O
objetivo da prática do Dharma é atingir a iluminação. Realmente,
atingir a iluminação é exatamente o mesmo que nos libertarmos da ignorância,
e a raiz da ignorância é o ego. Qualquer que seja o caminho que tomemos,
seja uma rota longa e disciplinada, seja curta e selvagem, em seu fim o
ponto essencial é que eliminamos o ego.
Há muitos e muitos modos diferentes pelos quais podemos fazer isto, através
da meditação shamatha por exemplo, e todos eles trabalham até um certo
ponto ou outro. Entretanto, já que temos estado com nosso ego por tantas
vidas e estamos tão familiarizados com ele, cada vez que tomamos um caminho
em nossos esforços para eliminar o ego, esse mesmo caminho é seqüestrado
pelo ego e manipulado de tal modo que, ao invés de o esmagar, nosso
caminho apenas ajuda a reforçá-lo.
Esta é a razão pela qual, no Vajrayana, a devoção ao Lama ou Guru
Yoga é ensinada como uma prática vital e essencial. Como o Lama é
um ser vivo, que respira, ele ou ela é capaz de lidar diretamente com o
seu ego. Ler um livro sobre como eliminar o ego pode ser interessante, mas
você nunca ficará intimidado por esse livro e, de qualquer modo, os
livros estão inteiramente abertos para a sua própria interpretação. Um
livro não pode falar ou reagir a você, enquanto o Lama pode e irá
agitar o seu ego para que eventualmente ele seja eliminado completamente.
Se é isto atingido irada ou gentilmente, não importa, mas no fim é para
isto que Lama está lá e é por isto que a devoção ao Lama é tão
importante.
Para um aluno que tenha uma devoção verdadeira, o Lama é a corporificação
de todas as fontes de refúgio e a devoção pelo Lama é a essência de
todos os caminhos. O Lama Jamyang Gyaltsen, um grande mestre sakyapa,
disse que "o Lama é a corporificação de todo refúgio",
significando que quando tomamos refúgio, vemos o Lama presente em todas
as Três Jóias: a presença física do Lama é vista com a Sangha, o
ensinamento do Lama é visto como o Dharma e a mente do Lama é vista como
o Buddha.
O Guru Yoga é o método mais rápido e mais efetivo para atingir a
iluminação e é o caminho único no qual todos os caminhos estão
completos. O Guru Yoga inclui a renúncia, a bodhichitta, a meditação de
desenvolvimento (kyerim) e de completude (dzogrim), o
treinamento da mente (lojong), e é por isso que podemos dizer que
o Guru Yoga é a corporificação, ou a essência, de todos os caminhos.
É a chave para todos eles, o método especial que pode levar um
praticante através dos estágios do caminho do bodhisattva e dos
diferentes yanas. Outros caminhos podem levá-lo a um certo nível, mas não
completos. O Guru Yoga é não apenas o caminho completo, mas também o
mais condensado.
A fim de praticar o Guru Yoga, primeiro devemos aprender como ver o nosso Lama
como sendo o Buddha. Em nossas vidas cotidianas, mesmo que tenhamos
um Lama, tendemos a procurar pela solução de nossos problemas em outros
lugares. Em um outro nível, quando estamos doentes nós "tomamos refúgio"
em um médico, ou se está chovendo nós "tomamos refúgio" em
um guarda-chuva. Do mesmo modo, em um nível interno, se tivermos
problemas com dinheiro, podemos tentar resolvê-los com a prática de
Dzambhala; se encaramos obstáculos e dificuldades, podemos invocar a
ajuda de Mahakala; ou se não tivermos sabedoria, podemos rezar para
Manjushri. Isto mostra o quão fraca é a nossa devoção, pois para o que
quer que esteja faltando, precisamos apenas olhar para uma fonte de ajuda
e guia: o Lama. O primeiro estágio da devoção ao Lama, então, é
despertar e aumentar nossa devoção, até que ela se torne sonora e
forte, e que possamos realmente olhar para o Lama como sendo o Buddha.
Gradualmente alcançaremos o segundo estágio, onde não simplesmente pensamos
que o Lama é o Buddha; nós vemos que ele é o Buddha. Conforme
nossa devoção torna-se mais forte, é com um sentido crescente de
alegria que começamos a confiar inteiramente sobre o Lama para tudo.
Surge uma confiança interior, uma certeza absoluta de que o Lama é a única
fonte de refúgio. Não temos mais que criar ou fabricar nossa devoção
— agora ela vem bem naturalmente.
Então todas as nossas experiências, boas e ruins, tornam-se manifestações
do Lama. Tudo que experienciamos na vida torna-se benéfico e tem um
objetivo; tudo que encontramos torna-se um ensinamento. A confiança e
devoção totais pelo Lama são nascidas dentro de nosso coração e a bênção
do Lama dissolve-se em nossa mente.
Com isto, alcançamos o terceiro estágio, que é quando realizamos que
nossa mente não é outra senão o Lama, o qual vimos como sendo o Buddha.
Finalmente planejamos fundir nossa mente com a mente do Lama, o que nos
leva além de todos os nossos hábitos de exagero e de baixa estima, e nos
livra de todos os tipos de expectativa e de medo. Nossa devoção,
finalmente, não é criada ou fabricada, mas sim uma devoção verdadeira,
e uma vez que a tenhamos atingido, realizaremos a meta última de toda a
prática buddhista.
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