![]() |
|
[A escola filosófica Madhyamika, ou "Caminho do Meio", fundada por Nagarjuna,] é a descrição de uma realidade experiencial que nunca pode ser descrita precisamente porque as palavras não são a experiência. As palavras ou conceitos apenas apontam para aspectos parciais da experiência. Logo, é duvidoso que se possa mesmo falar em "experienciar" a realidade, já que isto implicaria uma separação entre o experienciador e a experiência. E, finalmente, é discutível que se possa falar em "realidade" porque isso implicaria a existência de algum conhecedor objetivo fora e separado dela, como se a realidade fosse uma coisa nomeável com divisas e limites fixos. Assim, a escola Madhyamika fala simplesmente de tathata, "como é". Nagarjuna preferia abordar a verdade tomando os argumentos de outras escolas filosóficas em seus próprios termos e os reduzindo logicamente ao absurdo, ao invés de oferecer pessoalmente quaisquer definições da realidade.
Existem vários outros enfoques filosóficos importantes dos problemas da verdade e da realidade que precederam e influenciaram o desenvolvimento da escola Madhyamika. Essas linhas de pensamento encontram sua expressão não só nas escolas filosóficas buddhistas antigas, mas também nos enfoques teísticos do hinduísmo, do vedantismo, do islamismo, do cristianismo e da maioria das demais tradições religiosas e filosóficas. Do ponto de vista da escola Madhyamika, esses outros enfoques podem ser agrupados em três categorias: os eternalistas, os niilistas e os atomistas. Para os madhyamikas, as duas primeiras abordagens são erradas e a terceira é apenas parcialmente verdadeira.
O eternalismo
A primeira e a mais óbvia dessas três "concepções errôneas da natureza da realidade", o eternalismo, é, freqüentemente, uma das mais ingênuas versões do teísmo. As doutrinas eternalistas encaram os fenômenos como se estes contivessem alguma espécie de essência eterna. As coisas nascem e morrem, mas, apesar disso, contêm uma essência que não perece. A característica da existência eterna precisa estar ligada a alguma coisa, de modo que os seguidores dessa doutrina costumam endossar a crença em um deus, em uma alma, em um atman, em um inefável si mesmo. Desse modo, o crente afirma que existe alguma coisa sólida, em marcha, eterna. É tranqüilizador ter alguma coisa sólida a que nos possamos agarrar, em que possamos nos absorver, um modo fixo de compreender o mundo e entender o nosso relacionamento com ele.
O niilismo
Finalmente, entretanto, o adepto das doutrinas eternalistas pode desiludir-se com um deus que nunca viu, uma alma ou essência que não consegue encontrar. Isto nos leva à seguinte, e algo mais sofisticada, concepção errônea da realidade: o niilismo. Essa opinião sustenta que tudo vem do nada, do mistério. Às vezes, esse enfoque aparece como afirmações teístas e ateístas de que a entidade suprema é incognoscível. O sol brilha, projeta luz sobre a Terra, ajuda a vida a crescer, proporciona calor e claridade. Mas não atinamos com a origem da vida; não há um ponto de partida lógico para o inicio do universo. A vida e o mundo nada mais são do que a dança de maya, a ilusão. As coisas são simplesmente geradas de maneira espontânea, de lugar nenhum. O nada, assim, parece importante neste enfoque: uma realidade incognoscível de certo modo além dos fenômenos aparentes. O universo acontece misteriosamente; sem nenhuma explicação real. É possível que um niilista dissesse que a mente humana não pode entender esse mistério. Portanto, nesta visão da realidade, o mistério é tratado como uma coisa. A idéia de que não há resposta é fixadamente tida e havida como resposta.
O enfoque niilista evoca a atitude psicológica do fatalismo. Compreendemos logicamente que, se fizermos algo, acontecerão coisas como reação à nossa ação. Vemos uma continuidade de causa e efeito, uma reação em cadeia sobre a qual não temos controle. Esse processo de reação em cadeia provém do mistério do "nada". Por conseguinte, se assassinássemos alguém, seria nosso karma assassinar, e era inevitável, preordenado. A propósito, se praticarmos uma boa ação, esta não tem relação alguma com o fato de estarmos ou não despertos. Tudo provem do misterioso "nada", que é a abordagem niilista da realidade.
E um ponto de vista muito ingênuo: deixamos tudo a cargo do mistério. Toda vez que não estivermos muito certos do que está além do âmbito de nossas idéias
conceituais, começamos a entrar em pânico. Temos medo da nossa própria incerteza e tentamos preencher
essa brecha com alguma coisa diferente. Essa outra coisa é, geralmente, uma crença filosófica
— neste caso, a crença no mistério. Ansiosa e avidamente buscamos o nada, esquadrinhando todos os cantos no intuito de encontrá-lo. Mas só encontramos migalhas. Nada mais do que isso. E muito misterioso. Enquanto continuarmos a buscar uma resposta conceptual, haverá sempre áreas de mistério, mistério esse que é, em si mesmo, outro conceito.
Sejamos nós eternalistas, niilistas ou atomistas, presumimos constantemente que existe um "mistério", algo que não conhecemos: o significado da vida, a origem do universo, a chave da felicidade. Lutamos por alcançar esse mistério, tentando transformar-nos numa pessoa que o conhece ou possui, chamando-o
"deus", "alma", "atman", "brahman",
"shunyata" etc. Certamente esta não é a abordagem Madhyamika da realidade, conquanto as primeiras escolas
Hinayana do buddhismo, até certo ponto, caíssem na armadilha, razão pela qual o seu enfoque é considerado apenas uma verdade parcial.
Os atomistas
O enfoque Hinayana da realidade vê a impermanência como o grande mistério: o que nasceu tem de mudar e morrer. Entretanto, não se pode ver a própria impermanência, mas apenas a sua manifestação na forma. Assim sendo, os
Hinayanistas descrevem o universo em termos de átomos existentes no espaço e momentos existentes no tempo. Como tais, são pluralistas atomísticos. O equivalente
Hinayana de shunyata é a compreensão da natureza transitória e insubstancial da forma, de modo que a prática da meditação
Hinayana é dupla: a análise dos vários aspectos da impermanência — os processos do nascimento, crescimento, decadência e morte e suas elaborações; e a prática da atenção plena que vê a impermanência dos acontecimentos mentais. O arhat vê os eventos mentais e os objetos materiais e começa a vê-los como acontecimentos momentâneos e atomistas. Assim descobre que não existe substância permanente nem coisa sólida como tal. Essa abordagem erra em conceituar a existência de entidades relativas umas às outras, a existência "deste" em relação
a "aquele".
Podemos ver os três elementos: o eternalismo, o niilismo e o pluralismo atomístico, em diferentes combinações em quase todas as principais filosofias e religiões do mundo. Do ponto de vista
Madhyamika, essas três concepções errôneas da realidade são virtualmente inevitáveis, enquanto buscarmos uma resposta para uma pergunta hipotética, enquanto procurarmos investigar o chamado "mistério" da vida. A crença em alguma coisa é simplesmente um modo de rotular o mistério.
O Yogachara, uma escola filosófica Mahayana, tentou eliminar esse mistério encontrando uma união do mesmo com o mundo fenomenal.
O principal impulso da escola Yogachara é epistemológico. Para ela, o mistério é
a inteligência, aquilo que conhece. Os yogacharins resolveram o mistério postulando a união indivisível entre a inteligência e os fenômenos. Assim, não existe um conhecedor individual; tudo é"autoconhecido". Existe apenas a "mente única", que os
yogacharins denominaram "cognição autoluminosa", e tanto os pensamentos quanto as emoções, as pessoas e as árvores são aspectos dela. Daí que essa escola seja também mencionada na literatura tradicional como a escola
Chittamatra ou "mente apenas". O Yogachara foi a primeira escola de pensamento buddhista a transcender a divisão entre o conhecedor e o conhecido. Assim, os seus adeptos explicam a confusão e o sofrimento como nascidos da crença errônea num conhecedor individual. Se uma pessoa acredita conhecer o mundo, a mente única parece estar cindida, se bem que na realidade a sua superfície clara esteja apenas turva. A pessoa confusa sente que pensa e reage aos fenômenos externos e assim se vê presa numa constante situação de ação e reação. A pessoa iluminada compreende que os pensamentos e as emoções, de um lado, e o chamado mundo externo, do outro, são ambos o "jogo da mente". Dessa maneira, a pessoa iluminada não se deixa prender no dualismo de sujeito e objeto, interno e externo, conhecedor e conhecido, eu e outro. Tudo é
autoconhecido.
Nagarjuna, todavia, contestou a proposta yogacharin "mente apenas" e, na verdade, pôs em dúvida a própria existência da "mente". Estudou os doze volumes das escrituras Prajnaparamita, surgidas do segundo giro da
roda da doutrina pelo Buddha, o ensino da parte média de sua vida. As conclusões de Nagarjuna estão resumidas no princípio da "não-fixação", o princípio essencial da escola Madhyamika. Segundo ele, qualquer
opinião filosófica pode ser refutada e não se deve fixar sobre qualquer resposta ou descrição da realidade, seja ela extrema ou moderada, incluindo a noção de "mente única". Até mesmo dizer que o não-fixar constitui resposta é ilusório, pois não se deve fixar sobre a não-fixação. O método de
Nagarjuna era o da não-filosofia, o que não era, de modo algum, outra filosofia. Ele disse: "O sábio, tampouco, deve fixar-se em posição intermediária."
A filosofia Madhyamika é uma visão crítica da teoria Yogachara de que tudo é um aspecto da mente.
O argumento Madhyamika afirma, "Para dizer que a mente existe ou que tudo é jogo da mente única, é preciso que haja alguém que observe a mente, o conhecedor da mente que dê testemunho da sua existência." Portanto, a totalidade da Yogachara é, necessariamente, uma teoria da parte desse observador. De acordo, porém, com a própria filosofia Yogachara da cognição autoluminosa, os pensamentos subjetivos acerca de um objeto são ilusórios, não havendo sujeito nem objeto mas apenas a mente única, da qual o observador é uma parte. Por conseguinte, é impossível afirmar que a mente única existe. Como o olho físico, a cognição autoluminosa não pode ver-se, como a navalha não pode cortar-se. Conforme admitem os próprios
yogacharins, não há ninguém para saber que a mente única existe.
O que se pode dizer, então, a respeito da mente ou da realidade? Visto não haver ninguém para percebê-las, a noção de existência em termos de "coisas" e "forma" e ilusória; não há realidade, nem percebedor da realidade, nem pensamentos derivados da percepção da realidade. Uma vez que deixemos de lado o preconceito da existência da mente e da realidade, as circunstâncias emergirão claramente, tais como são. Não há ninguém para observar, ninguém para conhecer coisa alguma. A realidade simplesmente é, e é isso o que significa a palavra
shunyata. Através desta súbita percepção remove-se o observador que nos separa do mundo.
Como, então, começa a crença num "eu" e todo o processo neurótico? Em linhas gerais, conforme os Madhyamikas, toda vez que ocorre uma percepção de forma, verifica-se uma reação imediata de fascinação e incerteza da parte de um subentendido percebedor da forma. Essa reação é quase instantânea. Leva apenas uma fração de fração de segundo. E, assim que reconhecemos o que é a coisa, a nossa reação seguinte é
lhe dar um nome. Com o nome, naturalmente, vem o conceito. Tendemos a conceituar o objeto, o que quer dizer que, a essa altura, já não somos capazes de perceber as coisas como elas realmente são. Criamos uma espécie de
acolchoamento, um filtro ou véu entre nós e o objeto. isto que impede a manutenção da consciência continua, durante e após a prática da meditação. Este véu nos afasta da consciência panorâmica e da presença do estado meditativo, porque, comumente, somos incapazes de ver as coisas como elas são.
Nos sentimos compelidos a nomear, a traduzir, a pensar discursivamente, e essa atividade nos afasta ainda mais da percepção direta e precisa. Assim, shunyata não é simplesmente consciência do que somos e de como somos em relação a tal e tal objeto, mas é
antes a claridade, que transcende o acolchoamento conceptual e as confusões desnecessárias. Já não se está fascinado pelo objeto nem envolvido como sujeito. liberdade disto e daquilo. O que persiste é espaço aberto, a ausência da dicotomia do isto-e-aquilo. Eis ai o significado do Caminho do Meio ou
Madhyamika.
(Chögyam Trungpa. Cutting Through Spiritual Materialism. Boston: Shambhala, 1987.)