O Grande Navio da Liberação

Imensuráveis aspirações ligadas ao ciclo de ensinamentos da gloriosa Shangpa Kagyü, compostas por Kyabje Kalu Rinpoche

1. Invocação

Vajradhara e as duas dakinis de sabedoria inata,
Khyungpo Neljor, lamas-raiz e da linhagem,
Chakrasamvara, Hevajra, Guhyasamaja, Mahamaya,
Vajrabhairava, Hayagriva e os outros yidams,

Dakinis das cinco classes, Mahakala e Remati,
Os quatro tenentes e a miríade de protetores vinculados por juramento,
Possam as Três Jóias e as Três Raízes, todos os refúgios,
Olhar para mim a partir do reino do invisível.

Pelo poder da verdade de seu amor compassivo
E pelo poder de todo o bem feito nos três tempos,
Por favor realizem rapidamente estes desejos
Nesta vida e naquelas que virão.

2. As Preliminares Comuns

Esta preciosa vida humana,
Dotada de lazer e de fortuna, tão difícil de obter —
Possa eu não a desperdiçar, mas sim extrair a sua essência.

Sabendo que ela está sujeita à mudança,
Que ela é impermanente e instável,
Possa eu permanecer centralizado no presente e não desperdiçar qualquer tempo.

Convencido dos resultados de todas as ações,
Boas ou ruins, grandes ou pequenas,
Possa eu manter a disciplina do karma.

Percebendo o sofrimento
Dos três mundos condicionados,
Possa eu não ter apego às coisas do samsara.

3. Refúgio

Agora, nas vidas futuras e no estado intermediário,
Possa eu sempre estar sob a proteção
Das Três Jóias e das Três Raízes.

4. Bodhichitta

Diante de todos os seres-mãe dos seis reinos,
Tão grande em número quanto o espaço em vastidão,
Possa eu, das profundezas do meu ser,
Despertar o amor e a compaixão.

5. As Condições Favoráveis

Tendo juntado todas as condições favoráveis,
Possa eu praticar sem distração em um eremitério
E atingir a meta das experiências e realizações.

Em todas as minhas vidas,
Possa eu ser guiado pelos lamas sublimes,
Dotados com todas as boas qualidades,

E diante de meu lama-raiz, a manifestação viva de todos os buddhas,
Possa eu, das profundezas do meu coração,
Gerar a genuína devoção.

6. O Estágio de Geração

Possa a mandala da divindade, inata e sempre presente, ser reconhecida;
Possa a sua aparência luminosa ser estável,

E possa eu ver, assim que praticar,
O lama, o yidam, a dakini ou o dharmapala.

7. Os Cinco Ensinamentos Dourados

Pela yoga do calor interior,
Possam o êxtase e o forte calor arder no corpo
E possa a meditação do êxtase e da vacuidade
Ser estável na mente.

Pela yoga do corpo ilusório,
Possa ser erradicada a ilusão
Que considera como sendo reais
Os sonhos e as alucinações que são todos os fenômenos.

Na yoga do sonho, à noite, sem esforço,
Dentro do sonho lúcido,
Possa eu praticar o treino, a multiplicação, a projeção,
A transmutação e a descoberta aparência objetiva.

Pela yoga da clara luz,
Nas trevas da ignorância do sono,
Possa eu reconhecer as claras luzes
Superficiais e profundas.

Possa eu ter maestria
Sobre as yogas de transferência da consciência
Do dharmakaya, do lama, do yidam,
Da clara luz e dos reinos celestiais.

Pela yoga do bardo,
Pelas práticas da aparência espontânea
Da não-migração dos três corpos e assim por diante,
Possa eu atingir os três corpos no estado intermediário.

Os quatro obstáculos, autoliberados,
Os quatro corpos, espontaneamente presentes;
Possa o estado essencial do Mahamudra
Ser realizado nesta vida.

Pelas práticas de integração, baseadas na devoção ao lama,
Sobre as formas como sendo divindades, sobre os sons como sendo mantras
E sobre as aparências como sendo ilusões e sonhos,
Possam todas as situações se tornar parte do caminho.

Com as veneráveis dakinis,
Que desfrutam do espaço que é o êxtase e a vacuidade,
Possa eu, na realização da geração e da perfeição,
Viajar pela alegria celestial.

Vendo que o corpo em si mesmo é inanimado
E que a mente é livre do nascimento e da morte,
Possa eu realizar fruto do caminho,
O estado que é imortal e que está além da migração.

8. A Atividade do Protetor

Da visão perfeita do rosto do lama protetor,
Possa ser atingida a realização suprema
Das quatro atividades.

Pelas atividades de pacificação,
Possam todos os seres abandonar o sofrimento
E se tornar buddhas.

Pelas atividades do aumento, possam todas as qualidades, vida longa,
Bênçãos, poderes, experiências, realizações e assim por diante
Jorrar como as enchentes do verão.

Pelas atividades do poder,
Possam todas as forças do mundo tríplice e da existência tríplice
Se juntar pelo bem sublime dos ensinamentos e dos seres.

Pelas atividades da destruição,
Possam os poderes do mantra irado
Arder para liberar o inimigo que acumula os dez erros.

9. As Seis Perfeições

Possam ser purificadas todas as más ações que tenhamos feito,
Tanto aquelas que vão contra a disciplina natural
Quanto aquelas que vão contra os votos.

Por dar bens materiais, Dharma e proteção,
Possa eu estabelecer todos os seres na felicidade.

Possa eu sempre ser capaz de manter todos os meus votos,
Aqueles da liberação pessoal, os votos de bodhisattva
E os samayas do Vajrayana.

Com paciência, possa eu ser capaz de suportar
Meu corpo sendo cortado em mil pedaços
Mesmo durante cem éons, para beneficiar um único ser.

Com um entusiasmo igual ao do Buddha Shakyamuni,
Possa eu praticar, pelo bem de todos,
O caminho sublime da liberação.

Através das meditações estabilizadora e analítica,
Possa a experiência do dharmakaya, a mente si, a clara luz,
Livre de todos os conceitos, ser firme e imutável.

E possa eu, como Manjushri, com a sabedoria transcendente,
Conhecer perfeitamente todos os fenômenos
Do samsara e do nirvana.

Possa eu atingir o próprio final das instruções que pratico,
Sejam do sutra ou do tantra,
Da tradição antiga ou das novas.

10. Aspirações pela Atividade do Bodhisattva

Possa eu sempre ter um belo corpo e uma bela voz,
Longa vida, fama, poder e riqueza.

Pela graça dos ensinamentos do Buddha em geral
E daqueles da linhagem Shangpa,
Possa eu ser como os seis ornamentos do mundo
E como os fundadores dos oito veículos de prática.

Quando morrer, possa eu, sem a interrupção do essencial,
Guiar os seres com luzes de arco-íris e preciosas pílulas de relíquia.

Ao deixar este mundo, possa eu renascer em Sukhavati,
Na presença de Khyungpo e de seus filhos,
E obter de uma vez os dez estágios,
Alcançando a iluminação perfeita e insuperável.

Não permanecendo nos extremos do vir-a-ser ou do permanecer,
Possa eu, pelo bem de todos os seres, me tornar igual
A todos os vitoriosos e seus filhos.

E que todos aqueles que possam ter uma conexão comigo
Através do ver, do ouvir, do pensar, do contatar, do nutrir ou do Dharma,
Possam formar o meu primeiro círculo de discípulos.

Possa eu fazer cair sobre eles uma chuva
De ensinamentos Mahayana e Vajrayana.
Possa o meu próprio ser finalmente estabelecer
Todos os seres no estado de Buddha.

Enquanto não estivermos estabelecidos neste estado,
Possa não haver obstáculos, nem por um momento,
À nossa prática de Dharma.

Possam todos os seres dos seis reinos
Ter minhas bondades e virtudes e,
Tendo as obtido, possam eles ser felizes para sempre.

Possam todos os sofrimentos, emoções negativas
E obscurecimentos dos seres se dissolver em mim,
Para que eu experiencie o sofrimento ao invés deles.

E pelos poderes que resultam disto,
Possa nenhum deles experienciar mais qualquer sofrimento.

11. Dedicação

Pela graça das Três Jóias e das Três Raízes,
Pelo poder das dakinis, dos dharmapalas e dos outros protetores,
Pela verdade imutável do absoluto
E pelo poder do infalível surgimento dependente,
Possam todos estes desejos ser realizados rapidamente,
De acordo com seus pensamentos.

Possam todas as suas virtudes ser concedidas sobre minhas mães do passado,
Tão grande em número quanto o espaço em vastidão.
Livres de todo o sofrimento, dotados com o êxtase supremo,
Possamos todos nós atingir juntos o estado de Buddha.

Esta prece foi dada no ano do dragão-macho da terra, 1928, por aquele que está no final da gloriosa linhagem Shangpa Kagyü, Karma Rangjung Künkhyab. Possa ela resultar em grande benefício para todos os seres! Mangalam.

Kalu Rinpoche. Luminous mind: the way of the Buddha. Compilado por Denis Töndrup,
traduzido por Maria Montenegro, prefácio de S.S. o Dalai Lama.
Boston: Wisdom, 1997. Pág. 261-266.


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