Uma Exposição sobre o Coração da Sabedoria
por Jamyang Gawe Lödrö (1429-1503)

Respeitosamente, presto homenagem aos pés de lótus do muitíssimo sagrado Manjusrhi.

Tendo reverenciado o conquistador que ensinou que não existem dois,
mas apenas um caminho trilhado por todos os buddhas e seus filhos, elucidarei
aqui, brevemente, as palavras do Coração [da Sabedoria], que é o mais
estimado tesouro de todos os seus ensinamentos.

Aqui, a exposição do Coração da Sabedoria tem quatro seções:

1. O significado de seu título;
2. Homenagem do tradutor;
3. Assunto do texto principal;
4. Conclusão.

1. O significado de seu título

O primeiro refere-se a: "Em linguagem indiana..." etc.

2. Homenagem do tradutor

Homenagem a Bhagavati, a perfeição da sabedoria". Isso foi inserido pelo tradutor.

3. Assunto do texto principal

3. O terceiro [assunto do texto principal] consiste de duas seções:
3.1 Prólogo;
3.2 Assunto do sutra então desenvolvido.

3.1 Prólogo

O primeiro é duplo:
3.1.1 Prólogo comum;
3.1.2 Prólogo incomum.

3.1.1 O primeiro [o prólogo comum] refere-se à reunião dos quatro fatores perfeitos. "Foi assim que certa vez eu ouvi", indica o fator perfeito do tempo; "O abençoado" indica o fator perfeito do professor; "Em Rajagriha, no Pico do Abutre", indica o fator perfeito do local; e "junto com uma grande comunidade de monges... bodhisattvas", indica o fator perfeito da comitiva. Esses são fáceis de se entender.

3.1.2 O segundo [o prólogo incomum] refere-se a [duas passagens seguintes:] "Naquela ocasião, o Abençoado entrou em absorção meditativa sobre a variedade de fenômenos chamada aparência do profundo", e: "Naquele momento também, o nobre Avalokiteshvara, o bodhisattva, o grande ser, contemplou claramente a prática da profunda perfeição da sabedoria e viu que até mesmo os cinco agregados são vazios de existência intrínseca". O professor permaneceu na absorção meditativa e, por meio de sua bênção, inspirou as perguntas e respostas que se seguiram.

3.2 Assunto do xutra

O assunto do sutra, que é o ensinamento perfeito, possui quatro partes:
3.2.1 A pergunta de Shariputra sobre o modo de se praticar a perfeição da sabedoria;
3.2.2 As respostas de Avalokiteshvara;
3.2.3 A ratificação do professor;
3.2.4 O deleite dos membros da assembléia e seu voto de apoio.

3.2.1 A primeira [pergunta de Shariputra] é [apresentada como segue]: "então, por meio da inspiração do Buddha, o venerável Shariputra falou ao nobre Avalokiteshvara, o bodhisattva, o grande ser: "Como deve treinar qualquer nobre filho ou nobre filha que deseje se empenhar na profunda perfeição da sabedoria?". A questão é assim levantada. É uma questão relativa ao modo de treinamento nas práticas [de bodhisattva] na continuidade da geração da mente [de despertar] para aqueles que possuem inclinação pelo grande veículo.

3.2.2 A segunda — a forma como foram dadas as respostas — tem três partes:
3.2.2.1 Apresentação individual do modo de treinamento no caminho para aqueles com aptidões inferiores;
3.2.2.2 Apresentação por meio das meras palavras do mantra para aqueles com aptidões superiores;
3.2.2.3 Exortação para se treinar por meio do resumo do assunto.

A primeira consiste de [o seguinte]:
3.2.2.1.1 Apresentação do modo de treinamento na perfeição da sabedoria no caminho da acumulação e no caminho da preparação;
3.2.2.1.2 Apresentação do modo de treinamento no caminho da visão;
3.2.2.1.3 Apresentação do modo de treinamento no caminho da meditação;
3.2.2.1.4 Apresentação do modo de treinamento no caminho do não mais aprender.

3.2.2.1.1 Treinamento nos caminhos da acumulação e da preparação

O primeiro é composto de:
3.2.2.1.1.1 Transição.
3.2.2.1.1.2 Modo de treinamento na natureza [absoluta] do agregado da forma.
3.2.2.1.1.3 Extensão da mesma análise aos agregados restantes.

3.2.2.1.1.1 O primeiro [a transição] é apresentado como segue: "Quando isso foi dito, o sagrado Avalokiteshvara, o bodhisattva, o grande ser, respondeu ao venerável Shariputra: 'Shariputra, qualquer nobre filho ou nobre filha que deseje se empenhar na prática da profunda perfeição da sabedoria deve ver claramente dessa maneira'". Pela declaração de que é assim que proporcionada uma transição [entre a pergunta de Shariputra e a resposta de Avalokiteshvara].

3.2.2.1.1.2 O segundo [o modo de treinamento na natureza absoluta do agregado da forma] é [primeiro] apresentado de forma concisa como segue: "Deve perceber perfeitamente que até os cinco agregados são vazios de existência intrínseca". "De que maneira [os fenômenos] são vazios de existência intrínseca?" [Resposta] "A forma é desprovida de existência intrínseca; embora ainda assim aparece como forma. A vacuidade não é outra coisa senão o agregado da forma; a forma também não é de uma natureza distinta da vacuidade". Dessa maneira, mostrando que as duas verdades são uma só realidade, mas com dois aspectos, revela-se que elas estão isentas dos dois extremos do absolutismo e do niilismo.

3.2.2.1.1.3 O terceiro [extensão da mesma análise aos agregados restantes] é apresentado na passagem: "Da mesma maneira, sensações.... consciência são todas vazias". Com isso, ensina-se que os demais agregados devem ser vistos da mesma maneira. Isso é conhecido como vacuidade quádrupla e [também é] referida como o profundo dotado de quatro aspectos. O ponto que está sendo sublinhado aqui é que a pessoa vê [a vacuidade] no caminho da acumulação primeiramente ouvindo e refletindo, e no caminho da preparação, principalmente por meio do entendimento proveniente da meditação.

3.2.2.1.2 Treinamento no caminho da visão

O segundo [treinamento no caminho da visão] é apresentado na passagem: "Portanto, Shariputra, todos os fenômenos são vacuidade; não têm características definidas.... não são completos." Isso é conhecido como o profundo dotado de oito aspectos. Refutando os oito aspectos do objeto de negação, essa [passagem] mostra o modo de se entrar pelas três portas da liberação plena no caminho da visão. Isso é declarado nas instruções orais do grande mestre [Atisha], que foram colocadas por escrito por Ngok Lekshe em sua apresentação concisa.

"Todos os fenômenos são vacuidade", estabelece a porta da liberação plena da vacuidade, enquanto os cinco — "Não têm características definidas; não nascem, não cessam; não são puros, não são impuros; não são incompletos, e não são completos" — mostram a porta da liberação plena da ausência de sinais. Isso porque apresentam a ausência dos cinco sinais — as características significantes de causa, a inexistência de originação e cessação, que são os significados, a ausência da classe de fenômenos completamente aflitos, que são os impuros, e a ausência da classe de fenômenos iluminados, que são isentos de impurezas. [A frase] "Não são incompletos", apresenta a [porta da liberação plena da] ausência de desejos de resultados.

3.2.2.1.3 Treinamento no caminho da meditação

O terceiro — treinamento no caminho da meditação — tem duas partes:
3.2.2.1.3.1 Modo de treinamento no caminho da meditação em geral.
3.2.2.1.3.2 Modo de treinamento na [absorção] causal Adamantina.

3.2.2.1.3.1 A primeira [o modo de treinamento no caminho da meditação em geral] é apresentada na passagem: "Portanto, Shariputra, na vacuidade não existe forma... nem mesmo não-obtenção". Vimalamitra acrescenta uma locução adverbial precedente, lendo-se assim: "Portanto, a essa altura, na vacuidade não existe forma". Ele lê isso como uma afirmação de que o caminho da meditação, que é o continuum da familiarização, surge como fruto da efetivação das três portas da liberação plena no caminho da visão por meio da refutação dos oito objetos de negação. Assim colocado, levanta-se a questão: "que tipos de percepção surgem no caminho da meditação enquanto alguém está imerso no equilíbrio meditativo no que se refere às perspectivas desse equilíbrio meditativo?". É revelado que "da forma à obtenção e não-obtenção" [os fenômenos] não aparecem como nada [disso]. Vimala então cita [a passagem]: "Ver todos os fenômenos é ver a vacuidade".

A não-observância dos cinco agregados é apresentada na passagem: "Não existe forma, sensações..." até "...consciência". A não-observância das doze fontes é mostrada na passagem: "Não existe olho... objetos mentais". A não-observância dos dezoito elementos é apresentada na passagem: "Não existe elemento da visão..." até "...elemento da consciência mental". Há uma observação de que, no texto indiano [original] existe uma exposição concisa até [a classe das] faculdades e consciência; entretanto, o tradutor abreviou-a [aqui]. Considero essa visão aceitável.

A seguir, a passagem: "Não existe ignorância... e extinção do envelhecimento e morte", apresenta a ausência da classe de fenômenos completamente aflitos e até mesmo da originação dependente da classe de fenômenos iluminados no que se refere à perspectiva do equilíbrio meditativo. A passagem: "Sofrimento....", menciona a ausência das [quatro nobres] verdades, que são os objetos do caminho. A passagem: "Não existe sabedoria...", mostra que até o caminho em si não existe no que diz respeito a essa perspectiva.
A frase: "Não existe obtenção", indica a ausência de obtenção de frutos como os [dez] poderes e os [quatro tipos de] destemores. Isso deve se estender igualmente a: "Tendo negado concepções de obtenção, a fim de negar as concepções relativas à não-obtenção...". Entretanto, o grande Choje Rongpa acrescenta a qualificação: "No nível absoluto, não existe obtenção; contudo, no convencional, não existe sequer não-obtenção". Ele então sustenta que essa formulação dual deve ser estendida a todas [as classes de fenômenos mencionadas] até aqui.

Isso parece uma interpretação da intenção da seguinte declaração de Vimala: "Deve-se entender que essa [passagem] revela o significado profundo, que é isento dos extremos da reificação e denigração, indo além da sabedoria, ignorância, obtenção e não-obtenção." Entretanto, visto que o contexto aqui é uma discussão sobre como a percepção da forma não surge dentro da perspectiva do equilíbrio meditativo quando se esquadrinha a natureza da realidade, [isso reflete a] falha do entendimento de Choje.

Assim, a declaração de que não existe o que quer que seja — os cinco agregados, as doze fontes, os dezoito elementos, os doze elos da originação dependente, as quatro nobres verdades, a natureza da percepção dos caminhos, a obtenção de resultados ou a não-obtenção — dentro da perspectiva do equilíbrio meditativo, e a declaração de que são desprovidos de existência intrínseca, compartilham o mesmo significado. Isso porque, se a forma existe dentro da perspectiva da própria percepção de seu modo de ser absoluto, a forma então torna-se substancialmente real. Assim, em resumo, essas passagens instruem que, no caminho da meditação, deve-se permanecer em equilíbrio no sabor único da talidade, que é a pacificação total de todas as elaborações dualísticas, tais como a conceitualização da forma e assim por diante.

3.2.2.1.3.2 A segunda [o modo de treinamento na absorção meditativa causal adamantina] é apresentada no que se segue: "Dessa maneira, Shariputra, uma vez que os bodhisattvas nada têm a obter, eles confiam nessa perfeição da sabedoria, e nela permanecem".
Isso é apresentado na passagem: "Não tendo obscurecimento em suas mentes, eles não têm medo e, por irem completamente além do erro, alcançarão o nirvana final".

3.2.2.1.4 Treinamento no caminho do não mais aprender

Vimala afirma que, pela eliminação gradual dos obscurecimentos grosseiros e sutis correspondentes aos dez níveis [de bodhisattva], conforme enumerados no Sutra que Desvenda o Pensamento do Buddha, fica-se livre dos medos nascidos das quatro distorções. Vai-se além deles e se obtém o nirvana não-permanente. O grande Choje Rongpa, entretanto, lê isso como uma declaração de que: "Visto que não há o obscurecimento de agarrar-se a si mesmo na mente, não existe medo da vacuidade", parecendo introduzir desse modo novas palavras à vontade.

Se fosse para resumir, essa [seção do texto] apresenta [o seguinte]: No caminho da acumulação e no caminho da preparação, a pessoa empenha-se na prática da vacuidade ouvindo e refletindo e por meio da meditação respectivamente; ao passo que no caminho da visão ela efetiva as três portas da liberação plena por meio da refutação dos oito objetos de negação. No caminho da meditação, pacificam-se todas as elaborações, tais como a conceitualização da forma e assim por diante, e percorrem-se os dez níveis [de bodhisattva]. Desse modo, eliminam-se todas as impurezas correspondentes aos dez níveis e se obtém os estados dos "três grandes [objetivos]".Nesse sentido, o texto apresenta o modo de treinamento nos cinco caminhos para os praticantes de aptidões inferiores.

A seguir, a passagem: "Todos os buddhas dos três tempos também...", apresenta a necessidade de se treinar no mesmo caminho de todos os buddhas. Isso é fácil de entender.

3.2.2.2 Apresentação por meio das meras palavras do mantra para aqueles com aptidões superiores

A segunda [a apresentação por meio das meras palavras do mantra para aqueles com aptidões superiores] é apresentada na passagem: "Assim, deve-se saber que o mantra da perfeição da sabedoria....svaha."

Dado que a perfeição da sabedoria contém o significado de mantra (literalmente, "proteção da mente"), ela é referida aqui como "mantra". Sua grandeza é conforme segue: [o mantra] "do grande conhecimento, o mantra insuperável, o mantra igual ao inigualável, o mantra que esmaga todo o sofrimento", e, por treinar a pessoa nas [na consecução de] suas aspirações, "deve ser reconhecido como a verdade". Qual é esse mantra? "Tadhyata, que, como o om, introduz as palavras subseqüentes [o mantra]. "Gate gate", significa: "Vá, vá". O primeiro gate indica [vá pelo] caminho da acumulação, e o segundo: "Vá pelo caminho da preparação". "Paragate" significa: "Vá pelo caminho da visão". "Parasamgate" significa: "Vá perfeitamente pela outra margem, a margem da meditação". "Bodhi svaha" significa: "Vá perfeitamente para a grande iluminação e se estabeleça firmemente".

A idéia é que, no que diz respeito aos praticantes de aptidões superiores, eles podem entender o treinamento no caminho com base apenas nesse mantra. Assim, para sublinhar o contraste com os praticantes de aptidões inferiores, isso foi chamado "mantra". Entretanto, não é um mantra no sentido das quatro classes do tantra. Embora os mestres Kadam do passado tenham ensinado a visualização da imagem da grande mãe [a perfeição da sabedoria] e a recitação desse mantra, não falaram em visualizar a si mesmo como a mãe da perfeição da sabedoria. Embora alguns tibetanos conduzam cerimônias de iniciação nisso, [estão equivocados] a base das práticas [isso é, a perfeição da sabedoria e o tantra] permanece diferente.

Portanto, se a pessoa contemplar o significado do profundo dotado dos quatro aspectos e dos oito aspectos, estando ao mesmo tempo ciente do modo de trilhar os cinco caminhos, e se, depois de recitar esse mantra, exclamar o poder dessa verdade e bater palmas, receberá grandes ondas de bênçãos. Foi exatamente assim que, no passado, Indra foi capaz de sobrepujar as forças de Mara como resultado de contemplar o significado desse mantra.

3.2.2.3 Exortação para se treinar por meio do resumo do assunto

A terceira [exortação para se treinar por meio do resumo do assunto] é apresentada na seguinte passagem: "Avalokiteshvara, o bodhisattva, o grande ser....Excelente!" Isso é fácil de entender.

A declaração de que não apenas o nosso professor, mas todos os tathagatas se regozijaram indica a resposta de Avalokiteshvara e apresenta a própria intenção iluminada do professor.

3.2.4 O deleite dos membros da assembléia e seu voto de apoio

A quarta [o deleite dos membros da assembléia e seu voto de apoio] é apresentada na passagem: "Quando o Abençoado proferiu essas palavras, o venerável Shariputra...., se regozijaram e saudaram o que o Abençoado havia dito".

Das três classes de escrituras — aquelas que aparecem mediante permissão concedida, as que são inspiradas, e as proferidas verbalmente — , o prólogo no início e a expressão de louvor [no fim] são escrituras mediante permissão concedida. O diálogo no meio é uma escritura inspirada, enquanto a ratificação a Avalokiteshvara é uma escritura proferida.

Além disso, esse sutra é dotado dos cinco fatores perfeitos. O prólogo apresenta os quatro fatores perfeitos — professor, ocasião, local e assembléia -, enquanto as perguntas e respostas apresentam o fator perfeito do ensinamento.

4. Conclusão

Assim eu pronuncio:

Quando o criador do discurso, que é insuperável no discurso,
abençoou as gargantas de seres como o Detentor do Lótus Branco
e Shariputra, emergiram conversações como essa.
Como isso é possível a não ser com os ensinamentos daquele que é o habilidoso?
Ouvindo ou enfocando isso, ou por meio disso,
mesmo que se ministrem os conhecimentos [disso para outros] diversas vezes,
revela-se o que foi ensinado. Essa fortuna de preservar
o entendimento à vontade é a própria dádiva do professor.
Assim, seguindo as pegadas do pai sublime,
e buscando refúgio nas deidades da meditação,
possa eu continuar a desfrutar da fortuna de participar
das celebrações da preservação dos ensinamentos do Buddha.

Colofão

Essa breve exposição do significado das palavras do Sutra do Coração, feita de um jeito fácil de entender, foi colocada por escrito pelo monge Jamyang Gawai Lodro, eloqüente no Dharma. Ela foi baseada no que aparece como [entendimento] convergente no comentário extensivo de Vimala, no sumário composto por Ngok Lekshe, e também no comentário curto escrito pelo extremamente culto Kamalashila, e também mediante certificação de que não há alteração por intervenções pessoais.

Por meio da força da união das aspirações puras de todos aqueles que se associaram no trabalho para imprimir isso — o copista Ngawang Chogyal, da Casa Phukhang do [mosteiro de] Drepung Loseling, e aqueles que proporcionaram recursos materiais -, possam todos os seres sencientes obter velozmente os quatro corpos de um buddha.
Sarvamangalam!

(Adaptado de A essência do Sutra do Coração: ensinamentos do coração da sabedoria. Dalai Lama, traduzido e editado por Geshe Thubten Jinpa, tradução de Lúcia Brito. São Paulo: Gaia, 2006. Pág. 135-145.)