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dzongsar
jamyang khyentse, thubten chökyi gyamtso · |
Em nossa vida, há duas coisas que são importantes, o espiritual e o material. Entre estes dois, considero que o espiritual seja muito mais importante — apesar de talvez 90% da população mundial poder discordar de mim. Já que o espiritual é muito importante em nossa vida, é melhor que usemos nossa própria lógica e raciocínio, nosso próprio julgamento, para escolhermos o caminho espiritual. Apesar de nossa lógica poder ser limitada, apesar de às vezes a nossa mente poder não ser tão racional, ela ainda é a melhor alternativa. Depois de tudo, para qualquer decisão que tomemos — até mesmo uma decisão simples, como comprar sapatos —, temos de fazê-la por nós mesmos. Podemos perguntar a alguém sobre quais sapatos são melhores, ou podemos até mesmo ler diferentes anúncios sobre as diferentes marcas de sapatos disponíveis, mas no fim do dia, somos nós que escolhemos acreditar em um anúncio e não em outro. Todos deveriam usar sua mente racional para escolher um caminho espiritual. A manipulação não é boa, nem mesmo de um ponto de vista convencional. De um ponto de vista ético, seja uma manipulação forçada, seja uma manipulação muito organizada e gentil, ela simplesmente não soa. Como seres humanos, sempre temos esta ânsia de vender nossas próprias idéias aos outros, é assim que temos sucesso. Estou certo de que os buddhistas têm feito isso, todas as religiões em certo ponto ou outro tentaram convencer os outros a se tornarem um deles. Mas poderíamos dizer que, entre as muitas religiões, o buddhismo pode ter feito menos isto. E entre o que eu chamaria de as três religiões ocidentais — o judaísmo, o cristianismo e o islamismo —, as duas últimas — o islamismo e o cristianismo — realmente levaram esta conversão seriamente. A história prova isto, podemos verificá-la. Algumas das conversões cristãs funcionaram, acredito que eles fizeram muito pela humanidade. Mas, infelizmente, também há muita história sangrenta, desrespeitando completamente as outras religiões e as outras culturas. O Afeganistão era um país buddhistas, assim como eram a Caxemira, o Paquistão, a Indonésia etc. A maioria destes lugares foi convertida à força.
Se as pessoas estiverem escolhendo-o com sua mente racional, apenas por razões espirituais, devemos respeitar tudo isto. O buddhismo definitivamente não é para todos. Pessoas diferentes precisam de coisas diferentes. Apenas porque gosto de pizza, isto não significa que todos devem gostar de pizza. Mas espero que este tipo de emergência do cristianismo e das outras religiões esteja vindo de uma busca espiritual pura. Temos que praticar a velha tradição da tolerância que temos no buddhismo. Se países com o Butão — que uma vez foi buddhista — escolherem outras religiões, se isso for o que as pessoas querem, então que seja assim. Mas converter as pessoas... Claro que me perturba profundamente se as pessoas forem convertidas à força. Mas também, converter as pessoas com a promessa de ganho material e tudo isso não é apenas um desrespeito às pessoas que estão convertendo, mas também é realmente um desrespeito à sua própria religião. Além disso, se formos escolher um caminho espiritual baseado no ganho material, também podemos não fazer nada espiritual, podemos apenas ficar paralisados com nossos negócios. O caminho espiritual não deve ser escolhido por causa de uma razão política. O caminho espiritual deve ser escolhido por si mesmo, puramente pelo ganho espiritual, não por ganhos material.
Como disse antes, há muitas coisas que os cristãos fizeram que são exemplares. Apenas olhe para um dia de ação da Madre Teresa. Isto é definitivamente algo que todos devemos aprender. Mas se as pessoas escolherem trocar a sua própria sabedoria, a antiga sabedoria que herdaram, por causa de um pequeno ganho financeiro — como escolaridade, assistência médica gratuita em um hospital, o que quer que seja — isso é muito triste. Por um único verso da sabedoria do Buddha, os bodhisattvas abandonaram toda a sua família; e agora, se abandonarmos tudo isso por um dia de comida, isso é realmente uma vergonha. Claro, tenho que admitir que os buddhistas, como eu, especialmente os Lamas e as instituições, não fizeram um bom trabalho. Penso que muitos de nós temos estado ocupados construindo seus próprios monastérios, pintando as paredes com ouro e prata. Devemos definitivamente fazer estas coisas. É algo que é prescrito pelo caminho Mahayana, que devemos fazer quaisquer meios que existam. Mas claro que a riqueza monetária também tem um pequeno papel aqui. Por gerações, o buddhismo foi uma escola que não enfatizou a riqueza material, como talvez algumas das religiões modernas fazem. Eu poderia dizer brincando que uma sala no Vaticano ou uma igreja controla pelo Vaticano poderia comprar basicamente todo o Butão. A riqueza é enorme. Tendo disto isso, há algo que não deve ser esquecido. Ouvimos de novo e de novo dos Lamas que, enquanto não estivermos maduros como praticantes, é aconselhável praticar a bodhichitta da aspiração. Isto significa que, primeiro, temos de nos desenvolvermos, nos tornarmos bondosos, sermos capazes de perdoar, generosos, disciplinados e abnegados, em um lugar como uma caverna ou um monastério — e só então nos engajarmos nestas práticas. Nossos mestres nos advertiram que às vezes, quando fazemos estes trabalhos sociais, muito lixo vem junto. Teremos certas expectativas, há sempre um preço lá. Sempre parece haver algum tipo de agenda, seja uma agenda egoísta pessoal, seja uma agenda pela própria crença, pelo próprio país ou pela tradição. E então, ela realmente se torna contrária à prática buddhista. Uma outra coisa que tenho observado é que a distância entre os professores buddhistas e o público, ou os estudantes, está crescendo muito em lugares como o Butão e o Sikkim. Os Lamas buddhistas e os estudantes buddhistas encontram-se quase apenas por razões cerimoniais ou por algumas razões de devoção cega. Além disso, não há comunicação direta. Isto pode ter funcionado até agora, mas o mundo está mudando. Nossos jovens agora começam a apreciar o raciocínio. Pessoalmente, sinto-me muito frustrado. O buddhismo é uma religião que realmente se sobressai quando vem ao raciocínio. O próprio Buddha disse que você não pode aceitar seus ensinamentos cegamente. Ainda assim, não estamos praticando esta liberdade que temos. Então, é totalmente compreensível quando os jovens no Butão e no Sikkim, ou os jovens tibetanos, pensam que o buddhismo é algum tipo de superstição, algum dogma antigo sem qualquer razão ou lógica, que acima de tudo não tem uso prático. É porque os Lamas como eu — posso usar apenas a mim como um exemplo — não se relacionam com as pessoas. Eu queria muito me sentar próximo a estes jovens, não apenas como professor e estudante, mas apenas como amigos, e deixá-las perguntarem o que querem perguntar — não apenas perguntas sobre o buddhismo. Mas apesar de esse ser o desejo, no Butão, por exemplo, estamos muito envolvidos com a nossa tradição e a nossa cultura, e temos todos os tipos de expectativas — isto se torna muito difícil. Como sou conhecido como um Lama elevado, há um tipo de atmosfera que foi criada, e ela sempre entra no caminho entre as pessoas e eu. Isto é muito desafortunado. Penso que isto demorará para mudar porque também não quero desconcertar a geração mais velha, que ainda está paralisada com este tipo de pensamento. Temos de respeitar a nossa tradição e a nossa cultura. Estas são muito necessárias. Então, isto é algo que temos de fazer bem lentamente. Devemos manter nossos costumes e nossa cultura, e ao mesmo tempo a mensagem buddhista tem de ser enviada livremente. Fui perguntado muitas vezes, em lugares como Sikkim ou Índia, por que vocês Lamas sempre vão ao Ocidente? Por que os Lamas gostam de ensinar no Ocidente? Entre muitas razões, provavelmente uma das melhores é que no Ocidente realmente não há esta distância cultural. As pessoas vêm e falam com você. As pessoas falam abertamente sobre questões homossexuais e lésbicas, por exemplo. Em outros lugares, elas não ousariam. Os professores são como o médico e as pessoas que vão a um professor espiritual são como o paciente. O paciente deve revelar tudo; de outra forma, os médicos não podem ajudar. Mas isso não está acontecendo e isso é muito desafortunado. Esta é provavelmente uma das razões pelas quais muitas pessoas das regiões do Himalaya estão procurando uma outra solução.
Não realmente. Se as pessoas escolherem com a sua própria lógica e fizerem uma decisão informada, então não estarei preocupado. Se for isso o que elas querem, devemos dar suporte a isso, ao invés de tentar bloqueá-lo. Não é como se o buddhismo estivesse perdendo. De fato, talvez ironicamente, as pessoas em muitos dos países de onde veio o cristianismo estão agora se tornando buddhistas. E posso dizer brincando que a maioria dos ocidentais que estão se tornando buddhistas têm orientação intelectual e científica. Penso que, talvez, o buddhismo esteja obtendo uma safra melhor. Muitos destes estudantes do Ocidente vieram ao buddhismo como uma mente completamente aberta. Estes estudantes terão menos chance de ficarem confusos. |
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adaptado de www.siddharthasintent.org | |