Votos e Engajamentos Secretos

Para compreender bem os engajamentos secretos ligados à iniciações do Vajrayana, é necessário situá-los no contexto geral dos votos buddhistas.

Votos de refúgio

Aqueles que seguem os ensinamentos do Buddha engajam-se na via fazendo, em primeiro lugar, os votos de Refúgio, pelos quais se colocam sob a proteção das Três Jóias: o Buddha, o Dharma e a Sangha.

Fiéis leigos e monges

Em seguida, é possível, se isto corresponde a uma aspiração pessoal, fazer os votos de fiel leigo (sânsc.  upasaka, tib. genyen). Os votos, em número de cinco — não matar, não roubar, não mentir, evitar a má-conduta sexual, para a vida inteira ou por um período definido de alguns meses ou de alguns anos.

Esses votos não constituem uma obrigação. Em vários países buddhistas, homens e mulheres, sem fazê-los formalmente, esforçam-se em respeitar o ideal ético que eles representam, evitando os dez atos considerados como negativos, e praticando os dez atos positivos. Ao longo dos tempos, chegou-se mesmo a ver com freqüência os reis que governavam esses países preocupados em integrar em sua legislação o essencial dessa ética.

Um grau mais elaborado de fiel leigo consiste em complementar a abstenção da má-conduta sexual pela castidade. O praticante é então chamado brahmacharya (tib. tsangchö genyen).

Seguem-se os votos monásticos propriamente ditos: a ordenação menor (sânsc. shramanera, tib. getsül) e a ordenação maior (sânsc. bhikshu, tib. gelong).

Conta-se tradicionalmente um total de sete ordenações diferentes permitindo observar uma ética perfeita: upasaka homens e mulheres, shramanera homens e mulheres, bhikshu homens e mulheres, aos quais se acrescentam as "estudantes" (tib. gelopma) representando um tipo de voto reservado às mulheres.

Votos definitivos ou temporários

No Tibete, os votos monásticos — shramaneras e bhikshus — eram tomados até a morte. Não se imaginava que uma pessoa que trajasse a veste de monge pudesse abandoná-la durante sua vida. Na Birmânia, na Tailândia, no Ceilão e em outros países buddhistas, em contrapartida, os mesmos votos podem ser feitos para a vida toda, mas também por períodos limitados, de algumas semanas a alguns meses. Essas duas abordagens não são contraditórias, na medida em que todas as duas parecem ter sido previstas pelo próprio Buddha.

Na Tailândia, o costume dos votos monásticos temporários chegou inclusive a ser institucionalizado. É um dever de cada jovem, homem ou mulher, consagrar ao menos alguns meses de sua existência à vida monástica, tomando votos que lhe permitam viver em um mosteiro. No final desse período, aqueles que assim o desejam podem renovar os votos e adotar definitivamente o estado monástico. Caso não, os jovens, homens e mulheres, retornam ao estado leigo e constituem família. Esse período monástico é visto como uma prova da qualidade do indivíduo, tanto que o rapaz ou a moça que não se submetem a ele, têm dificuldades para se casar, pois se pensaria que não possuem as qualidades morais e o rigor necessários para dirigir uma família.

Importância dos votos

Aquele que recebe a ordenação maior deve respeitar 253 regras referentes à vida do bhikshu; aquele que toma os votos de bodhisattva deve colocar em prática os preceitos que decorrem deles; quanto aos engajamentos do Vajrayana, eles estão conectados com as iniciações durante as quais eles são dados. 

Os votos de liberação individual constituem de algum modo a base sobre a qual se desenvolve a prática dos ensinamentos do Buddha. Por essa razão, eles se revestem de uma grande importância e são às vezes vistos como indispensáveis para abordar outros níveis. Assim, os votos de bodhisattva são transmitidos por intermédio de duas linhagens, a linhagem da "atividade vasta" e a linhagem da "sabedoria profunda". No âmbito da primeira, os votos de bodhisattva só podem ser recebidos se tiverem sido feitos previamente votos de monge ou de brahmacharya. No contexto do Vajrayana a importância dos votos de liberação individual é também sublinhada. O tantra de Kalachakra, por exemplo, declara que, para receber a iniciação de Kalachakra, a melhor condição é ser bhikshu, ou shramanera, sendo este estado, ele mesmo, superior àqueles que não implicam nenhum voto.

Os engajamentos sagrados do Vajrayana

O Vajrayana também implica votos: os engajamentos sagrados (sânsc.  samaya, tib. damtsig) ligados às iniciações.

Uma iniciação veicula em si mesma uma grande força, uma poderosa bênção e um importante movimento de compaixão. O benefício que o discípulo retirará da iniciação depende em grande parte, porém, da observação dos engajamentos sagrados que a acompanham.Diz-se que se ele os respeita, subirá em direção à liberação, enquanto que se ele os transgredir, cairá nos mundos inferiores. Para facilitar a compreensão da importância crucial desses engajamentos no Vajrayana, diz-se que o adepto desta via é semelhante a uma serpente dentro de um bambu. Ela só tem duas possibilidades, subir ou descer, todas as saídas para os lados estando fechadas. Do mesmo modo, o praticante do Vajrayana, dependendo do seu respeito ou da transgressão aos samayas das iniciações recebidas, só pode "subir" ou "descer" sem que lhe seja dada uma terceira via.

De um certo ponto de vista, pode parecer impossível seguir os engajamentos do Vajrayana por serem muito numerosos. A ordenação monástica maior já requer o respeito a um número relativamente importante de regras: 253 para os monges (bhikshu) e 440 para as monjas (bhikshuni); mas alguns textos tântricos sustentam que não existiriam menos de dez milhões e cem mil samayas ligados à prática do Vajrayana! Entretanto, quando se compreende bem a função do Vajrayana e mais ainda, quando se está verdadeiramente engajado em sua prática, as coisas parecem muito mais fáceis. De fato, diz-se que a identificação de nossas "três portas" aos "três vajras" da divindade basta para o respeito exato dos dez milhões e cem mil samayas. Isto significa que todos os engajamentos são mantidos na medida em que assimilamos nosso corpo ao da divindade, nossa palavra ao mantra e nossa mente à absorção meditativa (sânsc. samadhi).

Drugpa Kunleg evita uma iniciação

Os samayas são suficientemente importantes para que não sejam considerados superficialmente.

Relata-se a esse respeito a seguinte história de Drugpa Kunleg. Uma ocasião em que ele se encontrava na região de Lhassa, um benfeitor disse-lhe que, nos próximos dias, um importante lama iria dar uma iniciação e perguntou-lhe se gostaria de ir até lá.

— Certamente —, respondeu Drugpa Kunleg —; é uma excelente idéia.

Depois, reconsiderando, acrescentou:

— Um detalhe, entretanto: seria preciso saber se o lama irá exigir o respeito aos samayas. Nesse caso é melhor que eu não vá. 

Assim, enviaram alguém com a missão de questionar o lama.

— É claro que será preciso respeitar os samayas — exclamou o lama.

— Nesse caso — disse Drugpa Kunleg quando lhe deram a resposta — , creio que não irei a essa iniciação.

Os quatro samayas principais

Idealmente, como vimos, seria preciso conhecer e respeitar dez milhões e cem mil samayas. Todavia, na prática, considera-se uma lista de quatorze samayas maiores, rompidos pelas quatorze transgressões correspondentes. Esta lista é classificada por ordem de importância; nos contentaremos de considerar aqui os quatro primeiros samayas, que são os essenciais:

  • manter sempre uma atitude de respeito e confiança diante do lama do qual recebemos uma iniciação e nunca adotar uma posição crítica ou negativa com relação a ele;
  • não se colocar em contradição com o ensinamento do Buddha;
  • não entrar em conflito com os irmãos ou irmãs vajras;
  • não abandonar o amor e a compaixão.

Primeiro samaya

Examinemos, em primeiro lugar, a relação com o mestre. Trata-se, de modo geral, de um ponto extremamente importante, mesmo fora do contexto do Vajrayana. Diz-se que, a partir do momento em que se receba, mesmo que seja apenas uma palavra de instrução do dharma, deve-se considerar aquele que a ofereceu com muito respeito e não ter nenhuma visão negativa sobre sua pessoa. Na medida em que se alimentar essa visão negativa, se será levado a renascer cem vezes como cachorro e depois a renascer em existências humanas muito dolorosas. No Vajrayana, o engajamento de respeito frente ao lama é ainda mais rigoroso. Todo olhar crítico sobre um mestre do qual recebemos uma iniciação deve ser totalmente afastado. Mesmo quando acontecer de vermos um defeito na pessoa do mestre, devemos pensar que, de fato, é apenas nossa mente que projeta seus próprios defeitos, do mesmo modo que se nosso rosto estiver sujo, ele se refletirá sujo no espelho.

Exemplos perfeitos de que um discípulo deve estar pronto a aceitar de seu mestre encontram-se na maneira pela qual Naropa submeteu-se a provas junto a Tilopa, ou Milarepa junto a Marpa. Sem dúvida, seria difícil para os discípulos ordinários seguirem uma tal conduta, mas é preciso pelo menos que nos esforcemos para colocar em prática com o melhor de nossas capacidades os ensinamentos que recebemos. O lama que dá iniciações e que ensina, o faz na esperança de que aquele que praticar poderá purificar-se de todo véu, liberar-se do samsara e atingir o estado de Buddha. Será suficiente se nos esforçarmos em não ir contra seu ensinamento e se respeitarmos seu corpo, sua fala e sua mente.

Segundo samaya

Em segundo lugar, pode ser difícil nunca entrar em contradição com o ensinamento do Buddha, na medida em que este nos pede para rejeitar completamente toda atividade negativa e para nos engajarmos completamente na atividade positiva; mas não estaremos transgredindo esse samaya se pelo menos evitarmos os atos negativos mais graves e se realizarmos os atos positivos mais importantes.

Terceiro samaya

A terceira transgressão consiste no desentendimento com nossos "irmão e irmãs vajra". Alguns textos consideram esta noção de modo extremamente amplo, visto que, apoiando-se no fato de que tecemos em nossas vidas passadas conexões com todos os seres, consideram que todos os seres são nossos irmãos e irmãs vajra, o que torna o respeito ao samaya difícil. Entretanto, em geral, limitamos a idéia de irmãos e irmãs vajra a um campo muito estreito que se reduz a alguns círculos cada vez mais íntimos na seguinte ordem:

  • todos aqueles que seguem o ensinamento de Buddha, independentemente de sua forma;
  • aqueles que seguem o ensinamento do Vajrayana, qualquer que seja sua linhagem;
  • aqueles que têm o mesmo mestre que nós — dizemos então ter o mesmo "pai" — ou ainda aqueles que receberam a iniciação de uma mesma divindade — a mesma "mãe";
  • aqueles que receberam do mesmo mestre que nós a iniciação da mesma divindade; somos nesse caso filhos do mesmo "pai" e da mesma "mãe".

É principalmente às duas últimas categorias que se aplica o terceiro samaya. Respeitá-lo consiste em evitar os conflitos, os desentendimentos e os rancores pelos irmãos e irmãs vajra compreendidos nesse sentido, e esforçar-se para manter relações harmoniosas e de ajuda mútua.

Quarto samaya

O quarto samaya exige que tenhamos amor e compaixão por todos os seres. Esse engajamento é idêntico ao votos de bodhisattva, mas o Vajrayana o considera com uma insistência ainda mais forte. Portanto, é preciso que reflitamos no fato de que todos os seres foram em nossas vidas passadas nosso pai ou nossa mãe, desejar que todos possam ser liberados do sofrimento e atingir a felicidade definitiva do Despertar.

Como Atisha mantinha seus votos

Atisha, o grande mestre que veio ensinar no Tibete, explicou um dia a seus discípulos a maneira como respeitava seus votos:

— Depois que tomei meus votos de monge, respeitei escrupulosamente todas as regras que eles implicam, sem desrespeitá-las uma única vez. Eu me dou conta de que pelo menos uma vez por dia ocorre-me de ter um pensamento ou realizar uma ação que vai contra os votos de bodhisattva, porém, nunca deixo passar mais do que algumas horas para retomar meus votos. Quanto aos engajamentos do Vajrayana, se os considerarmos em detalhe, creio que os transgrido quase que constantemente. É como um vento de areia batendo sobre uma placa de metal polido; esforçamo-nos em vão para limpar a placa, a areia a se depositar nela constantemente.

Os discípulos ficaram muito transtornados com as implicações dessa última afirmação. Pareceu-lhes que, desde então, engajar-se na prática do Vajrayana era muito mais perigoso que proveitoso, que haveria mais chance de ir para o inferno do que atingir o Despertar.

— Não — retomou Atisha — , pois o Vajrayana compreende meios hábeis, vindos da compaixão de Buddha, que permitem utilizá-lo apesar das inevitáveis infrações aos samayas que somos levados a cometer. Diz-se, por exemplo, que se recitarmos pelo menos vinte e uma vezes por dia o mantra de cem sílabas de Vajrasattva (Dorje Sempa), isto nos purificará dessas infrações e preservará a eficácia do Vajrayana.

Kalu Rinpoche. Ensinamentos Fundamentais do Budismo Tibetano: Budismo Vivo, Budismo Profundo, Budismo Esotérico. Tradução de Célia Gambini, revisão técnica de Antonio Carlos da Ressurreição Xavier. Brasília: Shisil, 1999. Para adquirir o livro, clique aqui.


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