O
Mahamudra (III)
As técnicas da visão
superior (sânsc. vipashyana, tib. lhakthong) são
muito variadas. Para um iniciante, se utilizarão, por exemplo, métodos
ditos "visão superior exterior e interior", recaindo
sobre a ausência de formas, a ausência de sensações, a ausência
de mente e a ausência de fenômenos. Entretanto, no vajrayana, visão
superior e Mahamudra constituem uma única e mesma coisa: o
reconhecimento do modo de ser autêntico da mente. Nesta ótica,
falar de visão superior ou de Mahamudra dá no mesmo.
Da base ao resultado
A meditação do Mahamudra
comporta três etapas:
- reconhecer o modo de ser
de nossa mente: é o Mahamudra-fundamento;
- meditar sem interrupção
nesse estado de reconhecimento: é o Mahamudra-caminho;
- enfim, percorrendo o que,
na escola Kagyüpa, é chamado as doze etapas dos quatro
caminhos — isto é, os graus inferior, médio e superior da
"concentração", da "simplicidade", do
"único sabor" e da "não-meditação" —
atinge-se o estado de Buddha que é o Mahamudra-resultado.
Se o reconhecimento do modo
de ser não se opera em primeiro lugar, nenhum fundamento, nenhum
ponto de partida será fornecido para o caminho; sem caminho
percorrido é também impossível chagar ao objetivo. A primeira
dessas etapas é, portanto, essencial.
Disssipar a bruma
Antes de abordar o Mahamudra,
é normalmente necessário realizar as preliminares que, purificando
o praticante, tornam a meditação mais fácil. Quando o céu está
coberto de bruma ou de nuvens, é impossível ver o sol, ainda que
ele esteja presente. Quanto mais as nuvens e as brumas se dissipam,
mais se tem uma visão clara do sol. Do mesmo modo, graças às
preliminares, quanto mais nos purificamos das faltas e dos véus,
mais acumulamos mérito, mais o Mahamudra se torna fácil.
Depois dessa fase preparatória, o lama começa a dar instruções,
expondo, primeiramente, métodos de pacificação mental (sânsc. shamatha,
tib. shine) que permitem um certo domínio da faculdade de
manter a mente em repouso. Quando shine começa a dar seus frutos, e
os pensamentos e as emoções conflituosas se dissipam, e a mente é
capaz de ficar bem concentrada, o lama conversa com o discípulo a
fim de lhe fazer descobrir a natureza da mente. Ele lhe faz
perguntas do tipo: "De onde vem um pensamento? Onde ele se
situa? Para onde vai?" Ele o interroga, assim, sobre o que se
chama "origem-localização-desaparecimento". Ou ainda ele
lhe pergunta: "Qual é a natureza da mente em repouso? Qual é
a natureza da mente em movimento? Qual é a natureza da mente
consciente do repouso e do movimento ao mesmo tempo?",
procedendo, assim, ao exame do "repouso-movimento-consciência".
O discípulo medita a partir dessas questões, depois vem expor suas
respostas ao lama, que o corrige e o dirige, até que ele chegue a
uma conclusão pessoas correta.
Não dispomos agora de tempo necessário para uma tal abordagem
progressiva. O Dharma é muito amplo, e os humanos têm muitas
atividades, muito trabalho, muitas distrações, muita preguiça,
tanto que quase não sobra tempo para a prática. De uma certa
maneira, essa falta de tempo poderia levar a pensar que a realização
do Mahamudra lhes é vedada. Entretanto, diz-se que quanto mais difícil
é a situação do ponto de vista espiritual, quanto mais a época
é materialista, mais se revela poderosa a bênção de um
ensinamento profundo como o Mahamudra. Penso, portanto, que uma prática
pessoal sincera pode conduzir vocês à realização.
Uma gema perdida na noite
Se não temos nenhuma idéia
do que é o modo de ser da mente, a prática do Mahamudra fica
impossível. Suponham que vocês tenham perdido uma pequena pedra
preciosa, à noite, em um local sem luz. Seus olhos não podem vê-la
e vocês tateiam com a mão para encontrá-la: há muito poucas
chances de vocês encontrarem-na. Se lhes dermos uma luz, suas
chances tornam-se muito maiores. Meditar sem ter conhecimento do que
é a mente é como procurar um pequeno objeto no chão, sem luz, em
plena noite.
Portanto, é necessário compreender que a mente é vacuidade,
claridade, não-obstrução e ver como sua pureza fundamental é
alterada pelos quatro véus: ignorância, condicionamentos latentes,
emoções conflituosas e karma.
O inferno transformado em
enxaqueca
Não recoberta pelos quatro véus,
a mente é também chamada "potencial de consciência
primordial"; recoberta pelos véus, ela se torna
"potencial de consciência individualizada". Nos seres do
samsara, o potencial de consciência primordial dispõe de muito
pouca força para emergir; os véus são muito espessos. Apenas de
tempos em tempos, quando felizes combinações de circunstâncias o
permitem, o potencial de consciência primordial se exprime sob a
forma da fé, compaixão, altruísmo, etc. Daí procede um
"karma branco" que leva a renascimentos em mundos
superiores. Em razão da raridade desse karma branco, poucos são
aqueles que atingem os mundos superiores. O "karma negro"
sendo, em contrapartida, muito freqüente, faz com que os mundos
inferiores possuam muito mais indivíduos.
Felizmente, existem muitos métodos para se purificar dos véus. No
mahayana, por exemplo, a mente do Despertar é considerada como um
agente de purificação muito poderoso. Supondo que nosso reservatório
kármico nos prepara, depois desta vida, um renascimento certo no
inferno, diz-se que um desenvolvimento poderoso da mente do
Despertar transformará o que poderia ter produzido os imensos
sofrimentos dos infernos em uma simples dor de cabeça no curso
desta vida.
Os atos deixam marcas
É preciso compreender bem o
processo que ocorre neste véu do karma: todos os atos que
realizamos, qualquer que seja sua importância e qualquer que seja
sua natureza — sendo positivos, como o fato de proteger a vida,
doas, etc, ou negativos, como matar ou roubar — deixam, no
potencial de consciência individualizada, onde eles têm
fundamento, uma marca. Dotada de uma dinâmica, essa marca, ou essa
semente, amadurece para, finalmente, quando as condições e os
fatores anexos estiverem reunidos, produzir um resultado sob a forma
de uma situação experimentada por nós. O potencial de consciência
individualizada constitui a base do processo do karma. Enquanto
nossa mente funciona sob esse modo, os atos continuam
necessariamente a agir, para seu autor, como causas que engendram
frutos kármicos. O Buddha dizia que uma vez realizado um ato, mesmo
que passem cem kalpas, suas conseqüências se exprimirão
necessariamente quando as circunstâncias o permitirem.
Karma e memória
Algumas pessoas não estão
convencidas, entretanto, dessa lei do karma, até mesmo a rejeitam
completamente. "O Buddha e os lamas falam muito dela",
pensam , "mas nunca a vimos; não é certo que essa lei tenha
uma existência fora das palavras que a descrevem". É evidente
que o karma é invisível: ele se dá no potencial de consciência
individualizada, que nada é do que a mente. A mente sendo imaterial
e invisível, o karma é imaterial e invisível. O fato de não o
vermos não é, entretanto, uma prova de sua inexistência. Talvez
vocês tenham estudado durante uns quinze anos. Vocês podem ver
onde se encontra a imensa quantidade de informações que vocês
armazenaram durante esses anos? Se se tratasse de alguma coisa tangível,
seria necessário um lugar para colocá-la: sua casa, seu peito ou
outro lugar. É claro que não é assim. Não encontrar a localização
material para a memória não existe, já que, quando temos
necessidade dos dados que estudamos, eles voltam à nossa mente e nós
podemos utiliza-los. Eles não saíram de um "lugar",
entretanto eles reaparecem.
O karma segue um processo análogo a este da memória: os atos foram
gravados no potencial de consciência individualizada ao longo de
nossas vidas passadas e, ainda que esse potencial não constitua um
reservatório no sentido material, seus efeitos ressurgem quando as
circunstâncias, isto é, a associação de um grande número de
fatores prestam-se a isso.
As etapas da purificação
Purificamo-nos do karma e dos
quatro véus exigirá talvez um tempo extremamente longo: centenas
ou milhares de existências, até que atinjamos o estado de Buddha.
Entretanto, se tomarmos consciência do problema e realizarmos
grandes esforços, a purificação pode se efetuar nesta vida
presente. Diz-se mesmo, em alguns textos, que no melhor dos casos
seis meses podem bastar para atingir o Despertar, ou senão um ano,
ou uma existência.
De um ponto de vista imediato, se praticarmos seriamente, as práticas
preliminares permitem acumular, logo de início, bastante mérito e
operar uma purificação suficiente para dissipar o véu do karma de
maneira significativa. Este véu será inteiramente eliminado quando
obtivermos a primeira terra de bodhisattva, chamada "Perfeita
alegria".
A partir da primeira terra de bodhisattva, a purificação concerne
ao véu das emoções conflituosas, que se encontra dissipado na sétima
terra de bodhisattva. Em seguida, da oitava à décima terra,
opera-se a purificação do véu dos condicionamentos latentes, o
que corresponde à realização dos doze primeiros graus do caminho
do Mahamudra: os três graus de "concentração", os três
graus de "simplicidade", os três graus do "único
sabor" e os graus inferior e médio de "não-meditação".
Enfim, correspondendo ao fim do grau superior de "não-meditação",
o véu da ignorância é dissipado: alcança-se o estado de Buddha.
Essa trajetória, que pode ser rápida pela via do vajrayana e do
Mahamudra, estende-se, pela via do Mahamudra comum, por um número
incalculável de vidas. Quais são os fatores que asseguram a
progressão mais rápida possível? Um lama dotado de uma grande
compaixão, instruções profundas, um discípulo de capacidades
superiores. Diz-se que, nesse caso, graças às instruções do
Mahamudra, a purificação dos quatro véus pode ser imediata, da
mesma maneira que uma luz que se acende na escuridão a dissipa
instantaneamente.
Qualidades de um Buddha
Quando nenhuma nuvem cobre o
céu, é quase certeza que não irá chover, nevar ou gear. Do mesmo
modo, quando a mente está totalmente livre dos quatro véus, quando
seu modo de ser é plenamente atualizado, não é mais possível que
sejam experimentados os sofrimentos e as dificuldades deste mundo.
Está-se além do samsara.
Quando o estado de Buddha é atingido, a mente venceu (tib. chom)
todos os véus e todas as imperfeições, ela está dotada (tib. den)
de todas as qualidades e passou para além (tib. de) do
samsara. Então, damos o título a um Buddha de bhagavan (tib. chom-den-de).
No Tibet, o Dharma fazia parte da civilização e todo mundo acolhia
suas proposições com uma confiança absoluta. Como o Dharma ensina
que o estado de Buddha implica inimagináveis qualidades, este era
um fato aceito sem discussão. Os ocidentais, ao contrário, estão
habituados a usar sua inteligência crítica. Eles colocam, também,
inúmeras questões sobre o estado de Buddha: O desaparecimento puro
e simples da mente, não é um estado semelhante ao vazio do espaço,
ao nada? Ou não seria um estado de total insensibilidade, como uma
pedra ou a terra sobre a qual andamos?
Essas dúvidas são sintomas de uma certa incompreensão. As
qualidades infinitas do estado de Buddha já estão, com efeito,
presentes em nossa mente. Não é algo que vai se criar, que vai ser
conferido por alguém ou que virá do exterior. Elas são
primordialmente existentes. De fato, a mente é vazia em essência.
Essa vacuidade é, por definição, ilimitada; não podemos dizer:
"Até esta fronteira, a mente é vazia, depois dela não o é
mais." A vacuidade da mente engloba a totalidade do samsara e
do nirvana, ela é onipresente. Além disso, vimos que a claridade e
a inteligência sem obstrução da mente eram inerentes à sua
vacuidade; em toda parte onde há vacuidade há, portanto,
claridade; em toda parte há claridade, há inteligência sem obstrução.
Sobre esta base de ausência completa de limites da mente e de suas
faculdades, estão compreendidas as infinitas qualidades de um
Buddha, sendo a primeira a onisciência: isto é, uma mente que não
é obstruída por mais nada, que possui o conhecimento completo,
claro e preciso da situação de todos os seres das seis classes do
samsara, no passado, presente e futuro. A esse conhecimento soma-se
o amor, que vem da visão dos sofrimentos dos quais os seres são
prisioneiros, por causa da ignorância da natureza pura da mente. Do
amor vem o poder de socorrer os seres, guiá-los para a liberação.
É por isso que os Buddhas trabalharão continuamente pelo bem dos
seres até que o samsara fique vazio. Onisciência, amor e poder
constituem as três qualidades fundamentais do estado de Buddha.
O brâmane que só tinha
sete dias de vida
Outrora, na Índia, um brâmane
teve a visão de uma divindade que lhe declarou: "Você só tem
sete dias de vida e a próxima vida se anuncia muito ruim." O
pobre homem, enlouquecido com o pouco tempo que lhe restava, não
sabia para onde se voltar para encontrar um remédio que a
prolongasse. No entanto, tinha ouvido falar que o Buddha, tão sábio
e tão hábil, talvez pudesse socorrê-lo. Decidiu visitá-lo.
O Buddha estava, então, ministrando um ensinamento a uma multidão
de milhares de pessoas se comprimindo, poderia ele falar com o
Buddha e expor-lhe seu caso?
Entretanto, para seu grande espanto, sem que ele tenha dito nada, o
Buddha se dirigiu de repente para ele, chamando-o por seu nome:
"brâmane, você só tem sete dias de vida", disse-lhe,
"depois você renascerá sete vezes como um porco, depois ainda
sete vezes sob tal forma inferior de existência, depois mais sete
vezes sob tal outra forma, depois sete vezes..." O Buddha
enumerou, assim, uma longa série de renascimentos dolorosos em
grupos de sete. O homem empalideceu de terror. Quem poderia salvá-lo
dessa perspectiva terrível?
Voltando a falar, o Buddha disse-lhe: "Na periferia leste da
cidade, encontra-se um stupa que está em ruínas. Se, animado por
uma grande fé, você restaurar esse stupa, poderá prolongar a duração
da sua vida e purificar-se do karma ruim, que prepara suas más
existências futuras."
O homem confiou na palavra do Buddha: restaurou o stupa o que,
efetivamente, o purificou e permitiu-lhe ter uma longa vida e evitar
os renascimentos inferiores futuros.
Isto é um exemplo das capacidades que possui naturalmente um
Buddha.
Templos e stupas
De uma maneira geral, os
stupas, os templos e os mosteiros são suportes da atividade dos
Buddhas. É por isso que participar da sua construção, da sua
manutenção e da sua restauração pode trazer enormes benefícios
no que diz respeito à purificação e acumulação. Muitos dentre
vocês, neste momento, colaboram na construção do templo de Samye
Ling e vocês o fazem propriamente com muita alegria e de coração.
Os méritos vindos de seu trabalho não se limitam ao presente.
Segundo o Buddha, de fato, enquanto uma pedra de um templo ou de um
stupa durar, os méritos daqueles que o construíram continuarão a
crescer, a cada minuto, a cada segundo.
Lembrem-se do relato da vida de Milarepa, o mais célebre de todos
os lamas Kagyüpas. Neste relato não se conta que ele realizou
centenas de milhares de prosternações, nem que ofereceu centenas
de milhares de mandalas, nem que recitou centenas de milhares de
mantras de Vajrasattva (tib. Dorje Sempa), mas que, para obedecer a
Marpa, construiu com grande fé uma casa, primeiramente triangular,
depois em forma de meia-lua, depois redonda, destruindo-a cada vez
para agradar a Marpa, até que terminou, enfim, uma casa quadrada de
nove andares. Graças a isso, pôde purificar-se perfeitamente de
toda negatividade e acumular mérito suficiente para em seguida
atingir o Despertar no espaço de uma única vida.
A contribuição material que podemos dar à construção de um
templo ou de um stupa é um excelente suporte de purificação e de
acumulação. Entretanto, tudo depende do pensamento que a
subentende: se somos animados pela fé, a alegria e a admiração
pelo que é realizado, nesse caso a purificação e a acumulação
serão efetivas. Mas se construímos com cólera, descontentes e
demonstrando esforço, nos enganaremos ao dizer que estamos fazendo
alguma coisa benéfica.
Prática do Mahamudra
As explicações dadas pelo
lama sobre a natureza da mente e o estudo que o discípulo faz dela
são necessários, mas permanecem no nível da compreensão
intelectual. Essa compreensão é comparada a um remendo sobre um
tecido: ele não se integra à roupa original e acaba se descosendo
e caindo. Portanto, é preciso, depois de se purificar das faltas e
dos véus, fazer com que a compreensão seja seguida de uma prática
de acordo com as instruções recebidas.
Colocamos, agora, nosso corpo
em uma posição bem reta e deixamos nossa mente repousar em si
mesma, tal como ela á.
A vacuidade de nossa mente não é marcada por nenhum limite. Não
podemos dizer: "Ela vai até ali apenas." Semelhante ao
espaço infinito, ela engloba a totalidade do samsara e do nirvana.
Deixemos nossa mente sem nenhuma obstrução, em um estado de total
abertura, sem distração.
Essa mente vazia, semelhante
ao espaço, não é somente vacuidade. Possui também uma claridade
límpida, infinitamente vasta, que é a própria irradiação da
vacuidade. Iremos permanecer, agora, sem distração, na claridade.
Enfim, vem a inteligência
sem obstrução, aquilo que é consciente ao mesmo tempo da
vacuidade e da claridade. Iremos permanecer, agora, nessa inteligência,
nessa consciência.
As instruções que o discípulo
recebe do lama dão lugar, primeiramente, a uma compreensão, em
seguida, a meditação dá acesso a uma experiência, que a
continuidade da prática transformará, em um prazo mais ou menos
longo, em realização. Assim, partimos do Mahamudra-fundamento para
chegar, depois de ter atravessado as diferentes fases de concentração,
simplicidade, único sabor e não-meditação, ao
Mahamudra-resultado, isto é, ao estado de Buddha.
O olhar do discípulo
Vacuidade, claridade e
inteligência constituem a natureza primordial da mente e formam o
que também chamamos de a "consciência primordial
inerente". O Buddha assinalou que para descobrir essa consciência
primordial seria inútil buscar outros métodos diferentes das técnicas
de purificação e de acumulação associados à graça do mestre.
Considerando que nossa relação com o lama tem um papel muito
importante, é necessário, antes de aceitá-lo como tal, examinar
bem se ele possui ou não as qualificações necessárias. Mas uma
vez discípulos de um mestre, sendo ele um ser comum ou um Buddha,
devemos vê-lo como um Buddha verdadeiramente presente. De fato,
diz-se que se considerarmos o lama como um Buddha, receberemos a graça
de um Buddha; se nós o vermos como um bodhisattva, receberemos a
graça de um bodhisattva se o vermos como um bom orientador
espiritual, receberemos a graça de um bom orientador espiritual; se
não tivermos nenhuma fé nele, não receberemos nenhuma graça.
Estilos de vida do mestre
Não devemos ter demasiadas
idéias preconcebidas do que deva ser a atitude de um lama. Cada um
possui seu temperamento que o faz agir de uma maneira particular, às
vezes desconcertante.
Geshe Langri Tangpa, Por exemplo, mostrava-se como alguém impassível,
o semblante fechado, triste mesmo. Um dia, um de seus discípulos
disse-lhe:
— O que o deixa tão infeliz? O senhor não deveria ficar assim.
Por que o senhor não vai passear um pouco ou tirar umas férias?
— Eu tenho sempre presente à mente os sofrimentos das seis
classes de seres, respondeu Langri Tangpa; como eu poderia ficar
alegre?
O comportamento de Padampa Sangye, um mestre indiano que veio ao
Tibet, podia parecer desconcertante, a ponto de um louvor escrito em
sua honra descrever que ele dormia, às vezes, noite e dia, o que de
fato era um sinal de sua incessante meditação, agindo, às vezes,
como um louco, o que era sinal de sua realização para além das
convenções.
A freira que queria um nome
bonito
Drukpa Kunlek adorava
brincadeiras, gracejos e boas farsas. Era sua maneira de realizar o
bem dos seres. Um dia, uma freira perguntou-lhe por que ele estava
sempre feliz e por que ria e se divertia com tudo.
— O sofrimento desapareceu
inteiramente na grande felicidade, respondeu ele. Não há mais
nenhum sofrimento para mim!
— Eu acabo de tomar meus votos, replicou a freira. O senhor não
aceitaria me dar um nome de ordenação?
— Ah, sim! Que tipo de nome?
— Oh! Um nome muito bonito, é claro!
— Vejamos. O que você diria de "Tara
branca-amarela-vermelha-e-verde"?
— Receio que esse nome não me seja muito adequado, retorquiu a
freira espantada. Preciso de um nome mais suave.
— Vejo que lhe seria conveniente: "Tara açúcar-mel-melaço".
— Este talvez seja doce demais. Seria preciso um nome um pouco
mais forte.
— Então, se a chamássemos de "Tara-tigre-leopardo-serpente
venenosa"?
— Não, isso não; seria necessário algo mais amplo.
— Compreendo muito bem: "Tara-céu-terra-espaço".
— Seria melhor algo que fosse mais adequado ao que sou.
— Então, seria perfeito
"Tara-que-fez-os-votos-porque-ama-o-amor-mas-tem-medo-de-fazê-lo".
— Por que não ficar apenas com a primeira parte — disse a
freira — "Tara-que-fez-os-votos" seria muito bom!
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Por detrás da sucessão de gracejos, Drukpa Kunlek mostrou-se muito
hábil frente à freira. Ele a fez compreender a verdadeira orientação
de sua vida; ela fez votos não para assumir uma nova aparência,
mas porque eles iriam lhe servir como suporte para desviar-se do
mundo e evoluir no caminho da liberação. A freira recebeu, assim,
um ensinamento perfeito, de acordo com o Dharma.
É importante não rejeitar e não denegrir o Dharma. Supondo que
tais atitudes apresentam-se espontaneamente em sua mente, não lhes
dêem prosseguimento. Pensem, antes, que elas são, sem dúvida, o
resultado de um mau karma anterior e eliminem-nas com um estudo sério.
Apliquem-se nas quatro reflexões que afastam a mente do samsara,
depois realizem as quatro preliminares específicas. Pratiquem tanto
quanto possam as meditações de shine e de lhakthong depois de
terem recebido as instruções de um lama. Assim, vocês evoluirão
rapidamente para o estado de Buddha. |
Kalu
Rinpoche. Ensinamentos Fundamentais do Budismo Tibetano: Budismo
Vivo, Budismo Profundo, Budismo Esotérico. Tradução de Célia
Gambini, revisão técnica de Antonio Carlos da Ressurreição Xavier. Brasília: Shisil, 1999. Para adquirir o livro, clique aqui.
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