do khyentse yeshe dorje · a essência mais profunda

Patrül Rinpoche foi introduzido à natureza da mente de um modo muito distinto, por um mestre excêntrico de nome Do Khyentse. Esta é a tradição oral que escutei dessa história.

Patrül Rinpoche estivera fazendo uma prática avançada de yoga e visualização, e ficara emperrado; nenhuma das mandalas das deidades aparecia com clareza na sua mente. Um dia ele se aproximou de Do Khyentse, que havia acendido uma fogueira ao relento e estava sentado diante dela, tomando chá. No Tibet, quando você vê um mestre pelo qual tem profunda devoção, tradicionalmente começa a prostrar seu corpo no chão como sinal do seu respeito.

Quando Patrül Rinpoche começou a prostrar-se, ainda à distância, Do Khyentse o reconheceu e rosnou, ameaçadoramente: "Ei, seu cão velho! Se você tem coragem, venha até aqui!"

Do Khyentse era um mestre muito impressionante. Parecia um samurai, com seus cabelos longos, suas roupas vistosas e sua paixão por montar belos cavalos. À medida que Patrül Rinpoche continuava a fazer reverências e se aproximava, Do Khyentse, praguejando o tempo todo, começou a atirar nele seixos e depois pedras maiores. Quando finalmente chegou ao seu alcance, Do Khyentse começou a socá-lo até fazê-lo desmaiar.

Quando Patrül Rinpoche voltou a si estava num estado de consciência inteiramente diferente. As mandalas que com tanto esforço tentara visualizar manifestavam-se, espontaneamente, diante dele. Cada maldição e insulto de Do Khyentse havia destruído os últimos remanescentes da mente conceitual de Patrül Rinpoche e, cada pedra que o atingiu havia aberto os centros de energia e canais sutis de seu corpo. Por duas semanas maravilhosas as visões das mandalas não o abandonaram.

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Adaptado de Sogyal Rinpoche, O livro tibetano do viver e do morrer.
Tradução de Luiz Carlos Lisboa, revisão técnica de Arnaldo Bassoli,
Lamara Bassoli e Manoel Vidal. São Paulo: Talento e Palas Athena, 1999.