União do Mahamudra e do Maha-ati

Esta noite estamos todos reunidos no centro Rigpa, de Paris, e acredito que a maioria de vocês aqui presentes são, já há algum tempo, discípulos de Sogyal Rinpoche. Sogyal Rinpoche pediu-me para dar um ensinamento sobre o Mahamudra e o Maha-ati. Como temos pouco tempo, falarei brevemente sobre eles, simplesmente para estabelecer uma conexão.

Unidade das linhagens

Sogyal Rinpoche recebeu, no Tibete, os ensinamentos das tradições antiga e nova, tanto que em sua pessoa estão reunidas as oito linhagens do Tibete.

Essas oito linhagens, idênticas em essência, só diferem em alguns detalhes e pelo emprego de uma terminologia específica. Aqui, por exemplo, no templo Rigpa, podemos ver fotos de Jamyang Khyentse Chökyi Lodrö e de Dudjom Rinpoche. Ambos me conferiram iniciações e eu mesmo conferi iniciações a Jamyang Khyentse Chökyi Lodrö. Assim estabelecemos uma relação bilateral: de mestre para discípulo e de discípulo para mestre. De um ponto de vista exterior, Jamyang Khyentse pode ser considerado como um lama Sakyapa e Dudjom Rinpoche como um lama Nyingmapa, mas, na realidade, ambos representam as oito grandes linhagens do Tibete.

Na escola Gelugpa, os dois lamas mais conhecidos são o Dalai Lama e o Panchen Rinpoche. Esta noite temos conosco Dagyab Rinpoche que é um dos seus principais discípulos e representa, assim, sua tradição. No que diz respeito a Sogyal Rinpoche, nossas famílias tiveram durante gerações laços muito estreitos. Esses laços existem ainda hoje e temos também uma relação de mestre para discípulo.

No Tibet, a tradição Nyingmapa, a tradição antiga, nasceu com o rei Trisong Detsen, o grande mestre Padmasambava e Khenpo Bodhisattva (Shantarakshita). Remontando àqueles que chamamos "o Rei e os vinte e cinco discípulos", ela veicula ensinamentos que contêm ao mesmo tempo a palavra do Buddha e os termas de Padmasambava. Mais tarde, na época do tradutor Rinchen Zangpo e do grande pândita Palden Athisha, constituiu-se a tradição que qualificamos de "nova" em relação à antiga.

Na tradição Nyingmapa, o ensinamento último foi chamado Maha-ati (tib. Dzogpa Chenpo ou Dzokchen), enquanto que na nova ele é denominado Mahamudra (tib. Chagya Chenpo ou Chagchen); mas, em essência, o Maha-ati e Mahamudra são apenas um, como se déssemos dois nomes a uma mesma pessoa.
Mahamudra

Sentido da palavra

Podemos definir a palavra Mahamudra a partir de sua tradução tibetana, Chagya Chenpo, retomando suas diferentes sílabas.

  • Cha se refere à sabedoria que conhece a profunda vacuidade.
  • Gya, que quer dizer vasto, significa que não existe nada para além da vacuidade da mente. De fato, todos os fenômenos nascem da vacuidade da mente. A única diferença entre os fenômenos tais como o experimentamos e os fenômenos percebidos por uma mente Desperta vem da pureza ou da impureza de nossa mente. Entretanto, a mente não é somente vacuidade, também é claridade, inteligência, conhecimento primordial. Todos os fenômenos também estão contidos nessa mente, nessa sabedoria, nessa inteligência fundamental, que constitui a mente Desperta. É o que exprime cha e gya.
  • Chenpo, enfim, quer dizer grande (maha em sânscrito), o que significa que nenhuma realização é superior a esta.

Assim, a expressão Chagya Chenpo faz referência ao mesmo tempo à vacuidade e à sabedoria compassiva infinita.

As etapas do Mahamudra

A via do Mahamudra comporta no total doze subdivisões, das quais quatro são mentais:

  • concentração (tib. tse chik);
  • simplicidade (tib. trodal);
  • único sabor (tib. ro chik);
  • não-meditação (tib. gom me).

Cada uma dessas etapas está dividida por sua vez em três graus, o que nos dá um total de doze subdivisões.

Necessária água calma

Os três primeiros graus, que derivam da "concentração", são os elementos importantes ao mesmo tempo no Mahamudra e no Maha-ati.

Eles dizem respeito ao treinamento perfeito na prática da pacificação mental (tib. shine). Todos os seres dotados de capacidades médias ou inferiores devem passar por esse treinamento, mas, para os seres dotados de capacidade superior, ele não é necessário. A mente dos seres com capacidades médias ou inferiores é comparável à água agitada na qual a lua não pode ser refletida claramente. Para que o reflexo da lua se torne estável, a água deve primeiramente se acalmar. Para as pessoas com capacidades superiores, o treinamento prévio não é necessário, pois é como se possuíssem uma câmera fotográfica que proporcionasse uma imagem perfeitamente clara. Basta "introduzi-los na natureza da mente" para que eles a compreendam imediatamente.

Observar sem ver 

Qual é a natureza da mente? Diz-se que a mente é vacuidade, claridade e conhecimento infinito.

Uma vez introduzidos na natureza da mente, devemos observar o que ela é. Todavia, a mente não é um objeto que a própria mente poderia observar: portanto, não há nada para se ver. Mas, se não se observa a mente, também não se pode vê-la. Conseqüentemente, acaba-se dizendo: "É extraordinário, a mente é alguma coisa que devemos ver e que não pode ser vista!" O que se quer dizer "observar sem ver"? Gampopa dizia:

A mente sem criação artificial é felicidade.
A água sem poluição é pura.

Isto significa que não há nada para se observar além da mente. Observar a mente implica que a mente permaneça, sem fabricação mental, em repouso, em seu estado natural. O mahasiddha Tilopa dizia:

Deixar a mente sem referência é o Mahamudra;
Meditar assim sem interrupção é atingir o estado de Buddha.

Quando deixamos a mente em repouso em sua própria natureza, sem fabricação mental, forçosamente ela repousa em sua própria vacuidade, em sua própria claridade: é o Mahamudra. O Mahamudra é também chamado "conhecimento ordinário". "Ordinário" no sentido de que a mente não tem necessidade de fabricar o que quer que seja, mas permanecer simplesmente, por si mesma, em seu próprio modo de ser.

Quando somos capazes de meditar bem e permanecer nesse estado, o que obtemos? O estado de Buddha é o resultado. Por que? Porque a vacuidade da mente é o próprio dharmakaya, o corpo absoluto de Buddha. A claridade da mente é o sambhogakaya, o corpo de glória de Buddha, e a união indivisível dos dois é o nirmanakaya, o corpo de manifestação.

Acumulação, purificação, devoção

A possibilidade de ser verdadeiramente introduzido no modo de ser da mente, no caso de uma pessoa de capacidades superiores, repousa sobre a acumulação de mérito e uma purificação já realizadas no passado. Alguém dotado de capacidades médias ou inferiores deve, entretanto, primeiramente proceder à acumulação de mérito e à purificação. Acima de tudo, deve ter uma grande devoção por seu lama. Os lamas Kagyüpas do passado diziam freqüentemente que para realizar a sabedoria última, inerente e primordial, não haveria outro meio que a purificação e a acumulação de mérito e mais ainda a devoção ao lama.

Até o estado de Buddha

Quando se evolui no caminho, atinge-se o grau inferior de "simplicidade". Depois, progressivamente, chega-se aos graus intermediário e superior dessa fase.

Gradualmente, atinge-se a realização em que o nirvana e o samsara, todos os aspectos da experiência fenomenal — as formas, os sons, os odores, os sabores, as sensações táteis, os pensamentos, os estados de consciência — não são mais percebidos como separados da mente. Esta fase é chamada "único sabor".

Após o terceiro grau do único sabor, eleva-se um estado onde a meditação não é mais necessária para preservar essa realização. A partir de então, não há mais nem meditação, nem distração. A realização está completamente estabelecida. É o que se chama o estado de não-meditação. Esta fase compreende também três graus; quando se chega ao terceiro grau, atinge-se o estado de Buddha. Diz-se, na tradição nova, particularmente na linhagem Kagyüpa, que o conhecimento instantâneo do presente é também o "conhecimento ordinário".

"Perfeita alegria"

Quando, graças à introdução à natureza da mente, à meditação e à realização, chega-se à segunda etapa, a da simplicidade, isto equivale à obtenção da primeira terra de bodhisattva, chamada "Perfeita alegria". Este nome se deve ao fato de que, enquanto não se reconhece a verdadeira natureza da mente, não se está consciente da natureza ilusória das projeções da mente; está-se, portanto, sujeito a todas as espécies de sofrimentos e dificuldades. Realizar a verdadeira natureza da mente, o que ocorre na primeira terra, é como derramar água fria sobre uma água fervente: instantaneamente, a água pára de ferver. Do mesmo modo, graças a esta realização, a mente conhece imediatamente uma grande paz e uma grande felicidade. Eis porque a chamamos de "Perfeita alegria".

Maha-ati — Uma absoluta certeza

Na tradição Nyingmapa, utiliza-se uma expressão particular para descrever a introdução de um discípulo no conhecimento de sua verdadeira natureza. Diz-se: "introdução direta da face de um Rigpa em si mesma". Uma vez que por este processo se descobre a verdadeira face da mente, desenvolve-se uma certeza absoluta. Mesmo se o Buddha em pessoa viesse nos dizer: "Mas esta não é a boa maneira de meditar!" responderíamos: "Eu sei que é a boa maneira de fazer". Na prática do Maha-ati, chama-se essa convicção "a decisão completa e direta na certeza". Uma vez que esse fundamento está bem estabelecido, a prática da meditação torna-se cada vez mais profunda, tanto que, muito rapidamente, de um instante a outro, ultrapassa-se as etapas da via em direção ao estado de Buddha e atinge-se o Despertar.

Se, no Mahamudra, temos as três etapas, isto é, a simplicidade, o único sabor e a não-meditação, no Maha-ati encontramos três fases equivalentes, ou seja, "a introdução direta da face de Rigpa em si mesma", "a decisão completa e direta na certeza" e "a confiança direta na liberação dos pensamentos que se elevam".

Pegar o foguete

Na tradição Kagyüpa, o fundamento está incluído no Mahamudra. Na tradição Nyingmapa do Maha-ati, o fundamento é chamado Trekchö ("cortar através"). O Mahamudra, enquanto fundamento, e o Trekchö, são comparáveis a um grande avião que pode voar rápido no espaço. Pode-se atingir o estado de Buddha com a velocidade de um avião, mas um foguete é ainda mais rápido. Na tradição Kagyüpa este foguete corresponde aos "seis dharmas de Naropa", aos "seis dharmas de Niguma", aos seis dharmas de Sukkasiddhi", ou ainda, no contexto de Kalachakra, às "seis junções" (tib. jordruk) Na tradição Nyingmapa e na do Maha-ati, Tögal ("transcender o pico") corresponde a esta via extremamente rápida para o estado de Buddha. A prática de Tögal compreende instruções sobre as posturas físicas, sobre a maneira de colocar a mente e o trabalho sobre as energias, segundo a maturidade do discípulo. Pode-se utilizar, de acordo com as capacidades individuais, a luz do sol, a da lua, ou, algumas vezes, a escuridão total. Graças a essa prática, desenvolve-se a capacidade de visualizar os raios de um arco-íris, os discos de luz, as divindades, os campos puros dos Buddhas, etc.

Tögal implica a passagem por quatro estados:

  • "a visão direta do dharmata";
  • "o crescimento e o transbordamento das experiências";
  • "a plena medida de Rigpa";
  • "o esgotamento da realidade fenomenal".

O corpo de arco-íris

Se se atinge este último estado, pela purificação total das energias e dos elementos do corpo, obtém-se o "corpo de arco-íris": quando se abandona o corpo, não se deixa nada de material para trás.

Alguns pensarão que, por conseqüência, pode-se obter o corpo de arco-íris pelo Maha-ati, mas não através do Mahamudra. Isto seria um erro, já que na vida de Milarepa mencionam-se sete de seus discípulos mais próximos, quatro mulheres e três homens, que obtiveram o corpo de arco-íris.

Bondade do lama

Nas diferentes tradições do Mahamudra e do Maha-ati, encontram-se muitos mestres com qualidades extraordinárias. A conexão com um ou outro mestre depende dos laços kármicos estabelecidos no passado. Quando seguimos um instrutor, devemos considerar que esse instrutor tem por nós uma bondade ainda maior que a de todos os Buddhas reunidos, já que é ele que nos introduz diretamente na verdadeira natureza de nossa mente. O fato dos lamas que nos ensinam serem ou não Buddhas não é importante, na medida em que eles proporcionam um ensinamento justo e sem falha, que nos permite evoluir para a realização. Devemos considerar que suas qualidades são aquelas dos Buddhas e ter para com eles a mesma gratidão que teríamos pelos Buddhas.

Não há progresso sem devoção

Se não tivermos devoção, mesmo que um grande número de Buddhas esteja à nossa frente, eles seriam incapazes de nos ajudar. É dito: "Como uma semente queimada pelo fogo poderia dar um broto verde?" Quando se queima uma semente, pode-se plantá-la que nada nascerá. Assim, se não tivermos confiança, nem devoção, nenhum progresso será possível. Os tantras nos ensinam o seguinte: "Se você considerá-lo como um Buddha, receberá a bênção de um Buddha; se você considerá-lo como um bodhisattva, receberá a bênção de um bodhisattva, se você o considera simplesmente um bom membro da sangha, você receberá a bênção de um bom membro da sangha, e se você não tiver fé nele, você não receberá nenhuma bênção.

Praticar

Graças às conexões estabelecidas no passado, encontramos, agora, um lama. Alguns de vocês têm um lama que lhes ensina o Maha-ati, outros um lama que lhes ensina o Mahamudra. Não há nenhuma diferença. O que é verdadeiramente importante, é praticar. Graças às instruções que vocês receberam, vocês adquiriram tudo que é necessário à prática; não devem procurar nada, além disso. Mas se vocês não têm fé, nem devoção, mesmo que um autêntico Buddha tentasse por vários meios explicar-lhes o dharma, vocês pensariam, na melhor das hipóteses: "Isto parece inteligente"; mas se vocês não tivessem devoção, nem fé, os esforços desse Buddha seriam em vão.

Portanto, praticar com confiança e devoção as instruções que vocês receberam é o Mahamudra e o Maha-ati. Se vocês não praticarem, acabarão como os ocidentais que são aprovados em vários exames, obtém muitos diplomas e que, não podendo encontrar trabalho, vivem numa grande pobreza.

Assim, como o próprio Buddha dizia: "Eu lhes mostrei o caminho da liberação, mas segui-lo ou não, depende de vocês."

Kalu Rinpoche. Ensinamentos Fundamentais do Budismo Tibetano: Budismo Vivo, Budismo Profundo, Budismo Esotérico. Tradução de Célia Gambini, revisão técnica de Antonio Carlos da Ressurreição Xavier. Brasília: Shisil, 1999. Para adquirir o livro, clique aqui.


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