Este
é o rugido do leão que domina as extravagantes confusões e equívocos dos
meditadores que abandonaram os vínculos materialistas para meditar na essência
mais íntima.
A grande perfeição está além das concepções e transcende tanto o apego
quanto o desapego; é a própria essência da visão intuitiva transcendental.
Este é o estado imutável da ausência de meditação, no qual existe atenção
mas não existe apego. Entendendo isto, presto uma homenagem eterna à grande perfeição:
Aqui está a essência
profunda do tantra da grande perfeição,
O núcleo mais profundo dos ensinamentos de Padmakara,
A força vital das dakinis.
É o ensinamento supremo dos nove veículos.
Só pode ser transmitido por um Lama da linhagem da mente,
E não através de meras palavras.
Apesar disso, escrevi isto em proveito dos grandes meditadores
Que se devotam ao ensinamento supremo.
Este ensinamento foi retirado do tesouro do dharmadhatu
E não surge de apego a teorias e abstrações filosóficas.
Primeiro, o discípulo tem de encontrar
um Lama completo, com o qual teve uma boa ligação kármica. O Lama precisa ser detentor da transmissão da linhagem da mente. O discípulo
precisa ter devoção e fé sinceras, que possibilitam a transmissão do Lama.
A grande perfeição é da maior simplicidade. É o que é. Não consegue ser
demonstrada por analogia; nada pode obstruí-la. Não tem limitação e
transcende todos os extremos. É a realidade nítida, que não muda de forma
ou coloração. Quando nos identificamos com este estado, até mesmo o desejo
de meditar se dissolve; somos libertados das cadeias de meditação e das
filosofias e teorias de mundo, e a convicção plena surge em nosso íntimo. O
pensador desertou. Já não existe nenhuma vantagem a ser adquirida com
pensamentos "bons", nem qualquer prejuízo a se sofrer com
pensamentos "maus". Os pensamentos "neutros" já não nos
conseguem enganar. Nos unificamos com o insight transcendental e com o
espaço infinito. Então encontramos sinais de progresso no caminho. Já não
existe questão alguma de confusões ou equívocos acontecendo ao redor.
Esse ensinamento é o rei dos veículos, mas podemos classificar seus
meditadores; há os que são muito receptivos a ele; os que são menos
receptivos; e os que são avessos a ele. Os discípulos mais receptivos são
difíceis de encontrar e às vezes acontece do aluno e o Lama não serem
capazes de manter um verdadeiro ponto de encontro. Neste caso, nada se
concretiza e podem surgir equívocos no que se refere à natureza da grande perfeição.
Os menos receptivos começam estudando a teoria e gradualmente desenvolvem a
sensibilidade e o verdadeiro entendimento. Hoje em dia, muitas pessoas
consideram a teoria como se fosse a meditação. A meditação dessas pessoas
pode ser clara e desprovida de pensamentos e talvez seja relaxante e agradável,
mas é a apenas a vivência temporária do êxtase. Estas pessoas acreditam
que isso é meditação e que ninguém sabe mais do que elas, e pensam,
"Cheguei a este entendimento", e ficam orgulhosas de si mesmas.
Assim, se não há nenhum Lama competente, o que elas vivenciam é apenas teórico.
Como é dito nos textos da grande perfeição, "a teoria é como um
remendo num casaco: um dia vai cair".
Geralmente as pessoas procuram fazer
distinção entre "bons" e "maus" pensamentos, como se
tentassem separar leite de água. É bastante difícil aceitar as experiências
negativas da vida, mas ainda mais difícil é encarar as experiências
positivas como parte do caminho. Até mesmo as pessoas que afirmam ter chegado
ao estágio mais elevado de realização estão completamente envolvidas com a
fama e com preocupações mundanas. São atacadas pelo filho dos deuses, a força
maligna que provoca a atração para os objetos dos sentidos. Isso significa
que ainda não realizaram a liberação do "eu" dos seis sentidos.
Essas pessoas consideram a fama uma coisa muito extraordinária e milagrosa.
Isso é como afirmar que um corvo é branco. Mas aquele que se dedica
inteiramente à prática do Dharma sem se preocupar com a fama e glória
mundanas não deve ficar satisfeito demais consigo mesmo por ter chegado a um
certo desenvolvimento na meditação. Deve praticar o Guru Yoga nos quatro períodos
do dia a fim de receber as bênçãos do Lama e de fundir a própria mente
com a dele, abrindo o olho do insight.
Tendo passado por essa experiência, não
convém descartá-la. Daí por diante o yogi deve, ele próprio, se dedicar a
essa prática com perseverança infatigável. Subseqüentemente, ele sentirá
o vazio de forma mais tranqüila ou vivenciará uma clareza e um insight
maiores. Ou ainda, talvez comece a perceber os defeitos dos pensamentos
discursivos e com isso desenvolver a sabedoria da discriminação. Alguns
indivíduos são capazes de usar tanto os pensamentos como a ausência de
pensamentos como meditação, mas é preciso ter em mente que o que percebe o
que está acontecendo é sempre o pulso firme do ego.
Tome cuidado com o obstáculo sutil que é tentar analisar o que vivenciamos.
Isso é um grande perigo. É muito cedo para colocar o rótulo de dharmakaya
em todos os pensamentos. O remédio é a sabedoria atemporal, que é imutável
e infalível. Uma vez libertado da servidão da especulação filosófica, o
meditador desenvolve uma consciência penetrante em sua prática. Se analisar o
que vivenciou na meditação e na pós-meditação, perde-se e comete muitos
erros. Se deixar de entender essas deficiências, nunca conseguirá atingir o
estado desperto atemporal, que está além de qualquer conceitualização
desse ou de outro tipo. Terá apenas uma visão conceitual e niilista de
vazio, que é a característica dos veículos menos importantes.
Também é um erro considerar o vazio uma miragem, como se fosse apenas uma
combinação de percepções vívidas com o nada. Isso é que vivenciamos com
os tantras menos importantes, o que poderia ser induzido pela prática do
mantra svabhava. E é um erro também, analogamente, tendo aquietado os
pensamentos discursivos, descuidar da lucidez e considerar a mente apenas um
espaço em branco. Vivenciar o verdadeiro insight é perceber simultaneamente
a quietude e os pensamentos ativos. Segundo o ensinamento da grande perfeição,
a meditação consiste em ver tudo o que surge na mente, seja o que for, e
simplesmente permanecer no estado desperto atemporal. Permanecer neste estado
após a meditação chama-se "experiência pós-meditativa".
É um erro tentar concentrar-se no vazio e, depois de meditar, considerar
intelectualmente tudo como uma miragem. O insight primordial é o estado que não
é influenciado pela vegetação rasteira dos pensamentos, por assim dizer. É
um erro permanecer prevenido contra a mente que divaga, bem como tentar
aprisionar a mente na prática ascética de suprimir pensamentos.
Talvez algumas pessoas interpretem mal a palavra "atemporal" e
suponham que se refere a todo e qualquer pensamento que esteja na mente no
momento. É preciso entender "atemporal" como o insight primordial
que já descrevemos.
O estado de ausência de meditação nasce no coração quando já não se
distingue mais "meditação" de "ausência de meditação"
e não se sente mais necessidade de mudar ou de prolongar o estado de meditação.
Há uma alegria que invade tudo e que está isenta de todo tipo de dúvidas.
Isso é muito diferente da mera alegria dos prazeres sensuais e da mera
felicidade.
Quando falamos de "lucidez" ou "claridade", estamos nos
referindo ao estado isento de indolência ou lentidão. Essa claridade é
inseparável da energia pura e brilha desimpedida. É um erro igualar
claridade com percepção de pensamentos e com as cores e formas dos fenômenos
externos.
Quando os pensamentos estão ausentes, o meditar está imerso no espaço do
chamado "não-pensamento", que é a ausência de pensamentos.
"Ausência de pensamentos" não significa inconsciência, nem sono,
nem recuo dos sentidos; significa simplesmente não se deixar influenciar pelo
conflito. Os três sinais de meditação (claridade, alegria e ausência de
pensamentos) podem ocorrer naturalmente quando se está meditando, mas se o
meditador fizer algum esforço para criá-los, ele permanecerá na experiência
cíclica do samsara.
Existem quatro visões errôneas do vazio. É um erro imaginar que o vazio
seja simplesmente a ausência de conteúdos sem perceber o amplo espaço da
atemporalidade. É um erro buscar a natureza de buddha em fontes externas sem
perceber que a atemporalidade não conhece nenhum caminho e nenhum resultado.
É um erro tentar introduzir algum remédio para os pensamentos sem perceber
que os pensamentos são vazios por natureza e que sempre é possível se
libertar como uma cobra se desenrolando. Também é um erro manter uma visão
niilista dizendo que não há mais nada senão o vácuo, nenhuma causa e
efeito do karma e nenhum meditador nem meditação, e ao mesmo tempo deixando
de vivenciar o vazio além das concepções. Quem já obteve lampejos de
percepção deve conhecer estes perigos e precisa conhecê-los detalhadamente.
É fácil teorizar e falar com eloqüência a respeito do vazio, mas o
meditador pode ainda não ser capaz de lidar com certas situações. Um texto
da grande perfeição diz, "A percepção temporária é como uma névoa
que com certeza desaparecerá". Os meditadores que não estudam esses
perigos jamais obtêm coisa alguma ao fazer um retiro rigoroso, ou refrear a
mente à força, ao fazer visualizações, ao recitar mantras ou praticar
hatha yoga. Como está dito no P'hagpa Düpa Sutra,
O bodhisattva que não
conhece o verdadeiro significado da solidão,
Mesmo que medite durante muitos anos num vale remoto cheio de cobras
venenosas,
A mil quilômetros da habitação mais próxima,
Desenvolverá um orgulho arrogante.
Se o meditador é capaz de usar como
caminho tudo que lhe acontece na vida, seja o que for, seu corpo passa a ser
uma cabana de retiro. Ele não precisa aumentar o número de anos que passou
meditando e não entra em pânico quando surgem pensamentos
"chocantes". Sua consciência continua firme como a de um velho
observando uma criança brincar. Como diz um texto da grande perfeição,
"a realização absoluta é como o espaço imutável".
O yogi da grande perfeição pode parecer uma pessoa comum, mas ele sempre
mantém sua atenção no estado desperto atemporal. Não tem necessidade de
livros porque encara os fenômenos aparentes e toda a existência como se
fossem a mandala do Lama. Para ele não existe especulação em relação
aos estágios do caminho. Seus atos são espontâneos, por isso beneficiam
todos os seres sencientes. Quando sai do corpo físico, sua consciência se
identifica com o dharmakaya do mesmo modo que o ar dentro de um vaso se funde
com o ambiente quando o vaso quebra.
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