Impulsos Mentais

Praticamos o Buddhadharma para alcançar o estado de buddha.

O estado de buddha significa ausência de sofrimento,
Ausência de aviltamentos,
Fuga da existência cíclica.

Mas há uma diferença entre essa semente de buddha
E o estado de buddha conquistado através da meditação.

Contudo, se essa semente não estivesse lá desde o início,
O fruto do estado de buddha não poderia amadurecer.
Isso é verdade e deve ser compreendido.

Processado, o leite transforma-se em manteiga;
Purificados, os seres sencientes tornam-se buddhas.
A manteiga não pode voltar a ser leite;
Os seres sencientes que alcançaram o estado de buddha não podem regredir.

O estado de buddha é a compreensão
Do vazio da própria mente —
Nada de forma, nada de cor, nada que seja tangível,
Essas coisas só existem em estados impuros.
Mas esse vazio não é apenas o vazio de todas as coisas,
É o vazio em que tudo se conhece com perfeita clareza.

A essência da mente é o vazio;
A natureza da mente é a clareza;
A mente vazia e clara é o estado de buddha,
O estado de receptividade.
Essas três qualidades não são distintas;
Elas são uma coisa única.

Os seres sencientes não sentem o vazio —
A ignorância, sim;
Não sentem a clareza —
Os cinco sentidos, sim.

A verdadeira natureza da mente é eterna,
Não teve nascimento e é imortal —
E por isso, eterna.
Apenas o corpo morre.

A ignorância construída
Sobre os que nossos cinco sentidos percebem
Cria dualidades, obstruções e ilusões
Com as quais vemos o mundo.
Samsara e nirvana não são diferentes;
Nós é que assim os vemos.

Há seis reinos da existência,
Três superiores e três inferiores,
Nos quais há muitos seres.

O número de seres no inferno
Equivale ao número de átomos no mundo;
O número de seres no reino animal
Equivale ao número de flocos de neve numa tempestade;
Os seres humanos correspondem
Ao número de estrelas no céu noturno;
As vidas humanas preciosas equivalem
Ao número de estrelas durante o dia.

Mas talvez esses reinos
Não passem de estados mentais.

Buddha disse que esses estados tanto são reais como irreais,
Como um sonho.
Quando sonhamos, o sonho é real;
Quando acordamos, é irreal.
Todas as coisas são reais ou irreais.

O reflexo da lua na água
Não é de fato a lua,
Mas é real porque podemos vê-lo.

No Hinayana,
Toda ilusão má e boa cessa;
No Mahayana,
Toda ilusão má é gradualmente transformada;
No Vajrayana,
A transmutação de toda a ilusão má em boa é a prática.

Quando pensamos num país,
Apenas alguns lugares nos vêm à mente.
Da mesma forma, quando pensamos no eu,
Só podemos conhecer uma pequena parte dele.

A natureza de buddha não aparecerá
Para depois desaparecer.

A mente, em essência, é pura.

Kalu Rinpoche. Impulsos Mentais. In: Ensinamentos do Budismo Tibetano.
Traduzido por Humberto Arcanjo Brito Rodrigues.
São Paulo: Pensamento, 1989. Pág. 25-29.
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