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Os ensinamentos do
Dzogchen são transmitidos de três modos: de mente a mente, por sinais e
através da transmissão oral.
No primeiro, a transmissão de mente a mente, não há necessidade de símbolos
ou palavras pois o professor e o séqüito são, por sua própria natureza, um
só. Este é o modo no qual a transmissão foi dada do buddha primordial
Samantabhadra para Vajrasattva, e dele para Garab Dorje.
Depois de Garab Dorje, a transmissão continuou com Manjushrimitra, Shri
Simha, Jnanasutra e Vimalamitra. Apesar de estes mestres terem se manifestado
em forma humana, não havia necessidade de eles darem ou receberem transmissão
por palavras, já que todos eles eram seres completamente realizados. A
transmissão foi efetuada simplesmente por "sinais" — por mudras
ou por expressões simbólicas. Quando o lama dá a transmissão deste modo,
os discípulos compreendem seu significado de uma vez e atingem a realização
completa das três categorias do Dzogpachenpo: da mente, do espaço e das
instruções essenciais.
A transmissão oral foi passada de um indivíduo para outro, começando com
Guru Rinpoche. Ele deu isto aos seus discípulos: aos vinte e cinco discípulos
principais, aos oitenta siddhas de Yerpa, aos cinqüenta e cinco seres
realizados de Sheldrag e outros. Os três principais discípulos de Guru
Rinpoche foram o rei Trisong Detsen, Vairochana, e sua consorte Yeshe Tsogyal.
A transmissão então continuou até o onisciente Longchen Rabjam, que passou
para o grande detentor do estado desperto, Jigme Lingpa, e que por sua vez
transmitiu estes profundos tesouros aos seus discípulos. Seus quatro
principais discípulos eram chamados "os quatro Jigmes" — "os
quatro destemidos". Dos quatro, os dois principais eram Dodrubchen Jigme
Trinle Özer e Jigme Gyalwe Nyugu, uma emanação de Avalokiteshvara; os
outros dois eram Jigme Gocha e Jigme Ngotsar. De Jigme Trinle Özer a
transmissão foi para o mahasiddha Do Khyentse Yeshe Dorje, e de Jigme Gyalwe
Nyugu ela passou para Jamyang Khyentse Wangpo; tanto Do Khyentse quanto
Jamyang Khyentse foram emanações autênticas de Jigme Lingpa. As duas
linhagens então se fundiram nos grandes professores Gyalse Shenpen Thaye,
Patrül Rinpoche e Khenpo Pema Dorje. Eles, por sua vez, transmitiram-na a Wönpo
Tenga, Nyoshül Lungtog, Adzom Drugpa, ao terceiro Dodrubchen Jigme Tenpe Nyima
e a muitos outros lamas. Novamente, estas linhagens se juntaram na pessoa de
Jamyang Khyentse Chökyi Lodrö, que foi uma emanação de Jamyang Khyentse
Wangpo.
É assim que esta linhagem de indivíduos tem permanecido inquebrantável até
os dias presentes. Apesar de dizermos "indivíduos", todos eles são
seres realizados que permanecem nos bhumis, os níveis dos bodhisattvas.
Agora, para que possamos receber as bênçãos destes lamas, precisamos
rogar para eles com devoção unidirecionada.
A Prática do
Dzogpachenpo
Quando à prática destes
ensinamentos, há muitos métodos, que correspondem à capacidade do indivíduo.
Os indivíduos comuns simplesmente se esforçam para discriminar entre o que
deve ser feito e o que deve ser evitado, com a meta de atingir a felicidade
temporária desta vida.
Os indivíduos de capacidade média reconhecerão que a própria natureza dos
três mundos da existência cíclica é sofrimento e, refletindo sobre isto,
realizarão a preciosidade deste corpo humano, que é o suporte para atingir a
iluminação. Eles contemplarão a impermanência, que é o estímulo para a
sua diligência, sem nunca esquecer que a morte pode vir a qualquer hora. Então
eles realizarão como é que as suas próprias ações são a causa ou de
sofrimento ou de felicidade. Tendo visto que o sofrimento permeia o samsara
inteiramente, surgirá em suas mentes um forte sentimento de renúncia e de
querer, por todos os meios possíveis, se liberar do samsara.
Porém, desejar se liberar deste oceano de sofrimento não é suficiente em si
mesmo; como vimos, precisamos contar com um guia, um objeto de refúgio.
Supremo entre eles todos é o mestre-vajra, o professor autêntico qualificado
com todos os sinais de um ser realizado. Uma vez que tenhamos encontrado esse
professor, precisamos proteger nossa ligação espiritual com ele tão
cuidadosamente quando protegeríamos nossos próprios olhos.
Para fazer isto, precisamos ser sábios de três modos diferentes. Primeiro,
precisamos ser sábios para encontrar um professor autêntico e para examinar
suas qualidades através do aprendizado sobre sua vida e seus ensinamentos.
Então, quando tivermos encontrado um professor, devemos ser sábios para
atendê-lo perfeitamente, seguindo suas instruções à risca. Finalmente,
devemos ser sábios para realizar suas instruções, praticando-as. Se formas
sábios destes três modos, então viajaremos pelo caminho sem esforçou e sem
erro.
Há também três níveis para agradar o lama e realizar seus desejos. O
melhor é atingir a realização suprema da iluminação através da prática
— realizar a Visão através da Meditação e da Ação. O segundo melhor
modo é servir o professor com o corpo, a fala e a mente. O terceiro é fazer
oferendas materiais o trabalho e ensinamentos do professor.
Progredimos ao longo do caminho Mahayana tomando refúgio e gerando a mente
iluminada da bodhichitta. A fim de eliminar os obscurecimentos e ações
negativas que criam máculas no caminho, realizamos a prática de purificação
de Vajrasattva e, a fim de juntar condições favoráveis através da acumulação
de mérito, fazemos a oferenda de mandala. Finalmente chegamos à prática de
Guru Yoga, a prática mais essencial para despertar e fazer surgir a
sabedoria.
A meta por trás de cada uma de todas estas práticas não é simplesmente a de
meditar, de realizar certas atividades ou de recitar um grande número de
preces. Todas são diferentes meios de se realizar nosso objetivo principal,
que é o de treinar e transformar nossa mente. Como é dito, "Transforme
sua mente e você será perfeito; todo êxtase vem do domar a mente."
Então faça uma resolução firme e decida: "De agora em diante, até eu
morrer, praticarei diligentemente, todo o tempo." Se pudermos fazer
assim, terminaremos como Jetsün Milarepa, que realizou o maior método de
agradar o lama: atingindo a iluminação. Já que o próprio motivo pelo
qual o lama veio a este mundo é o de nos mostrar o caminho, o melhor modo
de realizar seus desejos é realizando os ensinamentos. Mas como Jigme Lingpa
apontou, "A teoria é como um remendo, um dia simplesmente cairá".
Precisamos integrar os ensinamentos em nossa experiência e fazer deles uma
parte intrínseca de nosso ser; de outro modo, eles não serão realmente de
muita utilidade.
Finalmente, para os seres de capacidade superior, há os caminhos profundos do
estágio de desenvolvimento ou geração (sânsc. Mahayoga), do estágio
de completude (sânsc. Anuyoga)
e então o mais sublime de todos, o Dzogpachenpo (sânsc.
Atiyoga).
Mahayoga
Tendo encontrado um
precioso professor, tendo sido aceito por ele e tendo recebido suas profundas
instruções, agora viemos colocar as instruções em prática. Para fazer
isso, precisamos transformar nossa percepção impura dos fenômenos externos
em uma visão de pureza infinita.
Para praticarmos o tantra interior, precisamos realizar que tudo é
primordialmente puro. Do mesmo modo, os elementos exteriores não são
percebidos como sendo comuns, mas sim como os cinco buddhas femininos. Os
cinco agregados dentro do corpo também não são percebidos como comuns, mas
sim como os cinco buddhas masculinos. Do mesmo modo as oito consciências,
assim como seus oito objetos, são percebidos como os oito bodhisattvas
masculinos e femininos. Através deste tipo de percepção, não apenas
veremos a pureza de todos os fenômenos, mas também perceberemos a
"grande igualdade do samsara e do nirvana." Não mais olharemos o
samsara como algo a ser descartado e o nirvana como algo a ser atingido; eles
serão vistos e entendidos como a "união da grande pureza e da grande
igualdade." Porém um estado como este não é algo que deva ser
fabricado de maneira nova; ele sempre esteve lá, desde o início.
A essência do Kyerim — o estágio de desenvolvimento ou de geração
— do Mahayoga é reconhecer todas as aparências como a divindade, todos os
sons como mantras e todos os pensamentos como o dharmakaya. Este é o caminho
mais profundo através do qual podemos efetivar todas as qualidades do corpo,
fala e mente de um buddha. Dizemos "efetivar" porque estas são
apenas a expressão da natureza primordial das coisas, que está agora
simplesmente sendo revelada.
Anuyoga
A prática do estágio de
completude, ou Anuyoga, é baseada principalmente nas seis yogas: tummo,
ou calor interior, a raiz do caminho; gyulü, ou corpo ilusório, o
fundamento do caminho; milam, ou sonho, a medida do progresso sobre o
caminho; ösel, ou luminosidade, a essência do caminho; bardo,
ou estado intermediário, o convite para continuar no caminho; e p'howa,
ou transferência de consciência, que nos permite viajar pelo restante do
caminho.
Atiyoga
A prática do Dzogchen ou
Atiyoga é realizar o tathagatagarbha, ou natureza búddhica, que tem
estado presente como nossa verdadeira natureza desde o início. Aqui não é
suficiente focalizar sobre práticas fabricadas que envolvem o esforço e
conceito intelectuais. Pare reconhecer nossa verdadeira natureza, a prática
deve estar completamente além da fabricação. A prática é simplesmente
realizar a vacuidade e a radiância, ou expressão natural, da sabedoria, que
está além de todos os conceitos intelectuais. É a realização verdadeira
da natureza absoluta assim como ela é — a fruição última.
No momento, nosso estado desperto — rigpa — está emaranhado dentro
de nossa mente, completamente envolvido e obscurecido pela atividade mental.
Através da prática do Trekchö, ou "cortar através de todo
apego", e da "realização direta" do Thögal, podemos
desmascarar este estado desperto e deixar sua radiância surgir.
Para realizar isto, precisamos praticar os quatro modos de deixar as coisas em
sua simplicidade natural (tib. chogshyag) e, por meio deles, adquirir
perfeita estabilidade na prática do Trekchö. Então virão as "quatro
visões do Thögal", que são o surgimento natural de visões de discos e
raios de luz, de divindades e de terras puras. Estas visões estão
naturalmente prontas para surgir de dentro do canal central que junta o coração
aos olhos. Este surgimento do canal central aparecerá em um processo gradual:
do mesmo modo que a lua crescente aumentando primeiro ao décimo quinto dia do
mês, estas visões gradualmente aumentarão — da simples percepção de
pontos de luz à toda a ostentação da vasta expansão das terras puras do
sambhogakaya. Esta manifestação do espaço e do estado desperto assim alcançará
seu ponto culminante.
Estas experiências não estão ligadas à consciência ou ao intelecto como
as experiências anteriores estavam; elas são uma manifestação verdadeira,
ou radiação do estado desperto. Depois disto, do mesmo modo que a lua
diminui e desaparece do décimo quinto ao trigésimo dia do mês, todas as
experiências e visões — todas os fenômenos — gradualmente virão à
exaustão e se reabsorverão no absoluto. Neste ponto a mente deludida que
concebe sujeito e objeto desaparecerá, e a sabedoria primária, que está além
do intelecto, gradualmente se expandirá. Eventualmente você atingirá a
iluminação perfeita do buddha primordial Samantabhadra, dotado com as seis
características extraordinárias.
Este é o caminho intentado para pessoas de faculdades superiores, que podem
atingir a iluminação nesta mesma vida. Para aqueles de capacidade média, há
a instrução sobre como atingir a liberação no bardo, ou estado intermediário.
Quando dizemos "bardo", de fato reconhecemos quatro bardos: o bardo
da concepção até a morte, o bardo do momento da morte, o bardo da natureza
absoluta e o bardo do vir à próxima existência.
O bardo entre a concepção e a morte é nosso estado presente. A fim de
destruir todas as percepções deludidas ou pensamentos deludidos neste bardo,
a prática última é o Atiyoga do Dzogchen, no qual há os dois caminhos
principais do Trekchö e do Thögal, como descritos acima. A fruição última
desta prática vem quando o corpo comum feito de agregados grosseiros
dissolve-se no "corpo de arco-íris da grande transferência" ou
"corpo-vajra", ou então se dissolve sem deixar quaisquer restos físicos.
Mas mesmo quando não podemos atingir esse atingimento último dentro de uma
vida, há ainda a possibilidade de atingirmos a iluminação no momento da
morte. Se o nosso professor, ou um irmão ou irmã do Dharma, estiver próximo
de nós no exato momento de nossa morte, ele ou ela nos lembrará das instruções
— a introdução à natureza da mente. Se pudermos nos lembrar de nossas
experiências de prática e permanecermos na natureza da mente, atingiremos a
realização. É então possível partir diretamente para uma terra pura sem
qualquer estado intermediário. Se isto não for realizado, então aparecerá
o bardo da natureza absoluta, ou do dharmata. Neste ponto, a luminosidade base
do dharmakaya aparecerá. Se pudermos unir a luminosidade base, ou
"luminosidade mãe", com a luminosidade que reconhecemos durante
nossa vida, chamada "luminosidade filho", então seremos liberados
no dharmakaya.
Se não formos liberados neste momento, então aparecerão incontáveis
manifestações de sons, luzes e raios. Um medo tremendo nos infligirá por
causa destas emanações e visões, mas se formos bons praticantes,
realizaremos que não há do que ter medo. Saberemos que quaisquer divindades
que apareçam, iradas ou pacíficas, são todas as nossas próprias projeções.
Reconhecer isto é garantir a liberação em um campo búddhico do
sambhogakaya.
Mas se isto não for realizado, então se seguirá o bardo do vir a uma próxima
existência. Isto é quando, se praticarmos da maneira correta, seremos
liberados em um campo búddhico nirmanakaya.
Essencialmente, a natureza primordial do Buddha Samantabhadra é como a base
ou natureza-mãe da realização. A natureza que foi introduzida a nós pelo
nosso professor é como a natureza-filho. Quando estas duas se encontrarem,
atingiremos a realização completa e tomaremos posse do forte da iluminação.
Até mesmo os seres ordinários, incapazes de atingir a liberação nem nesta
vida nem no estado intermediário, podem atingi-la nas terras puras do
nirmanakaya.
Para resumir então, através da prática do caminho do Trekchö e do Thögal
podemos alcançar a realização última do dharmakaya, o estado iluminado do
buddha primordial Samantabhadra, dentro desta mesma vida. Este é o melhor
caso. Se não, então podemos nos liberar nos outros três bardos: nos bardos
do momento da morte, do dharmata, e do renascimento. Mesmo se isto não
acontecer, ainda podemos ser aliviados do sofrimento e ser liberados através
das virtudes ou bênçãos dos ensinamentos do Dzogchen. Quem quer que tenha
uma conexão com ele é: liberado pela visão, ao ver o ensinamento ou o
professor; liberado pela audição, ao ouvir o professor ou o ensinamento;
liberado pelo contato, ao usar os preciosos mantras e escrituras do
Dzogpachenpo; ou liberado pelo sabor, e assim por diante. Como resultado,
seremos liberados em uma das cinco terras puras do nirmanakaya, de Vairochana,
Akshobhya, Ratnasambhava, Amitabha ou de Amoghasiddhi, e finalmente no campo búddhico
central.
Apêndice
As seis características
extraordinárias da liberação de Samantabhadra:
-
Esta liberação surge
para nosso próprio estado desperto como a exibição deste estado
desperto. Não há percepções deludidas que vêm do apego a esta exibição
como um fenômeno externo.
-
Esta liberação
transcende os aspectos da "base primordial" e da "manifestação
que surge da base primordial". Se não transcendesse, haveria uma
possibilidade de cair na delusão quando os fenômenos surgissem da base
primordial.
-
Se reconhecermos a
sabedoria primordial livre de todos os obscurecimentos, nesse mesmo
instante aparecerão espontaneamente todas as qualidades que permanecem
naturalmente dentro da expansão dessa sabedoria. Realizaremos que todos
os obscurecimentos relacionados às várias tendências kármicas
acumuladas sobre a amorfa consciência básica são puras desde o início.
Como um sol brilhante emergindo das nuvens, transcendemos completamente a
base do samsara.
-
No mesmo instante, o insight
transcendente amadurece como o kaya da natureza última em si;
conquistamos a cidadela da pureza primordial e permanecemos lá
imutavelmente.
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A efetivação de
nosso próprio estado desperto não é nascida de circunstâncias externas
fornecidas por algo que não seja o próprio estado desperto, e é
independente de todas as condições. O estado búddhico é atingido através
do estado desperto reconhecendo sua própria natureza, através de sua própria
força.
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A base para a liberação
permanece primordialmente no continuum de sua própria natureza, e não
pode ser penetrada pelas causas da delusão.
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