Mente,
Realidade e Ilusão
Apesar de todos
nós termos a sensação de possuir uma mente e de existir, nossa
compreensão a respeito de nossa mente e de como existimos
geralmente é vaga e confusa. Instantaneamente dizemos, "Eu
tenho uma mente ou uma consciência", "Eu sou",
"Eu existo"; nos identificamos com um "eu", ao
qual atribuímos qualidades, mas não conhecemos a natureza desta
mente, nem deste "eu". Não sabemos do que são feitos,
como funcionam, "o que" ou "quem" realmente são.
O paradoxo fundamental
Ao procurar a
mente, inicialmente o mais importante é reconhecer a natureza da
mente ao questionar, no nível mais profundo, o que realmente somos.
Aqueles que realmente examinaram suas mentes e refletiram sobre o
que ela é são realmente raros, e para aqueles que tentam, a
procura prova ser difícil. Ao buscarmos e observarmos o que nossa
mente é, muitas vezes não a cercamos verdadeiramente; não
chegamos realmente a uma compreensão sobre ela.
Sem dúvida, uma
perspectiva científica pode oferecer muitas respostas para uma
definição de "mente", mas não é o tipo de conhecimento
ao qual estamos nos referindo aqui. A questão básica é que não
é possível que a mente conheça a si mesma porque aquele que
procura, o sujeito, é a própria mente, e o objeto que ele procura
examinar também é a mente. Há um paradoxo aqui: posso procurar
por mim em todos os lugares, procurar por todo o mundo, sem nunca me
encontrar, porque eu não sou o que procuro.
O problema é o
mesmo ao tentar enxergar o nosso próprio rosto: nossos olhos estão
muito próximos do rosto, mas não podem ver muita coisa dele. Não
reconhecemos a nossa mente simplesmente porque ela está muito próxima.
Um provérbio do Dharma diz, "O olho não pode ver a sua própria
pupila". Igualmente, nossa própria mente não tem a capacidade
de ver a si mesma; ela está próxima, tão íntima, que não
podemos discerni-la.
Precisamos saber
como mudar as perspectivas. Para enxergar nosso rosto, usamos um
espelho. Para estudar nossa própria mente, precisamos de um método
que funcione como um espelho, para permitir que reconheçamos a
mente. Este método é o Dharma, que é transmitido a nós por um
guia espiritual.
É na relação
com este ensinamento e com este amigo, ou guia, que a mente será
gradualmente capaz de despertar para a sua verdadeira natureza e de
finalmente ir além do paradoxo inicial, realizando um outro tipo de
conhecimento. Esta descoberta é efetuada através de várias práticas
conhecidas como meditação.
Em busca da mente
A mente é uma
coisa estranha. Os asiáticos tradicionalmente a situam no centro do
corpo, no nível do coração. Os ocidentais entendem que a mente
está localizada na cabeça, no cérebro. Apesar dos diferentes
pontos de vistas serem justificados, estas designações são
inadequadas. Basicamente, a mente não está mais no coração do
que no cérebro. A mente habita o corpo, mas é apenas uma ilusão
achar que a mente possa ser localizada neste ou naquele lugar.
Essencialmente, não podemos dizer que a mente é encontrada em um
lugar específico da pessoa, ou em qualquer outro lugar.
Buscar a mente não
é fácil porque, além do paradoxo do conhecedor não poder
conhecer a si mesmo, sua natureza essencial é indescritível. Não
tem forma, nem cor ou qualquer característica que poderia permitir
que concluíssemos, "É isso".
Porém, cada um
de nós desenvolve uma experiência da natureza de nossa mente ao
nos perguntarmos o que o observador está fazendo: o observador, o
conhecedor, o sujeito que experiencia os pensamentos e as diferentes
sensações. Onde exatamente ele pode se encontrado? O que ele é?
É uma questão de observar nossa própria mente. Onde ele está?
Quem sou eu? O que sou eu? O corpo e a mente são o mesmo ou são
diferentes? Minhas experiências se desdobram dentro ou fora de
minha mente? A mente e seus pensamentos são distintos ou são a
mesma coisa? Se sim, como? Se não, como? A busca é levada na
meditação, em conexão próxima com um guia qualificado que pode
nos dizer o que está correto e o que está errado. O processo pode
demorar muitos meses, ou até mesmo muitos anos.
À medida que
esta busca se aprofunda, o lama progressivamente nos direciona para
a experiência da verdadeira natureza da mente. É difícil
compreender e realizar porque não é algo que possa ser
compreendido através de conceitos ou representações. O principal
estudo da mente não pode se feito através da teoria; precisamos da
experiência prática da meditação para penetrar em sua verdadeira
natureza.
Na prática de
meditação, há uma abordagem dupla: podemos dizer que há uma
abordagem analítica e outra contemplativa. A primeira é feita de
questões como aquelas que perguntamos anteriormente. Se levarmos
este tipo de busca persistentemente, enquanto somos guiados
competentemente, uma compreensão definitiva se desenvolve.
Na segunda
abordagem, a mente simplesmente descansa em sua própria lucidez,
sem forçar ou usar artifícios. Esta prática vai além de todas as
formas anteriores de análise, ao nos fazer deixar a esfera dos
conceitos e de nos fazer abrir para uma experiência imediata. No
final destas meditações, descobrimos a vacuidade essencial da
mente. Isto é, a mente é vazia de determinações e características,
tais como forma, cor ou aspecto, e sua natureza está além das
representações, conceitos, nomes e formas. Para tentar invocar o
reconhecimento da vacuidade, poderíamos compará-lo à "indeterminabilidade"
do espaço: a mente é vazia como o espaço. Mas isto é apenas como
imagem e, como veremos, a mente não é apenas vazia.
Por enquanto,
gostaria de enfatizar como é importante o conhecimento da mente,
assim como os frutos deste conhecimento. A mente é o que somos. É
ela que experiencia a felicidade e o sofrimento. A mente é o que
experiencia diferentes pensamentos e sensações; é ela que está
sujeita às emoções agradáveis e desagradáveis, é ela que
experiencia o desejo, a aversão etc. Uma compreensão real da
natureza é libertadora porque nos desengaja de todas as ilusões e,
conseqüentemente, de toda fonte de sofrimentos, medos e
dificuldades que constituem nossa vida diária.
Por exemplo, se
tivermos a ilusão de que uma pessoa má é um ajudante, ele poderá
nos enganar, nos abusar e nos causar o má; mas assim que o
reconhecemos como sendo mal, não seremos mais ingênuos; ao
desmascará-lo, podemos evitar cair como vítimas de seus maus atos.
Aqui, a pessoa má é a ignorância do que realmente somos, ou mais
precisamente, a ilusão do ego, do eu. O conhecimento que desmascara
isto é a consciência da natureza da mente; ela nos libera das ilusões
e do conhecimento doloroso. Esta compreensão da mente é o
fundamento do Buddhadharma e de todos os seus ensinamentos.
Iluminação e ilusão
A mente tem dois
rostos, duas facetas, que são os dois aspectos da realidade. Estes
aspectos são a iluminação e a ilusão.
A iluminação
é o estado da mente pura. É o conhecimento não-dualista, chamado
sabedoria primordial. Suas experiências são autênticas, isto é,
elas são sem ilusão. A mente pura é livre e dotada de numerosas
qualidades.
A ilusão é o
estado da mente impura. Seu modo de conhecimento é dualista; é a
consciência condicionada. Suas experiências estão maculadas pelas
ilusões. A mente impura é condicionada e dotada de muito
sofrimento.
Os seres comuns
experienciam este estado de mente impura e deludida como sendo o seu
estado habitual. A mente pura, iluminada, é um estado no qual a
mente realiza sua própria natureza, livre das condições habituais
e do sofrimento associado a elas. Este é o estado iluminado do
buddha.
Quando nossa
mente está em seu estado impuro, deludido, somos seres comuns que
se movem através dos diferentes reinos da consciência
condicionada. As transmigrações da mente dentro destes reinos
fazem seus giros indeterminados na existência condicionada,
cíclica, ou ciclo de vidas — samsara em sânscrito.
Quando é
purificada de toda ilusão samsárica, a mente não mais transmigra.
Este é o estado iluminado de um buddha, é a experiência da pureza
essencial de nossa própria mente, de nossa natureza búddhica.
Todos os seres, quaisquer que sejam, têm a natureza búddhica. Esta
é a razão pela qual todos podem realizar a natureza búddhica.
Como cada um de nós possui a natureza búddhica, é possível
atingir a iluminação. Se já não a tivéssemos, nunca poderíamos
ser capazes de realizá-la.
Então, o estado
comum e o estado iluminado são distinguidos apenas pela impureza ou
pureza da mente, pela presença ou ausência de ilusões. Nossa
mente presente já tem as qualidades do estado búddhico; essas
qualidades permanecem em nossa mente, elas são a natureza pura da
mente. Infelizmente, nossas qualidades iluminadas são invisíveis
para nós porque estão mascaradas por diferentes mortalhas, véus e
outros tipos de mácula.
Buddha
Shakyamuni disse, "A natureza búddhica está presente em todos
os seres, porém escondida por ilusões adventícias; quanto
purificadas, eles são verdadeiramente o Buddha."
A distância
entre o estado comum e o estado iluminado é o que separa a ignorância
do conhecimento desta natureza pura da mente. No estado comum, é
desconhecida. No estado iluminado, é totalmente realizada. A situação
na qual a mente é ignorante de seu estado real é o que chamamos de
ignorância fundamental. Ao realizar sua profunda natureza, a mente
é liberada desta ignorância, das ilusões e condicionamentos que a
mente cria, e então entra no incondicionado estado iluminado,
chamado liberação.
Todo o
Buddhadharma e suas práticas envolvem a purificação, tirar as
ilusões da mente, e proceder de um estado maculado para um
imaculado, da ilusão para a iluminação.
A natureza da mente
A verdadeira
experiência da natureza essencial da mente está além das
palavras. Querer descrevê-la é como a situação de um mudo que
quer descrever o sabor de um doce em sua boca: ele não tem um meio
adequado de se exprimir. Mesmo assim, gostaria de oferecer algumas
idéias que aludem a esta experiência.
Podemos pensar
que a natureza da mente pura tem três aspectos essenciais,
complementares e simultâneos: a abertura, a claridade e a
sensitividade.
A abertura
A mente é o que
pensa, "Eu sou", "Eu quero", "Eu não
quero"; é o pensador, o observador, o sujeito de todas as
experiências. Eu sou a mente. De um ponto de vista, esta mente
existe, já que eu sou e eu tenho a capacidade de ação.
Se eu quero ver, eu posso ver; se eu quero
ouvir, eu posso ouvir; se eu decido fazer algo com
minhas mãos, eu posso comandar meu corpo, e assim por
diante. Neste sentido, a mente e suas faculdades parecem existir.
Mas se buscarmos
por ela, não podemos encontrar qualquer parte dela em nós, nem em
nossa cabeça, em nosso corpo ou em qualquer outro lugar. Então,
desta outra perspectiva, ela parece não existir. Portanto, de outro
lado a mente parece existir, mas por outro lado não é algo que
verdadeiramente existe.
Por mais
exaustivas que sejam nossas investigações, nunca seremos capazes
de encontrar quaisquer características formais da mente: não tem
dimensão, nem cor, forma ou qualquer qualidade tangível. É neste
sentido que ela é chamada de aberta, porque é essencialmente
indeterminada, desqualificada, além do conceito e, assim, comparável
ao espaço. Esta natureza indefinível é a abertura que nos faz
experienciar a mente como um "eu" que possui as características
que habitualmente atribuímos a nós mesmos.
Mas devemos ter
cuidado aqui! Dizer que a mente é aberta como o espaço não é
reduzi-la a algo não-existente, no sentido de ser não-funcional.
Como o espaço, a mente pura não pode ser localizada, mas é
onipresente e permeia tudo; ela abraça e permeia todas as coisas.
Acima de tudo, ela está além da mudança e sua natureza aberta é
indescritível e atemporal.
A claridade
Apesar da mente
ser essencialmente vazia no sentido explicado acima, ela não é
apenas aberta ou vazia, porque se fosse, a mente seria inerte e não
iria experienciar ou conhecer qualquer coisa, nem sensações, nem
alegria ou sofrimento. A mente não é apenas vazia — ela possui
uma segunda qualidade essencial, que é a sua capacidade de experiências,
de cognição. Esta qualidade dinâmica é chamada claridade. Ela é
tanto a lucidez da inteligência da mente quanto a luminosidade
destas experiências.
Para melhorar
nossa compreensão da claridade, podemos comparar a abertura da
mente ao espaço da sala onde estamos. Este espaço sem forma
permite que aconteçam nossas experiências; ele contém a experiência
em sua totalidade. É onde a nossa experiência toma o seu lugar. A
claridade, então, seria a luz que ilumina a sala e que nos permite
reconhecer diferentes coisas. Se houvesse apenas o inerte espaço
vazio, não haveria a possibilidade de haver consciência. Isto é
apenas um exemplo, porque a claridade da mente não é como a luz
comum do sol, da lua ou da eletricidade. É a claridade mente que
faz possível toda cognição e experiência.
A natureza
aberta e luminosa da mente é o que chamamos de "clara
luz"; é uma claridade aberta que, no nível da mente pura, está
consciente em e por si mesma; é por isso que a
chamamos de cognição auto-luminosa ou claridade.
Não há um
exemplo verdadeiramente adequado para ilustrar esta claridade no nível
puro, mas no nível comum, que podemos relatar mais facilmente,
podemos ter uma idéia de alguns de seus aspectos, ao compreender
uma das manifestações da mente — o estado do sonho. Vamos dizer
que é uma noite escura, e que nesta escuridão estamos sonhando, ou
experienciando um mundo do sonho. O espaço mental onde o sonho
acontece, independente do lugar físico onde estamos, poderia ser
comparado à abertura da mente, enquanto sua capacidade de
experienciar, apesar da escuridão externa, corresponde à sua
claridade. Esta lucidez abarca todo o conhecimento da mente e é a
claridade inerente nestas experiências. É também a lucidez do que
ou quem as experiencia; o conhecedor e o conhecido, a lucidez e a
claridade, nada mais são do que duas facetas da mesma qualidade. A
inteligência que experiencia o sonho é a lucidez, e a claridade
presente em suas experiências é a sua luminosidade; mas no nível
não-dual da mente pura, é apenas uma e a mesma
qualidade, a "claridade", chamada prabhasvara em sânscrito,
ou de selwa em tibetano. Este exemplo pode ser útil para o
entendimento, mas tenha em mente que isto é apenas uma ilustração,
mostrando um nível de manifestação específico da claridade em um
nível habitual. No exemplo, há uma diferença entre a lucidez, o
conhecedor e a luminosidade das experiências do sujeito, porque o
sonho é uma experiência dualista, diferenciada em termos de
sujeito e objeto, na qual a claridade se manifesta de uma vez, na
consciência ou lucidez do sujeito, e na luminosidade de seus
objetos. De fato, o exemplo é limitado, pois fundamentalmente não
há dualidade nas mentes puras: é a mesma qualidade da claridade
que é essencialmente não-dual.
A sensitividade
Para uma descrição
completa da mente pura, um terceiro aspecto deve ser adicionado às
duas primeiras qualidades já discutidas; é a sensitividade, ou
desimpedimento. A claridade da mente é a sua capacidade de
experienciar; tudo pode surgir na mente, então suas possibilidades
de consciência ou inteligência são ilimitadas. O termo tibetano
que designa esta qualidade significa literalmente "ausência de
impedimento". Esta é a liberdade da mente experienciar sem
obstrução. No nível puro, estas experiências têm as qualidades
da iluminação. No nível condicionado, elas são as percepções
da mente de cada coisa como sendo isto ou aquilo; ou seja, é a
habilidade de distinguir, perceber e conceber todas as coisas.
Voltando ao
exemplo do sonho, a qualidade inerente de sensitividade da mente,
por causa de sua abertura e claridade, seria a sua habilidade de
experienciar a multiplicidade de aspectos do sonho, tanto as percepções
do sujeito sonhador quanto as experiências do mundo sonhado. A
claridade é o que permite surgir as experiências, enquanto a
sensitividade é a totalidade de todos os aspectos distintamente
experienciados.
Esta
sensitividade corresponde, no nível habitual e dualista, a todos os
tipos de pensamentos e emoções que surgem na mente e, no nível
puro da mente de um buddha, à sabedoria ou qualidades iluminadas
colocadas em prática para ajudar os seres.
Então, a mente
pura pode ser compreendida assim: em essência, é aberta; em
natureza, é clara; e em todos os seus aspectos, é uma
sensitividade desimpedida. Estas três facetas, a abertura, a
claridade e a sensitividade, não estão separadas, mas são
concomitantes. Elas são as qualidades simultâneas e complementares
da mente desperta.
No nível puro,
estas qualidades são o estado de buddha; no nível impuro da ignorância
e da delusão, eles se tornam todos os estados da consciência
condicionada, todas as experiências do samsara. Mas não importa se
a mente é iluminada ou deludida, nada há além dela, e ela é
essencialmente a mesma em todos os seres, humanos ou não-humanos. A
natureza de buddha, com todos os seus poderes e qualidades
iluminadas, está presente em cada ser. Todas as qualidades do
buddha estão em nossas mentes, porém veladas e obscurecidas, assim
como uma vidraça é naturalmente transparente e translúcida, mas
fica opaca pela densa camada de sujeira.
A purificação,
ou remoção destas impurezas, permite que todas as qualidades
iluminadas presentes na mente sejam reveladas. Realmente, nossa
mente tem pouca liberdade e poucas qualidades positivas porque ela
é condicionada pelo nosso karma, pelas marcas habituais do passado.
Pouco a pouco, porém, as práticas do Dharma e de meditação
livram a mente e a despertam para todas as qualidades de um buddha.
Uma breve meditação
 |
Neste ponto,
provavelmente ajudaria fazer uma curta prática experimental, uma
meditação para tentar melhorar nossa compreensão sobre tudo isso.
Sentando
confortavelmente, vamos deixar a mente descansar em seu estado
natural. Relaxamos a nós mesmos, nossas tensões, e permanecemos
sem tensão, sem qualquer intenção específica, sem artifícios...
Soltamos nossa mente e permitimos que ela fique aberta, como o espaço...
Espaçosa, a mente permanece clara e lúcida... Relaxada, solta, a
mente permanece transparente e luminosa... Não mantemos nossa mente
encerrada em nós mesmos... Ela não está confinada em nossa cabeça,
em nosso corpo, no ambiente ou em qualquer lugar. Relaxada, ela é
vasta como o espaço que abarca tudo... Ela abarca tudo, todo o
mundo e todo o universo. Ela permeia nosso mundo inteiro.
Permanecemos descansados, relaxados, neste estado de abertura,
ilimitado, totalmente lúcido e transparente.
|
A abertura e a
transparência da mente, similares ao espaço infinito, são sinais
do que temos chamado de abertura. Sua consciência livre e clara é
o que temos chamado de claridade.
Há também a
sua sensitividade, que é a capacidade da mente experienciar tudo em
uma desimpedida consciência de pessoas, de lugares e de todas as
outras coisas. A mente pode conhecer todas estas coisas e pode
reconhecê-las distintamente.
Mais uma vez,
sem orientar "a mente" — o sujeito-conhecedor — para
fora nem para dentro, permanecemos como estivermos, à vontade e
relaxados... Sem afundar num estado de indiferença ou estagnação
mental, nossa mente permanece alerta e vigilante... Neste estado, a
mente é aberta e desengajada. Isto é a abertura... Na consciência
lúcida está a sua claridade... Todos os aspectos que conhece,
distinta e desimpedidamente, são a sua sensitividade.
Um obstáculo
importante surge como resultado de habitualmente confinarmos a mente
ao corpo, que percebemos como sendo o nosso corpo; nos
identificamos com este corpo, nos fixamos nele e nos encerramos
nele. Para neutralizar isto, é importante relaxar toda tensão,
toda inquietação. Tensa e inquieta, a mente fica presa. Estas tensões
terminarão causando dores físicas e de cabeça.
Deixe a mente
permanecer descansada em sua vastidão lúcida, aberta e relaxada.
Podemos começar
a meditar deste modo, mas é fundamental continuar a prática sob a
direção de um guia qualificado, que nos conduzirá no caminho
correto. Com a ajuda dele ou dela, podemos realizar a vacuidade da
mente, dos pensamentos e das emoções, o que é o melhor de todos
os métodos de nos livrarmos da delusão e do sofrimento. Reconhecer
a natureza das emoções negativas permite que elas sejam liberadas;
é portanto essencial aprender a reconhecer sua vacuidade assim que
as emoções negativas surgirem. Se permanecermos ignorantes de sua
natureza vazia, elas nos carregarão em sua torrente, nos
escravizando e subjugando. Elas têm controle sobre nós porque
atribuímos a elas uma realidade que, na verdade, elas não têm. Se
realizarmos sua vacuidade, então o seu poder alienador e o
sofrimento que eles causam irão desaparecer.
Esta habilidade
de reconhecer a natureza aberta e vazia da mente e de todas as suas
produções, projeções, pensamentos e emoções é a panacéia, o
remédio universal que, em e por si mesmo, cura toda
delusão, toda emoção negativa e todo sofrimento.
Nossa mente pode
ser comparada a uma mão que está atada ou amarrada; neste caso, a
mente está presa pela representação de nosso "eu",
"ego" ou "self", assim como pelos conceitos e
fixações que pertencem a esta idéia. Pouco a pouco, a prática do
Dharma elimina estas fixações e conceitos auto-estimadores e,
assim como uma mão desatada pode se abrir, a mente se abre e ganha
todos os tipos de possibilidades de atividade. Ela então descobre
muitas qualidades e habilidades, como a mão livre de suas amarras.
As qualidades que são lentamente reveladas são aquelas da iluminação,
da mente pura.
Os véus da mente
Se não há uma
diferença essencial entre a mente de um buddha e a nossa própria
mente, por que um buddha tem tantas qualidades atribuídas a ele, e
nós não? A diferença é que em nossas mentes a natureza de buddha
está obscurecida por todos os tipos de cobertura.
No nível impuro
— isso é, na ignorância — cada uma das três facetas da mente
pura se torna um dos elementos que constituem a experiência
dualista. Para começar, a ignorância sobre a abertura da mente
conduz à uma concepção de um sujeito, de um "eu", de um
observador; e a ignorância sobre a claridade essencial conduz à
ignorância dos objetos exteriores. É assim que surge a dicotomia
sujeito-objeto, eu-outro.
Uma vez que os
dois pólos da visão dualista tenham sido estabelecidos, vários
relacionamentos se desenvolvem entre eles, que por sua vez motivam
diferentes atividades. Os estágios deste processo são constituídos
de quatro véus que mascaram a mente pura, a natureza de buddha.
Eles são: o véu da ignorância, o véu da tendência básica, o véu
das aflições mentais e o véu do karma. Eles são consecutivos e
estão estruturados um após o outro.
O véu da ignorância
A ignorância
sobre a verdadeira natureza da mente, isto é, o simples fato dela não
reconhecer o que é realmente, é chamada ignorância fundamental.
É a inabilidade básica da mente condicionada perceber a si mesma.
Podemos comparar a mente pura, que possui as três qualidades
essenciais, com as águas calmas e transparentes, nas quais tudo
pode ser visto claramente. O véu da ignorância é uma falta de
inteligência, um tipo de estado nublado, assim como um vaso opaco
faz a água perder sua claridade transparente. Tal mente obscurecida
perde a experiência da abertura lúcida e se torna ignorante de sua
natureza essencial.
Diz-se que a
ignorância fundamental é inata, porque ela é inerente à nossa
existência; nascemos com ela. De fato, ela é o ponto de partida da
dualidade, a raiz de todas as delusões e a fonte de todo
sofrimento.
O véu da tendência básica
A mente
controlada pela ignorância se engaja em todas as delusões, entre
as quais a mais básica, a raiz de todas as outras delusões, é o
apego dualista em termos de sujeito e objeto.
Quando a mente não
conhece a extensão de sua abertura, ao invés de experienciar sem
centro ou periferia, percebemos tudo através de um ponto central de
referência. Este ponto, o centro que se apropria de todas as experiências,
é o observador, o sujeito-ego. É deste modo que a mente, ignorante
de sua abertura, produz a experiência delusória de um
"eu".
Ao mesmo tempo,
quando a natureza da claridade vai sem ser reconhecida,
experienciamos uma sensação de "outro" ao invés da
qualidade auto-consciente da mente. Assim, o sujeito-ego distingue
coisas que se tornam a qualidade autoconsciente. Assim o sujeito-ego
distingue coisas que se tornam objetos externos. Surge a dicotomia
do sujeito e do objeto, do "eu" e do outro. As
"outras" coisas têm uma forma dual: as aparências do
mundo externo e os fenômenos duais.
Esta tendência
da mente ser ignorante de sua natureza, e de perceber todas as situações
de modo dualista, é o véu da tendência básica. Desta
perspectiva, este segundo véu pode ser chamado o véu do apego
dualista.
O véu das aflições
mentais
Como vimos, a
mente ignorante de sua abertura e de sua claridade fica imersa na
dualidade. Então, a ignorância da sensitividade da mente dá
surgimento a todos os relacionamentos que existem entre os dois pólos
da dicotomia sujeito-objeto. No nível puro, a sensitividade é a
imediação e a multiplicidade das qualidades iluminadas, mas na
ignorância, estas qualidades são substituídas pelas infinitas
possibilidades relacionais dualistas. Na ignorância, começamos
tomando os objetos externos como sendo coisas reais. Então
experienciamos atração aos objetos agradáveis, aversão aos
objetos desagradáveis e indiferença aos objetos que parecem
neutros. Se um objeto é agradável, queremos possuí-lo. Por outro
lado, diante de objetos ou situações desagradáveis, temos uma
atitude de rejeição ou fuga. Finalmente, não nos relacionamos com
certos objetos ou situações por causa da indiferença ou estagnação
mental.
Estes três
tipos de relacionamentos — atração, aversão e indiferença —
correspondem ao desejo, ao ódio e à ignorância. Estes são os três
venenos mentais primários, as três principais aflições mentais
que animam e condicionam a mente habitual.
Na base destes
três tipos de relacionamento, outras numerosas aflições mentais
ou emocionais se multiplicam, notavelmente o orgulho, a ganância e
a inveja. O orgulho surge deste "eu" que nasce da ignorância;
a ganância é uma extensão do apego desejoso; enquanto a inveja
provém do ódio e da aversão. Assim, os três venenos primários
se ramificam em seis aflições mentais: ódio, ganância, ignorância,
apego desejoso, inveja e orgulho. Elas correspondem aos seis estados
de consciência característicos dos seis reinos da existência.
Depois, eles são subdivididos de novo e de novo, totalizando 84 mil
tipos diferentes de aflições mentais! Todos estes relacionamentos
dualistas e afligidos compõem o véu das aflições mentais.
O véu do karma
As várias aflições
mentais conduzem a uma grande variedade das ações dualistas, que
podem ser — em termos de karma — positivos, negativos ou
neutros. Elas condicionam a mente e a fazem nascer em um dos seis
reinos da existência condicionada. Isto é o que chamamos de véu
da atividade condicionada, ou véu do karma.
O Dharma: uma prática de
desvelamento
Estes quatro véus
que encobrem a mente nos fazem ser seres comuns, lançados pelas
delusões nos seis reinos do samsara. Não podemos ser livres desta
condição, exceto eliminando os véus e desvelando a mente. A prática
do Dharma oferece numerosos métodos que permitem que estas
impurezas caiam pouco a pouco, assim revelando a jóia da mente
pura.
A natureza pura
da mente pode ser comparada a uma bola de cristal, e os quatro véus
a quatro pedaços de pano que a encobrem e escondem mais e mais. De
acordo com uma outra imagem, estes véus podem ser comparados às
camadas de nuvens que encobrem o céu da mente. Do mesmo que as
nuvens obscurecem o céu, os véus mascaram o espaço aberto, assim
como a claridade de sua lucidez. A prática do Dharma, e
primariamente a meditação, gradualmente removem estes diferentes véus,
do mais grosseiro ao mais sutil.
Quando todos
estes véus ou coberturas são removidos, há um desvelamento
completo, um estado de purificação chamado sang em
tibetano. O desabrochamento de todos os aspectos do espaço e da
luz, revelados por esta purificação, é descrito pelo termo gye.
Estas duas sílabas, sang gye, que literalmente significam
"pureza e desabrochamento perfeitos" ou
"completamente puro e totalmente desabrochado", juntas
formam a palavra tibetana para buddha. O estado de buddha é
a manifestação das qualidades inerentes à mente, uma vez que ela
tenha sido purificada dos véus que a obscurecem.
O desvelamento,
que revela as puras qualidades inerentes da mente, marca todo o
progresso sobre o caminho da prática do Dharma.
O jogo da ilusão
A mente é a
base de tudo, tanto da iluminação quanto da ilusão. Como a base
para a iluminação, ela é a fundamental sabedoria primordial que
tem as três qualidades que detalhamos anteriormente. Encoberta
pelos quatro véus, ela se torna a consciência fundamental, que é
a base para todas as ilusões que compõem os diferentes aspectos da
existência cíclica ou samsara.
O karma
A consciência
fundamental pode ser comparada a um solo que recebe as marcas ou
sementes deixadas pelas nossas ações. Uma vez plantadas, estas
sementes permanecem no solo da consciência fundamental até que as
condições para sua germinação e amadurecimento venham juntas.
Deste modo, realizamos seu potencial ao produzir as plantas e os
frutos que são as várias experiências do samsara. Os rastros que
as ações deixam na consciência fundamental são causas que,
quando as condições favoráveis se apresentarem, resultarão em um
estado específico de consciência individual, acompanhado por suas
próprias experiências específicas. Em geral, a coleção de
marcas deixadas nesta consciência fundamental pelas ações
passadas seve para condicionar todos os estados e experiências da
consciência individual, isto é, o que nós somos e tudo o que
experienciamos. A ligação dos diferentes passos deste processo,
desde as causas — os atos iniciais — até as suas conseqüências
— as experiências presentes e futuras — é chamada karma, ou
causação das ações.
Karma é uma palavra em sânscrito que significa "atividade
condicionada". Esta noção inclui toda gama de atividade,
desde a causa até a conseqüência de uma ação. O karma é,
portanto, a atividade compreendida como sendo a série de causas e
resultados das ações.
O samsara
O karma, ou
nossas ações e suas marcas, condiciona a mente. Por causa do
karma, a mente experiencia as ilusões que compõem os vários seres
e ambientes — em outras palavras, a consciência e suas diferentes
experiências. Portanto, os diferentes tipos de consciência, toda
alegria e sofrimento, são aparências ilusórias manifestadas pelo
poder do karma. Todas as suas categorias são agrupadas nos seis
reinos.
Os seis reinos ou seis classes de seres incluem todos os tipos de
estados nos quais a mente pode nascer. Eles compõem todo o samsara,
um termo sânscrito que significa literalmente "existência cíclica",
o "ciclo das existências condicionadas", ou a "roda
de nascimentos", assim chamada porque os seres karmicamente
condicionados transmigram infinitamente nesse ciclo. Ocasionalmente,
pelo poder de uma influência positiva ou do karma positivo, a mente
nasce em um reino superior; em seguida, pelo poder de uma influência
negativa ou do karma negativo, a mente nasce em um reino inferior.
Esta roda de nascimentos gira continuamente, com um ponto conduzindo
a mente para um reino superior, e então para um reino inferior.
Esta alteração ininterrupta termina apenas com o atingimento da
liberação — emergir da existência condicionada. Isto é o fim
do samsara, o despertar de um buddha. Enquanto não tivermos
atingido a liberação, a mente transmigrará nos vários reinos do
samsara; nós já viajamos por todos eles.
Hoje somos humanos; amanhã poderemos renascer em um outro estado de
existência. O que realmente transmigra de uma vida para outra é a
mente condicionada pelo karma, que determina sua felicidade, seu
sofrimento e suas habilidades. O que somos hoje — os diferentes
reinos onde fomos e iremos — resulta do karma que condicionada as
projeções da mente e assim forma as suas ilusões.
Karma e
liberdade
Então, a partir
desta perspectiva, o karma é positivo quando ele serve como uma
causa para um estado feliz e nos traz mais próximos da liberdade, e
é negativo quando resulta em estados dolorosos e nos distancia da
liberação.
É muito importante compreender claramente que, apesar de o karma
condicionar nossas experiências e ações, nós ainda desfrutamos
de uma certa medida de liberdade — o que chamaríamos de livre arbítrio
no Ocidente —, que está sempre presente em nós, em proporções
variadas. Cada vez nos encontramos em uma encruzilhada: um caminho
conduz à felicidade e à iluminação, o outro conduz à
infelicidade e ao sofrimento. Estamos continuamente confrontados com
uma escolha: a escolha certa gera karma favorável ao
desenvolvimento positivo, enquanto uma escolha ruim produz karma
negativo, a causa para a infelicidade no futuro. A escolha é nossa,
mas as conseqüências são inevitáveis.
A liberdade ou livre arbítrio é possível porque, no meio do
samsara, apesar de sua natureza condicionada, sempre temos um grau
de consciência direta e de experiência autêntica. Nossa mente e
suas experiências participam simultaneamente nos condicionamentos
de ignorância e na liberdade da consciência direta. Da ignorância
vem um modo dualista de experienciar as coisas em termos de sujeito
e objeto, e isto cria a consciência individual centrada no ego, que
manifesta as diferentes paixões. Da consciência direta, por outro
lado, surgem qualidades positivas, não centradas no ego. São
destas aflições ou destas qualidades positivas que surgem,
respectivamente, o karma negativo ou positivo.
Assim, o karma positivo flui das atitudes mentais virtuosas, tais
como o amor, a compaixão, a boa vontade, o altruísmo, os desejos
modestos, junto com suas seis principais aflições da raiva, ganância,
estupidez, apego desejoso, inveja e orgulho.
Diz-se que existe um terceiro tipo de karma, chamado karma inamovível.
É produzido por certos tipos de meditação que estabilizam a mente
e a colocam em um estado de equanimidade. Este tipo de karma resulta
em nascimentos nos reinos divinos, ou estados de consciência
caracterizados por uma mente estável.
Em geral, tudo o que existe no samsara é gerado por estes três
tipos de karma contaminado. Por "contaminado" queremos
dizer que são atividades dualistas que fazem distinções de
sujeito, objeto e ação. De fato, todas as atividades da consciência
ordinária podem ser resumidos sob estes três tipos de karma.
Entre os diferentes tipos de karma, podemos distinguir ainda o karma
propelente e o karma complementador. O karma propelente, como o nome
sugere, propele-nos a um estado de existência, seja ele qual for. O
karma complementador determina as circunstâncias específicas
dentro desse estado de existência; ele preenche o contorno básico
produzido pelo karma propelente. Estes dois tipos de karma podem se
combinar; por exemplo, se o karma que propele um certo modo de existência
for positivo e o karma que preenche os aspectos específicos for
negativo, podemos nascer em um estado superior de consciência, mas
podemos experienciar condições desagradáveis nessa vida. Por
exemplo, apesar de termos nascido como humanos, podemos ser pobres.
Inversamente, um karma propelente negativo associado a um karma
complementador positivo poderia nos fazer nascer na existência de
um reino inferior no qual desfrutaríamos de boas circunstâncias.
Por exemplo, podemos nascer no Ocidente como um animal doméstico,
que teria condições de vida privilegiadas.
Há também o karma coletivo e individual. Todos seres em um estado
de existência desenvolveram um karma similar, então o mundo
aparece para eles de maneira similar. Este karma é dito com sendo
coletivo. Ainda assim, a situação específica de cada ser em
termos de localização, aparência física, felicidade e sofrimento
é a manifestação do karma único daquele ser. Este é o karma
individual, porque produz experiências específicas.
O sofrimento das três classes de seres dos reinos inferiores e a
felicidade das três classes de seres dos reinos superiores resulta
de diferentes combinações de karma. Juntos, eles constituem todas
as condições flutuantes e variadas, causadas pelas muitas
variedades de karma.
Diferentes efeitos vêm de diferentes ações; diferentes tipos de
karma criam a diversidade de seres e os estados de existência. É
neste sentido que o karma é o criador do samsara.
Os seis reinos
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Qualitativamente,
cada uma das seis aflições mentais engendra um certo tipo de
nascimento: o ódio conduz a um reino infernal, a ganância a um
reino de fantasmas famintos, a estupidez a um reino animal, o apego
desejoso a uma condição humana, a inveja ao reino dos deuses
invejosos, e o orgulho aos estados divinos.
Quantitativamente,
estes diferentes estados resultam da acumulação de karma. Então,
muito karma negativo gera um reino infernal; um karma um pouco menos
negativo, o reino dos fantasmas famintos; um pouco menos que isso,
um reino animal. Geralmente,
quando o karma positivo está misturado com alguns aspectos
negativos, nascemos em um dos três reinos superiores da existência,
de acordo com as respectivas forças destes karmas.
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O reino do
inferno
A mente no
dominada pela raiva e pelo ódio produz o karma para a vida em um
inferno. O que sofre nesse estado infernal é a mente, nossa mente.
As aparências infernais, os seres que nos atacam ou nos matam, o
ambiente e todo o sofrimento que nos aflige nesse reino, são produções
de nossa própria mente condicionada pelo nosso karma.
Nestes estados
infernais, somos atormentados inflexivelmente por um sofrimento
inconcebível: somos mortos e, em alguns reinos infernais,
experienciamos ser mortos de novo e de novo; somos torturados pelo
calor e frio extremos. E não há liberdade, nem qualquer
possibilidade de nos dedicarmos à prática espiritual.
O reino dos
fantasmas famintos
Se nossas mentes
caírem como pressas da ganância ou cobiça, o karma que resulta é
o nascimento como um fantasma faminto. Neste estado, nunca podemos
obter o que queremos, nem podemos desfrutar da comida ou bebida que
desejamos desesperadamente como fantasmas famintos. Sempre estamos
precisando e procurando algo, mas somos completamente incapazes de
satisfazer nossos desejos e sofremos de fome, de sede e de
constantes frustrações intensas. É também um estado produzido
pela nossa própria mente e, apesar de ser um pouco menos desfavorável
que o reino infernal, ainda é um estado miserável.
O reino animal
A mente também
pode cair sob a influência da cegueira, da estagnação mental e da
estupidez, o que causa o nascimento com um animal. Há muitas espécies
animais: animais selvagens, animais domésticos e assim por diante.
Todos eles experienciam diferentes formas de sofrimento, tais como
ser comido vivo, brigar uns com os outros, ou ser subserviente e
abusado. Todo sofrimento encontrado no reino animal também é a
produção da mente e a manifestação de karma resultante de ações
negativas anteriores.
Estes três tipos de existência compõem os estados dos reinos
inferiores. Entre eles, o mais favorável é o reino animal. Mas
mesmo nesse estado, é muito difícil despertar o amor e a compaixão,
e é impossível praticar o Dharma.
Em todos estes reinos inferiores, não há a possibilidade de
praticar o Dharma e de atingir a realização; a mente está
constantemente perturbada pela raiva, ódio, desejo e assim por
diante. Além disso, os seres dos reinos inferiores tendem a
realizar mais ações negativas que criam ainda mais karma doloroso.
Deste modo, eles perpetuam o condicionamento das vidas nos reinos
inferiores que, além disso, duram por um tempo extremamente longo.
O reino humano
A condição
humana é a primeira das existências nos reinos superiores. Os
humanos são praticamente os únicos seres dotados com as condições
necessárias para o progresso espiritual, assim com as faculdades
que permitem a prática e a compreensão do Dharma. Porém, ser
humano não garante o progresso espiritual. O valor da vida humana
é variável e apenas aqueles que obtiveram a chamada "preciosa
existência humana" podem praticar o Dharma; eles são tão
raros quanto estrelas durante o dia! Apesar de estar ser uma condição
menos dolorosa que as existências nos reinos inferiores, a condição
humana ainda tem muitos tipos de sofrimento, sendo que os quatro
tipos principais são o nascimento, a doença, a velhice e a morte.
Além destas quatro grandes fontes de sofrimento, os humanos sofrem
quando são separados daqueles que amam estimadamente, durante suas
vidas ou na morte, ou quanto têm de lidar com pessoas com as quais
não querem lidar ou que são hostis diante eles. Os humanos sofrem
ao perder suas posses, ao não serem capazes de manter o que
planejaram adquirir e ao não serem capazes de obter o que querem.
O reino dos
deuses invejosos
O karma que é
acima de tudo positivo, porém misturado com a inveja, causa o
nascimento no reino dos deuses invejosos. Este é um estado feliz,
dotado com muitos poderes e prazeres mas, por causa da força da
inveja, há constantes brigas e conflitos. Os deuses invejosos opõem-se
aos deuses que são seus superiores e brigam entre si mesmos.
O reino divino
O karma positivo
combinado com pouquíssimo karma negativo resulta em um renascimento
nos estados divinos. Há diferentes níveis de existência divina.
Os primeiros são os estados divinos do reino do desejo, assim
chamados porque a mente nesses reinos ainda está sujeita aos
desejos e ao apego. Estes deuses têm uma vida extremamente longa:
em um dos primeiros reinos dos deuses, um dia dura o equivalente a
cem anos humanos, e eles vivem quinhentos dos anos deles. No nível
seguinte dos reinos divinos, cem de nossos anos equivalem a um dos
dias deles, e eles vivem mil anos! Nestes reinos geralmente felizes,
ainda há algum sofrimento, causado por ocasionais brigas com os
seres do reino dos deuses invejosos.
As existências no reino do desejo vão desde os reinos mais miseráveis
— os reinos infernais — até os primeiros reinos dos deuses;
todos estes estados estão sob o controle do desejo.
Além do reino do desejo, há o reino da forma sutil, que inclui uma
hierarquia de dezessete níveis divinos sucessivos. Os seres nestes
estados têm uma forma sutil e corpos extremamente grandes,
luminosos; suas mentes conhecem poucas paixões, poucos pensamentos;
e eles desfrutam de uma felicidade incrível. A paixão predominante
é o orgulho sutil — os seres destes reinos acham que atingiram
algo superior e vivem um tipo de auto-satisfação.
Estes estados do reino da forma correspondem aos quatro níveis de
concentração meditativa, caracterizados pela transcendência
progressiva da investigação, da análise, da alegria e do êxtase.
Finalmente, além até mesmo deste quatro níveis de concentração
do reino da forma, pode haver o nascimento no reino sem forma. Os
seres do reino sem forma não experienciam qualquer sofrimento
severo e virtualmente não têm quaisquer paixões; eles permanecem
apenas em uma forma extremamente sutil. A impureza que permanece em
suas mentes é um tipo de estagnação mental que impede a realização
da natureza última da mente. No reino sem forma, a mente tem acesso
a quatro estados sucessivos de consciência; absorção do espaço
infinito, absorção da consciência infinita, absorção do nada, e
absorção nem da diferenciação nem da não-diferenciação.
Os deuses do reino sem forma têm o sentimento de possuir um corpo,
mas este corpo é imperceptível. Eles têm apenas o quinto agregado
da individualidade — a consciência — ainda apresente como uma
ignorância sutil que lhes dá um sentimento de existir neste corpo
sem forma. Este consciência finalmente age como uma mãe que
novamente dá a luz aos outros agregados. Deste modo, os deuses do
reino sem forma retornam aos reinos inferiores. Para ser livre do
samsara, a consciência em si deve ser definitivamente transformada
na sabedoria primordial, a sabedoria da iluminação.
Estes oito estados dos reinos da forma e sem forma pertencem a uma
mente positiva, não-distraída; seus estágios sucessivos são
progressivamente livres do apego. Todos estes estados dos seis
reinos do samsara são transitórios e condicionados: todos eles são
parte da roda do samsara. Apesar de os deuses dos reinos da forma e
sem forma terem poucas formas severas de sofrimento, eles ainda estão
sujeitos à morte e à transmigração. Eles não têm o poder de
permanecer em sua condição divina e sofrem, tendo de renascer em
um reino inferior.
Se acharmos difícil aceitar a noção destes diferentes reinos,
vamos simplesmente lembrar que a experiência de cada um é a sua
realidade. Quando estamos sonhando, nossos sonhos tornam-se a nossa
realidade, e acontece o mesmo com os seis reinos. Por exemplo, água
pode ser experienciada de maneiras muito diferentes: para os seres
do inferno, ela causa tortura; para os fantasmas famintos, é o que
desejam desesperadamente; para alguns animais, é o meio necessário
para a vida; para as pessoas, é uma bebida; para os deuses
invejosos, é uma arma; e para os deuses, é um néctar sublime. As
profundezas do oceano são o habitat natural dos peixes, mas os
humanos não podem viver lá. Os pássaros voam no céu, mas isto é
impossível para o corpo humano. As pessoas que são cegas não
podem ir aonde querem, enquanto aqueles que têm a visão normal
podem se mover livremente por aí. Cada um vive em seu próprio
mundo ou reino, sem perceber o dos outros.
Então, o samsara é composto por três reinos: o reino do desejo, o
reino da forma e o reino sem forma. Todas as possibilidades da existência
condicionada estão incluídas neles.
Tornando-nos conscientes de que todos os seres sofrem neste ciclo de
existência, nos inspiraremos a nos liberarmos da ignorância e da
delusão onde estamos imersos, a nos libertarmos do samsara, que é
um oceano de sofrimento, e a nos esforçarmos para atingir a
felicidade suprema do estado búddhico perfeito.
No passado, tivemos incontáveis nascimentos na existência cíclica.
Hoje, somos seres humanos; se usarmos este oportunidade sabiamente,
poderá ser o ponto de partida para a nossa liberação.
As duas
verdades
A crença errônea
que dolorosamente condiciona todos os seres na existência cíclica
surge da ignorância. Essa ignorância é uma ausência de consciência
sobre a verdadeira vacuidade da mente e das suas produções. De
fato, a crença errônea é a ignorância sobre o verdadeiro modo de
existência de todas as coisas.
Todas as coisas,
todos os fenômenos, todos os objetos de conhecimento — isso é, o
universo externo e todos os seus seres, tudo que experienciamos em
termos de formas, sons, sabores, odores, objetos tangíveis e
objetos da consciência mental — tudo o que somos e que podemos
conhecer, manifesta-se pelo poder das tendências da mente, que são
essencialmente vazias.
A mente não é
existente ou não-existente. Do mesmo modo, os fenômenos que ela
produz não são completamente ilusórios nem completamente reais.
Como nós os experienciamos ordinariamente, eles são relativamente
reais, mas de uma perspectiva absoluta, essa realidade relativa é
ilusória.
Todas as coisas
podem ser vistas de acordo com dois níveis de realidade: o nível
relativo, ou convencional, e o nível absoluto, ou último. Estas
duas verdades correspondem aos dois pontos de vista, às duas visões
da realidade: a verdade ou visão relativa é convencional ou
relativamente verdadeira, mas absolutamente ilusória; e a verdade
ou visão absoluta é definitivamente verdadeira, a experiência autêntica
além de toda ilusão.
Todas as percepções
samsáricas são experiências da verdade relativa. O nirvana, que
está além das ilusões e do sofrimento do samsara, é o nível da
verdade absoluta. Portanto, por exemplo, as experiências de um ser
do reino infernal são bastante reais do ponto de vista relativo,
enquanto essas percepções são ilusórias de uma perspectiva
absoluta. Isto significa que um ser que se encontra em um reino
infernal realmente experiencia sofrimento lá: desta perspectiva,
suas experiências e sofrimento são reais e totalmente infernais.
Mas do ponto de vista absoluto, o inferno não existe; ele é
realmente apenas uma projeção, uma produção da mente
condicionada, cuja natureza é a vacuidade.
O sofrimento vem
do não-reconhecimento da vacuidade das coisas, o que resulta em
atribuirmos a elas uma realidade que verdadeiramente não têm. Este
apego às coisas como sendo reais sujeita-nos a experiências
dolorosas.
Podemos ter uma
melhor compreensão disto ao usar o exemplo de um sonho. Quando alguém
tem um pesadelo, essa pessoa sofre. Para o sonhador, o pesadelo é
real; de fato, é a única realidade que o sonhador conhece. Mas
ainda assim, o sonho não tem realidade tangível e não é
verdadeiramente "real"; ele não tem realidade fora da
mente condicionada do sonhador, fora do próprio karma do sonhador.
Do ponto de vista último, é de fato uma ilusão. A ilusão do
sonhador está em falhar no reconhecimento da natureza de suas
experiências. Ignorante do que elas verdadeiramente são, o
sonhador considera sua própria produção — as criações de sua
própria mente — como sendo uma realidade autônoma; assim
deludido, ele é amedrontado pelas suas próprias projeções e
portanto cria sofrimento para si mesmo. A delusão é perceber como
real o que verdadeiramente não é. O Buddha Shakyamuni ensinou que
todos os reinos da existência cíclica ou condicionada, todas as
coisas, todas as experiências são, em geral, aparências ilusórias
que não podem ser consideradas nem verdadeiramente reais, nem
completamente ilusórias. Ele demonstrou essa natureza dual usando o
exemplo da aparência da lua sobre a superfície de um corpo d'água:
"A natureza de todas as coisas e todas as aparências é como o
reflexo da lua sobre a água".
A lua refletida
sobre a superfície da água é real enquanto for visível lá, mas
sua realidade é apenas uma aparência relativa, ilusória, porque a
lua sobre a água é apenas um reflexo. Não é verdadeiramente real
nem completamente ilusória. Desta perspectiva, podemos nos referir
à verdade relativa como a verdade das aparências. O Buddha
Shakyamuni usou outros exemplos, dizendo que todas as coisas são
como uma projeção, uma alucinação, um arco-íris, uma sombra,
uma miragem, um reflexo no espelho, e um eco; fora da simples aparência
resultante da "funcionalidade" dos fatores
inter-relacionados, coisa alguma tem existência em, de
ou por si mesma.
Compreender isto
pode realmente nos ajudar porque, apesar de não terem existência
verdadeira, nos apegamos a todas estas coisas como se fossem reais.
O objetivo do ensinamento de Buddha é dissolver esta fixação, que
é a fonte de todas as ilusões e é tão tenaz quanto o nosso
condicionamento kármico.
Karma, interdependência e
vacuidade
Dentro do
conceito de karma, não há noção de destino ou fatalismo; apenas
colhemos o que plantamos. Experienciamos os resultados de nossas próprias
ações. A noção do karma está extremamente conectada com a do
surgimento dependente, ou tendrel em tibetano. A corrente do
karma também é a interação do tendrel, fatores
interdependentes cujas causas e resultados mutuamente originam uns
aos outros.
A palavra
tibetana tendrel significa interação, interconexão,
inter-relação, interdependência, ou fatores interdependentes.
Todas as coisas, todas as nossas experiências, são o tendrel,
o que quer dizer são eventos que existem por causa do
relacionamento entre fatores inter-relacionados. Esta idéia é
essencial para a compreensão do Dharma em geral e, em particular,
para a compreensão de como a mente transmigra na existência cíclica.
Para compreender
o que o é o tendrel, ou surgimento dependente, vamos
pegar um exemplo. Quando você ouve o som de um sino, pergunte a você
mesmo: o que faz o som? É o corpo do sino, o badalo, a mão que
move o sino para cá e para lá, ou os ouvidos que escutam o som?
Nenhum destes fatores produz sozinho o som; ele resulta da interação
de todos estes fatores. Todos os elementos são necessários para o
som do sino ser percebido, e eles não são uma sucessão, são
simultâneos. O som é um evento cuja existência depende da interação
daqueles elementos; isso é o tendrel.
Similarmente,
todas as vidas condicionadas, todos os fenômenos do samsara,
resultam de uma multiplicidade de interações que pertencem aos
doze elos do surgimento dependente. Estes doze fatores dão origem
uns aos outros, mutuamente. Não é que cada fator faz o próximo
ocorrer, sucessivamente; como no exemplo do sino, eles são simultâneos,
coexistentes. Para produzir uma existência condicionada, é necessário
que os doze fatores estejam presentes ao mesmo tempo. O cativeiro de
causas e resultados destes fatores interdependentes, que geram a
ilusão, é a ação do samsara. Tudo dentro do samsara é o
inter-relacionamento karmicamente condicionado; todas as nossas
experiências são tendrel. A verdade das aparências criadas
pelo cativeiro dos surgimentos dependentes é a verdade convencional
ou dualista. É assim que ordinariamente vivemos: governados pelo
karma. A natureza vazia do que existe no nível relativo é o que
chamamos de verdade última.
Compreender
verdadeiramente o surgimento dependente nos permite ir além do
condicionamento do nível relativo, ou convencional, e atingir a paz
e a liberdade da incondicionalidade. Quando você compreende
completamente o surgimento dependente, você também compreende a
vacuidade. E isso é a liberdade.
Portanto, a
sabedoria, ou conhecimento, não está fundamentalmente separada da
ilusão. Isso porque muitas vezes é dito que o samsara e o nirvana
não são diferentes, e que uma forma de sabedoria é latente na
ignorância. A lógica e o raciocínio conduzem definitivamente a
estas afirmações, que parecem ser contraditórias e ilógicas. A lógica
e o raciocínio podem ir até o infinito. Elas são parte do
processo do samsara e definitivamente conduzem a contradições.
Mesmo assim, já que são ferramentas que podem trazer a realização
da verdade, elas são úteis e não devem ser rejeitadas, apesar
delas serem eventualmente liberadas no momento da realização da
vacuidade.
Mas tenha
cuidado. A compreensão correta da vacuidade não é, de qualquer
modo, niilista. Se decidirmos que tudo é vazio e sem realidade, que
o estado de buddha não tem existência real, que a causalidade kármica
é vazia e que portanto não há razão para preocupação, isto
seria uma visão niilista, pior até do que a visão que considera
as coisas relativas como sendo verdadeiramente existentes. As concepções
niilistas são um erro mais sério do que a concepção realista que
considera os fenômenos como se existissem do modo que aparecem.
A compreensão
correta da vacuidade está entre os dois extremos do eternalismo
(acreditar que as coisas sejam inerentemente ou verdadeiramente
existentes) e o niilismo (acreditar que elas não existem). A visão
do caminho do meio elimina as idéias errôneas e nos permite ir,
definitivamente, para além das noções conceitualizadas sobre a
realidade.
Mas tome cuidado: imaginar a vacuidade fecha a porta para
a iluminação.
O grande
detentor da linhagem, Saraha, disse: "Considerar o mundo como
sendo real é uma atitude brutal. Considerá-lo como irreal é ainda
mais selvagem".
E Nagarjuna
disse: "Aqueles que apenas imaginam a vacuidade são incuráveis".
Kalu
Rinpoche. Luminous mind: the way of the Buddha. Compilado
por Denis Töndrup,
traduzido por Maria Montenegro, prefácio de S.S. o Dalai Lama.
Boston: Wisdom, 1997. Pág. 15-44.
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