O
Mahamudra (I)
O Mahamudra e o Dzogchen, que
são dois nomes para a mesma coisa, são os principais meios para
atingir o despertar.
Aquele que tem uma experiência interior profunda do Mahamudra pode
adotar estilos de vida muito variados, sem que isto prejudique sua
meditação. Mahasiddhas da Índia, como Tilopa e Naropa, tinham uma
atividade exterior, ordinária ou estranha, meditando sem interrupção.
Milarepa, quanto a ele, escolheu abandonar qualquer atividade
temporal para se dedicar exclusivamente à meditação na solidão.
Quanto a Gampopa, seu principal discípulo, assim como o primeiro
Karmapa, Tüsum Khyenpa, discípulo deste último, optaram pela vida
de monge. Todos, apesar da diversidade de seus gêneros de vida,
obtiveram a liberação.
A palavra tibetana para Mahamudra é cha-gya-chenpo, cujo
sentido profundo aparece na explicação dada a cada uma das partes:
- cha, que quer dizer
gesto ou símbolo, designa aqui a consciência primordial vazia
e significa que o modo de ser da mente, tanto quanto o aspecto
manifestado que procede da faculdade criadora, são ambos vazios
em essência;
- gya, que significa
vasto, indica que nada existe além dessa consciência
primordial vazia; quando se realizou o que é a vacuidade,
compreende-se que não há nenhum fenômeno do ciclo das existências
ou do nirvana (o estado de liberação) que escape a essa
vacuidade, nada que esteja além desta consciência vazia;
- chenpo, que quer
dizer grande, refere-se ao fato dessa realização ser a mais
elevada possível; no Mahamudra são realizados todos os
ensinamentos do Buddha, é por isso que o chamamos também de
Dzogchen, o que significa grande realização.
Graus de maturidade
De fato, existem dois tipos
de Mahamudra, o dos sutras e o dos tantras. Eles se diferenciam
ligeiramente do ponto de vista da apresentação e do método de
meditação, mas se unem na mesma realização final.
Estritamente falando, o Mahamudra é muito fácil, pois não é nada
mais do que o reconhecimento da própria mente e a permanência
nesse estado sem distração. Todavia, os seres, segundo suas
capacidades efetivas para compreender a natureza da mente, são
classificados em três categorias.
Os seres de capacidade superior são aqueles que herdam de vidas
passadas uma bagagem espiritual importante: eles se prepararam por
meio de um profundo trabalho de purificação e de acumulação de mérito;
também cultivaram uma grande familiaridade com a meditação.
Naturalmente, têm uma grande fé no dharma e nas Três Jóias,
muita compaixão, a faculdade de compreender facilmente o dharma,
assim como uma grande diligência.
Os seres de capacidade média, ou seja, aqueles cuja bagagem em
vidas passadas é média, têm um certo interesse pelo dharma, mas só
podem compreender todas as suas implicações gradualmente e
indiretamente. O Mahamudra dos sutras é a via que lhes convêm
melhor.
Os seres de capacidade inferior, cuja bagagem é fraca, possuem
pouca inteligência espiritual. É muito difícil para eles
compreender e colocar em prática as instruções sobre a natureza
da mente. É particularmente necessário que eles se preparem,
realizando exercícios de purificação e de acumulação.
Esta tríplice divisão dá uma visão geral do estado espiritual
dos seres. Uma abordagem mais detalhada divide novamente a categoria
dos seres superiores em três classes:
- superior superior;
- superior média;
- superior inferior.
Neste segundo sistema de
classificação, os seres de capacidade inferior e média designam
aqueles cuja abordagem do modo de ser da mente não pode ser
imediata. Primeiramente, eles têm necessidade de se preparar,
praticando, no contexto do Vajrayana, a fase de criação e a fase
de conclusão com símbolos. Por outro lado, os seres de faculdades
"superiormente superiores" não têm necessidade de
nenhuma fase preparatória; a partir do momento que recebem instruções
sobre a natureza da mente, compreendem plenamente o sentido e logo
podem aplicá-las. Eles formam uma categoria de indivíduos
extremamente raros; não podemos dizê-los inexistentes, mas só
podemos contar pouquíssimos.
Como Milarepa não
compreendeu o Dzogchen
Às vezes, temos uma
compreensão falsa do Vajrayana em geral e mais ainda do Mahamudra.
Acreditamos que um certo conhecimento teórico acompanhado de um
simulacro de prática sejam suficientes. Com certeza, uma prática
autêntica é indispensável. O próprio Milarepa, no início de sua
vida espiritual, incorreu neste erro. Durante a infância, ele teve
que enfrentar muitas adversidades, sua família tinha sido espoliada
e reduzida a uma quase servidão. Para vingar-se, e seguindo os
conselhos da mãe, recorreu à magia negra, graças à qual matou várias
pessoas, fazendo uma casa desabar, e depois matou muitos animais,
sob o efeito de um violento granizo provocado pelo desejo de
destruir colheitas. Entretanto, logo foi tomado por remorsos e pelo
medo de renascer no inferno. Assim, ele foi encontrar um lama
chamado Lhaga, e se apresentou da seguinte maneira:
Cometi atos negativos extremamente graves. A menos que eu alcance o
Despertar nesta vida, certamente irei renascer no inferno. Eu
imploro, dê-me instruções que me permitam atingir rapidamente o
Despertar.
Eu vou dá-las a você — respondeu o Lama — Suas faltas são
graves, mas não tema, pois eu possuo as instruções do Dzogchen e
as transmitirei para você. A força do Dzogchen é tal que se o
praticarmos durante o dia, no mesmo dia nos tornamos Buddha, se o
praticarmos à noite, tornamo-nos Buddha nessa mesma noite. Se
tivermos um bom fundo kármico, obteremos o Despertar sem mesmo
precisar meditar. Tal é a profundidade dessas instruções.
Milarepa recebeu as instruções; ficou aliviado e muito contente.
"Certamente, tenho esse bom fundo kármico do qual o lama
falou", pensou. "Do contrário, com certeza não
encontraria um tal mestre e não obteria ensinamentos tão
profundos. Eu não preciso nem mesmo meditar". E permaneceu sem
fazer nada.
Desejando medir os progressos de seu novo discípulo, o lama logo
pediu que ele viesse vê-lo. Não lhe foi preciso muito tempo para
compreender que Milarepa tinha se extraviado. "Eu me enganei a
seu respeito", observou. "Meus ensinamentos não são
feitos para você e eu não posso fazer nada para ajudá-lo. Você
tinha razão: suas faltas são extremamente graves. Todavia, não se
desespere. Na região das Falésias do Sul, vive Marpa, o Tradutor.
Ele possui ensinamentos secretos e profundos e poderá lhe dar
instruções capazes de conduzi-lo ao Despertar nesta vida."
Milarepa foi junto de Marpa. Este compreendeu que, para purificar
Milarepa de suas faltas, primeiramente era preciso lhe impor duras
provas. Somente depois disso ele lhe deu as instruções sobre a prática
dos seis dharmas de Naropa e sobre o Mahamudra. Milarepa retirou-se
então para uma pequena gruta atrás da casa de Marpa, depois para
outras grutas e ermitérios. Depois de muitos anos de meditação,
obteve o Despertar.
Não é possível praticar o Mahamudra sem conhecer o que é a
mente. Este conhecimento não era, normalmente, uma simples aquisição
teórica recebida de um mestre, mas uma descoberta interior
procedente de uma abordagem gradual. O discípulo devia, antes de
mais nada, praticar exercícios de pacificação mental (tib. shine,
sânsc. samatha), em seguida, o mestre o introduzia no
conhecimento da mente, fazendo com que seguisse diferentes modos de
investigações, freqüentemente, segundo dois esquemas padrão:
- De onde vem um pensamento?
Onde ele reside? Para onde ele vai?
- O que é a mente em
repouso? O que é a mente em movimento? O que é a mente
reconhecendo o repouso e o movimento?
Quando o mar está calmo e
plano, podemos ver nele o reflexo do sol, da lua e das estrelas,
enquanto que o vento e as ondas impedem de ver o que quer que seja.
A mente, normalmente, está agitada por uma porção de pensamentos
e de emoções conflituosas, é por isso que não podemos ver sua
verdadeira natureza. É necessário dissipar essa agitação,
praticando primeiramente a pacificação mental. Somente depois
disso, pode-se descobrir a verdadeira natureza da mente por meio da
investigação, chamada tecnicamente a visão superior (tib. lhagthong,
sânsc. vipashyana), cujo término leva naturalmente ao
Mahamudra.
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Esta abordagem progressiva
era possível em um contexto tradicional: hoje não o é mais. É
por isso que às vezes é necessário dar desde o início uma visão
teórica da natureza da mente. Realizar o Mahamudra implica
que meditemos. Para tornar a meditação frutífera, existem dois
suportes fundamentais, aos quais o Buddha se refere quando diz que a
realização da consciência primordial inerente depende, por um
lado, da acumulação e da purificação, de outro, da graça do
lama. É pela acumulação-purificação e pela fé e pela devoção
que pode nascer uma realização rápida.
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Kalu
Rinpoche. Ensinamentos Fundamentais do Budismo Tibetano: Budismo
Vivo, Budismo Profundo, Budismo Esotérico. Tradução de Célia
Gambini, revisão técnica de Antonio Carlos da Ressurreição Xavier. Brasília: Shisil, 1999. Para adquirir o livro, clique aqui.
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