Nyoshül Khen Rinpoche

Uma vez que as mentes das pessoas se tornaram aptas para a verdade profunda, o Buddha ensinou o segundo giro da roda do Dharma. Esta visão profunda foram os ensinamentos Mahayana sobre a vacuidade, os dois níveis da verdade — relativo e absoluto — e o Madhyamaka ou filosofia do Caminho do Meio. É chamado "o giro da roda que é livre das representações ou características condicionadas". Seus ensinamentos são explicados de acordo com a Base, o Caminho e o Fruto. Para os ensinamentos do Madhyamaka, a Base é a indivisibilidade das duas verdades: a verdade absoluta e a verdade relativa. O Caminho é a indivisibilidade ou união essencial das duas acumulações: a acumulação de mérito e a acumulação de sabedoria. A acumulação de mérito está intimamente conectada com a forma e representação; a acumulação de sabedoria está além da forma e da representação. O Fruto é a união ou indivisibilidade dos dois kayas, os dois planos ou aspectos do Buddha, que são o dharmakaya, o aspecto absoluto do corpo, e o rupakaya ou corpo da forma. O rupakaya surge da acumulação de méritos e o dharmakaya da acumulação de sabedoria.

Dentro do Madhyamaka podemos distinguir dois aspectos: o "Madhyamaka da verdade ou absoluto" e o "Madhyamaka das palavras". O primeiro é a natureza verdadeira de todas as coisas e fenômenos. "Madhyamaka das palavras" significa a maneira pela qual o Madhyamaka absoluto é expresso para que os seres sencientes posam entendê-lo. Portanto, este significado foi colocado em expressão pelos seres iluminados, não através da razão ou do pensamento discursivo, mas como ma expressão da sabedoria pura que vem da iluminação.

O Madhyamaka das palavras tem duas subdivisões; uma é o Madhyamaka das palavras do próprio Buddha. Isto é encontrado no Prajnaparamita Sutra e em seus muitos ramos. O segundo é o Madhyamaka das palavras encontrado nos comentários escritos pelos grandes seguidores do Buddha, como Nagarjuna, Chandrakirti, Asanga, Aryadeva e Shantideva. Estes elaboraram [comentários] sobre as palavras do Buddha para o benefício do entendimento dos seres.

Há muitos tratados filosóficos. A menos que estudemos todos estes em exaustivo detalhe, é difícil obter uma idéia clara de todas as diferenças. Basicamente, no Madhyamaka a visão mais absoluta é o ponto de vista Prasangika mantido por Nagarjuna, Chandrakirti e seus seguidores. Então há também o ponto de vista Svatantrika dentro da escola do Caminho do Meio.

Na verdade, a Base e a verdade natureza de tudo é shunyata, a grande vacuidade. Isto é o mesmo em todas as escolas Madhyamaka. A única diferença está na capacidade de a pessoa entender esta verdade absoluta, esta natureza vazia. Alguns a vêem de modo estreito, outros de uma maneira completamente aberta. Quando tentamos expressar e pensar sobre esta natureza vazia, ou shunyata, ela será expressa e exposta em diferentes modos, de acordo com nossos níveis e faculdades. Isto resulta nas diferentes expressões da visão absoluta, apesar de a Base ser sempre a natureza vazia em si, que é adamantina, para sempre imutável e além de todos os vários tipos de ensinamentos.

O assunto básico do Madhyamaka são as duas verdades, absoluta e relativa. A palavra Üma, que se refere em tibetano ao Madhyamaka, realmente significa "centro" ou "meio". Ela se refere à verdade absoluta. Por que a chamamos de meio? Porque ela não cai em nenhum extremo e permanece sempre no centro. Basicamente, podemos conceber quatro extremos: existente, não-existente, originação e cessação. Para a visão adequada da verdade absoluta, não devemos acreditar em qualquer um destes extremos; devemos permanecer em um estado que nem existe nem não-existe, sem originação nem cessação, além de ambos assim como de nenhum deles.

Podemos falar destes conceitos como extremos: vir e ir, ter uma origem e cessação, existir e não-existir, idêntico e diferente, e assim por diante. A visão básica do Madhyamaka é a visão da vacuidade que está além desses extremos. É chamada dharmata ou natureza absoluta, que é compara ao céu: sem limites, sem centro e periferia, dentro e fora, além das condições e limitações. A verdade absoluta está além de qualquer ponto de referência ou qualificação.

Quando falamos da verdade relativa, ela se refere a todo mundo fenomenal, aos diferentes aspectos da vida: o universo e os seres sencientes, como eles parecer surgir, suas características, os diferentes elementos, agregados, consciência e assim por diante. A explicação do modo pelo qual as manifestações surgem e se desenvolvem — apesar de nunca se separarem da natureza vazia da verdade absoluta — é o que chamamos de verdade relativa, e implica a operação da lei do karma. O principal ponto é realizar que as duas verdades não estão separadas. A natureza verdadeira do mundo fenomenal é a vacuidade e dentro dessa vacuidade o mundo fenomenal surge.

Os ensinamentos básicos destas duas verdades foram explicados por Nagarjuna em cinco tratados principais do Madhyamaka. Eles foram ainda mais elaborados por Aryadeva em seu tratado chamado As Quatrocentas Estrofes. Os eruditos da Índia e do Tibet, como Longchenpa e Tsongkhapa, continuaram a construir um vasto espectro de literatura sobre o Madhyamaka, mas todo ele vem do entendimento das duas verdades e da relação de uma com a outra.

Quando dizemos que todos os fenômenos são vazios, isto não significa um mero branco um vácuo estéril, vazio da menor qualidade ou potencial. É, de fato, algo que carrega grandes qualidades e grande potencial para a iluminação desperta.

Por exemplo, se dissermos "Esta xícara está vazia", não há grande qualidade nesse reconhecimento. Ou se dissermos "Esse espaço está vazio", é como encontrar algo que não ajuda muito. Mas o reconhecimento  de que todos os fenômenos são vazios, através da visão Madhyamaka, carrega muitos frutos e possivelmente grandes atingimentos. Alguém que realize que todos os fenômenos como vazios, e que realize a não-existência do ego, naturalmente terá compaixão espontânea e sem esforço por todos os seres sencientes que não realizaram a verdade da vacuidade, e que continuam a sofrer através da delusão e do apego. Reconhecer e progredir em nossa realização da natureza vazia, aberta, sem eu, é o que nos levará à iluminação e desdobrará todas as outras qualidades ilimitadas da realização espiritual. Produzirá a percepção pura onde podemos perceber a natureza búddhica em cada ser.

Para os seres ordinários que estão em escuridão mental, ignorância e delusão, simplesmente apresentar o fato de que tudo é vazio não os ajudará a se livrar dessa delusão: assim como em um sonho, nada está realmente acontecendo, mas enquanto você estiver sonhando, você percebe como um fato, como sua condição, e reage de acordo. Como os seres realmente experienciam a delusão como se fosse algo verdadeiramente existente, eles precisam contar com os métodos da verdade relativa. É necessário levá-los para um entendimento gradual da verdade absoluta. Se não houvesse delusão, não haveria a necessidade de todos estes ensinamentos sobre a verdade relativa. Mas enquanto os seres sencientes permanecerem presos na ignorância, eles precisarão contar com estes ensinamentos; eles precisam contar com as leis que ocorrem dentro do desdobramento da verdade relativa; isso é, a lei de todos os fenômenos, a infalível lei kármica da causa e efeito.

Esse entendimento da vacuidade é alcançado entendendo-se a verdade do não-eu, que significa a não-existência do eu separado, individual, e a não-existência de fenômenos independentes. Todos os dharmas — fenômenos externos e eventos mentais, ou númenos — são realmente desprovidos de existência independente.

A não-existência do eu individual foi claramente exposta por Chandrakirti em uma análise sétupla. Ele usa um exemplo de uma carruagem como sendo o assim chamado atman individual, que é apenas uma aglomeração de elementos com fatores interdependentes, e que tem pouco ou nada a ver com o que chamas de eu do indivíduo. A carruagem não é a roda, nem os eixos. Não podemos nem mesmo encontrar uma entidade colocando estas coisas juntas. É puramente um rótulo colocado sobre algo e não existe por si mesmo: como chamar um grupo de estrelas de Ursa Maior, onde não há ursa em qualquer lugar a ser encontrada. Tendo entendido a não-existência do eu individual, viremos a realizar a não-existência do significado da inseparabilidade das duas verdades: a natureza vazia e aberta, e a incessante aparência mágica de todos os fenômenos.

A Base do Madhyamaka são as duas verdades: a absoluta e a relativa. O Caminho do Madhyamaka é a via para experienciar diretamente a verdade da união do relativo e do absoluto. Isto é feito através da acumulação de mérito e sabedoria. Acumulação de sabedoria significa permanecer em um estado de equanimidade e na contemplação da vacuidade — que está além de todos os conceitos e características. Permanecer equilibradamente nessa natureza absoluta é o que chamamos meditação. Quando há acumulação de mérito durante o período de pós-meditação, é por causa de nosso modo de agir conectado com o entendimento da natureza vazia, e portanto naturalmente se volta para a virtude.

A acumulação de sabedoria está além de qualquer representação; a acumulação de méritos está associada com a representação. Quando pensamos nas seis perfeições ou paramitas — generosidade, disciplina ética, paciência, diligência, concentração meditativa e sabedoria — haverá um pensamento de ajudar os outros. Então há sujeito, objeto e ação, e um tipo de estrutura conceitual ou representação. O caminho do Madhyamaka combina o entendimento da vacuidade absoluta na meditação com a aplicação desse entendimento na impecável atividade do bodhisattva, assim realizando a acumulação de méritos através das seis paramitas e realizando definitivamente o estado búddhico.

A razão para realizar estas duas acumulações não é pelo próprio benefício; ao invés disso, há um fruto que brota destas acumulações. Este fruto da acumulação de sabedoria é o dharmakaya; o fruto da acumulação de mérito é o rupakaya. O dharmakaya é a meta última da realização da natureza absoluta do dharmata, a natureza vazia de todos os fenômenos, a união de vacuidade e aparências. Esta realização tem ilimitadas qualidades iluminadas que se manifestam espontaneamente assim como raios emanando do sol. Falamos das dez forças do Buddha e elas são inerentes no dharmakaya ou corpo absoluto. Isso é a natureza búddhica e o fruto da acumulação de sabedoria. Isto significa que os Buddhas emanarão manifestações espontaneamente, como professores espirituais, bodhisattvas e assim por diante, a fim de ajudar os seres sencientes de incontáveis modos.

Dentro do rupakaya ou corpo da forma, distinguimos entre o sambhogakaya — manifestação no nível sutil — e o nirmanakaya — manifestação no nível grosseiro. O nirmanakaya inclui manifestações como tülkus — lamas-bodhisattvas renascidos, professores espirituais, grandes bodhisattvas e buddhas encarnados, como o Buddha Shakyamuni. As Três Jóias também podem se manifestar como qualquer coisa benéfica aos seres, como remédios, pontos, escrituras, estátuas e assim por diante. Deste modo, o fruto das duas acumulações é tanto a realização absoluta da iluminação [dharmakaya] e todas as suas numerosas manifestações para o benefício dos seres sencientes [rupakaya].

É fácil falar que a natureza de tudo é vacuidade e que a vacuidade é inseparável das formas e aparências. Entretanto isto é uma idéia extremamente profunda e difícil de compreender totalmente. O grande Madhyamaka é um assunto tão vasto quanto a própria iluminação. Comparada coma visão do Madhyamaka, o que percebemos ordinariamente é como a diferença que vemos entre [ver o céu através] de um furo numa agulha ou de um canudo, e diretamente perceber o céu em si. Quando dizemos "vacuidade", é a mesma vacuidade, seja vista estreita ou ampla, como na analogia da visão através do canudo, mas há uma grande diferença em magnitude, entendimento e realização. Requer mais do que entendimento intelectual. Um verdadeiro entendimento da vacuidade cresce profundamente, cada vez mais e mais expansivo, para a realização da união fundamental da verdade absoluta da vacuidade e da verdade relativa da lei kármica dos fenômenos — ela cresce na realização completa da iluminação.

Através de nossa prática, precisamos constantemente fazer nossa mente ficar mais ampla, menos rígida e mais aberta. Este esforço é digno em muitos modos. Em nossas outras atividades, nossa mente é muita vezes estreita e fechada sobre si mesma; é muito difícil atingir qualquer meta, realmente relacionar e ter uma atitude não-egoísta para com os outros. Essa mente fechada pode apenas conduzir a conseqüências miseráveis. Por outro lado, se diligentemente tentarmos abrir nossas mentes, naturalmente teremos compaixão, fé nas Três Jóias, paz interior e uma percepção pura dos outros. Esta atitude na apenas conduzirá a uma vida feliz sem obstáculos, mas é precisamente o modo para gradualmente entender a verdade absoluta e a natureza profunda de tudo assim como é, em um modo completamente aberto e não-condicionado. Tanto em nossa meditação quanto em nossa vida diária, é muito importante para nós continuamente abrirmos nossa mente a livrarmos de suas limitações, gradualmente transcendendo conceitos, escuridão mental, emoções conflituosas e delusão.

Podemos ver na vida dos seres exaltados o quão poderosa é a realização da verdade. A realização da vacuidade naturalmente provê compaixão ilimitada e percepção pura. O objetivo último da verdade absoluta é a realização da vacuidade. A prática última da verdade relativa é a prática da bodhichitta, a compaixão.

Quando falamos da inseparabilidade das duas verdades, é porque quando se realiza a vacuidade, natural e espontaneamente teremos compaixão; não haverá necessidade de fabricá-la. Praticar bodhichitta automaticamente nos levará para o entendimento da verdade absoluta. Estas não são duas coisas distintas; ao invés disso, sempre aparecem juntas. É por isso que é importante associa-las constantemente — tentando desenvolver nosso entendimento da verdade absoluta enquanto tentando usar os meios hábeis da bodhichitta. Nossa prática das duas verdades, relativa e absoluta, deve ir junta, inseparavelmente. Devemos entender desde cima com o ponto de vista absoluto enquanto praticarmos a escalada da montanha espiritual desde baixo com práticas relativas, de acordo com nossa capacidade individual e inclinação. É isso que se quer dizer nos ensinamentos Dzogchen pela frase "Descer desde cima enquanto se escala desde baixo", a prática combinando os dois níveis da verdade, também conhecida como "entendimento de acordo com a visão suprema e prática de acordo com a própria habilidade." Esta é a forma mais completa e eficaz de prática espiritual, que pode ser aplicada no contexto de praticamente qualquer forma específica de prática — incluindo as atividades ordinárias da vida diária.

(Nyoshul Khen Rinpoche. Natural great perfection: Dzogchen teachings and Vajra songs.
Editado por Lama Surya Das. Ithaca: Snow Lion, 1995. Pág. 48-54.)