dilgo khyentse tashi paljor, pema drubwang dongag lingpa · amor, compaixão e bondade

Todos os seres dos seis reinos cuidaram de vocês como seis pais;
Ó pessoas de Tingri, diante deles cultivem seu amor e compaixão.
— dos Cem Versos de Conselho de P'hadampa Sangye

O número de seres é ilimitado como o espaço, mas esta infinidade nos escapa. Preferimos nos confinar a alguns poucos conhecimentos que fabricamos em nosso vale ou cidade. Gostamos de certas pessoas, odiamos outras e com resto não nos importamos. Esta percepção de seres, falsificada e limitada, constantemente faz surgir o apego, a aversão ou a indiferença. Assim acumulamos o karma pelo qual o samsara é perpetuado.

Se fôssemos menos cegos, se em um olhar pudéssemos entender a corrente infinita de nossas vidas, perceberíamos que não há um único ser nesta terra que não tenha sido nossa mãe ou nosso pai — não apenas uma vez, mas muitas vezes. É por isto que devemos cultivar o amor e a compaixão por todos seres, assim como os seres iluminados fazem. Acima de tudo devemos, desde as profundezas de nosso coração, aspirar a estabelecer todos os seres no estado búddhico, sem abandonar nenhum. O mérito acumulado com esse voto está em proporção com o número de seres com o qual concerne.

O fundamento de tudo isto é a bondade. Conforme o Buddha disse ao rei Prasenajit, "Ó grande rei, seus trabalhos são vastos e numerosos. Onde quer que esteja sentado, onde quer que marche, coma ou esteja em repouso, possam todos os seus atos, leis e julgamentos ser inspirados pela bondade amorosa. Deste modo, você vai conferir benefícios ilimitados sobre seus súditos e acumular mérito ilimitado para si mesmo."

O que queremos dizer com "bondade amorosa"? Servir nossos pais com devoção e ternura é certamente uma prova de um bom coração, mas nossos pais são apenas dois dentre um número ilimitado de seres. Ter um bom coração é considerar todos os seres — não apenas nossos amigos, mas também os inimigos e os estranhos — como nossos pais, e nos livrar de todo ódio, de todo egoísmo e de toda indiferença.

Vamos pensar na pessoa da qual sentimos a maior forte animosidade como se ela fosse a mais querida para o nosso coração. Se sentirmos um apego egoísta diante de alguém próximo, consideremos isto como um encontro intangível em um sonho, uma ilusão mágica vazia de qualquer realidade.

Um presente generoso deve ser algo que realmente beneficie o recebedor. Mas no que consiste o seu bem-estar? Dar comida, roupa, abrigo e afeição é inquestionavelmente o sinal de um bom coração, mas essa bondade ainda sim é limitada. Devemos visar ajudar os seres de um modo ilimitado e apenas o Dharma permite isso.

Devemos ver as coisas desse modo para que o ímpeto de beneficiar os seres nos inspire constantemente, e para que a bodhichitta — o desejo de atingir a iluminação pelo benefício de todos os seres — desvele-se totalmente em nós. Devemos ajudar os seres sencientes de muitos modos, direta e indiretamente, em nossas ações e em nossas preces. Por exemplo, podemos pronunciar os nomes dos buddhas e bodhisattvas sobre um formigueiro, aquário ou aviário, com o desejo de que "Possam estas miríades de animais ser poupadas do renascimento nos reinos inferiores do samsara".

Os atos não podem ser julgados pela sua aparência. Seu valor depende de nossa atitude interior. Atos de altruísmo espetacular podem ser realizados com uma motivação egoísta. Podemos, por exemplo, esperar receber reconhecimento ou ser retribuído com uma recompensa kármica em vidas futuras. Essa motivação deteriora as qualidades de nossas ações. Mantenha em mente que o verdadeiro caminho do Mahayana é o amor e a compaixão, imbuídos com o voto de levar todos os seres à liberação.

A bodhichitta tem dois aspectos, o absoluto e o relativo. A bodhichitta absoluta é a realização da vacuidade. Não acessível à mente do noviço, ela amadurece lentamente com o passar do tempo. A bodhichitta relativa é o pensamento e o engajamento com bondade amorosa e compaixão. Uma prática sincera e perseverante da bodhichitta relativa gradualmente transformará nossa mente e a preparará para a realização da bodhichitta absoluta.

Um ser iluminado que realizou a vacuidade não tem mais pensamentos comuns. Ele ou ela não pensa, "Aqui está um ser que implora a mim, eu devo ajudá-lo", ou "Este não reza, ele pode esperar." A compaixão e a vacuidade — que é a sua fonte — são onipresentes e universais. Essa compaixão ignora a parcialidade, o apego e a aversão. É como o sol que é refletido em cada superfície d'água, grande ou pequena, límpida ou turva. É a radiância espontânea da vacuidade, livre de esforço, livre de conceitos, além da descrição.

voltar

Adaptado de Dilgo Khyentse, The Hundred Verses of Advice
of Padampa Sangye
. Traduzido pelo Padmakara Translation
Group. Kathmandu: Shechen, 2002. Pág. 48-50.