Mente,
Elementos e Agregados
Hoje, iremos abordar uma prática
de shine, chamada "prática especial". Para
compreender seu objetivo, é necessário, inicialmente, saber como a
mente funciona.
A existência humana é caracterizada por uma grande capacidade de
compreensão e de inteligência, que lhe dá uma superioridade sobre
outras formas de seres. Entretanto, se nós não compreendermos o
que é a mente, surgem numerosas concepções errôneas: pensamos,
por exemplo, que a mente não poderia existir na ausência do corpo
ou ainda que as vidas passadas e futuras não existem. Todavia,
desde tempos sem começo, nossa mente encarnou-se em milhões de
existências, e, sob formas múltiplas, continuará a vagar no
samsara enquanto não atingirmos o estado de Buddha.
Hoje, veremos como os cinco elementos — terra, água, fogo, ar, espaço
— são componentes não apenas de nosso corpo e do mundo exterior,
mas também fazem parte da natureza da mente.
Os elementos no corpo e no
universo
Em nosso corpo, os cinco
elementos são facilmente identificáveis:
- a carne, os ossos e os
outros constituintes sólidos formam o elemento terra;
- o sangue, a linfa e os
diferentes líquidos, o elemento água;
- o calor do corpo, o
elemento fogo;
- a respiração, o elemento
ar;
- os diferentes orifícios,
os poros da pele, as cavidades, etc., o elemento espaço.
A irradiação natural desses
cinco elementos exprime-se, além disso, no mundo exterior:
- o elemento terra
corresponde ao estado sólido da matéria;
- a água, ao estado líquido;
- o fogo, ao estado ígneo;
- o ar, ao estado gasoso;
- o espaço, ao vazio no
qual se situam os estados precedentes.
Os elementos na mente
Na mente, os cinco elementos
correspondem às suas diferentes características:
A mente é vazia: ela não pode ser definida em termos de forma, de
cores ou de volume. Sendo sem limite, ela é, assim, semelhante ao
elemento espaço. Um dos sinais de sua vacuidade é que ela pode
conter o pensamento de todas as coisas próximas ou distantes,
grandes ou pequenas.
A mente, em segundo lugar, é claridade. Do mesmo modo que a luz do
sol torna visível o mundo exterior, a mente, por sua claridade,
possui a capacidade de conhecer todas as coisas, assim como o poder
dinâmico graças ao qual se, por exemplo, pensarmos na América, na
Índia ou em outro país, poderemos, efetivamente, formar a imagem
mental desses países. Essa claridade é semelhante ao elemento fogo
que proporciona a luz.
A mente pode, ademais, ser comparada a um vasto mar ou a um grande
rio, porque não há nela solução de continuidade; ela existe
desde e para sempre. A ausência de descontinuidade da claridade e
da vacuidade da mente corresponde ao elemento água.
Talvez tenhamos, neste momento, a mente feliz; mas é possível que,
num instante, ela se torne infeliz; ela pode estar tanto tranqüila
como agitada. As mudanças que se manifestam na claridade e na
vacuidade da mente correspondem ao elemento ar, à versatilidade do
vento.
Pelo jogo dos quatro elementos que são o espaço, o fogo, a água e
o ar, uma grande variedade de emoções e de pensamentos se
manifestam. Assim, a mente é como uma base, permitindo todas as
manifestações agradáveis ou desagradáveis. Ela é semelhante ao
elemento terra, fundamento sólido sobre o qual cresce a vegetação
e vivem os animais e os homens.
A mente não é limitada por
um corpo
Três características
fundamentais definem a mente: a vacuidade, a claridade e a inteligência
sem obstrução. Quando a mente assim definida é pura, ela é ainda
chamada "potencial de consciência primordial"; quando é
obstruída pelos quatro véus, torna-se "potencial de consciência
individualizada" e dá lugar à emergência de sete outras
consciências que funcionam de modo dualista: as consciências
visual, auditiva, olfativa, gustativa, tátil, mental e perturbada.
Algumas pessoas pensam que as oito consciências não podem
funcionar fora do corpo. Entretanto, sendo da própria natureza da
mente, elas são operantes enquanto houver mente. O exemplo do sonho
permite compreendê-lo: as oito consciências fazem com que, de
fato, em um contexto diferente do corpo e dos órgãos físicos,
possamos ver, ouvir, etc. Este mesmo tipo de funcionamento intervém
quando estamos no bardo, após termos abandonado o corpo no momento
da morte: todos os tipos de aparências, freqüentemente
assustadoras, manifestam-se então e percebemos formas, sons, cores,
embora não mais tenhamos organismo físico.
Um castelo de areia
Como podemos assegurar que a
mente é exatamente como acabamos de descrevê-la? Quando recebemos
esta descrição de um lama ou de um instrutor espiritual, podemos
pensar: "Sim, sem dúvida é assim". Mas não é
suficiente: é preciso dar um passo suplementar e verificar por nós
mesmos, por meio da meditação.
Para fazer isso, num momento calmo, isolamo-nos, sentamo-nos e
colocamos o corpo em uma posição bem reta. Deixamos simplesmente a
mente repousar em si mesma, observando-se sem distração. Depois,
perguntamos: A mente é mesmo vazia? É clara? É ou não composta
pelos cinco elementos? Tentamos encontrar as respostas por nós
mesmos. Se, meditando assim, descobrirmos que a mente não é vazia,
não é clara, que é obstruída, que não é composta pelos cinco
elementos, poderemos concluir que os ensinamentos a respeito são
errôneos. Se, em contrapartida, constatarmos que efetivamente a
mente é clara, não obstruída, da natureza dos cinco elementos,
ficaremos convencidos da veracidade da descrição.
Por esta visão e por esta compreensão da mente, todas as
atividades do mundo e todos os conhecimentos serão percebidos como
não sendo nada além de um castelo de areia construído por uma
criança, com o qual ela se diverte, imaginando aventuras sem fim.
O movimento das ondas
Se nos aplicarmos em ter uma
conduta perfeita, abstendo-no de matar e cultivando uma mente altruísta,
obteremos em nossas vidas futuras uma existência humana idêntica
àquela que gozamos atualmente. Ela nos trará todas as satisfações
ordinárias: disporemos de uma casa confortável, teremos uma boa
profissão, um corpo são, uma vida longa, etc.; ou então
renasceremos em estados de existência divinos, onde essas
felicidades são maiores ainda. Será o resultado de nossos atos
presentes: graças aos atos positivos, obteremos resultados
positivos. Tal é a lei do karma.
Esta se inscreve no contexto de nossa mente, funcionando sobre o
modo do potencial de consciência individualizada; não tendo
encontrado a verdadeira natureza da mente, acumulamos karma pelos
atos que realizamos. Nossos atos, negativos ou positivos, são
semelhantes às ondas do oceano, cujo movimento descendente
corresponde aos atos que penetram no potencial de consciência
individualizada, e cujo movimento ascendente às conseqüências que
emergem desse potencial.
Os dois frutos do Dharma
Quando praticamos a via
espiritual, a meditação e a virtude com aplicação, os véus da
ignorância, dos condicionamentos latentes, das emoções
conflituosas e do karma tornam-se cada vez menos espessos até que
se dissipam completamente. Simultaneamente, todas as qualidades da
mente inclusas no potencial de consciência primordial desabrocham.
É a obtenção do estado de Buddha, que implica a onisciência. É
por isso que o dharma que o Buddha ensina é tão extraordinário.
O fruto verdadeiro da prática do dharma é a obtenção do estado
de Buddha. Ele compreende, contudo, resultados secundários
excelentes, como renascer com uma existência humana agradável, ou
de uma maneira geral, nos mundos superiores.
Técnicas particulares
O mais importante na prática
é a mente. Por isso é preciso meditar: primeiramente, shine,
depois lhakthong, enfim, o mahamudra ou o maha-ati. O vajrayana é
um caminho particularmente rápido para atingir o Despertar. Deve
sua eficácia particular à utilização de técnicas especiais de
shine e de lhakthong e à prática das fazes de criação e de
conclusão.
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No próprio interior dessa via do vajrayana, algumas instruções só
são transmitidas diretamente pelo lama. É o caso das técnicas
especiais de shine, lhakthong e mahamudra que estudamos neste
momento.
Os ocidentais são em geral inteligentes e cultos. Compreendem com
facilidade o buddhismo e esperam atingir rapidamente o estado de
Buddha. Entretanto, vivendo em um mundo de atividade intensa, de
trabalho e de distrações, experimentam dificuldades para se
consagrar exclusivamente à prática. Um meio para tirar a água que
entrou no ouvido é mergulhar novamente o ouvido na água.; a água
expulsa a si mesma. Da mesma maneira, a meditação sobre os cinco
elementos é utilizada para purificar os cinco elementos; a meditação
sobre os cinco agregados, para purificar os agregados, e a meditação
sobre as emoções conflituosas, para purificar as emoções.
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Pelo fato de possuirmos em nosso corpo e em nossa mente os cinco
elementos, é fácil os tomarmos como suporte para shine. Do mesmo
modo, os cinco agregados são os constituintes de nossa existência
psico-física: por essa razão, são suportes cômodos para
lhakthong. Enfim, sendo habitados pelas diferentes emoções
conflituosas, se nós as tomarmos como suporte de meditação do
mahamudra, será fácil libertarmo-nos delas. É com a esperança de
que esse tipo de meditação possa ser particularmente adaptada aos
ocidentais, que eu dei as meditações do mahamudra, que se apóia
nos tigles com relação às emoções.
Dissolução dos elementos
Para abordar a meditação de
shine ligada aos elementos, é importante compreender corretamente o
que eles são na morte, no corpo e no mundo exterior. Vimos,
anteriormente, a descrição deles; examinaremos agora como eles
intervêem no processo da morte e do nascimento.
No momento da morte, os cinco elementos do corpo reabsorvem-se uns
nos outros, dando lugar a diferentes tipos de experiências mentais:
- quando o elemento terra se
reabsorve no elemento água, o moribundo têm a impressão de
ser esmagado por uma rocha ou uma montanha;
- quando o elemento água se
reabsorve no elemento fogo, ele pensa estar sendo levado por um
rio ou estar se afogando no oceano;
- quando o elemento fogo se
reabsorve no elemento ar, sua habitação e o universo todo
parecem que se tornaram incandescentes;
- enfim, quando o elemento
ar se reabsorve no elemento espaço, ele tem a sensação de ser
levado pelo vento.
Sob o domínio desses
diferentes fenômenos, a mente sente imenso medo. No final do
processo, o moribundo cai num estado de total inconsciência,
durante três dias e meio. É o sinal de que as sete consciências
se reabsorveram no potencial de consciência individualizada.
Após esse período de inconsciência, os cinco elementos entram
novamente em atividade e são projetados sob a forma de luzes de
cinco cores percebidas como existindo exteriormente. Modificando-se
a cada instante, elas se organizam em globos luminosos, em figuras
do bardo. Explicações detalhadas desses fenômenos são relatadas
no Bardo Thödröl e em outros textos. Se tivermos desenvolvido a
capacidade de meditar sobre essas manifestações luminosas, seremos
capazes, no momento da morte, de reconhecer que são apenas projeções
da mente. Finalmente, poderemos realizar a natureza vazia dos cinco
elementos e compreender que eles são os cinco aspectos femininos
dos Buddhas:
- a terra é Buddhalocana;
- a água, Mamaki;
- o fogo, Pandaravasini;
- o ar, Samayatara;
- o espaço,
Vajradhatvesvari.
Entretanto, a maioria dos
seres, perdendo esta ocasião de liberação, percebem as pressões
luminosas dos elementos como dotadas de uma existência exterior
independente. Reagem com medo e tentam fugir delas.
Os elementos, suporte da
concepção
No final de várias semanas
de bardo, ao longo das quais são experimentados muitos sofrimentos
e numerosas experiências mentais, as aparências do nascimento
futuro começam a manifestar-se até a concepção, na qual
reencontramos os cinco elementos. Vimos, com efeito, que estes compõem
ao mesmo tempo o corpo e o mundo exterior; a comunicação entre os
dois estabelece-se durante a absorção de alimento. A essência
desse alimento, formada pelos cinco elementos, passa primeiramente
para o sangue, depois por uma sucessão de transformações, para
carne, o tecido adiposo e para a medula. A essência desta produz os
tigles vermelhos e brancos, isto é, os princípios sexuais
masculino e feminino, que, por sua vez, proporcionam a irradiação
física e o bem-estar mental. Portanto, assiste-se a um sétuplo
processo de refinamento dos elementos. No momento da concepção, a
mente-vento do bardo se une aos suportes físicos do pai e da mãe,
produzidos por esse processo. Depois, quando o embrião se
desenvolve, seu crescimento também é assegurado pelos cinco
elementos, transmitidos pelo corpo da mãe. Enfim, quando ele nasce,
percebe os cinco elementos do mundo exterior, que toma como reais.
Os cinco agregados
O estado de ignorância
implica não somente os cinco elementos como componentes da pessoa,
mas também os cinco agregados. O termo agregado supõe a reunião
de várias unidades em uma mesma categoria. Uma porção de arroz,
por exemplo, constitui um agregado de grãos de arroz.
O primeiro agregado é o das formas. Diz respeito a todos os
aspectos materiais do mundo exterior — a terra, as rochas, as árvores,
etc. — assim como o nosso corpo. Nosso corpo é, de fato, um
conjunto de milhares de células e partículas físicas que dão a
impressão de unidade. Quando olhamos uma pessoa de longe, podemos
ver que ela tem cabelos loiros, castanhos ou grisalhos. Ao nos
aproximarmos, constatamos, entretanto, que esta unidade recobre na
verdade uma porção de cabelos que existem individualmente. Do
mesmo modo, nosso corpo, por trás de sua unidade aparente, de fato
só é um agregado.
O segundo agregado é o das sensações, físicas e mentais. Quando
faz frio, temos a sensação de sentir frio; com um grande calor
temos a sensação de sentir calor; podemos sentir várias sensações
físicas diferentes. Mentalmente, nos sentimos felizes ou infelizes,
julgamos as situações como agradáveis ou desagradáveis. O
conjunto constitui o agregado de sensações.
Uma metáfora poderá nos fazer compreender o encadeamento dos
agregados. Nossa mente, recoberta pela ignorância, não
reconhecendo sua própria natureza, constitui o potencial de consciência
individualizada, comparável a um oceano sem ondas. O aparecimento
do primeiro movimento da onda que sobe corresponde ao agregado das
sensações, que acabamos de ver; uma amplitude um pouco maior
representa o agregado das percepções, o terceiro agregado. Depois,
a onda se forma mais nitidamente, definindo-se, do mesmo modo que se
desenvolve mais completamente a complexidade do mental: é o quarto
agregado, o agregado das volições. Enfim, as ondas completas que
se sucedem são semelhantes ao agregado das consciências.
Tomemos um outro exemplo: suponhamos que o potencial de consciência
individualizada seja semelhante a um estado de ignorância
desprovido de qualquer funcionamento mental. Nesse estado, entramos
em uma casa. Inicialmente, temos uma simples consciência do lugar,
um primeiro movimento da consciência do que aparece: é o agregado
das sensações. Depois, vemos que há o branco, o azul, etc; o
funcionamento mental se elabora: é o agregado das percepções.
Enfim, reconhecemos o conjunto das coisas e fazemos julgamentos:
"É grande, pequeno, bonito, não é bonito", o que
constitui o agregado das volições. Enfim, o agregado das consciências
assegura o funcionamento global do conjunto.
Os cinco agregados — formas, sensações, percepções, volições,
consciências — existem agora em nós. Entretanto, funcionam sobre a
base dos cinco elementos dos quais procedem. Por esta razão, os
cinco elementos correspondem aos cinco Buddhas masculinos.
Um remédio para o mal das
viagens
Sem abandonar o nível impuro
dos cinco elementos e dos cinco agregados pelo seu nível puro, não
é possível passar do estado de ser ordinário para o estado de
Buddha. O vajrayana utiliza meios específicos, que, num instante,
operam essa transformação. São as meditações sobre as
divindades, união da manifestação e da vacuidade, semelhantes a
um arco-íris. Essas meditações, a recitação de mantras, assim
como as fazes de realização, com suporte imaginativo ou sem
suporte, como o mahamudra, são métodos extremamente profundos.
Para os iniciantes é, entretanto, difícil praticá-los, tanto que
podem ser ineficazes para eles. Quando devemos percorrer uma grande
distância, é muito agradável fazê-lo de avião, trem ou carro.
Infelizmente, algumas pessoas ficam doentes quando utilizam
transportes rápidos e devem tomar medicamentos para suportar a
viagem. Esses medicamentos são semelhantes às abordagens
progressivas constituídas pelas técnicas especiais de shine e de
lhakthong.
Cinco agregados, cinco
Buddhas
Se retomarmos o caso dos
cinco agregados, eles se situam no nível do funcionamento impuro da
mente; no nível perfeitamente puro, são substituídos pelos cinco
Buddhas Patriarcas. Quanto à meditação na qual os agregados são
representados sob a forma de tigles de luz, trata-se de um intermediário
entre o puro e o impuro. Eles são como um degrau que permite alcançar
um grau perfeitamente puro, os cinco Buddhas Patriarcas:
- o agregado das formas é o
Buddha Vairochana;
- o agregado das sensações,
o Buddha Ratnasambhava;
- o agregado das percepções,
o Buddha Amitabha;
- o agregado das volições,
o Buddha Amoghasiddhi;
- o agregado das consciências,
o Buddha Akshobhya.
Gratidão por nossos pais
Para praticar as meditações,
utilizando os tigles dos elementos e dos agregados, seria preciso
idealmente ter recebido iniciação do vajrayana. Todavia, os votos
de refúgio podem ser suficientes.
Em todas as práticas do dharma, é fundamental, no início de uma
meditação, colocar-se no contexto do refúgio e da bodhichitta e
fazer, no final, a dedicação do mérito e as orações de aspirações,
pois são os meios mais poderosos para evitar que nos percamos por
caminhos errôneos.
Engendrar a bodhichitta é particularmente importante. É necessário
para tanto, lembrarmo-nos da bondade de nossos pais para conosco.
Desde nossa infância até a idade em que ganhamos uma certa
independência, eles se ocuparam continuamente de nós, para nos
oferecer bons estudos, uma boa situação, para que tivéssemos uma
boa saúde, etc. Fomos para eles uma fonte permanente de preocupações
e de trabalho. Devemos, ao tomar consciência dessa imensa bondade,
sentir uma grande gratidão por eles.
Diz-se que todos os seres do samsara foram nossos pais e nossas mães,
não uma, duas ou três vezes, mas um número incalculável de
vezes. Todos, então, manifestaram essa bondade para conosco;
portanto, devemos ter a mesma gratidão por todos.
Mogalyayana não sabe onde
está sua mãe
Quando dizemos "nosso
pai" e "nossa mãe" das vidas passadas, isto não
implica que a pessoa deva renascer perto de nós. O lugar pode ser
muito distante.
Mogalayayana, um dos grandes discípulos do Buddha Shakyamuni, e que
tinha atingido o estado de arhat, desejava saber onde sua falecida mãe
tinha renascido. O estado de arhat de Mogalayayana lhe conferia
poderes supranormais, permitindo-lhe procurar em todos os lugares
nos seis mundos. Entretanto, por mais que a procurasse não a
encontrava. Surpreso, ele foi ver Buddha.
— O senhor poderia me dizer onde minha mãe renasceu? -
perguntou-lhe.
— Ela está num mundo chamado "Irradiação Setentrional",
— respondeu o Buddha.
— Como o senhor pode sabê-lo enquanto eu não pude descobrir por
mim mesmo?
— Porque você é apenas um arhat, enquanto eu sou um Buddha; isto
implica uma certa diferença.
— Não existe nada que eu possa fazer para ajudar minha mãe agora
que ela renasceu tão longe?
— Para ajudá-la é preciso ir até lá. Se você quiser poderemos
utilizar seus poderes para chegar lá.
O discípulo aceitou e, graças aos seus próprios poderes, ele e o
Buddha percorreram com sete passos a distância que os separava da
Irradiação Setentrional. A cada passo, eles atravessavam uma galáxia.
Chegando a seu destino, encontraram a mãe de Mogalayayana que tinha
renascido como mulher nesse mundo distante. Mãe e filho se
reconheceram, e se abraçaram: foi um momento maravilhoso. O Buddha
deu à mãe os ensinamentos, que lhe foram muito benéficos.
No momento de partir, o Buddha disse a Mogalayayana:
— Para vir da Terra até aqui nós utilizamos seus poderes, para
voltar à Terra, como faremos: utilizaremos os seus poderes ou os
meus?
— Os seus, respondeu Mogalayayana.
O imenso espaço foi então percorrido em um único instante, sem
que tivessem necessidade de dar os sete passos.
O poder de instantaneidade
Renascer, perto ou longe, pai ou mãe, em uma situação ou em outra
com relação àqueles que nos eram próximos em nossas vidas
passadas, depende unicamente do karma.Quanto ao poder de
instantaneidade da mente, este poder que o Buddha possui para
percorrer distâncias incalculáveis em um instante, nós também o
temos em nossa mente. Mas ele está obstruído pela ignorância em
razão da qual não temos controle de nossa própria mente.
Podemos constatar desde já a presença em nós da faculdade de
instantaneidade. A França possui um trem extremamente rápido, o
TGV, que permite percorrer grandes distâncias em muito pouco tempo.
Nossa mente é ainda mais rápida: pensemos ma América e aparecem
em nossa imaginação, de uma única vez, paisagens americanas;
chegamos lá em um instante. Entretanto, nossa forte identificação
com o corpo faz com que este, agora, não possa seguir a mente.
Todos os seres, como já dissemos, foram nossos pais e nossas mães
no passado. Todos sem exceção, desejam alcançar a felicidade e
desejam não ser confrontados com o sofrimento. No entanto, eles não
sabem quais vias os conduzem à felicidade, quais as vias os levam
ao sofrimento.
Assim, inumeráveis seres realizam atos negativos, causa de seu
sofrimento, exatamente o contrário do que desejam. É necessário
que desenvolvamos com relação a todos o amor e a compaixão.;
devemos tentar colocar em ação numerosos meios para conduzi-los ao
caminho da felicidade. Não temos, no presente momento, a capacidade
de guiá-los verdadeiramente, pois nos falta a liberdade da mente.
É por isso, a fim de obter essa liberdade, que praticamos
diferentes tipos de meditação.
Kalu
Rinpoche. Ensinamentos Fundamentais do buddhismo Tibetano:
buddhismo Vivo, buddhismo Profundo, buddhismo Esotérico. Tradução
de Célia Gambini, revisão técnica de Antonio Carlos da
Ressurreição Xavier. Brasília: Shisil, 1999. Para adquirir o livro, clique aqui.
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