|
No século XIX, apareceram no
Tibet três Lamas de estatura incomum: Jamgön Kongtrül, Chogyur Lingpa
e Jamyang Khyentse Wangpo. Eles ficaram conhecidos por sua profunda
sabedoria e realização, e pelos fatos extraordinários que cercaram
suas vidas.
Em especial, são lembrados como os
iniciadores do movimento Rime — um movimento não-sectário que
trouxe uma grande revitalização para a cultura espiritual do Tibet.
|
|
Esses três grandes Lamas perceberam que as diferentes linhagens do
buddhismo tibetano, apesar de sua diversidade de meios, eram em
essência sustentadas pelos mesmos valores de sabedoria e compaixão.
Sem apego à sua própria formação, eles passaram, então, a recolher
um grande número de tradições espirituais, inclusive algumas que
corriam risco de extinção.
De Jamyang Khyentse Wangpo
(1820-1892), por exemplo, diz-se que recebeu ensinamentos de cerca de
cento e cinqüenta Lamas, sendo detentor de treze diferentes linhagens.
Dentre os cem principais tertöns da linhagem Nyingma, ele é
considerado um dos cinco reis. A seqüência de suas emanações inclui
o Rei Trisong Detsen, Vimalamitra, Longchenpa e Jigme Lingpa.
|
|
 |
Dentre as cinco emanações de
Jamyang Khyentse Wangpo, duas alcançaram especial notoriedade: S.S.
Dilgo Khyentse Rinpoche (1910-1991) foi reconhecido como a emanação do
aspecto da mente e Jamyang Khyentse Chökyi Lodrö (1893-1959), como a
emanação do aspecto da ação.
Jamyang Khyentse Chökyi Lodrö foi sem dúvida um dos maiores mestres que
viveram no Tibet Oriental na primeira metade do século XX. Como a maioria dos
grandes Lamas de sua geração, Jamyang Khyentse Chökyi Lodrö deixou o Tibet
às vésperas da invasão chinesa, tendo transferido sua residência para o
Sikkim, onde veio a falecer em 1959.
Dois anos depois, em 1961, nascia no Butão Dzongsar Khyentse Rinpoche. Aos
sete anos de idade ele foi reconhecido por S.S. Sakya Trizin e S.S. Karmapa
como a emanação de Jamyang Khyentse Chökyi Lodrö. O reconhecimento foi
oficializado em uma cerimônia presidida por S.S. Dilgo Khyentse Rinpoche.
|
É interessante que S.S. Dilgo Khyentse Rinpoche havia tido em Jamyang Khyentse Chökyi Lodrö um de seus principais professores, a quem muito reverenciava. Quando Sua Santidade foi convidado a presidir a cerimônia de entronização, dirigiu-se à fronteira entre o Sikkim e a Índia para saudar a jovem emanação.
Na viagem até Gangtok, a capital do
Sikkim, Sua Santidade levou o menino no colo e lágrimas não pararam de correr de seus olhos. Mais
tarde explicou que aquelas eram lágrimas de alegria e devoção, pois durante o trajeto era como se estivesse vendo não uma criança mas o próprio Jamyang Khyentse Chökyi Lodrö, ali de
novo.
Os papéis de aluno-professor iriam se
inverter mais tarde. Dzongsar Khyentse Rinpoche veio a se tornar um dos alunos mais próximos de S.S. Dilgo Khyentse Rinpoche, de quem recebeu inúmeros ensinamentos e iniciações.
| Quem já teve oportunidade de
ouvir Dzongsar Khyentse Rinpoche provavelmente foi tocado pelo respeito
e devoção com os quais se refere a seu Lama-raiz. Para ele é nítido
que Sua Santidade era um Buddha que não precisava estar nesta dimensão,
mas que aqui esteve movido por sua bondade e pela aspiração de
iluminar o caminho dos seres sencientes.
Dzongsar Khyentse Rinpoche nunca
se refere às suas emanações passadas, exceto para dizer que seu
reconhecimento deve ter sido um engano, já que não enxerga em si
nenhuma das qualidades de seus ilustres predecessores. Ainda assim,
Rinpoche tem orientado sua formação dentro do espírito do movimento
Rime, cultivando os ensinamentos das linhagens Sakya, Nyingma e Kagyü. |
 |
Nessa trajetória também tiveram papel de destaque seus dois avôs. Seu avô materno,
Lama Sönam Zangpo, da
linhagem Drukpa Kagyü, foi um renomado praticante das Seis Yogas de Naropa e talvez o maior
yogi do Butão dos últimos tempos. Seu avô paterno foi S.S. Dudjom Rinpoche, chefe da
linhagem Nyingma e um dos principais professores de S.E. Chagdud Tulku Rinpoche. O próprio pai de Dzongsar Khyentse Rinpoche,
Thinley Norbu Rinpoche, um Lama com atividades muito reservadas, é considerado um dos maiores mestre de Dzogchen vivos hoje.
|
Uma das características mais
marcantes de Dzongsar Khyentse Rinpoche é sua capacidade de conciliar
seu rigoroso treinamento dentro das tradições do buddhismo tibetano
com um livre trânsito pela cultura ocidental. Ao dar ensinamentos, ele
pode citar Dostoievski, Freud ou a Traviata de Verdi. Com palavras
coloridas e um humor travesso, consegue como poucos radiografar a mente
ocidental, usando como contraste a verdade que o Buddha revelou na Índia
do século V a.C.
Talvez por entender que nada pode
aprisionar essa verdade, nem mesmo as formas religiosas, Dzongsar
Khyentse Rinpoche elegeu o cinema como um forte veículo de sua
manifestação. Hoje ele é também um cineasta aclamado.
|
Certa vez, S.S. Dilgo Khyentse Rinpoche falou a Dzongsar Khyentse Rinpoche a propósito de haver quem falasse mal ou bem dele. "Não se preocupe. Lembre-se sempre que, quando existir uma pessoa que não gosta de você, ou que pense que você é maluco, existirão outras cem pessoas que gostarão de você. De forma similar, sempre que haja uma pessoa que goste de você, não deveria ficar muito
excitado porque existirão outras cem pessoas que não te suportarão." E rematou Dzongsar Khyentse Rinpoche, anos mais tarde: "Por isso, gostar e desgostar é completamente irrelevante."
Om Svasti, sol
inteiramente luminoso da sabedoria de Manjushri —
Os raios de sua compaixão inata que tudo permeia expandem-se ilimitadamente
Com sua energia e poder magníficos, nutrindo os lótus dos ensinamentos e
dos seres.
Possam seus três segredos sublimes permanecer sempre firmes!
|