versão tibetana só tem dois versos, enquanto a versão em sânscrito tem quatro.]
[51] Possa eu, pela graça de Manjushri, acordar a memória das minhas vidas e receber a ordenação até que alcance a terra da alegria!
[Pramuditabhumi, "terra da alegria", é a a primeira das dez etapas (bhumi) que conduzem ao estado búddhico.]
[52] Possa eu viver com um alimento frugal e em todas as minhas vidas encontrar um lugar solitário ideal!
[53] Quando o queira ver ou interrogar, possa eu ver sem obstáculos o meu protetor, Manjushri!
[54] Possa eu agir como Manjushri, que para o bem dos seres caminha nas dez direções até aos confins do espaço!
[55] Enquanto dure o espaço e o mundo, possa eu trabalhar para destruir as dores do mundo!
[56] Que a dor do mundo amadureça em mim e que o mundo seja feliz pelas boas obras dos Bodhisattvas!
[57] Remédio único para a dor do mundo, fonte de toda a prosperidade e de toda a felicidade, que o Dharma dure por muito tempo, investido de proveitos e de honra.
[58] Saudação a Manjushri, pela graça de quem o meu pensamento se dirigiu para o bem. Homenagem ao meu amigo espiritual, pela graça de quem ele se desenvolve!
[Adaptado de O Caminho para a Iluminação — Bodhicaryavatara. Coleção Espiritualidades, série Budismo, sob a direção do Ogyen Kunzang Chöling. Escrito por Shantideva, tradução para o português por Filipe Valente Rocha e outros praticantes da escola do Budismo tibetano Ogyen Kunzang Chöling. Lisboa: Livros e Leituras, 1998. Pág. 159-166. O texto foi gentilmente transcrito por Sherab Chötso.]