dzongsar jamyang khyentse, thubten chökyi gyamtso ·
motivação, fixação e meditação

Vocês todos vieram aqui para ouvir os ensinamentos do Dharma. Mas primeiro é importante verificarmos que tipo de motivação temos quando ouvimos o Dharma. Acredito que ninguém aqui veio como uma motivação muito ruim. Porém, a motivação tem muitos graus diferentes.

Um fazendeiro, como alguém que planta arroz para viver, tem apenas um medo: que a chuva não venha na hora. Se não chover, então o crescimento do arroz será prejudicado. Quando este fazendeiro vai ao templo, ele roga ao Buddha pedindo que a chuva venha na hora. Esta não é uma motivação inteiramente ruim; é uma motivação muito doce e inocente. É um tipo de motivação. O fazendeiro está pedindo ao Buddha, um ser iluminado, porque que é algo muito insignificante, muito trivial, como a chuva. Isto seria como se aproximar de um professor de universidade e contar que se está passando muita dificuldade. Para aliviar esta assim chamada "dificuldade", vocês pedem a ele que lhes ensinem o alfabeto.

Todos temos este tipo de motivação pequena; estou certo disto. Quando tememos a morte, ficamos doentes e temos obstáculos, rogamos ao Buddha. Isto é similar ao fazendeiro com uma motivação muito insignificante. Muitos de nós buddhistas, especialmente na Ásia, rogamos ao Buddha pelo nosso bem-estar, boa saúde, prosperidade e todas estas coisas. Isto não é uma motivação ruim, mas é uma motivação pequena. Podemos cantar mantras e ir a templos, mas ainda há algo faltando nesta motivação.

Quando alguém vai a um templo (rogando e fazendo oferendas) porque ele ou ela quer ser próspero e saudável, então o indivíduo acredita que este Buddha concederá isso. Há uma certa expectativa por trás disto; sentimos que tudo agora ficará bem. Então, por alguns dias, tudo vai bem. Mas, mais cedo ou mais tarde, ficamos doentes. Então, nessa hora, vocês começam a duvidar do Buddha, porque começaram com esta motivação pequena. "O Buddha é impotente porque estou começando a ficar doente? Estou tentando, tão duramente, cantar mantras e rezar, mas o meu negócio não tem sucesso." Isto é o que se questionará agora.

Então, começamos a duvidar do Buddha, do Dharma e da Sangha. Porém, esta dúvida é a falha dessa motivação insignificante. Não é a falha do Buddha. O Buddha não é um deus soberano. Não está aqui para meramente nos salvar de pequenos problemas, como falhas no negócio ou saúde ruim. É claro, o Buddha também pode nos abençoar para termos bons negócios e saúde. Porém, o presente último do Buddha é o seu ensinamento do Dharma; então, podemos obter a iluminação. Esse é todo o propósito da atividade do Buddha.

Antes de recebermos ensinamentos do Dharma, é importante verificarmos nossa motivação e perguntarmos porque estamos aqui. Estamos aqui apenas para sermos felizes, saudáveis e prósperos? Ou estamos aqui para aprendermos algo - a verdade dos ensinamentos do Buddha, que tem sido ensinada por 2.500 anos, e então aplicarmos estes ensinamentos em nossa vida cotidiana? Devemos examinar se há ou não ambas as motivações, uma dessas motivações, ou nenhuma.

Já que somos seres humanos, teremos motivações insignificantes. Ainda assim, a melhor motivação é que nós pratiquemos o Dharma de modo que a iluminação possa ser atingida. Devemos desenvolver grandemente esta motivação pela iluminação. O Buddha não pode fazer alguém ser imortal, não pode dar saúde perfeita para sempre porque, pelo contrário, tudo é impermanente. Os pais do Buddha morreram e também passaram ao parinirvana. O que o Buddha pode nos dar é o caminho do Dharma para a liberação. Então, o que é esta liberação ou iluminação? Quando os buddhistas falam sobre a iluminação, eles não querem dizer que, se alguém foi um bom menino ou menina, então ele ou ela irá para um certo lugar. Este não é o conceito buddhista de iluminação.

Em alguns dos sutras, lugares como o reino puro do Buddha Amitabha são enfatizados. Porém, estes são efetivamente ensinamentos simbólicos. Se formos capazes de seguir o Dharma corretamente, bem aqui, onde vocês estão sentados, pode ser transformado na terra pura de Amitabha. O conceito de céu em outras religiões é totalmente diferente do conceito buddhista da terra pura de Amitabha. Em outras religiões, o céu é considerado uma entidade solidamente verdadeira e externamente existente. No buddhismo, as terras puras são um conceito de percepção individual.

A iluminação não deve ser vista como algo complicado, como algo para nós alcançarmos ou irmos. Se não fosse pelos nossos padrões habituais e nossa dificuldade de entender, ou ver, a natureza verdadeira, a iluminação seria muito simples e pura para nós. A iluminação é quando vocês estão livres de toda delusão. O que, então, é esta delusão que as pessoas têm, impedindo-as da iluminação? Obviamente, há formas grosseiras de delusão, como a agressão, a paixão, a inveja e assim por diante. Mas há também há delusões sutis; os seres humanos têm idéias relacionadas à política, à economia, à filosofia, às religiões e até mesmo opiniões sobre outras pessoas.

Vocês olham para alguém e logo uma idéia desenvolve-se. Geralmente, três tipos de opinião surgem: [1] gostamos da pessoa e pensamos, "ele é bom" ou "ela é bonita"; [2] não gostamos da pessoa e pensamos, "ele é feio, ruim, terrível"; [3] vemos a pessoa como um estranho e ignoramos o indivíduo, sentindo-nos neutros em julgamento.

Sempre temos estas idéias, que muitas vezes tornam-se muito erradas. Sempre temos estas idéias, que são muito fortes. As pessoas fixam-se nestas idéias e então correm atrás delas. Por exemplo, temos esta idéia de que um BMW, um automóvel de classe, é muito especial. Na televisão, assistimos como o BMW se move. Ouvimos que ele é fabricado na Alemanha e somos bombardeados com todas estas informações. Então desenvolvemos uma idéia; este carro BMW deve ser realmente importante. Então, atravessamos dificuldades e derramamos sangue para tentarmos conseguir este famoso BMW. Por um BMW, famílias devem estar tendo brigas bem agora. Os filhos não ouvem o conselho de seus pais. Alguns até mesmo chegam ao ponde de venderem seus corpos e se tornam prostitutas para conseguir este carro.

Agora, se vocês efetivamente obtiverem um BMW no fim desta provação, então talvez tenha sido digno tentar tudo isto. Mas não pensem que isto é o fim! Depois de tê-lo, vem um outro modelo melhor que o seu. O BMW que você tem agora pode ser arranhado ou danificado. Tudo isto começou a partir de nada mais que uma idéia: de que o BMW é importante. Se não tivessem tido esta forte idéia, não teriam passado por toda esta dificuldade. E, mesmo se o carro bater, não ficarão perturbados.

Um outro exemplo, que vocês podem encontrar simplesmente indo a uma livraria. Uma vez lá, comprem uma revista de moda. Dentro, há todas estas modelos; a revista diz a vocês como parecer. Demonstra como seus olhos, pernas etc., devem parecer. Estes tipos de revista fizeram seus jovens meninos e meninas ficarem malucos. Eles tentam atingir pernas, olhos e narizes similares, de acordo com o que está nessa revista. Tristemente, isto nunca acontece. Mesmo que isto aconteça e que alguém consiga pernas ou nariz similares, ele ou ela ainda não está satisfeito. Enquanto milhões de pessoas estão morrendo porque não têm o que comer, como na Etiópia, há milhões tentando fazer dieta por causa de alguma idéia.

Também temos este problema da "idéia" em uma escala maior. Os comunistas brigam com os capitalistas, e isto é tudo por causa de uma idéia. Na vida cotidiana, um marido quer uma certa mesa e uma esposa não - por causa de uma certa idéia. Do mesmo modo, um namorado quer comer pizza, mas sua namorada não quer porque ela odeia queijo - uma outra idéia. Então, como todos nós podemos ver, quando nos fixamos nestas idéias, elas causam sofrimento.

É trabalhando para a iluminação que reduzimos esta fixação. Lentamente fazemos isto, então não teremos mais fixação. Isso é o que é a iluminação. Vocês não precisam de um terceiro olho ou de asas para voar até a iluminação. Agora, se alguém lhes der uma BMW, ela não os aborrecerá se alguém riscá-lo ou roubá-lo. Se sua esposa quiser mudar a cor do quarto, vocês não terão idéias fixas e simplesmente dirão, "Sim, vá em frente". Não têm de argumentar sobre as idéias. Isto também é o início de um bom relacionamento; não há ego e fixação sobre idéias.

Uma pessoa não atormentada por suas fixações sobre idéias está em paz, está feliz. De outro modo, vocês geralmente não gostam quando alguém contradiz suas idéias. Mas, se não tiverem essa fixação, então não cultivarão raiva diante dos outros que pensam diferentemente; qualquer coisa vai. Como devemos reduzir nosso apego ao ego e nossa fixação às idéias? Lentamente, através da prática do Dharma. O Buddha mostrou-nos mais de 84.000 modos de reduzir esta fixação. Muitos de nós apenas usamos um ou dois destes. Pensamos que simplesmente cantar mantras e acender algumas lamparinas de manteiga farão isto. Isto não é necessariamente ruim, é auspicioso. Porém, podemos fazer algo muito melhor do que isto.

Devemos meditar, isso é muito importante na prática do Dharma. Um mestre nyingmapa, Jigme Lingpa, afirmou que há muito mérito para uma pessoa que canta mantras por dez anos, vinte anos, etc. Mas, ele disse, se um praticante fizer um minuto de meditação claro, é muito melhor. Isto é porque, quando as pessoas cantam mantras, elas muitas vezes não penetram suas mentes. Penetram um pouco os lábios e uma língua, mas há muitas fendas. Suas mentes estão vagando em todo lugar, sobre que trabalho fazer e quais filmes assistir. Então, pensam que terminaram depois de dizer cem mantras. É por isto que a meditação é importante. É errado acreditar que a meditação é para nós; ela é para todos e é fácil de fazer. Não é complicado como mantras ou rituais, e é muito necessário aprender.

Um praticante deve meditar regularmente e se familiarizar com a prática. A meditação cria espaço e nos abre. É simples, mas também é o fundamento para todas as outras meditações que se pode aprender. Ela ajuda a reduzir a fixação a idéias e opiniões. Então, quando começarem, não estejam fechados ou com medo. Não é preciso investigar o que fazer, ou lembrar de uma visualização complicada. Apenas relaxem e não limitem a meditação a uma certa hora por dia. Por exemplo, às vezes limitamos a meditação à manhã ou à noite.

Devemos manter disciplina estrita e zelo quando meditamos, e praticar a qualquer hora. Concentrem-se na respiração; quando a mente vagar, apenas focalizem a respiração através do nariz. Mantenham-se lembrando a si mesmos, "Devo vigiar minha respiração", especialmente quando a mente começa vagar. Vocês todos podem se perguntar agora, "Uau, é tão simples, este método fácil pode reduzir toda fixação e eventualmente conduzir à iluminação? Realmente?" É fácil entender como isto é possível. Quando a água está cheia de barro e desejamos ter água clara, qual é o primeiro passo? Vocês a deixam sozinha. Todo o barro afundará e então a água clara ficará visível. Quanto mais agitarem a água, mais suja ela se tornará. Então, agora, a meta é a de reduzir a fixação, o desejo de reduzir a raiva, a paixão, a ignorância e assim por diante. Mas não há porque agitá-os! Então, suas mentes se tornarão agitadas novamente.

Tudo o que vocês fazem aqui é relaxar, sentar-se eretos e vigiar sua respiração. O praticante deixa tudo sozinho e se deixa acalmar. Mas é preciso meditar; de outro modo, vocês nunca vão saborear a experiência da meditação. Quando alguém quer que vocês se tornem alcoólatras, ela dirá a vocês, todo o dia, o quão bom é o álcool. Isto os inspira a beber um pouquinho; primeiro, queima sua garganta e estômago e lhes dá uma dor de cabeça. Depois de alguns dias, lentamente ficam viciado. Esta lógica funciona do mesmo modo com a prática do Dharma, algo totalmente oposto de se tornar um alcoólatra. Do mesmo modo aqui, estou louvando o quão benéfica é a meditação. Porém, se vocês não praticarem efetivamente a meditação, nunca entenderão qualquer coisa além do que digo.

Algumas pessoas terão um grande medo. Quando vocês são donas de casa ou empresários, sentem que "Eu não tenho tempo!" Isto é uma desculpa fraca. Tudo o que vocês têm de fazer é meditar por trinta segundos ou um mínimo de um minuto. Apenas se sentem em seu quarto ou sala, onde quer que seja, e observem sua respiração. É importante que os iniciantes saibam que nunca se deve fazer meditação por duas horas ou por um período longo; comecem lentamente. Primeiro, meditem por trinta segundos, então dêem uma caminhada. Meditem por outros trinta segundos, então tomem um banho. Se meditarem assim, ela gradualmente ficará mais fácil e mais longa.

Novamente, revertendo ao exemplo anterior, alguém que está apenas começando a se tornar um alcoólatra ficará doente se beber três garrafas. Nunca iria querer tocar álcool novamente. Ao invés disso, o iniciante bebe um pouquinho e lentamente aumenta. Pouco a pouco, torna-se um especialista. Este exemplo de novo se aplica diretamente à meditação. Comece com meio minuto e lentamente se torne um especialista. Como isto mudará sua vida? Antes, ficariam enraivecidos se alguém dissesse que vocês têm um nariz grande, mas não mais. Do mesmo modo, se alguém disser que vocês são bonitos, isto não os infla com orgulho ou os faz particularmente felizes. É assim que o praticante muda. Agora, é sua tarefa começar; minha tarefa de explicar está quase terminada.

Agora é importante, se realmente formos buddhistas, praticar adequadamente. Quando vamos a um templo ou visitamos um Rinpoche, não devemos ter apenas esta motivação inferior de curar problemas temporais como doenças. A raiz do problema tem de ser diminuída; de outra forma, o problema permanecerá. Então, vão à raiz, não aos galhos!

Este ensinamento é a melhor forma de bênção, porque estou dando a vocês a chave para se fazerem felizes. Então, concentrem-se e meditem. Como iniciantes, não abandonem ou se arrependam se a sua mente vagar muito. Apenas tragam sua concentração de volta. Quando meditarem, certos sinais podem aparecer depois de alguns meses. Vocês podem ter sonhos e sentimentos bons, ou sonhos e sentimentos ruins. Porém, não se preocupem ou nem mesmo falem sobre eles. Estas experiências são véus; se vocês correrem atrás delas, serão como peixes pulando fora de um oceano.

Às vezes, os praticantes acreditam que vigiar a respiração é um tipo errado de meditação, muito fácil e simples. Ou podemos ter recebido outros tipos de instrução. Por exemplo, se lhes foi ensinado a meditar enquanto se está de pé, então vocês pensarão que meditar sentado é errado.

Devemos seguir estas instruções de meditação e não ficarmos confuso. Meu próprio mestre, S.S. Dilgo Khyentse Rinpoche, enfatizou muito a meditação sentada. Para mim, isto significa muito, porque sou uma pessoa muito complicada; então, isto faz a prática muito mais fácil. A meditação sentada por soar simples, mas será e deve continuar na própria prática até a iluminação. É a base ou fundamento da meditação. As visualizações e todos os outros elementos podem ser adicionados à meditação sentada. A meditação sentada é apenas como o arroz, serve como a base. Então os legumes e o caril podem ser adicionados mais tarde.

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