Jetsün Mila - O Poeta do Tibet
Canção da Não-dualidade
Prostro-me aos pés do mestre Marpa.
O presente das bênçãos é concedido pelas dakinis;
O néctar do samaya é o ensinamento abundante;
Os órgãos dos sentidos são alimentados pela devoção fervorosa;
Assim se armazenam os méritos de meus discípulos.
A mente imediata não tem substância;
É vazia, menor que o menor dos átomos.
Quando o observador e o observado se eliminam,
A visão é verdadeiramente realizada.
Quanto à prática, na corrente da iluminação
Não pode haver qualquer estado.
A perseverança se confirma na prática
Quando é anulada a dualidade ator-ação.
No reino da iluminação, onde sujeito e objeto são um,
Não se vê causa, pois tudo é vazio.
Quando a ação e o ator desaparecem,
Todo ato torna-se correto.
Os pensamentos finitos se dissolvem no dharmadhatu;
Os oito ventos mundanos não trazem esperança nem medo.
Quando desaparece o preceito e aquele que o guarda,
As disciplinas são melhor observadas.
Ao compreender, através de um voto sincero e altruísta,
Que a própria mente é o dharmakaya,
O ator e o ato desaparecem.
Então, triunfa o Dharma glorioso.
Este é canto alegre que um ancião entoa
Em resposta à pergunta de um discípulo.
A neve, que caiu, demarcou minha casa meditação;
As deusas me deram alimento e sustento;
A água da montanha foi o gole mais puro;
Tudo se efetuou sem esforço;
Não há necessidade de semear quando não se requer alimento.
Meu celeiro está cheio, sem preparação ou provisões prévias;
Todas as coisas são vistas ao observar minha própria mente;
Sentando-se no lugar mais baixo, alcança-se o trono real.
A perfeição é obtida através da graça do mestre;
A dívida é paga através da prática do Dharma.
Seguidores e benfeitores aqui reunidos,
Dêem seus serviços com fé, sejam todos felizes e alegres.
Milarepa, 1040-1123