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Baseados na vida do Buddha, podem ser
entendidos os aspectos fundamentais de nossa meditação e de como agirmos
como praticantes do Dharma, apesar de muitas pessoas simplesmente verem a
vida do Buddha como uma história. Ela pode dar alguma inspiração, mas nada
vêem além disso. Porém, a vida do Buddha é um exemplo que representa cada um
e todos nós. Se analisarmos sua história e a contemplarmos, podemos ver como
ela contém ensinamentos e exemplos para nós seguirmos.
O Buddha nasceu como um príncipe na
antiga Índia. Naquele tempo, havia quatro castas principais. A mais elevada,
é claro, era a casta dos brâmanes (sacerdotes). A segunda casta era a dos
monarcas governantes e guerreiros; o Buddha pertencia a esta segunda casta.
Sua vida foi um exemplo para nós; ela envia uma mensagem muito importante
aos praticantes. O Buddha nasceu como um homem comum e se apresentou desse
modo. Não foi um deus ou algo similar. Ao invés disso, foi um ser comum que,
através da prática, tornou-se um ser especial. Primeiro, ele se apresentou
como um não-iluminado; isto é muito importante.
Bem agora, também somos homens e
mulheres comuns. Se o Buddha sempre tivesse sido um ser especial, alguém que
já tivesse nascido "iluminado", então sua história de vida não seria
especial. Sua história de vida não teria significado, porque os seres comuns
como nós sempre estaríamos presos na posição de seres comuns; nunca
poderíamos nos tornar iluminados. Então, o Buddha nasceu como Siddhartha
Guatama, apareceu no mundo. Viveu com o objetivo de ser um exemplo para nós
seguirmos.
Não apenas Siddhartha apareceu como
um humano, mas também agiu como um príncipe comum. Ele dormia, comia, foi
educado e se casou. Na Índia, durante aquele tempo, um príncipe de sua
posição tinha milhares de consortes. O estilo de vida real de Siddhartha era
cheio de deleites mundanos. Havia elefantes e jogos. Garotas dançarinas e
vinho sempre estavam disponíveis. Sua família era rica, então tudo era
luxuoso. Até mesmo as flores eram trocadas a cada hora, de modo que o
príncipe nunca veria flores velhas e murchas. O mundo que Siddhartha
conhecia era muito charmoso, magnífico e belo.
Um dia, porém, ele ficou chocado ao
ver como as coisas são diferentes. Ele nunca soube que uma flor envelhecia.
Como uma flor colorida e brilhante poderia ficar murcha e se desfazer? Essa
verdade chocou-o. Siddhartha então começou a se perguntar sobre o quanto ele
não conhecia. Siddhartha pensava, fora de seu palácio, como era o mundo?
O rei Shuddhodana, pai de Siddhartha,
ficou preocupado. Siddhartha desejou viajar para fora do palácio, aonde
nunca tinha ido antes. Quando ainda era um bebê, um vidente informou aos
pais de Siddhartha que ele se tornaria o rei dos reis ou um grande santo.
Seu pai, é claro, queria que Siddhartha fosse um monarca universal. Seu pai,
assim como muitas pessoas, estava motivado deste modo por causa do seu apego
ao dinheiro e ao poder.
O rei finalmente deu permissão ao seu
filho Siddhartha para ver o que havia fora do palácio. Foi por comando real
que todos os súditos limparam as ruas, fizeram a cidade ficar bela e
esconderam as visões feias. Todos seguiram a instrução do rei. O príncipe
Siddhartha deixou o palácio e começou a ver certas coisas pela primeira vez.
Apesar de todos tentarem esconder as visões feias, um velho apareceu. Quando
Siddhartha viu este homem velho, ele foi tomado por surpresa total. Pela
primeira vez, ele se encontrou com alguém sem cabelo, velho e feio.
Siddhartha argumentou
desesperadamente com o condutor da carruagem, Channa. Ele perguntou, por que
este homem parece assim? Channa finalmente explicou que isto é chamado
envelhecimento; todo aquele que nasce, que vive o bastante, alcançará este
envelhecimento. Novamente, Siddhartha ficou atordoado, questionando, "Se
viverem o bastante?" Channa foi forçado a explicar que nós morremos.
Siddhartha sentiu-se perturbado e retornou ao seu palácio, pensando sobre o
que viu.
Depois de alguns dias, o príncipe e
Channa saíram novamente. Desta vez, Siddhartha viu um cadáver, frio como uma
pedra e sem cor. Não poderia imaginar que há pouco tempo antes, aquele
cadáver era um homem vivo, andando sobre a terra. Perguntou a Channa se isto
acontece com todos. Siddhartha ainda não estava satisfeito. Ele perguntou,
"Isto acontece até mesmo comigo, um príncipe?" Channa teve de explicar que a
rainha, o rei, os ministros, até mesmo o mais elevado dos elevados, todos
iriam encarar a morte. Do mesmo modo, Siddhartha também descobriu, ao deixar
o palácio, que o nascimento e a doença também existem.
Depois de ver o nascimento, o
envelhecimento, a doença e morte, Siddhartha pensou muito profundamente. Não
viu qualquer utilidade em se tornar rei. "Um dia serei rei, no próximo dia
serei como uma pedra morta, queimada em cinzas. Não há porque me apegar à
minha posição". Siddhartha realizou que ele devia encontrar um modo de
escapar do nascimento, envelhecimento, doença e morte. O príncipe sentiu
que, como um rei, ele pode dar dinheiro aos pobres, fornecer casas para as
pessoas e dar remédio aos doentes. Mas ele ainda não seria um bom rei se não
pudesse libertar seu povo do sofrimento do nascimento, envelhecimento,
doença e morte.
Então, Siddhartha escapou do palácio,
determinou-se a encontrar um modo de acabar com o sofrimento do mundo.
Depois de fazer isso, depois de muitos anos de prática e busca, ele se
tornou o Buddha, completamente iluminado para a verdade sobre o mundo.
O Buddha representa cada um de nós
aqui. Podemos não ter uma grande mansão, mas temos nosso próprio "palácio",
nossa própria mente fechada com muitas idéias e com o ego. Podemos não ter
cavalos e elefantes, mas temos bicicletas e carros. Temos nosso próprio
"reino", nossa própria "rainha" e tudo o mais. Muitos de nós nunca ousamos
dar um passo fora de nosso "palácio".
Tentamos negar a doença e a morte.
Até mesmo a sociedade faz isto. Se eu pedisse a todos os homens aqui que
escrevessem seu testamento, estaria tudo bem. Mas se pedisse aos jovens
garotos a fazer isso, as pessoas ficariam ofendidas e considerariam isto
inaceitável. Há muita ignorância aqui; os homens sempre morrem antes dos
mais jovens? Alguém com onze anos de idade pode morrer antes que um homem de
noventa anos. A cada segundo, a cada respiração, nos aproximamos da morte.
Conforme envelhecemos, mais as rugas se somam. Mas, de modo ignorante,
negamos a morte.
Então, se forem seguidores dos
ensinamentos do Buddha, você não precisam ir ao templo todo o tempo ou
cantar mantras - o que devem fazer é se livrar do seu "palácio"!
Metaforicamente, é claro, rompê-lo. Realizem que a morte está lá, não a
neguem. Até mesmo eu serei apenas "história" um dia, como apenas algumas
fotos e fitas de áudio permanecendo. A família de alguém pode colocar seu
nome em um santuário e prestar homenagem, mas você pode ser um pássaro em
algum lugar e nem saber que isto está acontecendo.
A essência do buddhismo é entender a
vida. Devemos entender seu verdadeiro significado. Muitas vezes apenas
pendemos nossa cabeça e com nossa boca concordamos que a vida é
impermanente. Mas ainda pensamos que a morte acontece para as outras pessoas
e não para nós mesmos. Às vezes as pessoas ouvem sobre o que os buddhistas
dizem sobre a vida e a morte. Podem dizer que estamos sempre trazendo más
notícias. Não é má notícia ou pessimismo, é um fato. Não podemos negar o
fato, precisamos contemplá-lo. De outro modo, ficarão chocados e
desapontados. Haverá mais sofrimento mais tarde se a rejeitarmos agora.
A vida é preciosa. Se quiserem viver
muito, bebam um pouco de ginseng, talvez. Mas nós morreremos. Então, por
enquanto, devemos desfrutar a vida e vivê-la adequadamente. Se tiverem uma
hora para viver, comam boa comida e bebam seu ginseng. Bem agora, devemos
apreciar a vida porque ela é impermanente. Tudo o que fazemos na vida é
digno de uma celebração, seja voltar para casa com segurança ou comer sem
sermos levados pela morte. A cada momento devemos celebrar a vida e não
desperdiçá-la, porque nossa vida é impermanente.
O que fazemos, então, uma vez que
rompemos nosso palácio? Nos sentamos eretos, respiramos e fazemos meditação.
Cantar pode trazer inspiração e criar devoção durante a meditação. É como
quando alguém deseja dizer que ama outrem; pode pegar um violão e cantar.
Faz o ambiente fiar mais romântico e causa mais emoções. Do mesmo modo,
cantar cria uma atmosfera meditativa mais completa e pode beneficiar a
própria prática.
Precisamos adquirir sabedoria dos
outros. Precisamos de um professor que conheça a verdade e que possa nos
ajudar a sermos livres do sofrimento. É como quando uma mãe tem sabedoria e
impede seu filho de encostar no ferro quente. Um filho devoto ouvirá sua
mãe, mas se não for devoto, poderá tocá-lo e se queimar. O Buddha sabe que a
agressão queima, que a paixão queima, que a ignorância queima. Somos como
bebês aos quais precisa ser concedida a sabedoria do Buddha, então não
seremos queimados por estas aflições. Alguns de nós somos teimosos e devemos
trabalhar nisto.
A realização da natureza da mente,
que não pode ser explicada através da fala, pode apenas ser atingida através
da meditação. Devemos aumentar o amor e a compaixão, e evitarmos ter raiva.
É causa de grande alegria que todos trabalhem duro, em particular, para
criar este centro de Dharma. Não é porque é o meu centro de Dharma. É porque
os ensinamentos de Buddha são muito preciosos e profundos. Se até mesmo uma
palavra de seus ensinamentos entrar no ouvido de alguém, isso é muito
benéfico; é o mesmo se alguém vir uma estátua de Buddha por um instante.
Estas circunstâncias são o fundamento
para a prática do Dharma. Deixam uma marca e uma conexão com o indivíduo. Há
muito mérito em dar o Dharma às pessoas. Acumular mérito não necessariamente
significa que vocês têm de fazer uma oferenda de lamparina de manteiga, ou
dar uma doação generosa às pessoas pobres. O melhor mérito é dar a si mesmo
e aos outros a oportunidade de ouvir e praticar o Dharma. Infelizmente,
pouquíssimas pessoas dão este presente do Dharma; este presente é a única
fonte de iluminação que desarraiga todo o samsara.
Agora, não espero que aqueles que
criam um centro de Dharma sejam perfeitos, bodhisattvas do décimo nível.
Espero que dez ou vinte seres humanos se reúnam. Pode haver alguma
imperfeição e desarmonia. Ainda assim, ninguém deve se sentir desencorajado.
Viemos aqui para nos tornarmos perfeitos, então não esperem estar perfeitos
já. Também não se envolvam com as emoções humanos da raiva, da inveja e as
demais; não se sintam perturbados se os outros falarem mal de algo ou se
forem críticos.
É como quando uma garota bonita anda
pela rua com um namorado feio. Os outros homens ficam com ciúme porque ela
está com aquele homem feio. É assim que a mente humana julga as pessoas, mas
não devemos cair neste padrão. Deve-se fazer o que é necessário e criar
espaço para que as pessoas possam aprender sobre o Dharma. Até mesmo os
não-humanos, espíritos, nagas etc. beneficiam-se disto. Então, regozijem-se!
Podemos beber um pouco de ginseng. |