rigdzin jigme lingpa, pema khyentse özer ·
o rugido do leão

Este é o rugido do leão que domina as extravagantes confusões e equívocos dos meditadores que abandonaram os vínculos materialistas para meditar na essência mais íntima.

A grande perfeição está além das concepções e transcende tanto o apego quanto o desapego; é a própria essência da visão intuitiva transcendental. Este é o estado imutável da ausência de meditação, no qual existe atenção mas não existe apego. Entendendo isto, presto uma homenagem eterna à grande perfeição:

Aqui está a essência profunda do tantra da grande perfeição,
O núcleo mais profundo dos ensinamentos de Padmakara,
A força vital das dakinis.
É o ensinamento supremo dos nove veículos.
Só pode ser transmitido por um Lama da linhagem da mente,
E não através de meras palavras.
Apesar disso, escrevi isto em proveito dos grandes meditadores
Que se devotam ao ensinamento supremo.
Este ensinamento foi retirado do tesouro do dharmadhatu
E não surge de apego a teorias e abstrações filosóficas.

Primeiro, o discípulo tem de encontrar um Lama completo, com o qual teve uma boa ligação kármica. O Lama precisa ser detentor da transmissão da linhagem da mente. O discípulo precisa ter devoção e fé sinceras, que possibilitam a transmissão do Lama.

A grande perfeição é da maior simplicidade. É o que é. Não consegue ser demonstrada por analogia; nada pode obstruí-la. Não tem limitação e transcende todos os extremos. É a realidade nítida, que não muda de forma ou coloração. Quando nos identificamos com este estado, até mesmo o desejo de meditar se dissolve; somos libertados das cadeias de meditação e das filosofias e teorias de mundo, e a convicção plena surge em nosso íntimo. O pensador desertou. Já não existe nenhuma vantagem a ser adquirida com pensamentos "bons", nem qualquer prejuízo a se sofrer com pensamentos "maus". Os pensamentos "neutros" já não nos conseguem enganar. Nos unificamos com o insight transcendental e com o espaço infinito. Então encontramos sinais de progresso no caminho. Já não existe questão alguma de confusões ou equívocos acontecendo ao redor.

Esse ensinamento é o rei dos veículos, mas podemos classificar seus meditadores; há os que são muito receptivos a ele; os que são menos receptivos; e os que são avessos a ele. Os discípulos mais receptivos são difíceis de encontrar e às vezes acontece do aluno e o Lama não serem capazes de manter um verdadeiro ponto de encontro. Neste caso, nada se concretiza e podem surgir equívocos no que se refere à natureza da grande perfeição.

Os menos receptivos começam estudando a teoria e gradualmente desenvolvem a sensibilidade e o verdadeiro entendimento. Hoje em dia, muitas pessoas consideram a teoria como se fosse a meditação. A meditação dessas pessoas pode ser clara e desprovida de pensamentos e talvez seja relaxante e agradável, mas é a apenas a vivência temporária do êxtase. Estas pessoas acreditam que isso é meditação e que ninguém sabe mais do que elas, e pensam, "Cheguei a este entendimento", e ficam orgulhosas de si mesmas. Assim, se não há nenhum Lama competente, o que elas vivenciam é apenas teórico. Como é dito nos textos da grande perfeição, "a teoria é como um remendo num casaco: um dia vai cair".

Geralmente as pessoas procuram fazer distinção entre "bons" e "maus" pensamentos, como se tentassem separar leite de água. É bastante difícil aceitar as experiências negativas da vida, mas ainda mais difícil é encarar as experiências positivas como parte do caminho. Até mesmo as pessoas que afirmam ter chegado ao estágio mais elevado de realização estão completamente envolvidas com a fama e com preocupações mundanas. São atacadas pelo filho dos deuses, a força maligna que provoca a atração para os objetos dos sentidos. Isso significa que ainda não realizaram a liberação do "eu" dos seis sentidos. Essas pessoas consideram a fama uma coisa muito extraordinária e milagrosa. Isso é como afirmar que um corvo é branco. Mas aquele que se dedica inteiramente à prática do Dharma sem se preocupar com a fama e glória mundanas não deve ficar satisfeito demais consigo mesmo por ter chegado a um certo desenvolvimento na meditação. Deve praticar o Guru Yoga nos quatro períodos do dia a fim de receber as bênçãos do Lama e de fundir a própria mente com a dele, abrindo o olho do insight.

Tendo passado por essa experiência, não convém descartá-la. Daí por diante o yogi deve, ele próprio, se dedicar a essa prática com perseverança infatigável. Subseqüentemente, ele sentirá o vazio de forma mais tranqüila ou vivenciará uma clareza e um insight maiores. Ou ainda, talvez comece a perceber os defeitos dos pensamentos discursivos e com isso desenvolver a sabedoria da discriminação. Alguns indivíduos são capazes de usar tanto os pensamentos como a ausência de pensamentos como meditação, mas é preciso ter em mente que o que percebe o que está acontecendo é sempre o pulso firme do ego.

Tome cuidado com o obstáculo sutil que é tentar analisar o que vivenciamos. Isso é um grande perigo. É muito cedo para colocar o rótulo de dharmakaya em todos os pensamentos. O remédio é a sabedoria atemporal, que é imutável e infalível. Uma vez libertado da servidão da especulação filosófica, o meditador desenvolve uma consciência penetrante em sua prática. Se analisar o que vivenciou na meditação e na pós-meditação, perde-se e comete muitos erros. Se deixar de entender essas deficiências, nunca conseguirá atingir o estado desperto atemporal, que está além de qualquer conceitualização desse ou de outro tipo. Terá apenas uma visão conceitual e niilista de vazio, que é a característica dos veículos menos importantes.

Também é um erro considerar o vazio uma miragem, como se fosse apenas uma combinação de percepções vívidas com o nada. Isso é que vivenciamos com os tantras menos importantes, o que poderia ser induzido pela prática do mantra svabhava. E é um erro também, analogamente, tendo aquietado os pensamentos discursivos, descuidar da lucidez e considerar a mente apenas um espaço em branco. Vivenciar o verdadeiro insight é perceber simultaneamente a quietude e os pensamentos ativos. Segundo o ensinamento da grande perfeição, a meditação consiste em ver tudo o que surge na mente, seja o que for, e simplesmente permanecer no estado desperto atemporal. Permanecer neste estado após a meditação chama-se "experiência pós-meditativa".

É um erro tentar concentrar-se no vazio e, depois de meditar, considerar intelectualmente tudo como uma miragem. O insight primordial é o estado que não é influenciado pela vegetação rasteira dos pensamentos, por assim dizer. É um erro permanecer prevenido contra a mente que divaga, bem como tentar aprisionar a mente na prática ascética de suprimir pensamentos.

Talvez algumas pessoas interpretem mal a palavra "atemporal" e suponham que se refere a todo e qualquer pensamento que esteja na mente no momento. É preciso entender "atemporal" como o insight primordial que já descrevemos.

O estado de ausência de meditação nasce no coração quando já não se distingue mais  "meditação" de "ausência de meditação" e não se sente mais necessidade de mudar ou de prolongar o estado de meditação. Há uma alegria que invade tudo e que está isenta de todo tipo de dúvidas. Isso é muito diferente da mera alegria dos prazeres sensuais e da mera felicidade.

Quando falamos de "lucidez" ou "claridade", estamos nos referindo ao estado isento de indolência ou lentidão. Essa claridade é inseparável da energia pura e brilha desimpedida. É um erro igualar claridade com percepção de pensamentos e com as cores e formas dos fenômenos externos.

Quando os pensamentos estão ausentes, o meditar está imerso no espaço do chamado "não-pensamento", que é a ausência de pensamentos. "Ausência de pensamentos" não significa inconsciência, nem sono, nem recuo dos sentidos; significa simplesmente não se deixar influenciar pelo conflito. Os três sinais de meditação (claridade, alegria e ausência de pensamentos) podem ocorrer naturalmente quando se está meditando, mas se o meditador fizer algum esforço para criá-los, ele permanecerá na experiência cíclica do samsara.

Existem quatro visões errôneas do vazio. É um erro imaginar que o vazio seja simplesmente a ausência de conteúdos sem perceber o amplo espaço da atemporalidade. É um erro buscar a natureza de buddha em fontes externas sem perceber que a atemporalidade não conhece nenhum caminho e nenhum resultado. É um erro tentar introduzir algum remédio para os pensamentos sem perceber que os pensamentos são vazios por natureza e que sempre é possível se libertar como uma cobra se desenrolando. Também é um erro manter uma visão niilista dizendo que não há mais nada senão o vácuo, nenhuma causa e efeito do karma e nenhum meditador nem meditação, e ao mesmo tempo deixando de vivenciar o vazio além das concepções. Quem já obteve lampejos de percepção deve conhecer estes perigos e precisa conhecê-los detalhadamente. É fácil teorizar e falar com eloqüência a respeito do vazio, mas o meditador pode ainda não ser capaz de lidar com certas situações. Um texto da grande perfeição diz, "A percepção temporária é como uma névoa que com certeza desaparecerá". Os meditadores que não estudam esses perigos jamais obtêm coisa alguma ao fazer um retiro rigoroso, ou refrear a mente à força, ao fazer visualizações, ao recitar mantras ou praticar hatha yoga. Como está dito no P'hagpa Düpa Sutra,

O bodhisattva que não conhece o verdadeiro significado da solidão, 
Mesmo que medite durante muitos anos num vale remoto cheio de cobras venenosas,
A mil quilômetros da habitação mais próxima,
Desenvolverá um orgulho arrogante.

Se o meditador é capaz de usar como caminho tudo que lhe acontece na vida, seja o que for, seu corpo passa a ser uma cabana de retiro. Ele não precisa aumentar o número de anos que passou meditando e não entra em pânico quando surgem pensamentos "chocantes". Sua consciência continua firme como a de um velho observando uma criança brincar. Como diz um texto da grande perfeição, "a realização absoluta é como o espaço imutável".

O yogi da grande perfeição pode parecer uma pessoa comum, mas ele sempre mantém sua atenção no estado desperto atemporal. Não tem necessidade de livros porque encara os fenômenos aparentes e toda a existência como se fossem a mandala do Lama. Para ele não existe especulação em relação aos estágios do caminho. Seus atos são espontâneos, por isso beneficiam todos os seres sencientes. Quando sai do corpo físico, sua consciência se identifica com o dharmakaya do mesmo modo que o ar dentro de um vaso se funde com o ambiente quando o vaso quebra. 

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adaptado da tradução de Padma Dorje