O Refúgio e as Três Jóias

A fé é o que nos permite progredir energicamente ao longo do caminho. É um estado mental que surge da compreensão das qualidades das Três Jóias. Quando ouvimos falar do Buddha (ou iluminação) das qualidades do Dharma (os benefícios da prática) e quando percebemos a ajuda que obtemos da Sangha (a comunidade daqueles que praticam e transmitem o Dharma), a fé e a aspiração surgem dentro de nós.

Há três formas principais de fé:

  • a fé da admiração, ou do maravilhamento, acompanhada pela descoberta das qualidades do Buddha e das Três Jóias;
  • a fé da aspiração, que é baseada na fé de admiração e que consiste da inspiração de trilhar o caminho;
  • e a fé da certeza, que ocorre quando ganhamos uma experiência autêntica da verdade dos ensinamentos.

Então, o caminho começa baseado em um tipo de fé nas Três Jóias: a possibilidade de se tornar iluminado e de realizar suas qualidades, ou o próprio progresso espiritual, nos inspiram e maravilham. Desejamos avançar ainda mais e reconhecemos as vantagens de fazermos isso. Mesmo que não soubéssemos se os ensinamentos que ouvimos estão corretos ou não, ainda sentimos suas qualidades e apreciamos o seu valor. Isso é o primeiro tipo de fé: a fé da admiração, da inspiração ou do maravilhamento.

Este tipo
de fé então nos inspira a tentar um primeiro passo no caminho. Abrindo a porta para o Dharma, percebemos a verdade de alguns de seus aspectos, e nossa certeza aumenta. Nossa aspiração de nos tornarmos iluminados gradualmente se aprofunda, junto com o entusiasmo diante dos ensinamentos (ou Dharma) e do Buddha. Este é o segundo tipo de fé, ou fé da aspiração. Com isso, tomamos a iluminação como meta, e o Dharma como caminho para a sua realização. Depois, como a prática profunda gradualmente aumenta a nossa consciência, ao invés de apenas pensarmos que o estado búdico e os ensinamentos são maravilhosos e úteis, e de nos esforçarmos para praticar, nós experimentamos diretamente que eles são corretos e autênticos; sua verdade é validada. Este é o terceiro tipo de fé, ou fé da certeza.

Buddha

A natureza pura da mente (a vacuidade, a claridade e o potencial ilimitado) sempre tem estado conosco, apesar de estar mascarada por véus que obscurecem suas qualidades. Os buddhas e grandes bodhisattvas purificaram ou desvelaram suas mentes, permitindo que todas as qualidades inatas da mente búdica floresçam totalmente, como se não houvesse nuvens ou cerração, quando o céu está aberto, brilhante e banhado de luz do sol. O "Buddha raro e sublime" é a realização absoluta da mente como sendo completamente pura e totalmente desabrochada; este é o exemplo concreto que usamos para nos referir ao Buddha Shakyamuni e a todos aqueles que chegaram a este estado depois dele.

Dharma

Um buddha é livre de todo condicionamento doloroso e plausivelmente põe em prática tudo o que é benéfico para os seres. Essa atividade iluminada se expressa de muitas maneiras, mas primariamente através de palavras e ensinamentos sobre o Dharma de Buddha. A fala de um buddha é dotada de qualidades que a mente convencional não pode compreender. Ela faz com que uma chuva de ensinamentos de todos os veículos caia sobre os seres, em uma língua compreensível a cada ser e adequada à inteligência, faculdades, aspirações, potencial e limitações de cada ser. Esta fala harmoniosa é grande no início, no meio e no final do caminho. Vasta e profundo como o oceano, ela beneficia continuamente os seres deste mundo e de muitos outros universos, em tantos reinos quanto o número de seres presos no samsara. A fala do Buddha é o "Dharma raro e sublime", o qual tem duas facetas: o Dharma das escrituras, que nos mostram o caminho para a iluminação, e o Dharma da realização, que é a experiência prática e genuína dos significados do Dharma escrito.

Sangha

Aqueles que estudam, praticam e transmitem as palavras e a experiência do Dharma constituem a Sangha (a comunidade de praticantes do Dharma de Buddha). De acordo com o grau de sua realização, podemos distinguir a Sangha superior e a Sangha de seres comuns. A primeira é constituída pelos seres realizados, já libertos do samsara; e a segunda inclui todos aqueles que tomaram votos por seus próprios motivos pessoais, sejam votos Hinayana, Mahayana ou Vajrayana. Estas duas classes juntas constituem a "Sangha rara e sublime".

Tomando refúgio

O Buddha, o Dharma e a Sangha juntos constituem as Três Jóias. Tomar refúgio no Buddha, no Dharma e na naqueles que praticam e transmitem os ensinamentos (a Sangha) é o primeiro voto espiritual, concedido na base da fé que nos dispões diante das Três Jóias e que nos compele a começar nossa jornada neste caminho.

Tomar refúgio cria uma conexão espiritual que, de um lado, nos protege dos medos e ansiedades que possamos ter do sofrimento do samsara (a existência cíclica). Também nos protege dos obstáculos nesta vida e na morte, até que alcancemos a iluminação. Por outro lado, o refúgio nos conduz à iluminação, nos mostrando o caminho e nos guiando ao longo dele. Tomar refúgio até alcançar a iluminação pelo bem de todos os seres é entrar no caminho budista; é a base do Dharma.

Tomamos refúgio:

  • no Buddha, fazendo uma homenagem ao seu exemplo, aspirando realizar o estado que ele atingiu e pedindo sua proteção e guia por todos os seres que permanecem na prisão da existência condicionada;
  • no Dharma, compreendendo seu valor, nos esforçamos com fé no estudo e prática do Dharma;
  • na Sangha, ouvindo com fé e respeito aos ensinamentos que tais pessoas transmitem e praticam para seguirmos seu exemplo.

Tomar refúgio estabelece uma conexão espiritual positiva com as Três Jóias. Envolve-nos com o Dharma e com a prática, mas de modo algum implica rejeitar ou renunciar à fé que possamos ter nas outras tradições. É a base para trilharmos o caminho para a liberação; nos protege do que possa nos fazer deixar o caminho, assim como nos protege das intenções e ações que se opõem ao caminho. Quando verdadeiramente tomamos refúgio, nenhum obstáculo pode nos fazer tropeçar; não iremos mais renascer nos três reinos inferiores; e finalmente, por causa do nosso voto de refúgio, a transmigração no ciclo de renascimentos eventualmente virá a um fim.

Kalu Rinpoche. Luminous mind: the way of the Buddha. Compilado por Denis Töndrup,
traduzido por Maria Montenegro, prefácio de S.S. o Dalai Lama.
Boston: Wisdom, 1997. Pág. 105-107.


voltar para a homepage