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A escola da Mente Apenas (sânsc. Chittamatra, também conhecido como Yogachara e Jnanavada) discorda da caracterização que a escola do Caminho do Meio (sânsc. Madhyamika) faz do não-eu como a ausência de existência intrínseca ou de identidade intrínseca. Seguidores dessa escola baseiam suas objeções no raciocínio de que, se negarmos esses aspectos, o princípio de origem dependente, que é tão fundamental para a filosofia buddhista, passa a ser insustentável. Se quisermos manter um entendimento coerente da origem dependente, aos seus olhos, devemos aceitar a existência de coisas que interagem entre si e que dependem umas das outras. Por isso, eles argumentam que as coisas devem ter existência intrínseca ou natureza intrínseca.
Tendo em vista sua oposição à total rejeição da existência intrínseca por parte dos seguidores de Madhyamaka, a escola da Mente Apenas precisa encontrar um modo de interpretar passagens nos Sutras da Perfeição da Sabedoria (sânsc. Prajnaparamita) que aparentemente corroboram a visão Madhyamaka. Isso eles fazem por meio da sua teoria das Três Naturezas. De acordo com ela, a ausência de identidade intrínseca deve ser entendida de modo diferente em contextos diferentes. Há uma natureza de fenômenos que é meramente imputada por nossa mente e que, portanto, é mera construção do nosso pensamento. Essa, segundo a escola da Mente Apenas, é a natureza imputada (sânsc. parakalpita). Diz-se que essa natureza imputada seria desprovida de características intrínsecas. Em segundo lugar, existe a
natureza dependente (sânsc. paratantra) dos fenômenos, que possuem, sim, uma natureza intrínseca mas são carentes de produção independente. Isso quer dizer que eles não surgem por si mesmos; pelo contrário, surgem em conseqüência de outras causas e condições. A terceira natureza chama-se natureza essencial (sânsc.
parinispanna), que é descrita como "vazio". Diz-se que essa é desprovida de identidade absoluta.
A escola da Mente Apenas afirma que essas três naturezas são universais, o que significa, por definição, que se estendem a todos os fenômenos. Cada fenômeno possui uma natureza dependente, uma natureza imputada e uma natureza essencial. E ainda, essas três naturezas são intimamente vinculadas — a natureza dependente é a base sobre a qual projetamos nossas construções mentais; a realidade independente que tendemos a conceber em relação a objetos dependentes é a natureza imputada; e a ausência de realidade desse construto é a realidade essencial. Portanto, a natureza dependente é a base, a natureza imputada é o construto que projetamos, e a realidade essencial é o vazio desse construto.
A escola de Mente Apenas caracteriza essa natureza essencial, ou vazio, de dois modos diferentes. De um modo, ela é descrita como a não-dualidade de sujeito e objeto. Afirma-se que em última análise quem percebe e o que é percebido, o sujeito e o objeto, são não-duais; e que é nossa imaginação que cria a separação dos dois. De outro modo, alega-se que na nossa percepção normal, temos a propensão a encarar os objetos como se tivessem algum tipo de critério objetivo que os tornasse os referentes da nossa linguagem e conceitos. No entanto, esse não é o caso.
Por exemplo, nós nos referimos a um objeto por um termo específico e o rotulamos desse modo, mas o objeto em si não existe por seu papel como referente desse rótulo. Pelo contrário, são nossa língua e processos de raciocínio que associam um termo conceitual a um objeto. A escola da Mente Apenas afirma que nossa forma de relacionar palavras e conceitos a objetos é meramente relativa, condicional ou provisória, e no entanto não nos comportamos como se fosse esse o caso. Se nos perguntassem o que significa a palavra "corpo", instintivamente indicaríamos um corpo físico e diríamos que aquilo era um corpo. De algum modo, acreditamos que existe algo objetivamente real no corpo que o torna o referente do termo "corpo" e dos conceitos afins. Contudo, de acordo com a escola da Mente Apenas, não se trata disso. A referência do termo "corpo" ao objeto "corpo" deriva de um complexo sistema de convenção. Se houvesse algo objetivamente real no relacionamento entre o termo e o objeto, argumenta-se que deveríamos ser capazes de ter a idéia de que "isso é um corpo" mesmo antes de aplicarmos nosso pensamento rotulador. Apesar disso, normalmente nos comportamos como se as coisas em si de algum modo tivessem uma espécie de relação absoluta com as palavras que as designam; e como se as coisas tivessem uma realidade objetiva independente que torna correto que nos refiramos a elas por meio desses termos.
A escola da Mente Apenas propõe um método de abordar a natureza mais profunda da realidade por meio de um processo de investigação da natureza dos nomes e termos, dos referentes desses termos, da natureza dos fenômenos e das características específicas dos fenômenos. Essa abordagem é conhecida como as Quatro Buscas, ou Investigação através das Quatro Avenidas. Ela propicia o insight sobre esses quatro aspectos dos fenômenos, a saber, o termo, o referente, a natureza e as características. Diz-se então que isso conduz a uma compreensão da sua natureza essencial, a não-dualidade do objeto percebido e do sujeito que percebe.
Embora em nossa ingênua visão de mundo tenhamos a tendência a acreditar que as coisas de fato existem fora de nós, como nós as percebemos normalmente, na realidade, a percepção de um objeto e o objeto em si não são separados. Diz-se que são dois aspectos do mesmo fenômeno. Assim, essa escola sustenta que o que percebemos como realidade externa da matéria é simplesmente uma projeção da nossa mente. Na verdade, quem percebe e o objeto percebido são simultâneos: participam da mesma realidade e derivam da mesma fonte.
A escola da Mente Apenas tenta explicar a complexidade da percepção através do processo de desdobrá-la em diversos aspectos. Quando percebemos um objeto, como uma forma, existe o elemento de ver algo como algo, como ver um objeto azul como um objeto azul. Então, dentro dessa percepção, existe também a percepção de que o objeto azul existe também a percepção de que o objeto azul existe como o verdadeiro referente para o termo "azul". Há um outro aspecto da percepção segundo o qual também acreditamos que esse objeto azul existe como o referente para o termo "azul" objetivamente, por sua própria conta. E, finalmente, existe uma percepção daquele objeto azul como algo que é independente e separado da própria percepção.
A escola da Mente Apenas esclarece então a dinâmica desses aspectos diferentes da percepção, com a atribuição de disposições diferentes a nós. Ela sustenta que o fato de percebermos um objeto azul como azul é devido a estarmos habituados a repetidas percepções de coisas azuis. O aspecto de vermos o azul é atribuído à nossa acomodação à linguagem e às convenções. E nossa percepção de que o objeto azul é não só um referente do termo "azul" mas também existe em si, objetivamente, é atribuída à marca da nossa tendência a nos agarrarmos à idéia da existência independente (nesse caso, a existência do azul). Finalmente, o aspecto da nossa percepção pelo qual temos a tendência a considerar o objeto azul como algo independente da percepção que temos dele é atribuído à marca de outra propensão, descrita como "a propensão da existência não-iluminada". Dessas quatro marcas, as duas primeiras são consideradas válidas, e os correspondentes aspectos de percepção são válidos também. Já as duas últimas e as percepções que as acompanham são consideradas ilusórias.
Em última análise, o posicionamento da escola da Mente Apenas é que o sujeito, o objeto percebido e a faculdade de apercepção (uma qualidade introspectiva da consciência) são todos aspectos diferentes do mesmo fenômeno. É assim que eles fundamentam seu entendimento da natureza essencial da realidade como a não-dualidade de sujeito e objeto. Há, portanto, uma importante diferença no entendimento da realidade essencial entre a escola da Mente Apenas e outras escolas Mahayana. No que diz respeito ao entendimento da estrutura geral do caminho espiritual, porém, não há diferenças entre as escolas.
Para quem esteja interessado na filosofia buddhista, creio ser muito importante entender a visão da realidade essencial segundo a escola da Mente Apenas. Deveríamos levar a sério suas objeções contra a escola
do Caminho do Meio. Seu questionamento é que se, como os
madhyamikas, rejeitarmos qualquer noção de existência, identidade ou natureza intrínseca, estaremos suscetíveis ao niilismo. Depreende-se daí que uma verdadeira compreensão da filosofia do vazio do Caminho do Meio somente é possível se podemos distinguir entre a negação da existência intrínseca e da identidade das coisas, de um lado, e a rejeição da existência per se, do outro. Em outras palavras, precisamos ser capazes de reagir à crítica da escola da Mente Apenas e defender a rejeição, por parte do Caminho do Meio, do ser intrínseco, ao mesmo tempo em que não negamos a existência de uma vez.
No 26º capítulo da Sabedoria Fundamental do Caminho do Meio (sânsc. Mulamadhyamakakarika), no qual examina os doze elos da origem dependente, o mestre do Madhyamaka, Nagarjuna, esforça-se ao máximo para defender a rejeição da existência intrínseca por parte da escola do Caminho do Meio, alegando não ser ela niilista. Existe, portanto, uma enorme diferença entre o vazio e o mero nada, bem como entre a negação da existência intrínseca e a negação da existência como um todo.
(S.S. o Dalai
Lama. Transformando a mente: ensinamentos sobre como gerar a compaixão.
Tradução para o inglês de Geshe Thupten Jinpa, organização de Dominique
Side e Geshe Thupten Jinpa,
tradução de Waldéa Barcellos. São Paulo: Marins Fontes, 2000.
Pág. 113-119. Para adquirir o livro, clique aqui.)
Se os fenômenos que percebo são projeções de minha própria mente [conforme afirma a escola Mente Apenas], por que então todos percebemos os mesmos fenômenos como a mesma coisa? Vejo um texto envolto num manto cor-de-laranja em frente de Vossa Santidade. Por que todos os demais também vêem isso dessa maneira? Além disso, li que seres dos outros cinco mundos [deuses, semideuses, animais, fantasmas famintos e seres dos infernos] percebem esses fenômenos como coisas diferentes, mas, ainda assim, compartilham uma percepção comum. Por quê?
Segundo a explicação da mais elevada escola filosófica buddhista, a Madhyamika Prasangika, os fenômenos externos não são meras projeções ou criações da mente. Os fenômenos externos têm uma natureza distinta que difere da mente. Dizer que os fenômenos são meros rótulos ou designações significa dizer que eles existem e adquirem suas identidades a partir da denominação ou designação que lhes atribuímos. Isso não quer dizer que não haja fenômenos fora do nome, da imputação ou do rótulo, mas sim que, se analisarmos e procurarmos objetivamente a essência de qualquer fenômeno, será impossível encontrá-la. Os fenômenos são incapazes de resistir a semelhante análise; portanto, eles não existem objetivamente. Contudo, já que existem [relativamente], deve haver algum nível de existência [relativa]; portanto, é apenas através de nosso processo de rotulação ou designação que se diz que as coisas existem [de forma relativa].
Uma vez que os fenômenos não têm uma realidade independente, objetiva, não há um estatuto da existência por parte do objeto; concluímos, portanto, que os fenômenos só existem nominalmente, ou convencionalmente. No entanto, quando as coisas aparecem para nós, não aparecem como meras designações, e sim como se tivessem algum tipo de realidade objetiva ou existência inerente "ali fora". Há, pois, uma disparidade entre a maneira como as coisas aparecem para nós e a maneira como elas existem. É por isso que se diz que elas
são ilusórias.
O verdadeiro modo de existência dos fenômenos só pode ser averiguado através de nossa própria experiência, uma vez que tenhamos negado a existência inerente deles. Mas a realidade convencional não pode ser provada pela lógica. Por exemplo, esta mesa existe porque podemos tocá-la, senti-la, pôr coisas sobre elas, e assim por diante; então, ela existe. É só através de nossas experiência direta de um fenômeno que podemos estabelecer a realidade de sua existência.
Os prasangikas falam de três critérios para determinar se algo é ou não existente: [1] isso deve ser conhecido a partir de uma
convenção universal; [2] tal convenção não deve ser contestada por qualquer forma de validação; e [3] tampouco deve ser contestada por uma análise definitiva de sua natureza. Qualquer coisa que se enquadre nesses três critérios é considerada convencionalmente existente.
Há muitos tipos diferentes de percepção que podem apreender um único objeto, tal como o manto envolvendo esse texto. Para muitos, ele se mostra laranja, mas, para alguns, a cor laranja pode não aparecer, por causa de uma doença ou outras condições fisiológicas, tal como no caso daqueles que sofrem de daltonismo. Outros seres, por causa de seu karma, não serão capazes de ver esse manto como sendo laranja, do jeito que o vemos.
(Dalai Lama. O mundo do budismo tibetano: uma visão geral de sua filosofia e prática.
Traduzido para o inglês, editado e anotado por Geshe Thubten Jinpa. Prefácio de Richard Gere.
Tradução de Maria Helana Rouanet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. Pág. 80-82. Para adquirir o livro, clique
aqui.)