O
Mahamudra (II)
Hoje, devemos falar do
Mahamudra. O Mahamudra implica a ausência de objeto para o qual
dirigir a meditação. Por causa dessa ausência de objeto, este
tipo de meditação pode ser considerada muito fácil, ou muito difícil.
Para abordar o dharma, é essencial compreender o que é a natureza
da mente, o que se entende por ser ordinário ou comum, o que se
entende por Buddha, o que são os caminhos e as terras da realização.
Em particular, sem ter percebido o que é a natureza da mente, é
praticamente impossível compreender e colocar em prática o
Mahamudra.
O que é a mente?
Todos os seres têm uma
mente. De que maneira percebemos essa mente? Nós a concebemos em
termos de "eu", de "sou eu". Para além desta
poderosa identificação, não sabemos, entretanto, qual é a
natureza da mente.
O que recobre essa palavra, "mente"?
Mente significa o que tem a faculdade de pensar, de conhecer, de
experimentar e de sentir.
No entanto, pelo fato de a mente não se reconhecer a si mesma, não
reconhecer sua verdadeira natureza, pensamos: "Tenho uma
mente" e a concebemos como um objeto limitado, existente
enquanto coisa. A partir daí, pensamos também que o mundo é
permanente, quando ele é transitório, que ele é real, quando é
ilusório, que é felicidade, quando é suporte de sofrimento.
Pensamos que o mundo é permanente, real e feliz.
Abordagem progressiva
A meditação que nos
introduz na verdadeira natureza da mente é praticada,
tradicionalmente, sob a conduta de um lama, que, antes de mais nada,
pede ao discípulo para examinar por si mesmo o que ela é. O que se
chama mente, isto é, o que pensa e conhece, o que experimenta
felicidade e sofrimento, está no exterior do corpo, no interior ou
em alguma parte entre os dois? Se a mente tem uma forma, qual é
essa forma? Tem uma cor, qual a cor? Um volume, qual é esse volume?
Assim questionado pelo lama, o discípulo é solicitado a meditar
por vários dias, às vezes até vários meses, após o que ele
volta para apresentar a seu mestre as respostas que sua própria
experiência lhe sugeriu e este último lhe diz se as descobertas são
corretas.
Hoje, há mestres que devem viajar muito e os discípulos têm
muitas atividades. Tornou-se praticamente impossível o processo em
que o lama faria questões enquanto o discípulo teria todo o tempo
necessário para meditar antes de voltar para lhe dar as respostas.
Pelo fato de não termos esse tempo disponível, nem a oportunidade
de proceder desse modo, nada mais posso fazer do que descrever, eu
mesmo, o que é a verdadeira natureza da mente.
Os riscos da exposição do
mestre
Pode ser uma coisa muito boa
o próprio mestre explicar a natureza da mente; mas é arriscado. De
fato, apresentam-se várias possibilidades. Em primeiro lugar, o
discípulo pode apreender a veracidade do que lhe é exposto e
aderir a ela profundamente; neste caso, a explicação atingiu
perfeitamente seu objetivo. Se essa compreensão não for alcançada,
o discípulo pode também pensar: "sem dúvida, é como disse o
lama", e sentir confiança; isto ainda seria suficiente e sem
perigo. Mas um outro tipo de reação pode intervir após as explicações
do lama. Alguns podem, com efeito, não somente duvidar de sua
validade, mas também adotar uma posição de rejeição total
dizendo: "Essa concepção não tem fundamento; ela é
completamente falsa". Uma tal reação é muito lamentável, ao
mesmo tempo para o discípulo que comete uma falta grave, como para
o próprio mestre, culpado pelo erro chamado de "divulgar os
ensinamentos que não o devem ser."
Vocês têm a boa fortuna de acreditar no dharma. Se o que vai ser
explicado suscita em vocês simplesmente o pensamento: "Sem dúvida,
isto é assim, visto que o lama o disse, mesmo que eu não possa
verdadeiramente compreende-lo", sua atitude convirá no quadro
do ensinamento. Tudo está bem. Vocês não correrão o risco de ter
os problemas causados por uma posição crítica.
Assim, vejamos o que é a mente.
Vacuidade
Em primeiro lugar, a essência
da mente é a ausência de forma, cor, volume, ser semelhante a um
espaço vazio ou céu. A "vacuidade" é a primeira
característica da mente.
Claridade
Entretanto, a vacuidade
sozinha — por exemplo, o espaço desta sala — não tem de modo
algum a possibilidade de conhecer, nem a possibilidade de
experimentar sensações agradáveis ou desagradáveis. Ora, a mente
pode conhecer e sentir; é o que chamamos sua "claridade".
Um exemplo nos fará compreender o que é a claridade. No espaço
vazio que nos envolve, o sol no exterior ou a eletricidade no
interior nos iluminam. Essa luz dá a possibilidade de ver, conhecer
e distinguir o terreno, as flores, os objetos na sala, etc. Do mesmo
modo, a claridade da mente é o que torna possível o conhecimento.
Contudo, é preciso notar uma diferença entre o que é realmente a
mente e o exemplo precedente. Neste último, uma causa exterior é
de fato necessária para produzir a luz, seja ele sol ou a
eletricidade; sem a presença deles, tudo permanece escuro. A
claridade da mente, em contrapartida, é independente de qualquer
causa exterior; ela faz parte da natureza da mente. Se colocarmos a
mente em um estado desprovido de pensamentos, ela permanecerá num
estado de claridade vazia. A claridade, presente na vacuidade, também
é uma força ativa que permite que os pensamentos tomem forma, que,
por exemplo, a imagem da Índia ou da América apareça na mente
quando pensamos nelas. A claridade, ao mesmo tempo que proporciona a
possibilidade de conhecer, constitui assim a faculdade criadora da
mente.
Não-obstrução
Se a mente fosse somente
claridade e vacuidade, ela seria como o espaço que nos envolve,
vazio e claro, mas sem consciência. Poder dizer: "Isto é um
polar, uma parede, um homem,etc," coloca em jogo um terceiro
aspecto que chamamos a "faculdade inteligente" ou ainda a
"não-obstrução", o que conhece efetivamente.
Portanto, assim é a mente: sua essência é vacuidade; a natureza
dessa vacuidade é a claridade; essa claridade-vacuidade está
associada ao conhecimento dinâmico.
Nem centro, nem limite
Pelo menos, esta é a explicação
que eu lhes dou sobre o que é a mente. Agora, ainda é preciso que
vocês meditem para verificá-la. Para tanto, coloquem-se em um
estado em que vocês não tentem criar ou produzir o que quer que
seja mentalmente, em que vocês não se voltem para o exterior, em
que vocês também não mergulhem para o interior; a mente permanece
simplesmente em si mesma. Vejam se a mente está ou não vazia,
clara e dotada da capacidade de conhecer. Compreender o que é a
mente vazia, clara e conhecedora é uma experiência infinitamente
aberta e vasta, que dizemos ser desprovida de centro e de limite,
semelhante ao espaço. É nesse estado que devemos permanecer.
Não se deve restringir esta vacuidade-claridade-conhecimento em
limites estreitos, confiná-la no interior de nosso peito, por
exemplo. A mente não pode ser localizada em um local definido. Essa
vacuidade-claridade-conhecimento é o modo de ver da mente e não
alguma coisa fabricada.
Permaneceremos em um estado
em que nossa mente, por um lado, preenche todas as alturas do espaço,
como se fosse mais longe que a lua ou o sol, sem nada que a detenha,
em que, por outro lado, ela desce mais profundamente que todas as
profundezas da terra ou do oceano. Permanecemos nesse estado sem
nenhuma distração.
Sem começo nem fim
A mente — que em essência
é a vacuidade, por natureza claridade e cujo aspecto é
conhecimento — existe desde tempos sem começo. Desde tempos sem
começo igualmente, ela é recoberta pela ilusão e funciona de
maneira errônea, encontra-se aprisionada no samsara. Não apareceu
um belo dia, como se não existisse anteriormente. Do mesmo modo, no
futuro, se reconhecermos sua natureza autêntica e atingirmos o
estado de Buddha, isto não significa que ela deixará de existir.
O espaço é vazio, tanto que por mais que se volte ao passado não
se pode encontrar um momento que seria seu começo; por mais longe
que se vá no futuro não se pode dizer que em mil anos, dez mil
anos ou dentro de qualquer número de anos que seja, ele deixará de
existir. O espaço sendo vazio, não tem começo, nem fim; ele é
permanente. Nossa mente, vazia como o espaço não possui, da mesma
maneira, começo nem fim.
Os quatro véus
Nossa mente vazia, clara e
conhecedora, é ainda chamada "potencial de consciência
primordial".
Esse potencial de consciência primordial é comparável a uma água
pura. Se misturarmos terra a essa água pura ele se torna lamacenta.
Igualmente, por causa da ignorância primordial, o potencial de
consciência primordial é reduzido a um "potencial de consciência
individualiza". Essa intervenção da ignorância constitui o
"véu da ignorância inata": a mente não reconhece sua própria
natureza.
Por causa disto, forma-se a noção de "eu" e
"outro": o véu da dualidade, que se chama também
"ignorância determinada" ou ainda "véu dos
condicionamentos latentes". A mente, não reconhecendo sua própria
natureza como vazia, instala no lugar desse vazio um "eu",
o "sujeito", ao qual ela se identifica; não reconhecendo
a manifestação como sendo sua própria claridade, ela a concebe
como "outro", como "objeto".
Depois, entre os dois pólos dessa dualidade eu-outro aparecem emoções
conflituosas. Em primeiro lugar, a atração e a rejeição,
automaticamente acompanhadas da cegueira, que não reconhece sua
natureza vazia. A partir dessas três emoções conflituosas de
base, desenvolvem-se numerosas ramificações, 84 mil no total, que
constituem o "véu do karma".
A origem das classes de
existência
A conjunção das emoções
conflituosas e dos atos que elas provocam dá lugar aos seis tipos
de renascimento no samsara:
- Quando, movidos pela raiva
ou pela cólera, somos levados a matar, isto tem por resultado o
renascimento em uma condição infernal.
- O apego engendra uma
grande possessividade, que é a causa da existência como espírito
ávido.
- A cegueira, impedindo a
discriminação entre o positivo e o negativo, induz um
renascimento como animal.
- Se protegemos a vida,
praticamos o dom, realizamos numerosos atos positivos, mas, ao
mesmo tempo, sentimos muito desejo e apego, essa mistura de
positivo e negativo conduz ao renascimento como humano.
- Quando realizamos muitos
atos virtuosos, mas permeados de inveja, renascemos no mundo dos
semideuses.
- Atos virtuosos maculados
pelo orgulho levam aos mundos dos deuses.
Nós mesmos, por um lado, em
razão dos numerosos atos positivos que realizamos anteriormente e,
por outro lado, por causa da conexão já estabelecida com os
Buddhas, o dharma e a sangha, obtivemos, agora, a preciosa existência
humana.
Nem real, nem irreal
Um ser ordinário,
funcionando sob o domínio da consciência dual, é semelhante a uma
pessoa que tenha ingerido muito álcool. Seu estado de embriagues
cria alucinações que ela toma como reais. Da mesma maneira, o
funcionamento dual do potencial de consciência produz muitas
manifestações ilusórias, que são as seis classes de seres.
Não podemos dizer que essas seis classes de seres existem
realmente, já que elas não são nada mais do que projeções da
mente. Elas são vazias em essência. Entretanto, também não
podemos dizer que elas não existem absolutamente, pois estando em
uma delas, ainda que ela seja apenas uma produção da mente,
estamos persuadidos de sua realidade. É nosso caso: nascidos como
humanos, temos a idéia que somos reais, assim como tudo o que nos
rodeia. O mesmo vale para as outras classes de seres.
Diz-se que as seis classes de seres não são verdadeiras, nem
falsas. São comparáveis à lua, refletindo-se na água. A lua não
é completamente irreal, já que podemos vê-la, mas também não é
real, já que não está em parte alguma. O sonho nos dá uma outra
ilustração deste jogo do irreal e do real: enquanto o sonho dura,
ficamos persuadidos da realidade das pessoas, das paisagens e de
tudo o que aparece, tanto que experimentamos diferentes sentimentos:
o medo, o sofrimento, o pavor, etc. Mas, uma vez acordados, tudo
isso desaparece, não existe em parte alguma. Os fenômenos do sonho
não são assim nem existentes, nem inexistentes.
Decolando
O fato de estar sob o domínio
da ignorância, prisioneiro do funcionamento dual do potencial de
consciência dual, constitui o que se chama samsara, base de experiências
múltiplas de sofrimento e de felicidade.
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Quando a ignorância é totalmente dissipada, revela-se o
conhecimento inerente à mente que se chama estado de Buddha.
Se não estamos conectados a um ensinamento do Despertar, é impossível
liberarmo-nos do samsara. Se nos deslocamos a pé, se pegarmos uma
bicicleta, ou um trem, se vamos de carro, de barco, ou a cavalo, é
impossível abandonarmos a superfície do solo: o único meio de
faze-lo é tomando o avião. Este avião, todos nós o possuímos:
é a nossa conexão com o dharma. Temos a capacidade de voar e
talvez já estejamos em um estado intermediário entre o samsara e a
liberação. É a característica de nossa preciosa existência
humana. Aqueles que não se ligaram a uma via do Despertar devem se
satisfazer com a superfície da terra; eles não podem decolar.
Possuindo a preciosa existência humana, estamos ligados a um
ensinamento que leva ao Despertar, ainda nos é preciso praticar
esse ensinamento, sem o que nada obteremos.
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Atos negativos e véus
Dois obstáculos impedem-nos
de obter o Despertar: nossos véus e nossos atos negativos.
Os véus — isto é, aqui o véu da ignorância e o véu dos
condicionamentos latentes — são comparáveis às nuvens do céu;
não permitem ver a realidade. Os atos negativos equivalem, quanto a
eles, a bater em si mesmo dolorosamente. Realizando-os, semeamos a
semente de nosso próprio sofrimento. Considerando que cometemos
atos negativos e colhemos seus resultados durante um número
infinito de existências, durante essa mesma duração nós
"batemos" em nós mesmos sem parar. É por causa do caráter
doloroso de suas conseqüências que falamos em atos
"negativos".
É impossível atingir o Despertar sem suprimir ao mesmo tempo os
atos negativos e os véus. Eles nos condenam a girar no samsara. Se,
por outro lado, nós os dissipamos, o mérito e a sabedoria aumentam
por si mesmos.
Tomemos o exemplo da noite e do dia. Quando é noite, a obscuridade
completa cria uma situação difícil; quando o dia aponta, o sol
ainda não apareceu, mas um primeiro clarão ilumina a terra;
depois, o sol continua a subir, a luz aumenta e por isso a
obscuridade diminui. Do mesmo modo, quando os atos negativos e os véus
diminuem, o mérito e a sabedoria crescem espontaneamente.
Para que os atos negativos e os véus desapareçam completamente e o
mérito e a sabedoria se difundam plenamente, é preciso realizar o
Mahamudra, a natureza última da mente. Mas isso não se pode fazer
sem preparação. É por isso que realizamos, primeiramente,
"preliminares": as prosternações, a recitação do
mantra de cem sílabas, etc, fases preparatórias permitindo
acumular mérito e sabedoria.
O retiro de três anos
Todo ato virtuoso do corpo,
da palavra ou da mente tem como efeito reduzir as faltas e os véus
e aproximarmo-nos do estado de Buddha. Entretanto, pelo fato de
estarmos engajados na vida ordinária, trabalharmos e termos muitas
ocupações, não temos a ocasião de realizar muitos atos
positivos. Quando decidimos fazer um retiro de três anos e três
meses, isto quer dizer que durante três anos e três meses toda
atividade comum será abandonada, o corpo, a palavra e a mente se
dedicarão exclusivamente à prática do dharma, à atividade
positiva e virtuosa. O retiro é, portanto, um meio de dissipar
rapidamente os véus e as faltas e de fazer crescer o mérito e a
sabedoria.
Mesmo nos aplicando com muita diligência à prática positiva ao
longo do retiro tradicional, é muito pouco provável que possamos aí
atingir o pleno Despertar; mas pelo menos podemos aprender a
praticar o Mahamudra, o que progressivamente levará ao Despertar.
Nivelando a pequena montanha
O fato de não podermos
atingir tão rapidamente o estado de Buddha não coloca em dúvida a
eficácia do dharma, mas se deve ao fato de que acumulamos atos
negativos e reforçamos nossos véus desde tempos sem começo; para
nos livrarmos deles é preciso, portanto, um certo trabalho.
Suponhamos que o Despertar que queremos atingir seja como uma
pequena montanha de terra no meio de uma planície. Uma única
pessoa que investisse contra os flancos dessa montanha com uma
enxada e uma pá conseguiria, sem dúvida, começar o trabalho, mas
é provável que só a nivelaria em três anos. Aquele que tem uma
atividade ordinária, que lhe deixa muito pouco tempo para a prática
espiritual, é como aquele que só dispõe de uma enxada e uma pá.
Por sua vez, fazer um retiro de três anos seria como investir
contra a montanha com uma escovadeira. O retiro nos dá a
possibilidade de aplicar uma força muito grande à prática e por
conseqüência eliminar uma quantidade muito grande de faltas e véus.
A luz instantânea
Aquele que sabe meditar
verdadeiramente segundo o Mahamudra, encontra o modo mais fácil de
livrar-se das faltas e dos véus. Suponhamos que esta sala não
tivesse nenhuma abertura, que estivesse na escuridão total e que
quiséssemos clareá-la um pouco. Uma maneira seria pegar
ferramentas e abrir buracos, fazendo, assim, janelas e portas. Seria
um trabalho pesado, que pode ser comparado à atividade virtuosa do
corpo, da palavra e do mental. Praticar o Mahamudra é uma abordagem
diferente, direta, como se acionássemos um interruptor para acender
a luz.
Demasiado próximo,
demasiado profundo, demasiado fácil, demasiado bom
Embora o Mahamudra seja
extraordinariamente fácil, quais causas nos impedem de coloca-lo em
prática e compreendê-lo imediatamente?
Diz-se que a natureza verdadeira de nossa mente, o Mahamudra, está
muito próxima para que possamos vê-la e compreendê-la, do mesmo
modo que o rosto está muito próximo do olho para que o olho possa
vê-lo.
Diz-se ainda que se estivéssemos na superfície de um oceano de uma
profundidade muito grande, por mais que nos esforçássemos para ver
os peixes abissais e as rochas submarinas não conseguiríamos vê-los.
Da mesma maneira, o Mahamudra é tão profundo que não podemos sondá-lo.
O Mahamudra é muito fácil: não é preciso deslocar-se, nada
fazer, nada recitar, nenhum objeto de meditação propriamente dito;
no Mahamudra a mente descobre a sua própria natureza. Diz-se que é
demasiado fácil para que possamos acreditar.
A prática do Mahamudra gera o desenvolvimento de qualidades
infinitamente grandes e numerosas implicadas na realização dos três
corpos do Despertar: diz-se que essas qualidades são tão grandes e
tão boas que o mental não pode contê-las.
O Buddha diante da televisão
É pouco provável que todos
vocês possam realizar o retiro tradicional, mas se vocês tiverem fé
e confiança e aplicarem-se com ardor à purificação e à acumulação,
assim como à meditação do Mahamudra, vocês poderão compreender
o que este é.
Quando sabemos verdadeiramente praticá-la, a meditação do
Mahamudra é extraordinariamente fácil. Na Índia e no Tibete,
dizia-se que era tão fácil a ponto de atingir o estado de Buddha
enquanto se fiava lã, ou enquanto se governava um reino, ou
enquanto se trabalhava no campo. Guarda-se a lembrança de numerosos
praticantes que atingiram a liberação, continuando a levar uma
vida comum; eram fazendeiros, outros oleiros, outros alfaiates, etc.
Se, durante o retiro de três anos, vocês puderem desenvolver uma
boa experiência do Mahamudra, poderão, depois do retiro, se assim
o desejarem, tornar-se homens de negócios gerindo milhões de
francos a cada hora do dia. Ou ainda, se preferirem, poderão
estritamente não fazer nada, ficar sentados como Milarepa, comendo
urtigas e atingir o estado de Buddha desta maneira.
O Mahamudra não implica divindades sobre as quais meditar, nem
mantras para recitar; a mente permanece em si mesma sem nenhuma
distração, sem nada criar ou fazer, no reconhecimento de sua essência.
Se vocês souberem meditar desta forma, talvez seja possível
acrescentar uma outra possibilidade às circunstâncias que permitem
atingir o estado de Buddha: tornar-se Buddha assistindo televisão.
Quando praticamos o Mahamudra não é preciso rejeitar as emoções
conflituosas. Elas aparecem e desaparecem por elas mesmas,
naturalmente.
O Mahamudra é tão potente que se diz que ele "rasga o samsara
em farrapos".
Agora, iremos meditar um momento: colocamos nossa mente em um estado
tal que não fazemos nada, não criamos nada, mas também não nos
distraímos com o que quer que seja.
De vez em quando, vocês
podem exercitar-se em "colocar" sua mente dessa maneira
progressivamente, vocês compreenderão por vocês mesmos do que se
trata. Entretanto, o que importa antes de tudo é ter fé no lama,
orar para ele, assim como desenvolver o amor e a compaixão em relação
aos seres ordinários. Com essa fé, com esse amor e essa compaixão,
vocês dissiparão um grande número de faltas e de véus,
aproximando-se muito do Mahamudra.
Enquanto não realizarmos o Mahamudra, é preciso evitar todo ato
negativo e praticar todo ato positivo. Continuamos, de fato, a
funcionar no contexto do potencial de consciência individualizada
e, conseqüentemente, continuamos submetidos ao karma.
Por outro lado, aquele que ganhou a capacidade de praticá-lo
efetivamente sai do quadro das convenções, como testemunham os
exemplos dos grandes mestres da Índia do passado, Saraha, por
exemplo, obteve a realização, dormindo durante doze anos; Virupa,
ficando embriagado dia e noite; o rei Indrabodhi, gozando da
companhia de quinhentas rainhas durante o dia e quinhentas rainhas
durante a noite, obteve a realização, também, em doze anos.
Talvez, no futuro, poderemos seguir estes exemplos. Enquanto
esperamos, é preciso que formulemos aspirações muito profundas
para atingir a realização. É por isso, principalmente, que
recitamos na dedicatória: "Por essa virtude, possa eu realizar
rapidamente o Mahamudra e estabelecer todos os seres nesse
estado".
Kalu
Rinpoche. Ensinamentos Fundamentais do Budismo Tibetano: Budismo
Vivo, Budismo Profundo, Budismo Esotérico. Tradução de Célia
Gambini, revisão técnica de Antonio Carlos da Ressurreição Xavier. Brasília: Shisil, 1999. Para adquirir o livro, clique aqui.
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