rigdzin jigme lingpa, pema khyentse özer · biografia

Pego pelo nascido do lótus [Longchen Rabjam] Drime Özer,
Perfeito na arte da grande perfeição,
Ele espalhou o ensinamento do seu tesouro da mente
Até os confins da terra — homenagem a Jigme Lingpa!

Rigdzin Jigme Lingpa (1730-1796), Pema Khyentse Özer, foi uma emanação (tib. tülku) tanto do rei Trisong Detsen (790-858) quando de Vimalamitra. Ele também é conhecido como Khyentse Özer, Raios de Sabedoria e Compaixão. Ele descobriu o vasto e profundo ciclo de ensinamentos Longchen Nyingthig como um tesouro da mente.

Na Profecia Secreta do Lama Gongdü, descoberta por Sangye Lingpa (1340-1396), Guru Rinpoche previu a chegada de Jigme Lingpa setecentos anos antes:

No sul [do Tibet] virá um tülku chamado Özer.
Ele liberará os seres através dos profundos ensinamentos do Nyingthig.
Ele conduzirá quem quer que esteja conectado com ele à terra pura dos vidyadharas.

Jigme Lingpa nasceu em uma vila no início da manhã do décimo oitavo dia do décimo segundo mês do ano do pássaro da terra do décimo segundo Rabjung (1730), no vale Chongye no sul do Tibet, não muito longe das tumbas reais da dinastia Chögyal, conhecidas como as "tumbas vermelhas". Apesar de seus pais vierem de famílias significativas na história passada, eles eram simples, o que Jigme Lingpa reconhece como uma bênção que o permitiu tomar sua via religiosa sem ser forçado às obrigações sociais ou à pompa aristocrática.

Desde a infância se lembrava de suas vidas passadas, como sendo o grande Tertön Sangye Lama (1000-1080?). Um de seus dentes era marcado com a sílaba da fala de Buddha, Ah, conhecida com o sinal de ser um tülku de Vimalamitra. E também, como indicado em um escrito profético, Jigme Lingpa tinha trinta pequenas manchas avermelhados na forma de um vajra em seu coração, cerca de trinta pequenas manchas avermelhadas em sua barriga em forma de um sino ritual, e linhas da forma da letra Hya ou Hrih, a sílaba semente da divindade Hayagriva, no seu dedão direito. Desde a infância, sua mente estava desapegada dos divertimentos mundanos e ele era extraordinariamente compassivo, inteligente e corajoso.

Jigme Lingpa reconheceu ser a décima terceira emanação de Gyalse Lhaje, o recebedor dos ensinamentos Kadü Chökyi Gyatso de Guru Rinpoche, todos os quais eram tertöns. E também na prece da linhagem de suas vidas, que ele escreveu para seus discípulos, Jigme Lingpa menciona muitas de suas vidas passadas e uma de suas vidas futuras que previu:

[1] Samantabhadra, senhor que tudo permeia do samsara e do nirvana, o continuum da base, a própria essência da natureza de Buddha,
[2] Então [a união de] compaixão e vacuidade surgiu como Avalokiteshvara, e
[3] Garab Dorje — a vocês eu rogo.

[4] Então se manifestou como o filho do rei Krikri na presença do Buddha Kashyapa,
[5] Nanda, o irmão mais novo do Buddha,
[6] Akarma[ti], uma manifestação do [rei] Songtsen Gampo, e
[7] [Rei] Trisong Detsen — a vocês eu rogo.

[8] [Mahasiddha] Virvapa [da Índia],
[9] Princesa Pemasal,
[10] Gyalse Lhaje, o senhor em pessoa,
[11] Drime Künden [da Índia],
[12] Yarje Orgyen Lingpa [1323-?]
[13] Daö Shönu [1079-1153, do Kagyü] e
[14] Tragpa Gyaltsen [1147-1216, de Sakya] — a você eu rogo.

[15] Então Longchen Rabjam [1308-1363], a manifestação do próprio Mahapandita Vimalamitra,
[16] Ngari Panchen [1487-1542],
[17] Chögyal P'hüntsog [século XVI, filho de Drikung Rinchen P'hüntsog],
[18] [Changdag] Tashi Tobgyal [1550-1602?],
[19] Dzamling Dorje [de Kongpo] e
[20] Jigme Lingpa — a vocês eu rogo.

[21] Depois disto, através da manifestação de Yeshe Dorje [1800-1866].

Na idade de seis, como um noviço comum, entrou no monastério Palri (Shriparvata) no vale Chongye, a sede de Trangpo Terchen Sherab Özer (1517-1584). Tsogyal Tülku Ngawang Lobzang Pema deu a ele o nome Pema Khyentse Özer.

Dos seis aos treze anos, como o próprio Jigme Lingpa diz, passou mais tempo brincando com os noviços de sua idade do que com seus estudos. Viveu a vida de um noviço pobre, com pouco para facilitar o aprendizado, mas encontrou tutores disciplinares muito estritos, anos após ano. Entretanto, a intensidade de seu zelo pelo Dharma, sua devoção espontânea por Guru Rinpoche e sua compaixão inata por todos os seres vivos — especialmente pelos animais — sustentaram-no e fizeram sua infância ser extremamente alegre e significativa. Apesar de parecer um noviço insignificante, sua vida interior era cheia de riqueza. Seus dias estavam preenchidos com atingimentos meditativos e visões puras inspiradoras. Suas noites fundiam-se em sonhos de experiências espirituais e visões.

Nessas circunstâncias, obteve maestria na gramática, lógica, astrologia, poesia, história, medicina e em muitas escrituras do sutra e do tantra. Além de receber as transmissões de iniciações esotéricas, não sentia necessidade de ter um mestre ou de estudar qualquer assunto intelectual em detalhe, como os outros estudantes sérios estavam fazendo. Aprendeu vários assuntos simplesmente por ouvir partes das aulas de outros estudantes, ao acaso, e por dar uma olhada nos textos.

Muitos mestres se tornaram instruídos por estudar e então se tornaram realizados por meditar. Jigme Lingpa nasceu instruído como resultado de despertar a realização de sabedoria em si mesmo. Entretanto, a manifestação externa foi que a sua eclosão final e completa de sabedoria ilimitada aconteceria muito tempo depois, quando teve visões de Longchen Rabjam com a idade de trinta e um. Jigme Lingpa escreve:

Por natureza, me senti muito feliz quando foi capaz de estudar [qualquer assunto, como] linguagens, escritos seculares, escrituras canônicas e seus comentários, ou os ensinamentos Vajra[yana] sobre a natureza última. Estudava-as com grande respeito, tanto à luz do dia quanto à luz de lamparinas. Mas dificilmente tive a oportunidade de desenvolver o conhecimento estudando com um mestre, mesmo durante um único dia. Entretanto, no glorioso Samye Chimp'hu, observando três vezes o corpo de sabedoria de Longchenpa e recebendo as bênçãos através de vários sinais, meu karma [da "sabedoria de aprendizado" foi] desperto [das profundezas] da Grande Perfeição.

De Neten Künzang Özer recebeu sua primeira transmissão maior, a transmissão dos ensinamentos Drölthig Gongpa Rangdröl descobertos por Trengpo Terchen Sherab Özer (também conhecido como Drodül Lingpa), o ciclo do Lama Gongdü descoberto por Sangye Lingpa (1340-1396), os Sete Tesouros e as Três Carruagens de Longchen Rabjam (1308-1363).

Aos treze anos, Jigme Lingpa encontrou o grande Tertön Rigdzin Thugchog Dorje e instantaneamente experienciou uma grande devoção que despertou sua mente de sabedoria. Do tertön recebeu transmissões e instruções sobre o Mahamudra e outros ensinamentos. Thugchog Dorje tornou-se seu lama raiz e recebeu bênçãos dele em visões até mesmo após a morte do mestre. Jigme Lingpa também recebeu transmissões de muitos outros mestres, incluindo Thegchen Lingpa Drotön Tharchin (também conhecido como Drime Lingpa, 1700-1776), seu tio Dharmakirti, o sétimo Chagzampa Tendzin Yeshe Lhündrub, Thangdrog Tülku Pema Rigdzin Wangpo de Kongpo, Drati Ngagchang Rigpe Dorje (também conhecido como Kongnyön) de Kongpo e Mön Dzakar Lama Dargye.

No início de seu vigésimo oitavo ano, começou um retiro estrito de três anos no monastério Palri, com sete votos a seres observados durante todos os sete anos. Estes votos nos mostram a importância de aperfeiçoar a si mesmo antes de ir ajudar os outros a realizar a meta da vida. Seus sete votos foram os seguintes:

[1] Não entraria na casa de qualquer leigo nem desfrutaria qualquer entretenimento.
[2] Mesmo que estivesse vivendo no meio de uma comunidade, ele se absteria de receber muitas pessoas (em sua cela) ou de conduzir qualquer reunião que encorajasse ódio o ou o apego.
[3] Não se corresponderia com ninguém, não deixaria qualquer palavra de fora entrar nem deixaria quaisquer palavras de dentro sair.
[4] Manteria uma vida de austeridade e refrearia trocar os ensinamentos do Dharma por qualquer ganho material.
[5] Refrearia de quaisquer atividades que distraem, dedicando seus esforços apenas para as dez atividades que concernem ao treinamento do Dharma [copiar escrituras, fazer oferendas, dar caridade, ouvir ensinamentos, memorizá-los, recitar escrituras, ensinar o Dharma, dizer preces, ponderar sobre o significado do Dharma  e meditar sobre ele].
[6] Viveria com sustento simples e não desfrutaria descuidadamente de quaisquer materiais oferecidos pelos outros.
[7] Não realizaria quais das quatro ações [pacificar, causar prosperidade, controlar, exorcismo] e dedicaria todas as atividades à liberação do samsara.

Jigme Lingpa concentrou sua meditação no estágio de desenvolvimento e no estágio de perfeição, baseado no Drölthig Gongpa Rangdröl. Seu estado desperto atento permitiu-o proteger sua mente de distrações na meditação, nem mesmo pela duração de um estalar de dedos. Quando leu os Sete Tesouros de Longchen Rabjam, eles responderam todas as perguntas que tinha sobre suas experiências meditativas interiores.

Conforme prosseguiu através dos estágios de realização, experienciou numerosos sinais físicos e mentais de atingimentos. Experienciou as visões de muitos lamas e divindades, incluindo Guru Rinpoche, Yeshe Tsogyal, Manjushrimitra e Humkara, que despertaram vários estágios de sua sabedoria interior. Subitamente, descobriu que o ponto de referência de todas as suas experiências mentais estavam enraizadas dentro de si mesmo. Obteve o domínio sobre o processo de suas energias kármicas. Todas as cavernas das aparências delusórias (isto é, os objetos, sobre os quais a mente conceitual confia para forjar o samsara dualista) desmoronaram totalmente. Através da força da realização desperta, Jigme Lingpa pôde rever claramente muitas vidas passadas. Mas todas estas experiências e visões estavam na natureza da unidade em sua mente realizada.

Através de treinamentos yógicos, atingiu controle sobre os canais, energia e essência de seu corpo-vajra. Como resultado, sua garganta abriu-se como o "ciclo da riqueza" de ensinamentos. Seus canais físicos transformaram-se em "nuvens de letras". Todas as aparências fenomenais transformaram-se nos "sinais/gestos do Dharma". Sua fala tornou-se as canções de profunda realização. Seus escritos tornaram-se tratados de grande poder de sabedoria e erudição. Um oceano inexaurível de ensinamentos continuou a brotar para ele e a partir dele. Então, compôs seu primeiro escrito maior, o Khyentse Melong Özer Gyawa, um tratado explanatório sobre o ciclo Lama Gongdü.

Guru Rinpoche, aparecendo em uma visão, deu a ele o nome Pema Wangchen. Em uma visão, Manjushrimitra deu bênçãos a ele, que o fizeram realizar o significado da sabedoria simbólica. A partir de então, trocou seus mantos monásticos castanhos pela veste natural de um asceta, mantos brancos não-coloridos e cabelo longo não-cortado.

Aos vinte e oito anos, descobriu a revelação extraordinária do ciclo Longchen Nyingthig, os ensinamentos do Dharmakaya e de Guru Rinpoche, como um tesouro da mente. Na tarde do vigésimo quinto dia do décimo mês do ano do boi de fogo do ciclo Rabjung (1757), Jigme Lingpa foi para a cama com uma forte devoção por Guru Rinpoche em seu coração; um rio de lágrimas de tristeza molhavam continuamente a sua face porque ele não estava na presença de Guru Rinpoche, e incessantes palavras de preces continuaram cantando em sua respiração.

Jigme Lingpa permaneceu nas profundezas dessa experiência meditativa de luminosidade clara durante um longo tempo. Enquanto estava absorto nessa claridade luminosa, experienciou voar uma longa distância pelo céu enquanto cavalgava um leão branco. Finalmente alcançou um caminho circular, que pensou ser o caminho de circumbulação de Charung Kashor, agora conhecido como a stupa de Budhnat — um importante monumento buddhista de gigante estrutura no Nepal. No pátio oriental da stupa, viu o Dharmakaya aparecendo na forma de uma dakini de sabedoria. Ela lhe confiou uma bela caixinha de madeira, dizendo:

Para os discípulos com mente pura,
Você é Trisong Detsen.
Para os discípulos com mente impura,
Você é Senge Repa.
Este é o tesouro da mente de Samantabhadra,
Os escritos simbólicos de Rigdzin Padma[sambhava] e
Os grandes tesouros secretos das dakinis. Os sinais estão terminados!

A dakini desapareceu. Com uma experiência de grande alegria, Jigme Lingpa abriu a caixinha. Nele encontrou cinco rolos de pergaminhos amarelos com sete contas de cristal. Primeiramente, a escrita estava ilegível, mas então se transformou em escrita tibetana. Um dos rolos era o Dugngal Rangdröl, a sadhana de Avalokiteshvara, e a outra era o Nechang Thugki Drombu, o guia profético do Longchen Nyingthig. Rahula, um dos protetores dos ensinamentos, apareceu diante dele para prestar respeito. Conforme foi encorajado por outra dakini, Jigme Lingpa engoliu todos os setes pergaminhos e as contas de cristal. Instantaneamente, teve a experiência maravilhosa de que todas as palavras do ciclo Longchen Nyingthig com seus significados tinham sido despertos em sua mente, como se estivessem impressos lá. Mesmo depois da vinda dessa experiência meditativa, Jigme Lingpa permaneceu na realização do estado desperto intrínseco, a grande união de êxtase e vacuidade.

Assim, os ensinamentos e a realização do Longchen Nyingthig — que foram transmitidos e escondidos nele por Guru Rinpoche muitos séculos antes — foram despertos e Jigme Lingpa tornou-se um tertön, o descobridor do ciclo de ensinamentos Longchen Nyingthig, começando com o Nechang Thugkyi Drombu.

Jigme Lingpa manteve todos os ensinamentos descobertos em segredo de todos durante sete anos porque o tempo ainda não tinha amadurecido para ensiná-los aos outros. Também é essencial que o tertön primeiro pratique os ensinamentos por si mesmo. Apesar de estar mantendo a vida de um yogi oculto, o respeito e a fé por Jigme Lingpa aumentavam espontaneamente nas pessoas ao seu redor e ele se tornou uma fonte de benefício para muitas pessoas, pois tinha aperfeiçoado o poder das quatro ações sem precisar trabalhar para adquiri-las.

Aos trinta e um anos, começou a observar um segundo retiro de três anos em Chimph'u, próximo a Samye. Primeiro descobriu uma outra caverna e a reconheceu como a caverna Sangchen Metog ou a caverna inferior de Nyang, onde o rei Trisong Detsen recebeu os ensinamentos Nyingthig de Nyang e meditou sobre eles. Pelo resto de seu retiro, Jigme Lingpa viveu na caverna Sangchen.

Durante seu retiro em Chimp'hu, a mais alta realização da Grande Perfeição foi desperta em Jigme Lingpa — e esse despertar foi causado pelas três visões puras do corpo de sabedoria de Longchen Rabjam (1308-1363), o Dharmakaya em manifestação física. Na caverna superior de Nyang, Jigme Lingpa teve a primeira visão, na qual recebeu a bênção do corpo-vajra de Longchen Rabjam. Jigme Lingpa obteve a transmissão tanto das palavras quando do significado dos ensinamentos de Longchen Rabjam. Depois de se mudar para Sangchenp'hug (a Grande Caverna Sagrada), teve a segunda e a terceira visões. Na segunda visão, recebeu a bênção da fala de Longchen Rabjam, que o iniciou para manter e propagar os profundos ensinamentos de Longchen Rabjam como seu representante. Na terceira visão, Jigme Lingpa recebeu a bênção da mente de sabedoria de Longchen Rabjam, que despertou ou transferiu o poder inexprimível do iluminado estado desperto intrínseco de Longchen Rabjam para ele.

Agora, como não havia ponto de referência objetivo para Jigme Lingpa, todas as aparências externas tornaram-se ilimitadas. Não havia meditação ou estados meditativos separados para se perseguir. Como não havia um designador subjetivo em sua mente, tudo se tornou naturalmente livre e totalmente aberto em unidade. Jigme Lingpa compôs o Künkhyen Shal-lung e alguns outros escritos como o verdadeiro significado dos Sete Tesouros de Longchen Rabjam, que tinha sido desperto em sua mente de sabedoria. Expressou seu poder de sabedoria em canções-vajra para seus devotos companheiros eremitas, relacionando-se com várias situações:

A natureza da mente é como o espaço da abertura,
Mas é superior, pois possui sabedoria.
A claridade luminosa é como o sol e a lua,
Mas é superior, pois não há substâncias.
O estado desperto intrínseco é como uma bola de cristal,
Mas é superior, pois não há obstruções ou coberturas.

E:

Filho, a mente observando a mente
Não é o estado desperto da natureza inata.
Então, na mente presente, sem modificações e
Ondulações, apenas permaneça naturalmente.

Filho, apreender [qualquer coisa] com suas lembranças
Carece das habilidades cruciais da meditação.
Então, no estado natural e fresco do estado desperto intrínseco,
Permaneça sem qualquer apego.

Filho, as pessoas pensam que a permanência [unidirecionada da mente] é meditação,
Mas isso carece da união de tranqüilidade e insight.
Então, sem aceitar e rejeitar tanto as permanências quanto as projeções da mente,
Deixe o estado desperto intrínseco permanecer livremente, sem qualquer ponto de referência.

E:

Filho, a visualização rígida, clara e estável
Não é [o perfeito] Mahayoga.
Dissolvendo a [mente de] apego às faces e braços [das divindades], permaneça na vastidão,
A Grande Perfeição da equanimidade do estado desperto intrínseco e vacuidade.

Filho, apegos às experiências das quatro alegrias
Não é [o perfeito] Anuyoga.
Tendo admitido a mente e energia no canal central,
Permaneça na [união de] êxtase e vacuidade, a grande liberdade de pensamentos...

Filho, o mero entendimento da realização espontânea dos três kayas
Não é o Atiyoga último.
Na natureza do insight da corrente-vajra,
Deixe a falsidade da análise mental desmoronar.

E:

As doenças são vassouras limpando seus maus feitos.
Vendo as doenças como professores, rogue para elas...
As doenças estão vindo para você devido à bondade dos mestres e das Três Jóias.
As doenças são as suas realizações, então as venere como as divindades.
As doenças são sinais de que seus karmas negativos estão sendo exauridos.
Não olhe para a face de sua doença, mas sim para aquele [a mente] que está doente.
Não coloque a doença em sua mente, mas coloque seu estado desperto nu sobre sua doença.
Esta é a instrução sobre a doença surgindo como o Dharmakaya.

O corpo é inanimado e a mente é vacuidade.
O que pode causar dor para uma coisa inanimada ou causar dano à vacuidade?
Procure onde as doenças vêm, aonde vão e onde permanecem.
As doenças são meras projeções súbitas de seus pensamentos.
Quando esses pensamentos desaparecem, as doenças se dissolvem também...
Não há combustível melhor [do que as doenças] para queimar os karmas negativos.
Não se deixe entreter com uma mente triste ou com visões negativas [sobre as doenças],
Mas as veja com os sinais da diminuição de seus karmas negativos e regozije sobre elas.

Então recebeu as transmissões dos Dezessete Tantras do Nyingthig, do Vima Nyingthig, do Lama Nyingthig e de outras transmissões e ensinamentos Nyingma de Drubwang Orgyen Palgön (Shrinatha) do monastério Mindröling, que também era um parente distante de Jigme Lingpa. No início, também tinha recebido de Thangdrogpa e de Neten Künzang as transmissões dos ensinamentos Nyingthig e dos escritos de Longchen Rabjam. Entretanto, a linha absoluta e curta da transmissão dos ensinamentos últimos do Nyingthig vieram a ele a partir de Longchen Rabjam diretamente nas três visões puras.

Quando saiu de seu retiro, descobriu que seu corpo tinha exaurido totalmente a sua força por causa da escassez de comida e pela falta de roupas adequadas durante os anos vivendo em cavernas. Jigme Lingpa escreve:

Por ter pouca comida e por estar exposto a um ambiente hostil, todos os resíduos de karmas negativos e de débitos kármicos de minhas sucessivas vidas anteriores começaram a amadurecer sobre o meu corpo. Por causa dos humores do ar (sânsc. prana, tib. lung), minha dor nas costas era como se alguém tivesse me golpeando com uma rocha. Como resultado do movimento da circulação de ar e sangue, meu peito estava doendo como se alguém estivesse enfiando pregos em meu corpo. Por causa da elefantíase, meu corpo estava muito pesado para que minhas pernas se levantassem. Como um homem de cem anos, tinha esgotado todas as minhas energias físicas. Não tinha muito apetite para comer... Se desse três passos, meu corpo começaria a tremer. [Mas pensei,] "Se eu morrer, estarei realizando o conselho dados pelos antigos mestres, que dizem: 'Confie sua mente ao Dharma. Confie sua prática de Dharma à vida de um mendigo.'" Conforme atingi confiança na realização da Grande Perfeição, nenhum pensamento de aborrecimento era nem mesmo uma possibilidade em minha mente, mas surgiu em mim uma grande compaixão para aqueles que estão [sofrendo de] velhice e doenças.

Então teve uma visão pura de Thangtong Gyalpo, um sábio da longevidade, e para Jigme Lingpa todos os acontecimentos fundiram-se na união do êxtase e vacuidade. Então, cantou o poder de sua realização nas palavras seguintes:

Curvo-me ao senhor, o grande sábio [Thangtong Gyalpo].
Realizei o pico das visões, a Grande Perfeição.
Não há qualquer coisa sobre a qual meditar, pois tudo é liberado como a visão.
Desenrolei o estandarte da meditação, o rei das atividades.
Agora eu, o mendigo, não tenho arrependimento, mesmo se eu morrer...
Eu, o mendigo, que sabe "como transformar as doenças no caminho",
Visualizando o lama, a fonte das virtudes,
Como o chakra extático de minha cabeça,
Medito sobre o caminho profundo do Guru Yoga.
Já que a doença e a dor são as vassouras para limpar os maus karmas,
Realizando as doenças como a bênção do mestre,
Medito sobre as doenças como o lama e recebe delas as quatro iniciações.
Finalmente, realizando o lama como minha própria mente,
Libero [tudo] na natureza verdadeira da mente, que é primordialmente pura e livre de quaisquer pontos de referência.

Jigme Lingpa realizou a face do Samantabhadra último, o Dharmakaya, e todas as doenças dissolveram-se na esfera última. Rapidamente, seu corpo físico também obteve força sem muita dor ou obstruções.

Então, chegou a hora de revelar os ensinamentos Longchen Nyingthig aos discípulos, depois de sete anos de segredo. Apesar de ninguém ter uma única pista da descoberta do Longchen Nyingthig, seu professor e discípulo Kongnyön Bepe Naljor, por causa de sua clarividência, suplicou que Jigme Lingpa transmitisse os ensinamentos do tesouro da mente. Como um sinal auspicioso, Jigme Lingpa também recebeu pedidos para revelar os ensinamentos, com oferendas de três importantes tülkus do sul do Tibet.

No décimo dia do sexto mês do ano do macaco de madeira (1765), Jigme Lingpa pela primeira vez  conferiu as iniciações e explicações do ciclo Longchen Nyingthig a quinze discípulos. Gradual mas rapidamente, os ensinamentos Longchen Nyingthig alcançaram cada canto do mundo da escola Nyingma e se tornaram o núcleo do coração das instruções de meditação para muitos meditadores realizados e para liturgias cerimoniais até hoje.

Aos trinta e quatro anos, Jigme Lingpa mudou-se de Chimp'hu para Tsering Jong, a Terra da Longa Vida no vale Tönkhar de Chongye, no sul do Tibet. Lá, com a patronagem da causa de Depa Pushü, construiu um eremitério com uma escola de meditação e a chamou Tharpa Chenpö Trongkhyer Pema Ö Ling, o Jardim da Luz de Lótus da Cidade da Grande Liberação. Não quis ter uma grande estrutura institucional e freqüentemente citava o verso das Trinta Porções de Conselhos Essenciais de Longchen Rabjam como seu guia:

Reunir numerosos associados por vários meios,
Ter um monastério com acomodações confortáveis —
Se você tentar, isso virá durante algum tempo, mas isso distrai a mente.
Então, meu conselho de coração é permanecer sozinho.

Tsering Jong tornou-se a residência de Jigme Lingpa pelo resto de sua vida. Um rio de grandes discípulos veio a este simples eremitério para receber os profundos ensinamentos e transmissões do maior mestre da Grande Perfeição, Rigdzin Jigme Lingpa, mas os discípulos retornaram aos seus próprios lugares para compartilhar os ensinamentos com os outros. Então, Tsering Jong permaneceu como um simples eremitério e Jigme Lingpa como um simples eremita. Não tinha interesse em riqueza ou poder e gastou tudo o que lhe era oferecido para objetivos religiosos. E também, durante toda a sua vida, foi ativo em resgatar as vidas de animais das mãos de caçadores e açougueiros. Jigme Lingpa disse:

Não me importo com qualquer atividade de negócios ou colheita.
Não vago para realizar cerimônias nas cidades [por doações].
Mantenho não mais que dez khals de cevada comigo [como subsistência para viver].
Enquanto estiver vivo, faço o voto de continuar esta vida ascética.

Algum tempo depois da época de Jigme Lingpa, o eremitério Tsering Jong tornou-se um convento e permaneceu assim até por volta de 1959, quando tudo desapareceu em um turbilhão político. Desde o início dos anos 80, mais uma vez Tsering Jong foi restabelecido como um convento.

O caráter de Jigme Lingpa era profundo, forte e direto, mas ele também era amável, simples e fácil de se lidar. Ele escreve:

Minhas percepções tornaram-se como as de um bebê. Gosto até mesmo de brincar com as crianças. Quando encontro pessoas com faltas sérias, jogo suas faltas pessoais em suas caras, mesmo se forem líderes espirituais respeitados ou generosos patronos do Dharma... Em cada ação de sentar, andar, dormir ou comer, mantenho minha mente [no estado que] nunca está dissociado do brilho da natureza última. Se este é o serviço do Dharma, dedico-me à sua completude, mesmo que se pense que isto é uma tarefa impossível.

Aos quarenta e três anos, Jigme Lingpa juntou e comissionou a cópia dos tantras da escola Nyingma em vinte e cinco volumes, e compôs a História dos Tantras do Nyingma. Mais tarde, com o conselho de Jigme Lingpa e de Dodrubchen, o rei e a rainha regente de Derge comissionaram os blocos de madeira da coleção de tantras da escola Nyingma, e estes blocos ainda estão em uso para impressão.

Aos cinqüenta e sete anos, a convite do Ngawang Palden Chökyang — o Sakya Trichen —, Jigme Lingpa foi para Sakya e deu ensinamentos e transmissões ao Trichen, a seu irmão, a Ananda Shribhava — o khenchen residente de de Sakya — e a muitos outros. Em seu retorno de Sakya, Lama Sönam Chöden — que mais tarde tornou-se conhecido como Dodrubchen (1745-1821) — veio do Kham para receber ensinamentos de Jigme Lingpa. Dodrubchen o viu como Thangtong Gyalpo, e Jigme Lingpa por sua vez reconheceu Dodrubchen como o tülku de Lhase Murum Tsepo e deu a ele o nome Jigme Trinle Özer. Através de Dodrubchen, o terceiro Dzogchen Rinpoche e o rei de Derge enviaram mensagens para convidá-lo a visitar o Kham, mas Jigme Lingpa recusou por causa de sua idade e de sua saúde, preocupado com as dificuldades de uma árdua viagem a cavalo.

Barchung Gomchen Rigdzin e Mange Pema Künzang do Kham vieram receber ensinamentos e transmissões. Pema Künzang mais tarde tornou-se o renomado discípulo de Jigme Lingpa, Jigme Gyalwe Nyugu (1765-1843). Enquanto Rigdzin e Pema Künzang estavam em Lhasa, antes de alcançarem Tsering Jong, alguém roubou um pedaço de prata, o único material que tinham para as despesas de subsistência e viagem. Jigme Lingpa escreveu um poema para consolá-los:

Se vocês souberem como tomar [os sofrimentos] no caminho do sabor igual,
Todas as circunstâncias não-afortunadas surgirão como o suporte das virtudes.
Então refreiem o entretenimento de visões reversas.
Se praticarem conforme os ensino,
Suas mentes e a minha se unirão como uma.
Lá surgirá a realização que transcende todos os conceitos e
Vocês permanecerão na vasta natureza do Dharmakaya, na qual não há dualidade.
Possam todos os seus desejos serem realizados.

Em 1788, quando tinha sessenta anos, Jigme Lingpa deu ensinamentos e transmissões ao rei e à rainha de Derge em Samye. Eles se tornaram seus devotos e a rainha tornou-se uma das principais patronas. Aos sessenta e dois anos, a pedido de Göntse Tülku, visitou o Göntse Gönpa de Tsona em Mön e deu ensinamentos e transmissões. Naquele tempo, Jigme Lingpa teve um problema ocular. Em seu lugar, as transmissões textuais (tib. lung) tiveram de ser dadas por Dodrubchen aos seus discípulos, que incluía Götsang Tülku Jigme Tenpe Gyaltsen. Eles enviaram Jigme Gyalwe Nyugu para conseguir um médico, que realizou uma operação com sucesso.

Se a intenção for boa, o caminho e o fruto serão bons.
Se a intenção for ruim, o caminho e o fruto serão ruins.
Já que tudo assim depende de uma boa intenção,
Sempre se esforce para cultivar essa atitude mental positiva.

Quando estava com sessenta e três anos, em 1791, as forças militares do Nepal atacaram o Tibet Ocidental e muitas pessoas sofreram. Jigme Lingpa realizou algumas de cerimônias e enviou oferendas a vários templos por paz e proteção. Quanto estava com sessenta e cinco anos, Jigme Lingpa e sua consorte — Gyalyum Drölkar da casa de Depa Pushü — tiveram um filho chamado Gyalse Nyinche Özer (1793-?).

Jigme Lingpa foi incapaz de aceitar os numerosos convites oferecidos a ele. Entretanto, através de Gyantse ele foi ao monastério Thegchog Chöling em Tsang e deu ensinamentos e transmissões a muitos discípulos liderados pelo Khenpo Orgyen Palgön, e em muitos lugares pelo caminho. Este monastério tornou-se seguidor da linhagem Longchen Nyingthig. No monastério Dorje Drag, deu uma série de ensinamentos e transmissões a Rigdzin Chenmo, entre outros.

Jigme Lingpa recebeu mensagens de preces e oferendas do rei mongol Chögyal Ngawang Dargye (1759-1807), um discípulo de Dodrubchen e professor de Shabkar Tsogdrug Rangdröl (1781-1851). Enquanto isso, baseado em uma comunicação entre o último Dzogchen Rinpoche e Jigme Lingpa, os lamas do monastério Dzogchen estavam inquirindo fortemente se o seu filho — Gyalse Nyinche Özer — poderia ser o tülku do terceiro Dzogchen Rinpoche, mas Jigme Lingpa não indicou qualquer possibilidade. O próprio Gyalse lembrou sua vida passada e ficava dizendo, "Estou indo para Drikung", desde que era pequeno. Então Sakya Trichen reconheceu-o como o tülku de Chökyi Nyima (1755-1792), o quarto Chungtsang, um dos dois chefes da tradição Drikung Kagyü.

Aos sessenta e nove anos, com uma enorme pompa cerimonial preparada pelos seguidores de Drikung, Jigme Lingpa viajou com seu filho a Drikung para a entronização do filho. Foi uma oportunidade maravilhosa para pessoas de diferentes lugares ao longo do caminho verem e ouvirem o grande mestre. Mas foi fisicamente exaustivo para o velho e frágil mestre viajar durante vários dias e realizar infinitas atividades religiosas. Logo, por causa da mudança da água e do ambiente, Jigme Lingpa caiu seriamente doente e durante algum tempo as pessoas até mesmo perderam a esperança de sua recuperação. Então, inesperadamente, um discípulo seu trouxe uma pílula medicinal tibetana chamada karpo chigthub do lugar sagrado de Yama Lung, e após tomá-la, milagrosamente se recuperou e até mesmo pareceu mais jovem, como uma pessoa nova.

Aos setenta anos, retornou de Drikung para Tsering Jong, parando em um grande número de lugares sagrados no caminho e realizando cerimônias, fazendo oferendas e dando ensinamentos. Sua saúde parecia boa, mas se preocupou pouco em comer e dormir. Dia e noite, permanecia sentado na postura de Vairochana ou na postura do sábio. Seus olhos não piscavam. Jigme Lingpa disse que seu corpo permaneceu vivo devido ao seu controle sobre a energia de sua força vital. Muitas vezes, deu sinais de que morreria em breve. Mas quando seus discípulos ficavam devastados com o pesar, Jigme Lingpa mudava de assunto ou às vezes até mesmo dizia: "Oh, não haverá qualquer perigo para a minha vida." Disse privadamente a um discípulo próximo que estava morrendo e que iria renascer, mas não havia necessidade de procurar sua nova emanação. Eles deveriam fazer uma cerimônia funerária simples mas aconselhou que deveriam preservar o corpo, explicando o modo como isso deveria ser feito. Quando seus discípulos expressaram seu desejo de trazer um médico, Jigme Lingpa dizia, "Sim, se quiserem, tragam um; mas como não há doença em mim, o que um médico poderá fazer? De qualquer modo, não tragam um de longe; isso apenas causará dificuldade para as pessoas e animais."

Ainda assim, quietamente, continuou vendo as pessoas e dando as bênçãos e ensinamentos que pediam. Durante alguns dias, havia uma chuva de flores ao redor de sua residência e terremotos suaves, de novo e de novo. Um dia, mudou-se para Namdröl Tse, o novo eremitério superior, e expressou sua grande alegria por estar lá. Entreteu alguns visitantes e deu ensinamentos. No dia seguinte, o terceiro dia do nono mês do ano do cavalo de terra (1798), deu um ensinamento sobre a meditação de Tara Branca. Desde a manhã, uma fragrância forte e doce preencheu todo o eremitério. O céu estava totalmente claro e não havia sinal de vento, mas uma chuva gentil pingou continuamente do céu azul. Todos estavam impressionados mas preocupados. Então, no começo da noite, Jigme Lingpa pediu que novas oferendas fossem preparadas sobre o altar. Quando se sentou na postura do sábio, todas as expressões de sua manifestação fundiram-se na natureza primordial.

Seus discípulos descobriram dois testamentos diferentes, escondidos em lugares diferentes. Incluíam ensinamentos meditativos aos seus discípulos e instruções sobre sua cerimônia funerária e renascimento. Um deles incluía as seguintes linhas:

Estou sempre no estado da natureza última;
Para mim não há ficar ou ir.
A exibição do nascimento e da morte é mera relatividade.
Estou iluminado na grande liberação primordial!

Depois de meses de cerimônias em Tashi Jong e em muitos monastérios e templos no Tibet Central, no Tibet Oriental e no Butão, seu corpo foi colocado em uma pequena stupa dourada no eremitério Tsering Jong e foi preservado lá até que o convento Tsering Jong fosse destruído algumas décadas atrás. Depois de sua morte, suas emanações mais conhecidas foram: Do Khyentse Yeshe Dorje (1800-1866), conhecido como sua emanação do corpo; Patrül Rinpoche (1808-1887), a emanação da fala; e Jamyang Khyentse Wangpo (1820-1892), a emanação da mente.

Jigme Lingpa produziu nove volumes de tratados escritos e textos de tesouro descobertos. Os proeminentes entre eles são o Longchen Nyingthig, uma coleção de instruções de meditação e textos rituais em dois (ou três) volumes, que foram descobertos como ensinamentos de tesouro; o P'hurba Gyülug, um volume de liturgia sobre Vajrakilaya, considerado tanto como tesouro quanto canônico; o Yönten Rinpoche Dzö com seu autocomentário em dois volumes, seu trabalho erudito mais famoso; e o Yeshe Lama, que se tornou o manual mais compreensivo de meditação da Grande Perfeição na tradição Nyingma.

O Longchen Nyingthig permanece como uma importante tradição de tesouro e, com seus escritos eruditos, a linhagem de Jigme Lingpa tornou-se uma das sub-escolas mais populares da escola Nyingma até o presente. Na linhagem do Longchen Nyingthig, todos os discípulos e sucessores eram igualmente grandes adeptos, conforme o próprio Jigme Lingpa profetizou:

Na linhagem do meu Nyingthig da Claridade Luminosa, haverá filhos [discípulos] que serão maiores que os seus pais, e netos que serão maiores que seus avós.

Entre seus muitos grandes discípulos, os principais foram profetizados por Guru Rinpoche no Nechang Thugki Drombu, o guia profético do Longchen Nyingthig:

Pelas emanações de Namkhe Nyingpo, Nyang, Chokyang
E do Príncipe Divino, a porta dos ensinamentos será aberta.

Os discípulos são Nyangtön Drati Ngagchang Rigpe Dorje (também conhecido como Kongnyön Bepe Naljor), a emanação de Namkhe Nyingpo; Lobpön Jigme Kündröl do Butão, a emanação de Nyang Tingdzin Zangpo; Thegchen Lingpa Drotön Tharchin (Drime Lingpa, 1700-1776), a emanação de Ngenlam Gyalwa Chokyang; e Dodrubchen Jigme Trinle Özer, a emanação do príncipe Murum Tsepo. Thegchen Lingpa, Thangdrogpa e Trati Ngagchang foram tanto professores quanto discípulos de Jigme Lingpa.

Entre seus discípulos, os mestres que foram mais efetivos em propagar os ensinamentos Longchen Nyingthig foram os seguintes. O primeiro Dodrubchen, Jigme Thrinle Özer (1745-1821), foi o principal detentor da doutrina do Longchen Nyingthig. Dodrubchen construiu três monastérios: Drodön Künkhyab Ling em Shugchen Taho no vale Do, Ogmin Rigdzin P'halgye Ling em Getse Tö no vale Dzachukha, e Yarlung Pemakö no vale Ser. Jigme Gyalwe Nyugu de Kham Dzachukha permaneceu no eremitério Tramalung por muitos anos e mais tarde se mudou para o eremitério monástico Dzagya. Jigme Kündröl do Butão construiu o monastério Dungsam Yonglha Tengye Riwo Palbar Ling no Butão Oriental. Hoje é conhecido como Yongla Gön sob o distrito Pema Gatsal no Butão Oriental.

Entre seus principais patronos, Depa Pushü patrocinou a construção de seu eremitério em Tsering Jong; o rei e especialmente a rainha Tsewang Lhamo de Derge, que foi profetizada como uma emanação de P'hokyongza Gyalmotsün — a rainha do rei Trisong Detsen —, comissionaram blocos de madeira para impressão dos Velhos Tantras (tib. Nyingma Gyübum), muitos volumes de Longchen Rabjam e nove volumes de Jigme Lingpa. E também Tatsag Tenpe Gönpo (falecido em 1810), o regente do Tibet, e o décimo terceiro Karmapa Düdül Dorje (1733-1797) com grande respeito consultaram-no através de correspondência.

Apesar de os discípulos que eram membros proeminentes da sociedade tibetana aglomerarem-se ao redor de Jigme Lingpa, ele estava apenas preocupado em encontrar verdadeiros detentores de linhagem, que vieram principalmente de pessoas de origem simples. Citando mestres passados, ele expressa essa visão:

É melhor ter um único mendigo que possa manter a linhagem
Do que ter mil pessoas proeminentes como seus discípulos.

A vida de Jigme Lingpa foi cheia de milagres, mas ele manteve seu poder místico oculto e sua rica vida de modo simples. Nasceu como um erudito que não treinou nas disciplinas tradicionais, mas todas as suas expressões transformaram-se em ensinamentos e todas as suas atividades eram a serviço dos outros. Permaneceu oculto como um asceta em um lugar isolado no Tsering Jong, mas a luz de sua sabedoria alcançou todos os cantos do mundo buddhista da escola Nyingma e ainda brilha em muitos corações abertos ao redor do mundo. Nasceu com marcas físicas e sinais auspiciosos, uma letra Ah sobre seu dente, uma letra Hya sobre seu polegar, o desenho de um vajra em seu coração e a imagem de um sino ritual em sua barriga. Teve visões de buddhas, divindades e mestres de linhagem, e recebeu ensinamentos e bênçãos como se fosse de pessoa para pessoa. De seu dente e de seu cabelo vieram relíquias como sinal de seus altos atingimentos da Grande Perfeição. A marca mais importante que deixou para nós está nas palavras do Dharmakaya, a verdade última na forma de suas escrituras e ensinamentos de tesouro descobertos.

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Adaptado de Tulku Thöndup, Masters of meditation and miracles:
Lives of the great Buddhist masters of India and Tibet
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Editado por Harold Talbott. Boston: Shambhala, 1999. Pág. 118-135.