dza patrül rinpoche, orgyen jigme chökyi wangpo ·
o discurso virtuoso no início, no meio e no fim

A Prática da Visão, Meditação e Ação que é o Tesouro do Coração dos Iluminados

Namo Lokeshvaraya

[1] Se uma única gota do néctar de seus nomes caísse sobre meus ouvidos,
Eles seriam preenchidos com o som do Dharma por incontáveis vidas.
Três Jóias maravilhosas, possa o brilho do seu renome
Trazer a felicidade perfeita em todos os lugares!

[2] Como alguns caquis no outono que,
Apesar de por dentro não estarem maduros, parecem estar por fora,
Eu mesmo sou apenas a aparência de um praticante do Dharma e,
Já que a minha mente e o Dharma não se misturaram, meu ensinamento não é muito avançado.

[3] Mas já que você, caro amigo, pede-me insistentemente,
Não posso recusar — falarei francamente.
Um pensamento não-usual nesta era decadente,
Ofereço a você estas palavras sem deslealdade, então ouça bem.

[4] O verdadeiro rishi, o Munindra [Buddha Shakyamuni], deus dos deuses,
Atingiu o verdadeiro nível através do verdadeiro caminho,
E verdadeiramente mostrou este verdadeiro e excelente caminho aos outros.
Não é por isso que ele é conhecido como o verdadeiro rishi?

[5] Ó pessoas nesta era de resíduos!
O saudável miolo de verdade da mente ficou murcho e as pessoas vivem fraudulentamente,
Então seus pensamentos são pervertidos, sua fala é distorcida,
Eles desviam os outros espertamente — quem pode acreditar neles?

[6] Ó, como é deprimente ver as coisas desta era degenerada!
Ó, quem pode acreditar no que qualquer um diz?
É como viver em uma terra de viciosos demônios comedores de humanos —
Pense sobre isso e estará fazendo um grande favor a si mesmo.

[7] Há não muito tempo, sua consciência estava vagando sozinha.
Levada pelo karma, ela tomou este nascimento presente.
Logo, [por causa da morte,] como um fio de cabelo tirado da manteiga,
Deixando tudo para trás, você continuará sozinho.

[8] É claro que o que queremos é o nosso próprio bem,
Então temos de ser honestos com nós mesmos —
Se não realizarmos a essência do Dharma por nós mesmos,
Não estaremos arruinando nossa própria vida?

[9] Nesta era negra, o que as pessoas pensam e fazem é vil.
Nenhuma delas o ajudará, elas vão iludi-lo e enganá-lo;
E será difícil que você seja de qualquer ajuda para elas;
Não seria melhor deixar toda essa raça de ratos?

[10] Apesar de você servir aos seus superiores, eles nunca serão agradados;
Apesar de você cuidar dos seus inferiores, eles nunca ficarão satisfeitos;
Apesar de você cuidar dos outros, eles nunca cuidarão de você.
Pense sobre isso e tome uma decisão firme.

[11] Ser instruído hoje em dia não ajuda os ensinamentos — apenas conduz a mais debates;
Ser realizado hoje em dia não ajuda os outros — apenas conduz a mais críticas;
Estar numa posição responsável hoje em dia não ajuda a governar bem o país — apenas espalha a revolta.
Pense sobre nossos tempos com tristeza e desgosto.

[12] Apesar de você explicar, as pessoas não compreendem o assunto ou não acreditam em você;
Apesar de a sua motivação ser verdadeiramente altruísta, as pessoas pensam que não é.
Hoje em dia, quando o torto vê o reto como sendo torto,
Você não pode ajudar ninguém — abandone qualquer esperança disso.

[13] "Todos os fenômenos são como ilusões mágicas", disseram os Buddhas,
Mas hoje em dia as ilusões são mais ilusórias do que nunca.
Os truques conjurados pelos ilusionistas divergentes —
Tome cuidado com as ilusões dos modos desta era degenerada.

[14] "Toda fala é como um eco", disseram os Buddhas,
Mas hoje em dia é mais como o eco de um eco.
O que os ecos dizem e o que eles significam não são o mesmo,
Então não tome qualquer notícia destas traiçoeiras palavras-eco.

[15] Quem quer que você veja não é humano, mas sim uma fraude;
O que quer que as pessoas digam não é correto, mas apenas mentiras.
Então, já que hoje em dia não há ninguém em quem se possa acreditar,
Seria melhor viver sozinho e permanecer livre.

[16] Se suas ações estiverem de acordo o Dharma, você contrariará a todos;
Se suas palavras forem verdadeiras, a maioria das pessoas ficará com raiva;
Se sua mente for verdadeiramente boa e pura, eles julgarão isso como um defeito.
Agora é a hora de manter oculto o seu jeito [de ser].

[17] Oculte seu corpo permanecendo sozinho em uma montanha silvestre;
Oculte sua fala cortando o contato e falando muito pouco;
Oculte sua mente estando continuamente consciente de suas próprias faltas apenas.
Isto é o que significa ser um yogi oculto.

[18] Desgosto, porque não há ninguém em quem acreditar;
Tristeza, porque não há significado em coisa alguma;
Determinação, porque nunca haverá tempo para conseguir tudo o que você quer;
Se você mantiver sempre estas três coisas em mente, algum proveito virá disso.

[19] Não há tempo para ficar feliz, a felicidade termina assim;
Você não quer sofrer, então erradique o sofrimento com o Dharma.
Se a felicidade ou o sofrimento vierem, reconheça-os como o poder de suas ações passadas
E de agora em diante não tenha esperanças ou dúvidas quanto a qualquer um.

[20] Esperando muito das pessoas, você dá muitos sorrisos;
Precisando de muitas coisas para si mesmo, você tem muitas necessidades a encontrar;
Planejando fazer isto primeiro, então aquilo, sua mente está cheia de esperanças e medos —
De agora em diante, venha o que vier, não seja assim.

[21] Mesmo se você morrer hoje, por que ficar triste? É o jeito do samsara.
Mesmo se você viver cem anos, por que ficar alegre? A jovialidade terá ido embora há muito tempo.
Se você viver ou morrer bem agora, o que esta vida importa?
Apenas pratique o Dharma para a próxima vida — esse é o ponto.

[22] Ah, fonte de compaixão, meu Lama-raiz, senhor Chenrezig,
Você é meu único protetor!
O mantra de seis sílabas [Om Mani Padme Hum], a essência da sua fala, é o Dharma sublime;
De agora em diante, não tenho outra esperança além de você!

[23] Tudo o que sei, eu deixei como teoria; não é de qualquer utilidade para mim agora.
Tudo o que fiz, eu gastei sobre esta vida; não é de qualquer utilidade para mim agora.
Tudo o que pensei, foi tudo apenas uma delusão; não é de qualquer utilidade para mim agora.
Agora veio a hora de fazer o que é verdadeiramente útil — recite o mantra de seis sílabas.

[24] O único refúgio constante que nunca falha são as Três Jóias;
A essência única das Três Jóias é Chenrezig;
Com confiança total e inabalável em sua sabedoria;
Convencida e decisiva, recite o mantra de seis sílabas.

[25] A base do caminho Mahayana é a bodhichitta;
Este pensamento sublime é caminho único trilhado por todos os buddhas.
Nunca abandonando este nobre caminho da bodhichitta,
Com compaixão por todos os seres, recite o mantra de seis sílabas.

[26] Vagando no samsara, deste um tempo sem início até agora,
Tudo o que você fez foi errado e o conduzirá a mais sofrimento.
De seu coração, tome consciência de todos os maus atos e falhas e, confessando-os
Com os quatro poderes completos, recite o mantra de seis sílabas.

[27] A mente, apegando-se a um "eu", apega-se a tudo — esta é a causa do samsara.
Então, como oferendas aos exaltados no nirvana e como caridade aos inferiores no samsara,
Dê tudo — corpo, posses e virtude — e dedique o mérito a todos;
Jogando fora todos os apegos, recite o mantra de seis sílabas.

[28] O nobre Lama tem a natureza de todos os buddhas e,
De todos os buddhas, é ele que é o mais bondoso.
Vendo o Lama como inseparável de Chenrezig,
Com fervorosa devoção, recite o mantra de seis sílabas.

[29] Purificando os obscurecimentos, iniciando a prática do caminho e efetivando os quatro kayas,
A essência das quatro iniciações é o mestre Chenrezig;
Se você reconhecer sua própria mente como o Lama, todas as quatro iniciações estarão completas;
Recebendo a iniciação inata por si mesmo, recite o mantra de seis sílabas.

[30] O samsara não é outro senão o modo como as coisas aparecem para você;
Se você reconhecer tudo como a divindade, o bem dos outros é consumado.
Ver a pureza de tudo confere as quatro iniciações sobre todos os seres de uma só vez;
Dragando as profundezas do samsara, recite o mantra de seis sílabas.

[31] A mente não pode lidar com todas as muitas práticas de visualização;
Meditar sobre um único sugata [buddha] é meditar sobre todos eles.
Para o quer que apareça, as aparências são a forma do grande compassivo [Chenrezig];
No reino do corpo da divindade, aparente porém vazio, recite o mantra de seis sílabas.

[32] As recitações, as sadhanas e os poderosos encantos são apenas complicações;
O mantra de seis sílabas que tudo inclui é o próprio som do Dharma.
Todos os sons nunca foram outros que a fala do sublime Chenrezig;
Reconhecendo-os como o mantra, ressonantes porém vazios, recite o mantra de seis sílabas. 

[33] Conforme os pensamentos e os dois obscurecimentos são purificados, a experiência e a realização aumentam;
Conforme suas percepções vêm sob controle, os inimigos e as influências obstrutoras são subjugados.
É Chenrezig que concede nesta mesma vida os siddhis supremos e comuns;
Como as quatro atividades são realizadas por si mesmas, recite o mantra de seis sílabas.

[34] Ofereça a torma do que quer que surja aos convidados da liberação imediata;
Molde o barro do que quer que apareça no tsa-tsa da aparência vazia;
Ofereça a prostração da não-dualidade ao senhor da natureza da mente.
Consumando estas atividades do Dharma, recite o mantra de seis sílabas.

[35] Supere seu inimigo — o ódio — com a arma do amor;
Proteja sua família — os seres dos seis reinos — com os meios hábeis da compaixão;
Colha — do campo da devoção — a colheita da experiência e da realização.
Consumindo o trabalho de sua vida, recite o mantra de seis sílabas.

[36] Creme esse velho cadáver do apego às coisas com sendo reais no fogo do não-apego;
Conduza as cerimônias funerárias semanais da vida comum praticando a essência do Dharma;
Como a oferenda de fumaça para abastecer os que partiram, dedique o seu mérito acumulado para todas as suas vidas futuras.
Consumindo todas as ações positivas feitas pelo bem dos mortos, recite o mantra de seis sílabas.

[37] Coloque sua criança — a devoção — na porta de sua prática;
Dê ao seu filho — a renúncia — a maestria sobre o lar da vida comum;
Case sua filha — a compaixão — com o noivo dos três mundos.
Consumando seu dever com a vida, recite o mantra de seis sílabas.

[38] O que quer que apareça é delusão e não tem existência verdadeira;
Samsara e nirvana são apenas pensamentos e nada mais.
Se você puder liberar os pensamentos assim que surgirem, isso inclui todos os estágios do caminho;
Aplicando a instrução essencial para liberar os pensamentos, recite o mantra de seis sílabas.

[39] Sua própria mente, inseparavelmente consciente e vazia, é o dharmakaya.
Deixe tudo como é em sua simplicidade fundamental, e a claridade surgirá por si mesma.
Apenas fazendo nada é que você fará tudo o que tem de ser feito; 
Deixando tudo na vacuidade e estado desperto nus, recite o mantra de seis sílabas.

[40] Deixe a calma cortar o momento dos pensamentos que se movem;
Dentro do movimento, veja a própria natureza da calma.
Onde a calma e o movimento são um, mantenha a mente natural;
Na experiência do um-ponto, recite o mantra de seis sílabas.

[41] Examinando a verdade relativa, estabeleça a verdade absoluta;
Dentro da verdade absoluta, veja como surge a verdade relativa.
Onde as duas verdades são inseparáveis, além do intelecto, é o estado de simplicidade;
Na visão livre de todas as elaborações, recite o mantra de seis sílabas.

[42] Corte o apego da mente às aparências;
Faça a demolição do lar das aparências fictícias da mente;
Onde a mente e as aparências são um, está a abertura infinita;
Na realização do um-sabor, recite o mantra de seis sílabas.

[43] Na natureza da mente, a simplicidade do estado desperto vazio, tudo é liberado;
Os pensamentos, a criatividade espontânea do estado desperto, são purificados em sua própria esfera;
A mente e o estado desperto são um na essência única.
Na não-meditação do dharmakaya, recite o mantra de seis sílabas.

[44] Reconhecer quaisquer formas que apareçam como a divindade é o ponto crucial do estágio de desenvolvimento;
O apego à aparência como bela ou feia é liberado em sua própria natureza.
Livre do apego, a mente como ela aparece é o corpo do supremo Chenrezig.
Na auto-liberação das experiências visuais, recite o mantra de seis sílabas.

[45] Reconhecer os sons como o mantra é o ponto crucial da prática de recitação.
O apego ao som como agradável ou desagradável é liberado em sua própria natureza;
Livre do apego, o som espontâneo do samsara e do nirvana é a voz das seis sílabas.
Na auto-liberação do som, recite o mantra de seis sílabas.

[46] Reconhecer os odores como não-nascidos é o ponto crucial do estágio de completude.
O apego ao odor como perfumado ou podre é liberado em sua própria natureza;
Livre do apego, todos os odores são a disciplina perfumada do supremo Chenrezig;
Na auto-manifestação do odor, recite o mantra de seis sílabas.

[47] Reconhecer os sabores como um festim sacramental [tsog] é o ponto crucial da oferenda.
O apego ao sabor como delicioso ou desgostoso é liberado em sua própria natureza;
Livre do apego, a comida e a bebida são substâncias para deleitar o supremo Chenrezig;
Na auto-liberação do sabor, recite o mantra de seis sílabas.

[48] Reconhecer as sensações como a igualdade essencial é o ponto crucial do sabor igual.
Os sentimentos de repleção e de fome, de calor e de frio, são liberados em sua própria natureza;
Livre do apego, todas as sensações e sentimentos são a atividade da divindade;
Na auto-liberação da sensação, recite o mantra de seis sílabas.

[49] Reconhecer todos os fenômenos como vazios é o ponto crucial da visão;
A crença no verdadeiro ou falso é liberada em sua própria natureza.
Livre do apego, tudo o que há — tudo do samsara e do nirvana — é o continuum do dharmakaya.
Na auto-liberação dos pensamentos, recite o mantra de seis sílabas.

[50] Não persiga o objeto do ódio; olhe para a mente raivosa.
A raiva — liberada por si mesma assim que surgir — é o vazio claro;
O vazio claro não é outro senão a sabedoria que é como um espelho.
Na auto-liberação do ódio, recite o mantra de seis sílabas.

[51] Não corra atrás do objeto do orgulho; olhe para a mente que se apega.
A auto-importância — liberada por si mesma assim que surgir — é a vacuidade primordial.
Esta vacuidade primordial não é outra que a sabedoria da igualdade essencial.
Na auto-liberação do orgulho, recite o mantra de seis sílabas.

[52] Não anseie pelo objeto de desejo; olhe para a mente apegada.
O desejo — liberado por si mesmo assim que surgir — é o êxtase-vazio.
Este vazio-êxtase não é outro senão a sabedoria que tudo discrimina.
Na auto-liberação do desejo, recite o mantra de seis sílabas.

[53] Não persiga o objeto da inveja; olhe para a mente crítica.
A inveja — liberada por si mesma assim que surgir — é o intelecto vazio;
Este intelecto vazio não é outro senão a sabedoria que tudo realiza.
Na auto-liberação da inveja, recite o mantra de seis sílabas.

[54] Não considere apenas as idéias forjadas pela ignorância;
As hostes de pensamentos — liberados por si mesmos assim que surgirem — são o estado desperto-vazio.
Esta estado desperto-vazio não é outro senão a sabedoria da expansão absoluta.
Na auto-liberação da ignorância, recite o mantra de seis sílabas.

[55] A forma é não-nascida, primordialmente vazia, como o céu;
A quintessência deste estado desperto-vazio é Chenrezig —
Não é outro senão o Sublime Rei do Céu [P'hagpa Namkhe Gyalpo].
Na visão da vacuidade, recite o mantra de seis sílabas.

[56] A sensação é o laço que liga a mente com o objeto;
Quando você a conhece como a igualdade não-dual, isso é Chenrezig —
Não é outro senão o Sublime Laço Generoso [P'hagpa Dönyön Shagpa].
Na realização do mesmo sabor, recite o mantra de seis sílabas.

[57] A percepção, se você continuar considerando-a válida, é uma delusão;
Quando você se volta a todos os seres com compaixão, isso é Chenrezig —
Não é outro senão o Sublime Que Draga as Profundezas do Samsara [P'hagchog Khorwa Dongtrug].
Na compaixão sem inclinações, recite o mantra de seis sílabas.

[58] A vontade, como ações samsáricas, mantém você circulando nos seis reinos;
Se você realizar o samsara e o nirvana como o mesmo, isso é Chenrezig —
Não é outro senão o Transformador dos Seres Grandemente Compassivo [Drodül Thugje Chenpo].
Agindo pelos outros no sabor único, recite o mantra de seis sílabas.

[59] A consciência, a expressão da mente ordinária, tem oito funções;
Se você realizar a mente última como sendo o dharmakaya, isso é Chenrezig —
Não é outro senão o Sublime Oceano de Conquistadores [P'hachog Gyalwe Gyatso];
Sabendo que sua própria mente é o Buddha, recite o mantra de seis sílabas.

[60] Acreditar que o corpo é sólido é o que causa a servidão;
Se você reconhecê-lo como a divindade, aparente porém vazio, isso é Chenrezig —
Não é outro senão o Sublime Khasarpani.
No reconhecimento do corpo da divindade, aparente porém vazio, recite o mantra de seis sílabas.

[61] Conceitualizar a fala e o som é o que causa a delusão;
Se você reconhecê-los como o mantra, ressonante porém vazio, isso é Chenrezig —
Não é outro senão o Sublime Rugido do Leão [P'hagchog Senge Drashe].
No reconhecimento do som como o mantra, recite o mantra de seis sílabas.

[62] O apego às percepções da mente como verdadeiras é a delusão que causa o samsara;
Se você deixar a mente em seu estado natural, livre de pensamentos, isso é Chenrezig —
Não é outro senão o Sublime Desembaraçado na Mente Última [P'hagchog Semnyid Ngalso].
Na mente última, o dharmakaya, recite o mantra de seis sílabas.

[63] Tudo o que existe é o continuum primordialmente puro do dharmakaya;
Se você encontrar o dharmakaya face a face, isso é Chenrezig —
Não é outro senão o Sublime Soberano do Universo [P'hagchog Jigten Wangchug].
No continuum da pureza que tudo permeia, recite o mantra de seis sílabas.

[64] Uma divindade, Chenrezig, corporifica todos os buddhas;
Um mantra, as seis sílabas, corporifica todos os mantras;
Um Dharma, a bodhichitta, corporifica todas as práticas dos estágios de desenvolvimento e completude.
Conhecendo-se o um que libera todos, recite o mantra de seis sílabas.

[65] Qual é a utilidade de tudo o que você fez? Estar tão ocupado apenas cria o samsara —
Veja o quão insignificante foi tudo o que você fez.
Agora seria melhor apenas tentar parar de fazer qualquer coisa;
Deixando todas as atividades, recite o mantra de seis sílabas.

[66] Qual a utilidade de tudo o que você disse? Foi apenas uma conversa infantil e sem objetivo —
Veja quanta distração irrelevante ela trouxe.
Agora seria melhor apenas se manter em silêncio;
Parando completamente de falar, recite o mantra de seis sílabas.

[67] Qual a utilidade de correr por aí? Ir e vir apenas o cansa —
Veja o quão longe do Dharma a sua vagueação o levou.
Agora seria melhor apenas se sentar e relaxar sua mente;
Permanecendo despreocupado e em bem-estar, recite o mantra de seis sílabas.

[68] Qual a utilidade de tudo que você comeu? Tudo isso apenas se transformou em excremento —
Veja quão insaciável tem sido o seu apetite.
Agora seria melhor se alimentar com a comida do samadhi;
Deixe todo esse comer e beber e recite o mantra de seis sílabas.

[69] De que utilidade são todos os seus pensamentos? Eles apenas trouxeram mais delusão —
Veja quão poucas de suas metas você planejou atingir.
Agora, para as preocupações desta vida, seria melhor não pensar muito adiante;
Deixando todos os seus planos, recite o mantra de seis sílabas.

[70] Qual a utilidade de tudo o que você possui? A propriedade é apenas apego —
Veja em quão breve você deixará para trás tudo o que obteve.
Agora seria melhor colocar um fim ao seu apego possessivo;
Parando de adquirir e acumular coisas, recite o mantra de seis sílabas.

[71] Qual a utilidade de todo o tempo que você dormiu? Foi tudo gasto apenas em um estupor —
Veja quão facilmente a sua vida está correndo na indolência.
Agora seria melhor começar a se esforçar com todo o coração;
Dia e noite, rejeitando toda distração, recite o mantra de seis sílabas.

[72] Não há tempo, não há tempo! Não há tempo para descansar!
Quando a morte chegar sobre você subitamente, o que você fará?
Agora seria melhor começar a praticar do Dharma sublime, neste exato momento;
Agora, rápido, depressa — recite o mantra de seis sílabas.

[73] O que você pode dizer sobre os anos, meses ou dias —
Veja como as coisas mudam a cada momento, bem agora!
Cada momento que passa o leva para mais perto da morte;
Agora, neste exato momento, recite o mantra de seis sílabas.

[74] Conforme sua vida corre, como o sol se pondo,
A morte chega como as sombras relampejantes da noite.
Agora, o que sobra de sua vida desaparecerá tão rápido quanto as últimas sombras desvanescentes;
Não há tempo para se desperdiçar — recite o mantra de seis sílabas.

[75] O mantra de seis sílabas, apesar de ser o Dharma perfeito,
É recitado infrutiferamente enquanto se está conversando e olhando por aí;
E se apegar ao número recitado é esquecer completamente o objetivo.
Observando a mente sem distração, recite o mantra de seis sílabas.

[76] Se você verificar a mente de novo e de novo,
Tudo o que você faz torna-se o caminho perfeito.
De todas as centenas de instruções vitais, esta é a quintessência;
Funda tudo neste ponto único e recite o mantra de seis sílabas.

[77] A primeira parte, minha triste tirada dos modos desta era decadente,
Foi uma reprovação que intentei para mim.
Este triste lamento me afetou profundamente;
Agora a ofereço a você, pensando que possa sentir o mesmo.

[78] Se este não for o caso e você tiver total confiança na imponência de sua visão e meditação,
Se você tiver idéias sábias sobre como combinar o mundano e o espiritual
E a habilidade diplomática de resolver os problemas para a satisfação de todos —
Se você tiver tudo isso, então ofereço minhas apologias.

[79] A segunda parte, minha dissertação estabelecendo a visão e a meditação —
Já que é claro que eu não tenho qualquer experiência de realização —
Apenas demonstra o que entendi pela graça dos ensinamentos
Da preciosa linhagem do pai e filho que tudo conhecem.

[80] A terceira parte, minha exortação para abandonar tudo e praticar,
Apenas escapou por si mesma, apesar de você poder não compreender bem o assunto.
Porém, já que ela não contradiz de qualquer modo as palavras dos buddhas e bodhisattvas,
Seria verdadeiramente bom se você a colocasse em prática.

[81] Este discurso, virtuoso no início, no meio e no fim,
Foi escrito na caverna do siddha no Pico da Vitória da Rocha Branca
Para um velho amigo cujos pedidos não podiam mais ser ignorados,
Pelo velho esfarrapado companheiro Apu Hralpo [Patrül Rinpoche], inflamado com os cinco venenos.

[82] Estive apenas falando e falando infantilmente, mas e daí?
Meu tema é de grande valor e seu significado é sem erro; então o mérito que ele traz
Eu ofereço a você e a todos nós através dos três mundos —
Possam se tornar verdadeiros todos os desejos que fizermos inspirados pelos ensinamentos!

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Adaptado de Patrul Rinpoche, The Heart Treasure of the Enlightened Ones.
Comentários de Dilgo Khyentse Rinpoche. Boston: Shambhala, 1992. Pág. 169-211.