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[Segundo o buddhismo Mahayana,] o Prajnaparamita foi ensinado pela primeira vez pelo Buddha no Pico dos Abutres, próximo a Rajgir, no curso do que veio a ser conhecido como o Segundo Giro da Roda do Dharma. Após dar os ensinamentos relacionados ao sofrimento, às suas causas, à cessação e ao caminho da liberação, o Buddha ensinou o significado último do Dharma, a vacuidade de existência inerente de todos os fenômenos. Este ensinamento encontra sua expressão mais concisa no famoso Sutra do Coração.
Este sutra toma a forma de um diálogo entre Avalokiteshvara e Shariputra aos pés do Buddha. Avalokiteshvara aplica o raciocínio da negação para mostrar a verdade absoluta a Shariputra. A forma deste raciocínio apresenta certas características análogas à tradição escolástica da teologia negativa do cristianismo oriental. É por definição impossível expressar o inefável, o que está além da expressão, e o mesmo é verdadeiro para a verdade absoluta, que está além das palavras e dos conceitos. O máximo que se pode expressar é o que ela não é, pela exclusão: "Assim, Shariputra, na vacuidade não há forma, nem sensação, [...] nem sofrimento, [...] nem cessação [do sofrimento], [...] nem atingimento nem não-atingimento."
O termo vacuidade não carrega aqui qualquer conotação de vazio ou nada absolutos. Deve ser entendido como o estado da mente naturalmente aberto e sereno. Assim, afirmar a vacuidade dos fenômenos não significa, de qualquer modo, que eles não existem da mesma forma não existe o chifre de uma lebre ou flores no céu. Ao invés disso, a vacuidade refere-se ao insight de que, no nível absoluto, tanto os fenômenos internos — as sensações, as percepções e o "eu" — quanto os externos — todas as aparências do mundo fenomênico — não têm existência real, apesar de eles aparecerem em diferentes formas. O Sutra do Coração sumaria isto da seguinte maneira: "A forma é a vacuidade, a vacuidade é a forma, a vacuidade não é outra senão a forma, a forma não é outra senão a vacuidade."
"A forma é a vacuidade" é o insight (sânsc. prajna) que desafia o materialismo e a concepção realista do universo ao estabelecer que os fenômenos — desde a menor partícula até a onisciência dos buddhas — definitivamente não possuem qualquer existência por si próprios. "A vacuidade é a forma" é a afirmação da verdade relativa e a rejeição das concepções niilistas. A vacuidade manifesta-se como forma em todas as coisas, tanto materiais quanto imaginárias, e não pode ser encontrada fora destes fenômenos. Deste modo, os bodhisattvas não podem cortar-se do mundo nem encontrar deleite individual na vacuidade, mas eles devem fazer uso dos meios hábeis (sânsc. upaya), tais como a bondade amorosa e a compaixão, a fim de realizar a verdade absoluta. Com esta meta, eles devem desenvolver as qualidades da generosidade, disciplina, paciência, perseverança e meditação, as cinco perfeições relativas que são os meios para realizar a sexta perfeição, a sabedoria ou insight (sânsc.prajna). "A vacuidade não é outra senão a forma, a forma não é outra senão a vacuidade" expressa a inter-relação destas seis perfeições, como é impossível separar a vacuidade das aparências, a união necessária da verdade relativa e da verdade absoluta aos princípios de exclusão e de contradição mútua. A vacuidade não nega ou refuta a forma, e do mesmo modo a forma não nega ou refuta a vacuidade.
A fim de ilustrar a vacuidade da existência inerente dos fenômenos, os comentadores muitas vezes usam o exemplo do sonho. De fato, as imagens do sonho são vazias de qualquer realidade material por si próprias, já que elas não são compostas por átomos ou partículas. Do mesmo modo, nem o sentido da visão ou a consciência visual, que estão na base da visão destas imagens, têm qualquer existência real. O fogo que se percebe em um sonho não existe realmente; ele simplesmente aparece como o jogo da mente e, nunca tendo existido, também não podem perecer. Por isso, o nível de existência das imagens do sonho nada mais é que uma convenção, um termo aplicado para definir a experiência mental. Não se pode afirmar que os sonhos não existem, pois na consciência do sonhador eles produzem emoções, sofrimento ou alegria, lágrimas ou riso. Nem se pode afirmar que eles realmente existem, pois eles são vazios de qualquer realidade intrínseca por si mesmos, fora da consciência que os criou no primeiro lugar. Do mesmo modo, de acordo com o Mahayana, os fenômenos parecem existir, mas na realidade a sua essência é a vacuidade. Eles são como uma miragem ou uma ilusão criada por um mágico.
A escola de pensamento que articula esta visão é chamada Caminho do Meio (sânsc. Madhyamaka) porque estabelece que os fenômenos não são nem existentes ("a forma é a vacuidade"), nem não-existentes ("a vacuidade é a forma"), nem qualquer outra combinação destes dois extremos. Ela portanto situa-se no meio, entre os pontos de vista eternalista e niilista, insistindo sobre a impossibilidade de separar as duas verdades (relativa e absoluta), de separar samsara e nirvana. Portanto, a natureza de todos os fenômenos não pode ser reduzida a conceitos, por mais profundos que sejam. Está além de toda conceitualização. Esta doutrina Madhyamaka foi sistematizada por Nagarjuna (século II) em seu Tratado Fundamental sobre o Caminho do Meio chamado "Sabedoria", mais tarde comentado por Chandrakirti (século VI) em seu Entrando no Caminho do Meio — Um Comentário ao "Tratado Fundamental sobre o Caminho do Meio".
(Edou,
Jérôme. Machig Labdrön and the Foundations of Chöd.
Ithaca: Snow Lion, 1996. Pág. 25-27.)