dilgo khyentse tashi paljor, pema drubwang dongag lingpa · a prática de chenrezig

A iniciação

Antes de começar a praticar o caminho Vajrayana, você precisa receber uma iniciação, ou autorização, que lhe dá a permissão para receber os ensinamentos Vajrayana e praticá-los, e que garante que o seu entendimento da prática amadurecerá apropriadamente até que você possa colher o fruto. Praticar o Vajrayana sem ter recebido uma iniciação seria como tentar tirar óleo de pedras.

Purificando os obscurecimentos, iniciando a prática do caminho e atualizando os quatro kayas,
A essência das quatro iniciações é o mestre Chenrezig;
Se você reconhecer sua própria mente como o lama, todas as quatro iniciações estarão completas;
Recebendo a iniciação inata por si  mesmo, recite o mantra de seis sílabas.

[Versos do Discurso Virtuoso no Início, no Meio e no Fim, de Patrül Rinpoche]

Antes de despejar em um recipiente algum líquido muito precioso, primeiro você certamente procurará ter certeza de que ele foi completamente lavado. Do mesmo modo, para garantir que você é um receptáculo adequado para os ensinamentos preciosos, antes de recebê-los é importante ficar limpo através do recebimento de uma iniciação.

A iniciação (em tibetano wang e em sânscrito abhisheka) o autoriza a ouvir, estudar e praticar os ensinamentos do Vajrayana. Especificamente, ela confere permissão para praticar os vários estágios do caminho: o estágio de desenvolvimento, no qual você visualiza as divindades e recita mantras; o estágio de completude, no qual você pratica as yogas interiores; e o Mahamudra e o Dzogchen, no qual você encontra a natureza absoluta do estado desperto.

Apesar de haver muitos níveis de iniciação, a base de todos eles são as quatro iniciações fundamentais, correspondentes aos quatro obscurecimentos a seres purificados, aos quatro processos através dos quais a purificação acontece, e aos quatro aspectos da realização com resultado.

A iniciação do vaso purifica o corpo; a iniciação secreta purifica a fala; a iniciação da sabedoria purifica a mente; a e iniciação simbólica purifica as máculas sutis do corpo, da fala e da mente juntos. Estas quatro iniciações são recebidas respectivamente do corpo, da fala, da mente e da indestrutível sabedoria adamantina do lama, aqui na forma de Chenrezig. O fruto destas quatro iniciações é a atualização dos quatro kayas.

Através da iniciação, você realizará a natureza verdadeira de todos os fenômenos como sendo a pureza primordial. Por que nós e todos os seres temos sido atormentados até agora por todas as incontáveis formas de sofrimento dos seis reinos do samsara? É simplesmente porque falhamos em perceber tudo como primordialmente puro. A pureza primordial realmente é o estado verdadeiro dos fenômenos, e as nossas usuais percepções impuras são completamente falsas, delusões sem o menor grão da verdade — como confundir um pedaço de corda com uma cobra ou pensar que uma miragem é realmente o vislumbre de água na distância.

Então a função das quatro iniciações é fazê-lo ficar consciente da pureza natural de tudo. Através da bênção do corpo de Chenrezig, você perceberá o universo inteiro como a terra pura de Chenrezig, a montanha Potala. Através da bênção da fala de Chenrezig, você perceberá todos os sons no universo — os sons da água, do fogo, do vento, os sons dos animais, as vozes humanas — como a reverberação do mani. Através da bênção da mente de Chenrezig, você experienciará todos os pensamentos como a exibição do estado desperto. Através da bênção conjunta do corpo, da fala e da mente de Chenrezig , você realizará que na realidade o corpo, a fala e a mente não são três entidade separadas, mas sim a própria única natureza de Chenrezig, a vacuidade e compaixão inseparáveis.

Tendo primeiro recebido uma iniciação de um lama qualificado, você mesmo deve então reativar a iniciação de novo e de novo, a cada vez aprofundando o seu entendimento, reacendendo as bênçãos do lama e reparando quaisquer quebras de samaya que possam ter ocorrido. Para reativar a iniciação do vaso, visualize Chenrezig claramente como o senhor-que-tudo-permeia das mandalas infinitas e reze a ele com fé ansiosa. Para reativar a iniciação secreta, recite o mani com fervorosa devoção. Para reativar a iniciação da sabedoria, invoque com sua devoção as bênçãos da compaixão perfeita e não-conceitual de Chenrezig, na forma de raios de luz que emanam do coração dele e se dissolvem em seu coração. Para reativar a iniciação simbólica, reze a Chenrezig com um respeito imenso e cordial, invocando sua sabedoria adamantina que, na forma de raios de luz de cinco cores, dissolve-se pelo seu corpo. Deste modo, conforme você recebe as quatro iniciações, os quatro obscurecimentos são completamente purificados e os quatro kayas são atualizados.

A iniciação também pode ser considerada de acordo com a base, o caminho e o resultado. O tathagatagarbha, a natureza búddhica, tem sempre estado presente dentro de você: isto em si é a iniciação da base. Quando, no momento da iniciação, a natureza búddhica inerente é apontada diretamente pelo lama e subseqüentemente realizada de maneira gradual pelo discípulo, esta é a iniciação do caminho. Os métodos para este processo gradual incluem a visualização de mandalas e de divindades, a recitação de mantras e assim por diante; nesta prática específica você visualiza Chenrezig sobre sua cabeça, recita o mantra de seis sílabas e, de novo e de novo, recebe dele as quatro iniciações. A iniciação do caminho conduz à iniciação do resultado, que é simplesmente a realização completa de sua natureza búddhica inerente.

As bênçãos das quatro iniciações e o seu poder de purificar os obscurecimentos devem ser mantidas e aumentadas pelas práticas correspondentes aos quatro caminhos. Estes são os tópicos dos versos restantes desta seção.

A percepção pura

O samsara não é outro que o modo como as coisas aparecem para você;
Se você reconhecer tudo como a divindade, o bem dos outros é consumado.
Ver a pureza de tudo confere as quatro iniciações sobre todos os seres de uma vez;
Dragando as profundezas do samsara, recite o mantra de seis sílabas.

Para os seres de faculdades medianas, o caminho é a renúncia perfeita. Para os grandes seres, o caminho é a compaixão perfeita. Para os seres das mais elevadas faculdades, o caminho é a percepção da perfeita pureza primordial. É com esta percepção pura do Vajrayana que estamos interessados aqui.

O quê, então, significa percepção pura? O modo pelo qual geralmente experienciamos o mundo externo, nossos corpos e nossos sentimentos, é impuro no sentido de que os percebemos como sendo comuns, entidades substancialmente existentes. Desta percepção errônea vêm as emoções negativas que perpetuam o sofrimento. Porém, olhe todas estas aparências mais de perto; você descobrirá que elas não têm existência verdadeira. De um ponto de vista relativo, elas aparecem como um resultado de várias causas e condições, como uma miragem ou um sonho, mas na realidade nada que surge de causas e condições tem qualquer existência verdadeira. De fato, não há qualquer coisa que sequer apareça. Como é dito, "aquele que realiza a vacuidade é o verdadeiro sábio".

Se você continuar investigando, descobrirá que nada há em qualquer lugar, nem mesmo um único átomo, que tenha uma existência verificável. Agora, ver as coisas de outro modo, como verdadeiramente existentes, é a percepção deludida que contorna o samsara — mas até mesmo essa percepção deludida em si nunca realmente deixou o reino da vacuidade. A ignorância, portanto, não é mais que um véu transiente, vazio de existência intrínseca. Quando você reconhece isto, não há percepção impura; há apenas a exibição ilimitada do corpo, da fala, da mente e da sabedoria do Buddha. Então não há mais necessidade de tentar se livrar dos três mundos do samsara ou de suprimir o sofrimento, porque nem o samsara nem o sofrimento realmente existiram. Uma vez que você realize que o samsara é tão vazio quanto uma miragem, todos os padrões kármicos e emoções negativas que estão em sua raiz são cortados.

A vacuidade, porém, não é apenas um nada ou um espaço vazio, pois como o Prajnaparamita diz, "Forma é vacuidade, vacuidade é forma". Então a vacuidade é inseparável da exibição dos kayas e das sabedorias. Neste sentido, todas as aparências são o corpo de Chenrezig, todos os sons são o seu mantra e todos os pensamentos são a unidade êxtase-vazio da compaixão e da  vacuidade. Quando você realizar esta verdadeira vacuidade dos fenômenos, sentirá espontaneamente uma compaixão não-conceitual que tudo abraça, por todos os seres que estão imersos no oceano de sofrimento do samsara por causa do apego à noção de um ego.

Este ego problemático que é tão preocupado com si mesmo em realidade nunca começou a existir, não existe em qualquer lugar agora e então não pode deixar de existir. Nem o menor rastro dele pode ser encontrado. Quando você realiza a natureza vazia, portanto, desaparece qualquer noção de existir um ego a se dissolver, e ao mesmo tempo alvorece a energia de levar o bem aos outros, espontaneamente e sem esforço. Aqui você verá o rosto verdadeiro de Chenrezig, a vacuidade e a compaixão unidas. E aqui começam os dez estágios sucessivos dos bodhisattvas, que são capazes de estender um único instante em uma época inteira e de condensar uma época inteira em um único instante. Eles estão preenchidos com a espontânea compaixão não-conceitual e tudo o que fazem, mesmo um simples gesto de suas mãos, traz benefício aos seres. Eles nunca são enganados pelas aparências, assim como um mágico nunca é enganado pelas seus próprios truques, porque sabem que as aparências não têm existência verdadeira e sabem que falhar em conhecer esse fato é uma delusão. Trabalhando sem cansaço pelo benefício de todas as criaturas vivas, eles drenam as próprias profundezas do samsara.

Rezando fervorosamente a Chenrezig, visualize infinitos raios de luz emanando de seu corpo, eliminando o sofrimento e o obscurecimento de todos os seres vivos e conferindo sobre eles as quatro iniciações. Todos os seres masculinos tornam-se Chenrezig, todos os femininos tornam-se Arya Tara e todo o universo torna-se a sua terra pura. Praticar deste modo traz benefício a todo os seres.

Todos os fenômenos do samsara e do nirvana são projeções de sua mente. Então, Chenrezig também é. Para fundir todas as práticas em uma, permaneça no estado onde a vacuidade e as aparências são uma única essência, e recite o mani.


O estágio de desenvolvimento

O caminho do mantra secreto é dividido nos estágios de desenvolvimento e completude. O estágio de desenvolvimento inclui as yogas dos aspectos de sabedoria do corpo, da fala e da mente — o corpo-vajra, a fala-vajra e a mente-vajra; seu objetivo é o realizar a pureza primordial de todos os fenômenos. O estágio de completude conduz à realização não-conceitual da natureza da mente.

O corpo-vajra

A mente não pode lidar com todas as muitas práticas de visualização;
Meditar sobre um único sugata é meditar sobre todos eles.
Para o quer que apareça, as aparências são a forma do grande compassivo;
No reino do corpo da divindade, aparente porém vazio, recite o mantra de seis sílabas.

A prática central do estágio de desenvolvimento é visualizar a si mesmo e a todos os outros seres como divindades, e o universo como uma mandala ou um campo búddhico. As pessoas de hoje, com seu intelecto limitado, tempo de vida curto e diligência fraca, achariam difícil ter maestria sobre todas as elaboradas visualizações encontradas nos tantras. Porém, tentar todas estas práticas complexas é desnecessário pois, tendo maestria completa sobre uma prática focalizada sobre um único buddha, você pode descobrir a sabedoria e a compaixão de todos eles.

Para a prática presente, você pode tanto se visualizar como Chenrezig ou visualizá-lo acima de sua cabeça, pensando que ele não é diferente de seu lama-raiz, o lama pelo qual você sente a maior devoção. Ele é branco em cor — o branco ofuscante de um pico de neve refletindo cem mil sóis, eliminando a escuridão de todo o universo. Ele tem uma cabeça, simbolizando a unidade da natureza absoluta; quatro braços, simbolizando a bondade amorosa, compaixão, regozijo e equanimidade; duas pernas cruzadas na postura vajra, simbolizando a igualdade do samsara e do nirvana; ele está sentado sobre um lótus de mil pétalas, simbolizando a compaixão, e sobre um disco de lua, simbolizando a vacuidade.

Duas mãos estão juntas em seu coração e seguram uma jóia que representa a bodhichitta, a jóia realizadora de desejos que concede os siddhis supremos e comuns. Do outro par de mãos, uma segura um rosário de cristal à sua direita e a outra um lótus branco à sua esquerda; o rosário simboliza sua compaixão incessante que se estende como um fio inquebrável através do coração de cada ser, e o lótus simboliza a pureza imutável de sua sabedoria desabrochando sobre o lodo do samsara. A jóia também simboliza a sabedoria-êxtase como a realização. Seu belo corpo, tendo todas as marcas maiores e menores de um buddha, é vestido com as jóias e sedas do sambhogakaya.

O objetivo das práticas de visualização do estágio de desenvolvimento, tais como esta, é o de desenvolver a percepção pura — isto é, ver a si mesmo e a todos os seres como divindades de sabedoria e o seu ambiente como um campo búddhico, ouvir todos os sons como mantras e entender todos os pensamentos como a exibição do estado desperto. Esta percepção pura não é alguma idéia artificial de pureza que você tenta sobrepor ao samsara; ao invés disso, é o reconhecimento de que todos os fenômenos são verdadeira e inerentemente puros. Isto é realizado através de várias técnicas de meditação que são gradualmente aperfeiçoadas. No começo você pode não ser capaz de visualizar Chenrezig muito claramente, como um todo, então comece visualizando o rosto: o preto e o branco dos dois olhos fitando compassivamente todos os seres, as sobrancelhas perfeitamente arqueadas, a curva do e o sorriso radiante. Então vagarosamente estenda a visualização à cabeça inteira — a forma perfeita e os ornamentos, a coroa e os brincos dourados. Gradualmente, mova-se para baixo para visualizar o resto do corpo e os vários ornamentos, os três colares, a pele de antílope sobre o ombro esquerdo e cobrindo o peito esquerdo, os braceletes e tornozeletes de jóias, os cachecóis coloridos de seda, o xale branco bordado a ouro e o traje inferior de cinco cores. Visualizando deste modo cada detalhe, lentamente, um por um, você gradualmente será capaz de manter a visualização total.

Então, em cada poro do corpo de Chenrezig, visualize um campo búddhico e, em cada um destes bilhões de campos búddhicos, visualize um Buddha girando a roda do Dharma para o seu séqüito de shravakas, pratyekabuddhas e bodhisattvas. O ensinamento do Buddha sobre a visão, a meditação e a ação do Mahayana é baseado sobre o Dharma sublime do mantra de seis sílabas, e a sua habilidade de ensinar é tal que durante eras eles podem expor o significado de até mesmo uma única sílaba, como do Om por exemplo, sem nem mesmo exaurir o assunto. Nada nestes campos búddhicos é impuro. Não há ódio de inimigos ou apego aos amigos. Todos os seres masculinos são Chenrezig e todos os seres femininos são Arya Tara. Todos estes campos búddhicos são a exibição da rede mágica de emanações de Chenrezig, a expressão da vacuidade e da compaixão inseparáveis.

Assim como você visualiza o seu corpo como o corpo-vajra de Chenrezig, você também tem de ver todo o ambiente exterior como transformado na terra pura de Chenrezig, a montanha Potala no Paraíso Feliz de Sukhavati, ornada com maravilhas tais como o vale de jóias, o rio de néctar e a árvore que realiza desejos; as nuvens de oferendas preenchem o céu, o mantra Om Mani Pad Me Hum ressoa em todo lugar e "sofrimento" é uma palavra que nunca é nem mesmo ouvida.

Quando visualizar o corpo-vajra da divindade, você não deve pensar sobre ele como sendo algo sólido, feito de carne, ossos e sangue, mas sim como um arco-íris, brilhante, colorido e claro, porém sem qualquer substância. Este é o aspecto vazio da natureza de Chenrezig, que não tem constituintes impuros ou sólidos; Chenrezig é completamente imaculado pelos cinco agregados, que juntos são o que dão surgimento à idéia de um ego.

No começo, porém, por mais diligentemente que tente, você poderá achar difícil ter maestria sobre todos os detalhes da visualização. Se esse for o caso, simplesmente desenvolva uma convicção clara de que você mesmo é Chenrezig — não como o resultado de alguma fabricação mental, mas sim inerentemente assim. Se você visualizar Chenrezig acima de sua cabeça, simplesmente esteja confiante de que ele está lá e esteja claramente consciente de sua presença. Conforme o tempo passa, por focalizar sobre cada detalhe de novo e de novo, você gradualmente se tornará familiar com a visualização até que ela se torne bem natural, assim como todos os detalhes de um lugar onde você viveu por muito tempo aparecem imediatamente em sua mente.

Quando a visualização de Chenrezig tornar-se clara e estável, visualize raios de luz irradiando-se de seu corpo em cada uma das dez direções, fazendo oferendas a todos os buddhas e bodhisattvas nos imensuráveis campos búddhicos. Estes raios de luz retornam, carregando as bênçãos de todos os iluminados, e se dissolvem de volta em Chenrezig, que se torna ainda mais brilhante e resplandecente. Mais uma vez, ele emana raios de luz, que desta vez alcançam todos os seres, eliminando o seu sofrimento, estabelecendo-os na sabedoria do grande êxtase, transformando-os em bodhisattvas masculinos e femininos e transformando todo o universo em um campo búddhico perfeito.

Enquanto você está meditando sobre Chenrezig, os pensamentos comuns terão uma parada e a mente se assentará em tranqüilidade. Se você olhar então para a natureza da mente, começará a ficar claro que a divindade é essencialmente una com a vacuidade. Este entendimento então se expandirá na para a realização de que todas as aparências são vazias em natureza e, portanto, que são perfeitamente puras. Manter esta realização em todos os momentos é conhecido como o estágio de desenvolvimento da pureza infinita.

A fala-vajra

As recitações, as sadhanas e os poderosos encantos são apenas complicações;
O mantra de seis sílabas que tudo inclui é o próprio som do Dharma.
Todos os sons nunca foram outros que a fala do sublime Chenrezig;
Reconhecendo-os como o mantra, ressonantes porém vazios, recite o mantra de seis sílabas.

Um dos elementos principais na prática Vajrayana é o mantra. Os mantras são fórmulas em sânscrito que, no reino do som, têm uma importância equivalente à das divindades visualizadas no reino da forma. Os mantras são de muitos tipos diferentes, incluindo os mantras do estado desperto, os mantras secretos e os dharanis; há também os mantras de aproximação, os mantras de atingimento e os mantras para realizar as quatro atividades.

Não há qualquer mantra, porém, que possa ser considerado superior ao mani, que inclui não apenas as funções mas também o poder e as bênçãos de todos os outros mantras. Os instruídos sábios do passado, como o grande Karma Chagme por exemplo, foram incapazes de encontrar em qualquer lugar das escrituras um mantra mais benéfico, mais quintessencial ou mais fácil de se praticar do que o mani; então foi este mantra que eles tomaram como sua prática principal. Apenas ouvir o mani pode ser suficiente para liberar seres do samsara. Por exemplo, uma história diz que uma vez havia quinhentas minhocas lutando pela existência em um buraco sujo e terrível. Chenrezig, sentido compaixão pelo seu sofrimento, tomou a forma de uma abelha dourada e voou sobre o buraco, zunindo o mani. As minhocas, ouvindo o som das seis sílabas, foram completamente liberados de seus sofrimentos e renasceram em um reino celestial.

O mani não é apenas uma seqüência de palavras comuns. Ele contém as bênçãos e a compaixão de Chenrezig; de fato, é o próprio Chenrezig na forma de som. Como estamos agora, nossos obscurecimentos kármicos nos impedem de sermos capazes de realmente encontrar Chenrezig em seu campo búddhico; mas o que podemos fazer agora é ouvir o seu mantra, recitá-lo, lê-lo e escrevê-lo belamente em letras douradas. Já que não há diferença entre a divindade e o mantra que é a sua essência, estas atividades trazem grande benefício. As seis sílabas são a expressão das seis perfeições de Chenrezig, e ele mesmo disse que quem quer recite o mantra de seis sílabas aperfeiçoará as seis perfeições e purificará todos os obscurecimentos kármicos.

A fim de praticar a recitação deste mantra, primeiro visualize Chenrezig como descrito acima, tão clara e vivamente quanto possível. No coração de Chenrezig, visualize um lótus de seis pétalas, sobre o qual está um disco de lua cheia. No centro do disco lunar está a sílaba Hrih cercada pelas seis sílabas Om Ma Ni Pad Me Hum dispostas no sentido horário em círculo, como um colar de pérolas, irradiando raios de luz que levam oferendas ao Paraíso Feliz de Sukhavati, à Terra ao Paraíso Bonito De Se Observar e aos outros infinitos campos búddhicos. Cada raio de luz leva uma multitude de oferendas, como os oito símbolos auspiciosos, as oito substâncias preciosas, os sete emblemas da realeza, árvores que realizam desejos e vasos preciosos, e fazem grandes nuvens de oferendas aos buddhas e bodhisattvas de cada campo búddhico, preenchendo todo o céu. Por aceitar as suas oferendas, os buddhas ajudam-no a acumular mérito e sabedoria.

Todos estes raios de luz então retornam, trazendo na forma de um néctar precioso as bênçãos do corpo, da fala e da mente de todos os buddhas, junto com a sua sabedoria, poder e amor, e se dissolvem no mantra do coração de Chenrezig. Chenrezig torna-se ainda mais brilhante e resplandecente, como o ouro banhado em água de açafrão.

Novamente, ilimitados raios de luz emanam do círculo de mantra, desta vez dissipando o sofrimento de todos os seres sencientes dos seis reinos; o calor secante e o frio reprimente dos infernos; a fome e a sede insaciáveis dos espíritos torturados; a estupidez, a escravidão e o abuso cruéis do reino animal; os sofrimentos humanos da velhice, da doença e da morte; a inveja e a hostilidade dos semideuses; e a angústia experienciada pelos deuses quando finalmente, de seus excelentes mundos de prazer e absorção, eles caem de cabeça nas profundezas dos reinos inferiores. Toda esta miséria é dissipada pela luz radiante que flui do mantra, assim como o sol da manhã derrete o gelo sobre uma campina do inferno. Todos os seres são transformados em Chenrezig; primeiro o seu ambiente imediato e então todo o universo tornam-se o paraíso da montanha Potala.

Quando o bem-estar de todos os seres for atingido deste modo, junte e absorva os raios de luz de volta em você, Chenrezig. Cada poro de seu corpo contém uma infinidade de campos búddhicos e cada um dos quais ressoa o mantra de seis sílabas. Sua vibração preenche todo o espaço, como o zunido de um milhão de abelhas saindo de uma colméia que foi quebrada. O som do mantra dissipa a ignorância e subjuga todas as forças negativas. Ele desperta os shravakas de sua absorção meditativa e os traz ao caminho Mahayana; ele faz oferendas aos bodhisattvas, exortando-os a continuar a trabalhar pelo benefício dos seres; e ele ordena os protetores do Dharma a salvaguardar os ensinamentos e a aumentar a felicidade e prosperidade de todos.

Os sons do vento e dos rios que correm, o estalido do fogo, o som dos animais, as canções dos pássaros, as vozes humanas — todos os sons do universo — são a vibração do mantra de seis sílabas, o som auto-surgido do Dharma, sonoro porém vazio, a ressonância do dharmakaya não-nascido. Através da recitação, praticando a yoga da fala-vajra, você sem atingirá esforço as realizações comuns e supremas.

A mente-vajra

Conforme os pensamentos e os dois obscurecimentos são purificados, a experiência e a realização aumentam;
Conforme suas percepções vêm sob controle, os inimigos e as influências obstrutoras são subjugados.
É Chenrezig que concede nesta mesma vida os siddhis supremos e comuns;
Como as quatro atividades são realizadas por si mesmas, recite o mantra de seis sílabas.

Não há entidades, de qualquer tipo, que existam verdadeira e permanentemente. Todos os fenômenos tanto do samsara quanto do nirvana — mesmo as aparências vistas como a divindade e os sons ouvidos como o mantra — são projeções da mente. Se você procurar pela natureza desta mente, você descobrirá que, como é dito no Prajnaparamita:

A mente —
A mente não existe,
Sua expressão é a claridade.

O que normalmente chamados "a mente" é a mente deludida, uma vórtice turbulento de pensamentos chicoteados pelo apego, pelo ódio e pela ignorância. Esta mente, diferentemente do estado desperto iluminado, está sempre sendo levada por uma delusão atrás da outra. Os pensamentos de ódio ou de apego surgem subitamente, sem avisar, engatilhados por circunstâncias como um encontro inesperado como um inimigo ou um amigo, e a menos que sejam imediatamente superados com o antídoto adequado, eles rapidamente se enraízam e proliferam, reforçando a predominância habitual do ódio ou apego na mente, e adicionando mais e mais padrões kármicos.

Porém, por mais fortes que estes pensamentos possam parecer, eles são apenas pensamentos e eventualmente se dissolverão na vacuidade. Uma vez que você reconheça a natureza intrínseca da mente, estes pensamentos que parecem surgir e desaparecer todo o tempo não poderão mais enganá-lo. Assim como as nuvens se formam, duram por um certo tempo e se dissolvem de volta no céu vazio, do mesmo modo os pensamentos deludidos surgem, permanecem por um tempo e então desaparecem na vacuidade da mente; na realidade, nada nem mesmo aconteceu.

Quando a luz do sol cai sobre um cristal, surgem luzes de todas as cores do arco-íris; porém eles não têm qualquer substância que você possa agarrar. Do mesmo modo, todos os pensamentos em sua infinita variedade — devoção, compaixão, maldade, desejo — são completamente sem substância. Esta é a mente de Chenrezig. Não há pensamento que seja outro que a vacuidade; se você reconhecer a natureza vazia dos pensamentos no mesmo momento em que surgirem, eles se dissolverão. O apego e o ódio nunca serão capazes de perturbar a mente. As emoções deludidas desmoronarão por si mesmas. Nenhuma ação negativa será acumulada, então nenhum sofrimento se seguirá. Esta é a acumulação da pacificação, a primeira das quatro atividades.

Se você praticar as yogas do corpo, da fala e da mente sem cair como presa dos pensamentos, neste ponto a compaixão de Chenrezig e a sua própria natureza búddhica inata começarão a se encontrar e a se dissolver uma na outra. As experiências meditativas aumentarão, junto com a devoção e a compaixão, assim como os raios do sol aumentam em poder quando focalizados através de uma lente de aumento. Esta é a culminação do incremento ou enriquecimento, a segunda atividade iluminada.

Uma vez que você veja que todos os fenômenos, tanto do samsara quanto do nirvana, são apenas fabricações da mente, e que a natureza da mente é vazia, então transmutar a percepção impura em percepção pura não será um problema — todos os fenômenos serão simplesmente revelados como primordialmente puros. Esta realização traz, em geral, o controle ilimitado sobre todos os fenômenos e, em particular, os dez poderes dos seres supremos — poder sobre a matéria, poder sobre a vida, poder sobre o karma e assim por diante. É dito que "tendo maestria a própria percepção, pode-se ter maestria sobre todos os fenômenos." Uma vez que você esteja livre do poder dos pensamentos deludidos, você será capaz de transformar os elementos à vontade e de ter maestria sobre o inexaurível tesouro do céu. Durante uma terrível carestia na Índia, o grande mestre Nagarjuna transmutou ferro em ouro, com o qual foi capaz não apenas de sustentar toda a sangha durante a carestia mas também de construir muitos templos novos. Todos os milagres com os quais os oitenta e quatro mahasiddhas demonstraram seu poder sobre as aparências foram possíveis por sua realização da vacuidade e por sua liberdade em relação à delusão. Finalmente vem a maestria da iluminação em si — a culminação do poder, a terceira atividade.

Uma vez que a mente deludida tenha sido subjugada, não há qualquer lugar deixado como  abrigo de espíritos prejudiciais ou de forças negativas; e uma vez que o seu ser esteja permeado pela bodhichitta, o que você pode ter percebido anteriormente como forças más e obstrutivas você então verá como manifestações do seu lama, através das quais poderá fortalecer sua bondade amorosa e compaixão. Deste modo, o sofrimento se desvanece e você usa as forças negativas, os obstáculos e as dificuldades para fazer progresso em sua prática. Esta é a culminação da subjugação, a quarta atividade.

Através da prática do estágio de desenvolvimento — visualizar Chenrezig e recitar o seu mantra — você reconhece a sua sabedoria. Desta faísca de reconhecimento, a sabedoria cresce como um fogo que se espalha por uma floresta seca. Esta é a essência do estágio de completude. Através desta prática, a mente é domada e as quatro atividades são realizadas de acordo com si mesmas. Os obscurecimentos e os maus atos, as doenças e os sofrimentos, são pacificados; o tempo de vida, o mérito, a prosperidade e a sabedoria aumentam; as pessoas, os pensamentos e as energias internas são trazidas sob o seu poder sem esforço; e todas as forças negativas, os inimigos, os obstáculos e os demônios internos — as emoções — são subjugados.

A pós-meditação

A fim de experienciar completamente o significado profundo do Vajrayana, é importante manter a prática todos as horas, não apenas durante as sessões de meditação propriamente ditas. A prática das sessões de meditação e a prática para os períodos entre essas sessões podem ser consideradas separadamente. O objetivo da prática de meditação em si, como vimos, é o de obter estabilidade na percepção de todas as aparências como a forma da divindade, de todos os sons como o seu mantra e de todos os pensamentos como o dharmakaya, assim reconhecendo a natureza absoluta da mente, vazia e luminosa. Agora, em períodos entre as sessões de meditação, no que quer que esteja fazendo você deve manter este reconhecimento sem recair nos hábitos comuns, para que você possa desenvolver o entendimento adquirido durante a meditação. Deste modo todas as suas atividades estarão ligadas com a visão, meditação e ação do Vajrayana.

Ofereça a torma do que quer que surja aos convidados da liberação imediata;
Molde o barro do que quer que apareça na tsa-tsa da aparência vazia;
Ofereça a prostração da não-dualidade ao senhor da natureza da mente.
Consumando estas atividades do Dharma, recite o mantra de seis sílabas.

Entre os períodos de meditação, tenha certeza de que tudo o que você faz está em harmonia com o Dharma. Isto ajudará a aprofundar o seu entendimento da visão. Se, assim que terminar de meditar e começar a fazer alguma outra coisa, você apenas deixar seus pensamentos se proliferarem até ser completamente levado pela delusão, a sua meditação não fará progresso e você se encontrará brigando constantemente contra todos os tipos de obstáculos — estagnação pesada ou estados mentais selvagens e frenéticos, por exemplo. Então, quando quer que tenha tempo livre, faça prostrações, circule ao redor de lugares sagrados, faça oferendas de torma ou molde tsa-tsas; resumindo, faça apenas o que é verdadeiramente significativo.

Oferendas cerimoniais de torma são oferecidas aos quatro tipos de recipientes, geralmente conhecidos como os convidados: aqueles dignos de respeito, as Três Jóias e os protetores do Dharma; e aqueles que precisam de sua compaixão, todos os seres sencientes e os espíritos obstrutores com quem você tem débitos kármicos. Há também instruções sobre a oferenda de tormas de água. A torma oferecida às Três Jóias realiza as duas acumulações; oferecida aos protetores do Dharma, ela os agrada e os ordena a agir; oferecida a todos os seres, ela os alivia de seus vários sofrimentos e conforta os espíritos torturados pela fome e pela sede; e oferecida aos nossos credores kármicos, ela recompensa os débitos que contraímos em todas as nossas vidas passadas, livrando-nos das doenças, das más influências e de obstáculos de todos os tipos.

Uma tsa-tsa é uma pequena stupa geralmente moldada com barro e que simboliza o aspecto absoluto da mente do buddha, o dharmakaya. O grande pandita Atisha costumava fazer três tsa-tsas todo dia com suas próprias mãos e considerava isto uma atividade muito benéfica. Se você não tem tempo de fazer tsa-tsas de barro, há instruções sobre como os fazer usando os quatro elementos — terra, água, fogo e ar. Oferecer tsa-tsas é um outro modo de realizar as duas acumulações.

Se não puder fazer oferendas materiais, você pode oferecer mentalmente toda a beleza do universo, o sol e a lua, as flores, os perfumes, as canções dos pássaros; e ao invés de oferecer uma torma material, realizando sua mente como Chenrezig, visualize o seu corpo como puro néctar de sabedoria e o ofereça às quatro classes de convidados mencionados acima.

Não importa se Chenrezig é a divindade a quem você faz oferendas, se é o tópico de sua meditação ou o foco de suas prostrações e devoção; um benefício imensurável resultará disso. Porém, como vimos antes, todos os fenômenos são projeções da mente; a pessoa que faz oferendas, a divindade a quem as oferendas são feitas e as oferendas em si não existem de qualquer modo como realidades concretas. Então, quando um grande bodhisattva pratica a generosidade e as outras perfeições, ele sabe que todas estas atividades não são mais reais que uma ilusão mágica ou um sonho. Ele faz vastas oferendas e acumula um mérito infinito, mas todo o tempo ele permanece completamente livre do apego, do orgulho e da condescendência.

Supere seu inimigo, o ódio, com a arma do amor;
Proteja sua família, os seres dos seis reinos, com os meios hábeis da compaixão;
Colha, do campo da devoção, a colheita da experiência e da realização.
Consumindo o trabalho de sua vida, recite o mantra de seis sílabas.

De acordo com os valores comuns, superar seus inimigos, proteger sua família e ficar rico e próspero são o que constituem uma vida satisfatória e bem levada. Mas como buddhistas, devemos tentar superar nossa agressão ao invés de nossos inimigos, tomar cuidado de nossa própria experiência ao invés de nossa própria família, e investir mais no amor e na bondade ao invés de na prosperidade material.

Diz-se que não há mal maior que o ódio e que não há virtude maior que a paciência. Enquanto um único momento de raiva destrói incontáveis éons de mérito e conduz a um sofrimento inimaginável nos reinos dos infernos, a paciência diante daqueles que fazem mal a você e o desejo sincero de lhes trazer felicidade o conduzirá rapidamente sobre o caminho tomado por todos os buddhas.

Não há modo melhor de lidar com os inimigos que sentir grande amor por eles, realizar que em vidas anteriores eles foram seus amáveis pais. Não há modo melhor de nutrir sua família e de cuidar dos outros que a nossa prática de Dharma e que dedicar a todos os seres o mérito assim obtido. Não há colheita melhor ou mais generosa que aquela que você plantou no solo de sua fé e se esforçar de modo que ela amadureça na riqueza do mérito e da sabedoria.

"O mal é subjugado apenas pela compaixão", diz o ditado. Então, em face a todos os problemas deste mundo, recite o mani, rezando para que todos os seres humanos e não-humanos — que, oprimidos pelo ódio, querem apenas causar mal, matar e destruir — possam ser tocados pela compaixão e dar nascimento ao pensamento sublime da iluminação.

O poder de o amor conquistar a agressão é ilustrado pelo encontro do Senhor Buddha com Mara. Na véspera de sua iluminação, quando o Buddha sentou-se sob a árvore bodhi em Vajrasana, o trono de diamante da Índia, as hostes de demônios dos exércitos de Mara cercaram-no como uma grande nuvem negra. Enfurecendo-se com malícia e inveja, eles gritaram insultos e atiram armas, mas o Buddha permaneceu sereno e cheio de tanta bondade amorosa e compaixão que os insultos se transformaram em belas melodias e seus mísseis viciosos tornaram-se uma chuva de flores. Com a arma da bondade amorosa, você sempre será capaz de derrotar a malevolência, e ter de encarar a hostilidade e a agressão apenas fortalecerá a sua bodhichitta.

Ter um bom coração significa estar pensando continuamente sobre o quão maravilhoso seria se as pessoas pudessem estar livres de seu sofrimento e desfrutando felicidade. Também significa desenvolver tanto as palavras quanto as ações para tentar realmente fazer isso acontecer. Uma vez, quando o glorioso Senhor Atisha estava sofrendo de uma dolorosa aflição de uma de suas mãos, ele a colocou sobre o colo de Dromtönpa dizendo, "Por favor abençoe minha mão — você tem um coração muito bom e isso em si é suficiente para aliviar a dor."

Há inumeráveis seres vagando no samsara, completamente perdidos e todos em necessidade desesperada de sua ajuda. Já que todos eles foram nossos pais amorosos uma vez ou outra no passado, você precisa ajudá-los. Mas como? Mesmo que você pudesse suprir todos eles com dinheiro e conforto, isso traria apenas um incompleto e curto repouso de seu sofrimento. Reflita profundamente: de todos os modos possíveis de ajudá-los, não poderia haver um presente mais benéfico que o presente do Dharma, pois isso é algo que não apenas os ajudará nesta vida mas também irá libertá-los de renascimentos futuros nos reinos inferiores e finalmente irá conduzi-los à iluminação.

Quanto maior for o número de seres que você incluir em suas intenções, maior será o mérito. Se, em tudo o que fizer, você aspirar a realizar o bem-estar presente e a felicidade absoluta de todos os seres, seguindo o exemplo de Chenrezig, então isso poderá verdadeiramente ser chamado de "consumar o trabalho de sua vida".

Creme esse velho cadáver do apego às coisas com sendo reais no fogo do não-apego;
Conduza as cerimônias funerárias semanais da vida comum praticando a essência do Dharma;
Como a oferenda de fumaça para abastecer os que partiram, dedique o seu mérito acumulado para todas as suas vidas futuras.
Consumindo todas as ações positivas feitas pelo bem dos mortos, recite o mantra de seis sílabas.

No Tibet, quando alguém morre, é costumeiro cremar o corpo e realizar cerimônias a cada semana durante sete semanas, fazendo oferendas para o falecido. Como um praticante de Dharma, porém, a coisa mais benéfica que você pode fazer quando alguém morre é meditar sobre o significado essencial do Dharma e dedicar o mérito à pessoa morta.

O significado essencial, o próprio coração do Dharma, é a não-existência de um eu em algo. A árvore do samsara está enraizada na crença de que há um eu, no apego às coisas como sendo reais, no apego ao eu; uma vez que este apego seja consumido pelo fogo da sabedoria, toda a árvore e todos os seus galhos de delusão, luxuriantes com a folhagem do apego e do ódio, estão fadados a serem queimados também.

Sem este entendimento, realizar cerimônias apenas por dinheiro ou exibição servirá apenas para atrasar a sua prática e poderá eventualmente se tornar um obstáculo sério. Realizando que a riqueza e a influência são essencialmente metas vazias, mantenha um modo de vida perfeito, devotado inteiramente à prática. Não tenha mais apego a esta vida do que a um cadáver. A vida é precária, uma bolha que pode estourar a qualquer momento — não há como ter certeza do que virá primeiro, o amanhã ou a morte. De fato, a cada vez que você respira, realmente não uma certeza de que você inspirará de novo.

Assim como as cerimônias para os mortos são observadas regularmente a cada semana durante o período funerário, há duas práticas que devem ser observadas regularmente a cada manhã e noite de sua vida. A cada manhã, gere bodhichitta e reze para que durante o dia você nunca se esqueça de pensar no bem-estar dos outros. A cada noite, lembre-se de tudo o que você pensou e fez durante o dia e determine o quão foi motivado pela compaixão e o quão foi motivado pelo egoísmo; é importante olhar para as suas atividades e intenções mais sutis antes de decidir o que deve e o que não deve ser feito. Não pense que qualquer pequeno ato é insignificante apenas porque é muito pequeno, pois a menor ação negativa pode desencadear uma série devastadora de conseqüências, do mesmo modo que uma única pequena faísca pode por fogo e um floresta inteira. Opostamente, assim como uma pequena goteira de água rapidamente preenche um grande jarro, quando uma pequena ação positiva é adicionada a muitas outras, o efeito acumulado logo se torna substancial. Conscientizando-se de suas falhas deste modo e se arrependendo delas sinceramente, decida eliminar de agora em diante os pensamentos e atos negativos; e ao mesmo tempo dedique o mérito de suas ações positivas a todos os seres, resolvendo desenvolver mais e mais compaixão. Através deste processo de estado desperto constante e de avaliação crítica de suas ações, elas gradualmente se tornarão mais e mais positivas.

Um grande sábio do passado, Drakhen, sentindo-se determinado a se livrar de todos os seus defeitos, tomou o hábito de colocar de lado um seixo preto para cada pensamento negativo que tinha durante o dia e um branco para cada pensamento sadio. No fim do dia ele contava quantos seixos pretos e quantos brancos tinha juntado. No começo, os seixos do dia eram todos pretos; mas depois de um tempo, através da vigilância constante, ele começou a terminar cada dia com pilhas iguais de branco e preto. Finalmente, quanto ele tinha treinado completamente a sua mente, havia apenas seixos brancos. Como ele, você deve perseverar até não haver nem uma única ação que seja contrária aos ensinamentos. Nunca esqueça que se purificar deste modo é importante para manter a intenção de ajudar todos os seres.

Se persistirmos o suficiente, podemos aprender a fazer tudo. Um homem rico veio ver o Senhor Buddha, sofrendo de tal avareza que ele era incapaz de dar até mesmo a menor coisa. Para acostumá-lo à generosidade, o Buddha ensinou-o a considerar sua mão direita como ele mesmo e sua mão esquerda como alguma outra pessoa, e a pensar que ele estava dando presentes enquanto passava pequenos objetos de uma mão para outra. Quando o avarento tinha vagarosamente se acostumado à idéia de dar deste modo, o Senhor Buddha pediu a ele que desse pequenos presentes, como uma fruta, um grão e coisas assim, à sua esposa e aos seus filhos. Então o Buddha pediu a ele para fazer caridade, primeiro aos seus vizinhos mais pobres e então aos outros mais distantes. Eventualmente, ele se tornou capaz de dar toda a sua riqueza, roupas e comida aos pobres de toda a província, e nesse ponto o Buddha disse que ele tinha atingido a verdadeira generosidade.

O mesmo tipo de treinamento pode ser aplicado para desenvolver ou eliminar qualquer tipo de pensamento positivo ou negativo. A devoção, por exemplo, pode ser cultivada deste modo até que, com a sua mente cheia apenas de pensamentos de seu lama, você espontaneamente sinta que o que quer que aconteça com você está completamente em sua mãos. Mesmo na lembrança da sua presença de seu lama — de sua voz, de seus gestos —, os seus olhos se enchem de lágrimas. Quando esta verdadeira devoção surgir, olhe para ela e reconheça a primordial natureza da mente, vazia de forma e de características.

Coloque sua criança, a devoção, na porta de sua prática;
Dê ao seu filho, a renúncia, a maestria sobre o lar da vida comum;
Case sua filha, a compaixão, com o noivo dos três mundos.
Consumando seu dever com vida, recite o mantra de seis sílabas.

As pessoas comuns tentam fazer seus filhos crescerem o melhor que puderem. Procuram bons casamentos para eles, transferem-nos sua riqueza e propriedade familiar, mostram-lhes como cuidar de seus parentes e amigos e como superar os adversários, assim como seus ancestrais fizeram durante gerações. Mas o sucesso que esses pais sempre desejam para os seus filhos é apenas temporário e definitivamente provará ser prejudicial. Como um praticante do Dharma, o que você deve aspirar é que, ao invés disso, a criança de sua devoção inabalável nasça em seu coração e administre com sucesso o lar de sua prática.

O medo de que seus lares possam ser infecundos e que suas linhas familiares se extingam motivam as pessoas a ter filhos e a casá-los o quanto antes. Como um praticante do Dharma,  o medo de que a sua prática morra e de que sua vida seja gasta é que deve motivá-lo a dar nascimento ao filho da renúncia em sua mente, de modo que ele assuma a autoridade sobre o lar de sua vida mundana. A renúncia nasce quando você sabe que definitivamente não há satisfação na vida samsárica. Já que as alegrias comuns são como sonhos de curta duração, não há razão para desejar o sucesso ou temer a falha. Se acontecer de você ficar rico, não há razão para se sentir apegado ou orgulhoso; simplesmente use sua riqueza positiva e significativamente. Qualquer poder que você obtenha, use-o para servir as Três Jóias e aos grandes lamas, e qualquer terra que você tenha, faça-a disponível pelo benefício da sangha; resumindo, para o que quer que você adquira, use-o para preservar o Dharma e para beneficiar os outros. Usada deste modo, sua riqueza e influência — que são como um sonho — trarão a você mais e mais mérito — que é como um sonho —, o que por sua vez o levará mais e mais próximo do limiar da iluminação — que é como um sonho.

Os pais normalmente querem garantir que a sua filha se case com alguém de boa família, com riqueza e status. Do mesmo modo, cheio de grande amor e ternura pelos seres sencientes, você deve casar a sua filha dos méritos acumulados, sem hesitação, com o noivo do bem-estar dos outros. Se você tiver a preciosa atitude da bodhichitta, você pode ajudar a conduzir apenas uma vida verdadeiramente significativa; então reforce todas as suas ações com a compaixão, purifique as suas máculas, dedique o seu mérito a todos os seres e recite o mantra de seis sílabas.


O estágio de completude

A natureza da mente

O que quer que apareça é delusão e não tem existência verdadeira;
Samsara e nirvana são apenas pensamentos e nada mais.
Se você puder liberar os pensamentos assim que surgirem, isso inclui todos os estágios do caminho;
Aplicando a instrução essencial para liberar os pensamentos, recite o mantra de seis sílabas.

Viemos agora aos ensinamentos sobre algumas práticas pertencentes à Grande Perfeição: a prática do estágio de completude, além de qualquer conceitualização.

O Samadhi-raja Sutra diz, "Devemos entender que, no solo não-nascido, nenhuma das muitas coisas que percebemos — nossos corpos, casas, carroças e assim por diante — têm qualquer existência verdadeira". Se você examinar qualquer coisa de perto, não será capaz de encontrar qualquer ponto em que ela tenha vindo a ser, qualquer ponto em que continue a existir ou qualquer ponto em que deixe de ser. É apenas por causa da conjunção transiente de um conjunto de causas e condições que um fenômeno específico surge, assim como a combinação dos raios do sol com a chuva de verão produz um arco-íris. Se você puder desenvolver a certeza completa de que toda esta exibição incessante das aparências ilusórias é vazia em natureza, isso em si mesmo é o estágio último de completude.

Nós, seres comuns, estamos convencidos de que todos os fenômenos do samsara quanto do nirvana primeiro vêm a ser, então existem de algum modo durante algum tempo e eventualmente deixam de existir. Mas se conduzirmos uma investigação completa das coisas usando a lógica do Madhyamika, falhamos em encontrar até mesmo a menor partícula de existência em qualquer um destes fenômenos. Uma vez entendido isso, é fácil deixarmos o samsara ir e nos tornarmos livres da atração ao nirvana, pois ambos não são mais que projeções da mente dualista. Vistas com os olhos de um buddha, até mesmo a acumulação de mérito e a prática das perfeições são vazias de qualquer realidade intrínseca.

Por mais que possamos preferir que as coisas são permanentes, elas não são. A felicidade de ontem transforma-se na tristeza de hoje, as lágrimas de hoje no riso de amanhã. Conforme suas diferentes causas e condições tomam efeito, as emoções, as ações boas e más, a felicidade e o sofrimento, tudo parece tomar forma. Porém um ser iluminado, olhando para o mundo da ilusão que parece tão real para nós, o vê como não mais substancial que uma miragem ou um reino conquistado no sonho da última noite. É porque acreditamos tão fortemente na existência verdadeira e tangível do mundo material que nós sentimos  atração e aversão tão fortes às coisas. Sem esta crença, nossas mentes não estariam sujeitas a todas as delusões e não haveria samsara.

A mente comum é tão caprichosa quanto um macaco agitado, que fica instantaneamente feliz assim que lhe damos um bocado de comida e que fica subitamente furioso no momento em que levantamos um bastão para ele. A cada instante, a mente se move para algo novo. Em um momento podemos estar pensando no lama com grande devoção, e no seguinte estamos ansiando por algum objeto desejado. Estes seqüências de pensamento e estados mentais estão mudando constantemente, como as formas de nuvens no vento, mas ainda assim damos grande importância a eles. Um velho homem observando crianças brincando sabe muito bem que o que quer que aconteça não é tão importante e não se sente nem alegre nem desconcertado com o que acontece no jogo deles. As crianças, porém, levam o jogo muito a  sério. Como eles, quando quer que experienciemos sofrimento, ao invés de vê-lo como o resultado de nossas ações negativas passadas e de transformá-lo em uma oportunidade para tomar o sofrimento dos outros sobre nós mesmos, nos sentimos desconcertados e deprimidos. Dizemos a nós mesmos que, como alguém que fez muita prática, não merecemos realmente  essa miséria e começamos a sentir dúvida sobre as bênçãos de nosso professor e das Três Jóias. Essa atitude pode apenas amplificar nossas dificuldades.

A mente é o que cria tanto o samsara quanto o nirvana. Porém não há muito para ela — ela é apenas pensamentos. Uma vez que você reconheça os pensamentos como vazios, a mente não terá mais poder para enganá-lo. Mas quanto mais você tomar seus pensamentos deludidos como reais, eles continuarão a atormentá-lo sem misericórdia, assim como têm feito por incontáveis vidas passadas. Para obter controle sobre a mente, você precisa estar consciente do que fazer e do que evitar, e você também precisa estar muito alerta e vigilante, examinando constantemente seus pensamentos, palavras e ações.

A mente habita o corpo como um visitante em uma casa. Para o que quer que corpo encontre, é a mente que o vê, ouve, cheira, degusta ou sente. Uma vez que a mente tenha ido, o corpo é apenas um cadáver. Não importa se o que é colocado em frente dele é bonito ou feio. Não importa se ele é louvado ou insultado. Ele não sente prazer quando é enrolado em brocado nem dor quando é queimado. Por si mesmo, o corpo é um objeto não essencialmente diferente de um monte de terra ou pedra. E quando o corpo e a mente se separam, a fala, que tinha estado em algum lugar no meio deles, desaparece também, como um eco que desaparece. Do corpo, fala e mente, é a mente que conta, e é à mente que o Dharma deve ser aplicado.

Quando você reconhece a natureza vazia da mente, o apego desaparece e você não é mais levado pelos seus pensamentos deludidos. Quando um bodhisattva ajuda os outros, ele não tem a idéia de obter algo em troca de ser louvado por sua generosidade; ele não tem qualquer apego à sua virtude. Este é o Chenrezig absoluto, compaixão e vacuidade em si mesmos.

Sua própria mente, inseparavelmente consciente e vazia, é o dharmakaya.
Deixe tudo como é em sua simplicidade fundamental, e a claridade surgirá por si mesma.
Apenas fazendo nada é que você fará tudo o que tem de ser feito; 
Deixando tudo na vacuidade e estado desperto nus, recite o mantra de seis sílabas.

Não é bom procurar em qualquer lugar fora de você pela natureza última da mente — ela está no interior. Quando falamos da "mente", é importante saber se estamos falando da mente comum, referindo-se aos inumeráveis elos de pensamentos que criam e mantém nosso estado de delusão, ou, como aqui, se estamos falando da natureza da mente na fonte de todos esses pensamentos — o estado claro e vazio do estado desperto completamente livre de delusão.

Para ilustrar este distinção, o Senhor Buddha ensinou que há dois modos de se meditar — como um cachorro e com um leão. Se você jogar um bastão em um cachorro, ele perseguirá o bastão; mas se você jogar um bastão em um leão, ele perseguirá você. Você pode jogar tantos bastões quanto quiser em um cachorro, mas apenas um no leão. Quando você está completamente embarrado com pensamentos, perseguir um de cada vez com seu antídoto é uma tarefa interminável. Isso é como o cachorro. É melhor, como o leão, procurar a fonte desses pensamentos, o estado desperto vazio, sobre cuja superfície os pensamentos se movem como as ondas na superfície de um lago, mas cuja profundeza é o estado imutável de completa simplicidade. Descansando na continuidade não-ondulante desse estado, recite o mantra de seis sílabas.

As quatro yogas

O caminho buddhista pode ser descrito compreensivelmente de acordo com dois sistemas: o veículo da causa e o veículo do resultado. Enquanto o primeiro veículo, que inclui tanto o Hinayana quanto o Mahayana geral, fala de cinco caminhos, o segundo fala de quatro yogas: um-ponto, simplicidade, um-sabor e não-meditação. O ensinamento das quatro yogas foca a união dos estágios de desenvolvimento e completude.

Um-ponto

Deixe a calma cortar o momento dos pensamentos que se movem;
Dentro do movimento, veja a própria natureza da calma.
Onde a calma e o movimento são um, mantenha a mente natural;
Na experiência do um-ponto, recite o mantra de seis sílabas.

A mente tem, em geral, dois aspectos, a calma e o movimento. Às vezes, a mente é quieta e livre de pensamentos, como um lago calmo; esta é a calma. Eventualmente, os pensamentos são fadados a surgir nela; este é o movimento. Na verdade, porém, apesar de em um sentido haver um movimento de pensamentos dentro da calma, realmente não há diferença entre estes dois estados — assim como a natureza da calma é a vacuidade, a natureza do movimento também é a vacuidade. A calma e o movimento são simplesmente dois nomes para a mente única.

Na maior parte do tempo estamos inconscientes de nosso estado de mente e não prestamos atenção se a mente está calma ou em movimento. Enquanto você estiver meditando, um pensamento pode surgir em sua mente — a idéia de ir fazer compras, por exemplo. Se você está consciente do pensamento e apenas deixá-lo se dissolver por si mesmo, então esse é o fim dele. Mas se você permanecer inconsciente do que está acontecendo e deixar esse pensamento crescer e se desenvolver, ele conduzirá a um segundo pensamento, o pensamento de ter um intervalo em sua prática, e logo você vai realmente se encontrar levantando e indo ao mercado. Então, muitos pensamentos e idéias surgirão — como você vai comprar isso, vender aquilo e assim por diante. Neste ponto você está bem longe da recitação do mani.

É completamente natural que os pensamentos continuem surgindo. O ponto não é tentar pará-los, o que seria impossível, mas sim liberá-los. Isto é feito ao se permanecer em um estado de simplicidade, que deixa os pensamentos surgirem e desaparecerem sem quaisquer outros pensamentos se enfileirarem sobre eles. Quando você não perpetua mais o movimento de pensamentos, eles se dissolvem por si mesmos sem deixar qualquer rastro. Quando você não mais arruína o estado de calma com as fabricações mentais, você pode manter a serenidade natural da mente sem qualquer esforço. Às vezes, deixe seus pensamentos fluírem e assista a natureza imutável atrás deles. Às vezes, cortando abruptamente o fluxo de pensamentos, olhe para o estado desperto nu.

Inumeráveis pensamentos e memórias, incitados pelas tendências às quais nos tornamos habituados, surgem na mente. Um após o outro, cada pensamento parece desaparecer no passado apenas para ser substituído pelo próximo, que por sua vez, torna-se passageiramente presente para a mente antes de ele mesmo dar espaço para pensamentos futuros. Cada pensamento tende a retomar o momento do pensamento anterior, de modo que a influência de um colar de pensamentos cresce conforme o tempo passa; isto é chamado "a corrente de delusão". Assim como o que chamamos de rosário é, de fato, um colar de contas únicas, então também o que chamamos de mente é realmente uma sucessão de pensamentos momentâneos; uma goteira de pensamentos cria o fluxo da consciência, o fluxo mental, e o fluxo mental conduz ao oceano da existência. Nossa crença de que a mente é uma entidade real é um conclusão baseada em uma investigação insuficiente. Acreditamos que um rio que vemos hoje é o mesmo rio que vimos ontem, mas na realidade um rio nunca permanece o mesmo nem mesmo por um segundo — a água que fez o rio de ontem certamente faz parte do oceano agora. O mesmo é verdade para os incontáveis pensamentos que correm pela nossa "mente" desde a manhã até a noite. Nosso fluxo mental é apenas uma sucessão de pensamentos instantâneos; não há uma entidade separada que você possa apontar como sendo uma mente.

Agora, se investigarmos o processo de pensamento de acordo com a lógica do Madhyamika, torna-se evidente que os pensamentos passados já estão mortos, como um cadáver. Os pensamentos futuros ainda não nasceram. Quando aos pensamentos presentes, eles não podem ser ditos como tento quaisquer propriedades como localização, cor ou forma; eles não deixam rastros; e realmente eles não são encontrados em qualquer lugar. De fato, não poderia haver um possível ponto de contato entre pensamentos passados, presentes e futuros; se houvesse qualquer continuidade real entre, por exemplo, um pensamento passado e um pensamento presente, isso necessariamente significaria que o pensamento passado é presente ou que o pensamento presente é passado. Se o passado realmente pudesse se estender ao presente deste modo, o futuro já estaria presente também. Mas ainda assim, ignorantes da verdadeira natureza dos pensamentos, nós mantemos o hábito de vê-los como sendo continuamente ligados, um depois do outro; esta é a raiz da delusão e é isto que permite que sejamos mais e mais dominados pelos nossos pensamentos e emoções, até por reinos de confusão total.

É de importância vital estar consciente do surgimento de pensamentos e de acalmar as ondas de pensamentos que o atacam. A raiva, por exemplo, é uma tendência extremamente destrutiva que arruína todas as boas qualidades que você possa ter. Ninguém gosta da companhia de uma pessoa raivosa. Não há qualquer coisa inerentemente amedrontadora sobre a aparência das cobras, mas como elas são geralmente muito agressivas, a simplesmente vê-las inspira medo e repugnância. Tanto em um humano quanto em uma cobra, essa preponderância da raiva nada mais é que o resultado de uma acumulação descontrolada de pensamentos negativos. Se, no exato momento em que um pensamento de raiva surgir, você reconhecê-lo pelo que ele é, e entender o quão negativo ele é, sua raiva se acalmará por si mesma e você sempre será capaz de permanecer em boas condições com todos. Por outro lado, se você deixar este primeiro pensamento de raiva dar surgimento a um segundo pensamento de raiva, logo a sua raiva estará completamente fora de controle e você estará pronto até mesmo para arriscar sua vida a fim de destruir seu adversário.

Sempre se lembre, portanto, de que um pensamento é simplesmente a experiência de muitos fatores e de circunstâncias passageiras que vêem juntas. Tanto o pensamento bom quanto o ruim não têm existência verdadeira. Assim que um pensamento surgir, se você reconhecer sua natureza vazia, ele será impotente para produzir um segundo pensamento, e a corrente de delusão cessará imediatamente. Como dissemos, isto não significa que você deva tentar suprimir a criatividade natural de sua mente, ou que você deva tentar parar cada pensamento com um antídoto específico. É suficiente simplesmente reconhecer a vacuidade dos pensamentos e deixá-los então descansar na mente relaxada. A natureza inata da mente, prístina e imutável, então permanecerá vívida e estável.

Dos dois aspectos da prática de meditação, a tranqüilidade e o insight, a tranqüilidade provém o fundamente sobre o qual o insight, ou vasta perspectiva, pode abrir a natureza da mente e assim permitir que você libere suas emoções negativas. Se o fundamento, a tranqüilidade, é insalubre, o insight também será instável e seus pensamentos deludidos serão difíceis de controlar. É portanto essencial desenvolver a yoga do um-ponto, permanecendo no estado desperto não-oscilante.

Simplicidade

Examinando a verdade relativa, estabeleça a verdade absoluta;
Dentro da verdade absoluta, veja como surge a verdade relativa.
Onde as duas verdades são inseparáveis, além do intelecto, é o estado de simplicidade;
Na visão livre de todas as elaborações, recite o mantra de seis sílabas.

Na verdade convencional, relativa, podemos aceitar que o mundo fenomenal pode ser quebrado em partículas indivisíveis; mas a lógica do Madhyamika mostra que essas partículas nunca poderiam ter qualquer existência independente ou permanente. Sendo assim, como podemos dizer que os objetos materiais existem verdadeiramente? Do mesmo modo, apesar de podermos tentar dissecar a mente em instantes indivisíveis de consciência, descobriremos que estes, também, devem ser absolutamente vazios de qualquer existência tangível.

Reconhecer a continuidade e a penetração completa desta natureza vazia, esta ausência de qualquer existência verdadeira, é reconhecer a verdade absoluta. Este é o estado natural da mente, intocada por qualquer obscurecimento, no qual todos os fenômenos são vistos como os buddhas os vêem, como sonhos ou ilusões mágicas. Aqui, os pensamentos não dão surgimento a emoções negativas ou à acumulação de karma, as circunstâncias não engendram nem orgulho nem apego, e as circunstâncias adversas são rapidamente transformadas no caminho da iluminação — por exemplo, um encontro com alguém que o irrita, ao invés de causar raiva, ajuda a gerar compaixão e se torna uma oportunidade para reconhecer a verdade absoluta que é inseparável da bodhichitta. Se você é incapaz de abandonar seu apego às coisas, é simplesmente porque você falha em reconhecer sua natureza vazia. Uma vez que você tenha realizado esta natureza vazia, você não mais se sentirá orgulhoso do sucesso que é como um sonho, ou deprimido pela falha que é como um sonho.

Algumas pessoas encontram-se cercadas por beleza, conforto, abundância natural e segurança, enquanto outras podem ter de viver em ambientes duros, enfadonhos, empobrecidos e perigosos. Agora, isto não é o resultado nem da oportunidade nem de qualquer grande projeto. Ter nascido em um lugar agradável é o resultado da generosidade, da ajuda e da virtude em vidas anteriores, enquanto condições de vida adversas são a conseqüência do mal trazido aos outros em vidas anteriores por atacá-los, aprisioná-los e assim por diante. Os fenômenos não são o trabalho de um criador; eles são simplesmente o que se manifesta como o resultado combinado de muitas causas e circunstâncias. Do mesmo modo que um arco-íris aparece no céu como resultado da luz solar brilhando sobre a chuva, assim também, como resultado de um grande número de ações em suas vidas passadas, nesta vida você é feliz, saudável próspero e amado por todos, ou é infeliz, pobre, atacado pela doença e desprezado. De fato, cada detalhe do universo e dos seres que ele contém nada mais é que o resultado de muitos fatores interdependentes que momentaneamente vêem juntos; é por isto que todos os fenômenos são impermanentes e passam por essa constante mudança.

Então quando você examinar qualquer coisa profundamente, sempre chegará na vacuidade, e apenas na vacuidade; a vacuidade é a natureza última de tudo. Como os principiantes que podem estar sobre o caminho da acumulação ou da união, nós, seres comuns, não tivemos a realização efetiva da vacuidade. Sabemos que a fumaça indica a presença de fogo, mas ela não é fogo em si; ainda assim, seguindo a fumaça, podemos encontrar o fogo. Do mesmo modo, é importante entender que a visão de vacuidade não é o mesmo que a experiência real da vacuidade; mas seguindo a visão e nos tornando familiares com ela, chegaremos à realização efetiva da vacuidade em si, livre de quaisquer conceitos ou teorias. Este é o entendimento último do Madhyamika, a inseparabilidade das duas verdades, a união das aparências e da vacuidade.

A natureza vazia de todos os fenômenos é a verdade absoluta, e o modo pelo qual eles aparecem é a verdade relativa. Examinando a verdade relativa, você virá a realizar a verdade absoluta, já que a verdade absoluta é a natureza última de tudo. Se todo o mundo — todos os seus constituintes, todas as suas montanhas e florestas — fossem destruídos e desaparecessem completamente, sobraria apenas o espaço vazio que tudo permeia. Algo bem similar acontece quando você realiza verdadeiramente o que os fenômenos relativos são, que eles não existem como entidades sólidas; nada permanece além de uma vacuidade que tudo permeia. Mas enquanto você acreditar na existência sólida e tangível da verdade relativa, você nunca será capaz de realizar a verdade absoluta. Uma vez que você realizado a verdade absoluta, você deve ver o quer que aparece dentro dela — toda a exibição infinita dos fenômenos relativos — como não mais que uma ilusão ou um sonho, ao qual você não sente apego. Realizar que a aparência e a vacuidade são um é o que é chamado simplicidade, ou liberdade de todas as limitações conceituais, liberdade de toda elaboração.

As duas verdades não suas entidades distintas, como os chifres de uma vaca; são simplesmente os aspectos "aparente" e "vazio" do estado natural. Tendo primeiro entendido a visão intelectualmente, desenvolvia de primeira mão a experiência e a confiança na unidade da aparência e da vacuidade. Esta realização da inseparabilidade das duas verdades é uma experiência profunda, completamente além de qualquer conceito intelectual. Este é a yoga da simplicidade. Mantendo esta visão, recite o mantra de seis sílabas.

Um-sabor

Corte o apego da mente às aparências;
Faça a demolição do lar das aparências fictícias da mente;
Onde a mente e as aparências são um, está a abertura infinita;
Na realização do um-sabor, recite o mantra de seis sílabas.

O modo pelo qual os fenômenos objetivos aparecem para nós subjetivamente é um função da mente. Para nós, as coisas parecem ser puras ou impuras, boas ou ruins, atrativas ou repelentes, dependente unicamente do modo pelo qual nossas mentes as percebem. Como Shantideva disse, falando dos reinos dos infernos:

Quem fez este solo de ferro ardente?
De onde vieram estes bancos de fogo?
Todas essas coisas
Surgem da mente negativa.

De fato, quando seus órgãos dos sentidos encontram um objeto, a única parte do objeto em si é iniciar o processo de percepção em sua consciência. A partir daí, como sua mente reage ao objeto, influenciada por todos os seus hábitos acumulados e experiências passadas, todo o processo é inteiramente subjetivo. Então, quando sua mente está cheia de raiva, todo o mundo parece ser um reino do inferno. Quando sua mente está pacífica, livre de qualquer apego ou fixação, e quando tudo o que você faz está de acordo com os ensinamentos, você experiencia tudo como primordialmente puro. Enquanto um buddha vê os infernos como um paraíso, os seres deludidos vêm um paraíso com os infernos.

Nossas percepções são coloridas pelas delusões do mesmo modo que a visão de uma pessoa com icterícia é colorida pela bile em seus olhos, fazendo-a ver uma concha branca como sendo amarela. É o apego que faz a mente projetar suas delusões sobre as aparências. Assim que a mente percebe algo, ela se apega a essa percepção; então ela avalia o objeto como sendo desejável, ofensivo ou neutro; finalmente, tomando a ação sobre a base desta percepção distorcida com desejo, aversão ou indiferença, ela acumula karma.

Para cortar o apego da mente, é importante entender que todas as aparência são vazias, como a água que você possa ver em uma miragem.  As formas belas não são de qualquer benefício para a mente, nem podem as formas feias prejudicá-la de qualquer modo. Corte os nós da esperança e do medo, da atração e da repulsão, e permaneça em equanimidade no entendimento de que todos os fenômenos nada mais são que as projeções de sua própria mente.

Uma vez que você reconheça a verdadeira natureza da mente, toda esta ficção das aparências relativas e o seu apego a elas simplesmente desmoronarão. Bom e ruim, puro e impuro, perdem seus sabores compelidos e dissolvem-se em um-sabor. Você alcançará a realização de Jetsün Milarepa, não fazendo distinção ente o ferro e o ouro. Quando Gampopa ofereceu ouro e chá para ele, Milarepa disse: "Sou um velho homem sem qualquer necessidade de ouro e sem forno para ferver chá." Descansando nesta visão, recite o mantra de seis sílabas.

Não-meditação

Na natureza da mente, a simplicidade do estado desperto vazio, tudo é liberado;
Os pensamentos, a criatividade espontânea do estado desperto, são purificados em sua própria esfera;
A mente e o estado desperto são um na essência única.
Na não-meditação do dharmakaya, recite o mantra de seis sílabas.

A natureza última da mente é o estado desperto primordial, do qual os pensamentos emanam como a luz que se irradia do sol. Uma vez que esta natureza da mente é reconhecida, a delusão desaparece como as nuvens que se dissolvem no céu. A natureza da mente livre da delusão é sem nascimento, existência ou cessação. Na terminologia do Mantrayana, é chamada de mente contínua primordial, ou simplicidade sempre presente. É também descrita nos sutras; por exemplo, o Prajnaparamita diz:

A mente — 
A mente não existe,
Sua expressão é a claridade.

Quando você examina a mente calma, a mente em movimento e a mente que reconhece a calma e o movimento, por mais que procure pela "mente", você não encontrará qualquer coisa a não ser a vacuidade; a mente não tem forma, não tem cor e não tem substância. Este é o aspecto vazio da mente. Porém a mente pode conhecer as coisas e perceber uma infinita variedade de fenômenos. Este é o aspecto da claridade da mente. A inseparabilidade destes dois aspectos, vacuidade e claridade, é a mente contínua primordial.

No momento, a claridade natural de sua mente está obscurecida pelas delusão. Mas conforme este obscurecimento se clareia, você começará a descobrir a radiância do estado desperto, até que alcance o ponto onde, assim como um desenho sobre a água desaparece no momento em que é feito, os pensamentos são liberados no momento em que surgem. Experienciar a mente deste modo é encontrar a própria fonte do estado búddhico, a prática da quarta iniciação. Quando a natureza da mente é reconhecida, isso é chamado de nirvana; quando está obscurecida pela delusão, isso é chamado de samsara. Porém, nunca o samsara ou nirvana se separaram do continuum do absoluto. Quando a realização do estado desperto alcança sua extensão completa, as rampas da delusão são rompidas e a cidadela do dharmakaya além da meditação pode ser obtida de uma vez por todas. Aqui não há mais qualquer distinção entre meditação e pós-meditação, e a experiência é estabilizada sem esforço; esta é a não-meditação. Na expansão ilimitada do dharmakaya, recite o mantra de seis sílabas.

Resumindo, a yoga do um-ponto enfatiza domar a mente, e a da simplicidade estabelece o insight. Estas duas são unidas na experiência do um-sabor, e quando esta experiência torna-se inabalável, esta é a yoga da não-meditação.

As quatro yogas do Mantrayana correspondem aos cinco caminhos do sistema do sutra. É portanto importante manter a visão, a meditação e a ação tanto dos sutras quanto dos tantras, juntos. Todos os diferentes níveis de ensinamento tem apenas uma meta, a de cortar completamente as emoções obscurecedoras; então eles estão concordância perfeita uns com os outros. As muitas linhagens diferentes de ensinamentos, refletindo as necessidades dos diferentes alunos e a sabedoria de diferentes professores, são realmente um único rio.

O inigualável médico de Dagpo, o sagrado Gampopa, primeiro serviu um lama kadampa e praticou o caminho Mahayana. Depois, aos pés de Jetsün Milarepa, ele praticou os sistemas tântricos do Mahamudra, o calor interno e o resto das seis yogas de Naropa, tornando-se um dos pais da linhagem Kagyü. Os grandes professores kadampa, famosos por sua prática no sistema do sutra, também instruíam seus estudantes na fase de completude do Mahamudra, e nas seis yogas também, combinando habilmente todas estas práticas. Nunca se esqueça de que o ponto principal não é o de nossa prática pertencer ao sutras ou aos tantras, ou de ela ser deste ou daquele nível, mas é sim o de servir como um antídoto efetivo para apego e para as emoções obscurecedoras.

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Patrul Rinpoche. The Heart Treasure of the Enlightened Ones. Comentários de Dilgo Khyentse Rinpoche. Boston: Shambhala, 1992. Pág. 79-116.