dzongsar jamyang khyentse, thubten chökyi gyamtso ·
nossa insegurança básica

Em muitos países e em muitas ocasiões, Dzongsar Khyentse Rinpoche tem falado sobre o shamatha, ou meditação da "permanência calma", como um meio de estabilizar nossas mentes. Aqui está um excerto dos ensinamentos sobre a meditação shamatha que ele deu em Sydney, Austrália.

Para começar, devemos saber a razão de fazermos a meditação shamatha. Basicamente, nós a fazemos até podermos ter obter um certo controle sobre nós mesmos. Isso significa que não temos controle sobre nós mesmos nesse exato momento. E cheios dos diversos problemas que encaramos, acho que uma das ansiedades ou sofrimentos mais fundamentais que experienciamos é o de que há uma insegurança básica dentro de nós. E esta insegurança é o que precisamos destruir, ou pelo menos entender.

A insegurança básica que temos é sobre a nossa identidade. E mais especificamente que isso, temos essa insegurança sobre a existência dessa coisa como o "eu" ou "o ego". Provavelmente não fazemos essa pergunta normalmente, mas realmente posicionamos essa pergunta inconsciente ou semi-conscientemente, por todo o tempo. A razão buddhista por termos tanta insegurança dentro de nós é que, se nós formos observar nossas vidas, especialmente nossa vida do dia-a-dia, iremos perceber que há uma dúvida sobre a nossa existência. Por exemplo, nos apresentamos para uma pessoa dizendo, "Eu sou fulano". Provavelmente iremos imprimir nossos nomes em cartões ou tentaremos conquistar um certo cargo ou título. E mais sutilmente do que isso, experienciamos todos os tipos de emoções extremas, como paixão e raiva. Tudo isso é realmente algo mais do que uma pessoa apenas ficar nervosa ou apaixonada por alguém. As causas de todas essas agressões e paixões vêm da necessidade de nos convencer de que o ego existe, que eu realmente existo.

Mas isso ainda não ajuda. Ainda somos constantemente inseguros. Então, além dessa insegurança, criamos muitas falsas esperanças e expectativas. E milhões de expectativas realmente não são preenchidas. Além disso, freqüentemente experienciamos aquilo que não desejamos. De fato, aquilo que não desejamos parece acontecer o tempo todo. E quando isso continua se repetindo e se repetindo, as pessoas começam a perder a consideração por elas mesmas, começam a perder a consideração pelo seu meio, e então não existe mais confiança. Então é por isso, que para muitos de nós, ter uma visão sagrada de alguém ou de algo é tão difícil. Não há uma visão sagrada de nós mesmos. Não há certezas. Não vamos nem mesmo sequer falar sobre a visão sagrada como sendo algo que funcione com a religião, como Deus, o espírito puro ou qualquer coisa do tipo. Nem mesmo temos a certeza da nossa existência. Sempre estamos com dúvidas. Entretanto, com certeza,  simulamos por um longo tempo que nós existimos.

Mas de certa maneira somos bastante inteligentes. Sabemos que estamos fingindo e queremos transpor isso. Não queremos admitir para nós mesmos que estamos fingindo. E para transpor isso, fazemos coisas extremas, como talvez ter um romance ou berrar com alguém. E quando você atravessa esse tipo de emoção extrema, ela dá uma certa satisfação de que você existe. E você vive sua vida com esse tipo de superficialidade por todo tempo. Mas isso realmente não lhe dará uma confiança estável sobre si mesmo.

E então começamos a perder nossa apreciação sobre a vida... E eu acho que devemos desenvolver certa apreciação por nossas vidas. Quando falo sobre apreciarmos nossas vidas, isso inclui todas as coisas. Por exemplo, enquanto como esse biscoito e ele desce pela minha garganta, eu deveria sentir sentir algo como, "Uau! Incrível! É tão bom que eu possa comer um pedaço de biscoito. Isso é incrível!" Veja, isso provavelmente nunca acontece. Por exemplo, quando estou mastigando esse biscoito, enquanto ele está derretendo em minha boca, repentinamente esse corpo pode entrar em colapso e eu provavelmente morrerei. Esse biscoito provavelmente nunca irá descer pela minha garganta! É muito importante desenvolvermos essa apreciação em nossas vidas. A meditação shamatha é um caminho, um caminho muito especial para desenvolver essa apreciação. Então temos dois objetivos agora. Através da meditação construímos uma certa segurança, em outras palavras, eliminamos a insegurança básica que temos e aprendemos como apreciar nossas vidas a cada momento. Isso realmente não é buddhismo, é uma coisa bem humana de se fazer. Você não pode dizer que isso é religião. De fato, muitos mestres de meditação shamatha geralmente dizem que o objetivo da meditação shamatha não é necessariamente o de alcançar a iluminação, no sentido de conseguir se liberar de todos os tipos de emoções e de alcançar o estado em que se você abandona todos os tipos de fenômenos dualistas. O objetivo da meditação shamatha não tem nada a ver com isso. O seu objetivo é, como eu estava dizendo agora mesmo, o de obter um controle sobre nós mesmos. E obtendo esse controle, obtemos uma certa confiança e apreciação em nossas vidas em todos os momentos, dia a dia.

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adaptado de www.siddharthasintent.org