Os
Espírito de Todas as Tradições
Os ocidentais atingiram um nível
incrivelmente alto de sofisticação tecnológica. Máquinas
produzidas em massa nos permitem viajar através do ar em grande
velocidade, explorar as profundezas do oceano, e presenciar
instantaneamente o que quer que esteja acontecendo em qualquer canto
do mundo e até mesmo fora do nosso planeta.
Porém, nossa
mente, que está tão próxima de nós, permanece impenetrável: não
compreendemos o que nossa mente realmente é. Isto é um paradoxo
pois, apesar de termos refinados telescópios para enxergar a
anos-luz daqui e microscópios poderosos o bastante para
distinguir os detalhes atômicos da matéria, a mente, que o aspecto
mais básico e íntimo do nosso ser, permanece o mais invisível,
desconhecido, misterioso.
Os
desenvolvimentos científicos e o controle sobre nossas condições
materiais nos trouxeram um nível relativamente alto de conforto
externo e de bem estar físico. Certamente, isto é maravilhoso, mas
mesmo assim, o progresso da ciência e da tecnologia não impede a
mente de permanecer na ignorância sobre si mesma e, portanto, de
ser condicionada e atingida pelo sofrimento, frustração e angústia.
Para aliviar estes problemas, é crucial descobrir e compreender a
natureza real de nossa própria mente.
Compreendendo
nossa natureza real
O principal
ponto aqui é compreender nossa natureza real, ou o que somos.
Muitos de vocês sabem muitas coisas; vocês são educados. Tentem
usar suas capacidades para estudar a mente.
Vocês não
devem pensar que este tipo de investigação se aplica apenas a uma
pequena elite. Cada um de nós tem uma mente cuja natureza é a
mesma para todos. Somos todos iguais; todos temos o sentimento de
existir com um ego que está sujeito a todos os tipos de
dificuldades e sofrimento, ansiedades e medos. Tudo isto resulta da
ignorância sobre nossa natureza básica. Não há melhor remédio
para eliminar o sofrimento do que alcançarmos a compreensão do que
realmente somos. Este é o coração de todos as práticas
espirituais.
Todas as tradições
espirituais — cristã, hindu, judaica, islâmica ou buddhista —
ensinam que o ponto principal é a compreensão do que somos, em seu
nível mais profundo.
Esta compreensão
da natureza da mente se irradia do interior e ilumina os
ensinamentos de todas as tradições. Em cada tradição, qualquer
um que ganhe, em primeira mão, a compreensão experiencial da
mente, e que retenha esse tipo de compreensão, é conduzido a uma
visão de mundo que não seria possível antes desta experiência
direta. O conhecimento da natureza da mente é a chave que abre uma
compreensão de todos os ensinamentos; ilumina o que somos, a
natureza de nossas experiências, e revela a forma mais profunda do
amor e da compaixão.
A verdadeira
realização da natureza da mente abre uma compreensão do Dharma e
de todas as tradições. Porém, ter um bom conhecimento teórico do
Dharma ou de qualquer outra tradição espiritual, e realizar
efetivamente a natureza absoluta da mente, são duas coisas
profundamente diferentes. Mesmo um ser realizado que não esteja
envolvido em uma tradição espiritual específica, enquanto vive no
mundo comum, poderia ter uma influência extremamente benéfica.
Gostaria de enfatizar que isto é verdade independentemente da tradição
espiritual. Cada tradição é iluminada por esta consciência, mas
especialmente no caso dos ensinamentos de Buddha, nos quais este
conhecimento constitui o coração e a meta de todas as suas instruções.
A
realização da mente como sendo a origem de todas as tradições
Muitas centenas
de tradições religiosas se manifestaram no mundo. Todas elas
surgiram da atividade espiritual iluminada que surge da realização
completa da natureza da mente. Cada tradição trabalha pelo
bem-estar dos seres, de acordo com as suas necessidades específicas.
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Certas tradições
religiosas nos permitem ganhar renascimento nos primeiros estágios
de um reino superior, outras nos reinos divinos do mundo da forma
pura ou nos reinos sem forma. Finalmente, algumas tradições
conduzem à realização espiritual definitiva. Mas todas elas nos
ensinam as práticas necessárias para nos impedir de cair nos
reinos inferiores da existência e para ascendermos aos reinos
superiores. Todas as tradições nos oferecem força espiritual e
poder de transformação. Neste sentido, tenho fé em todas elas. |
É útil
reconhecer que o cristianismo é um caminho similar ao buddhismo por
causa da importância que dão à fé, à compaixão, às oferendas,
à oração, à generosidade e ao comportamento disciplinado. Acho
que aqueles que aspiram aos ensinamentos cristãos, e que têm fé
neles, são seres afortunados e, portanto, podem dar um significado
verdadeiro à existência humana que eles obtiveram. No buddhismo,
seja no Japão, Laos, Camboja, Vietnã, Tailândia, Birmânia, Sri
Lanka, Coréia, China ou Tibet, todos os ensinamentos e práticas do
Dharma têm os mesmos fundamentos e, assim, os praticantes das várias
escolas são irmãos e irmãs.
Mais
especificamente no Tibet, oito linhagens maiores coexistem, mas hoje
quatro linhagens principais permanecem como escolas. Estas são as
tradições Sakya, Gelug, Nyingma e Kagyü. Cada uma destas tradições
transmite a palavra incomparável do Buddha através das linhagens
dos sábios e adeptos que são como o ouro puro. Eles transmitem o
Dharma autêntico, sem corrupção, que conduz os seres à liberação
da existência cíclica, à definitiva realização espiritual.
A
complementaridade das diferentes tradições
Já que toda
tradição e linhagem tibetana constitui um ensinamento autêntico e
completo, poderíamos perguntar, "Então, por que há
tantas?" Em geral, sua variedade corresponde às variadas
capacidades e inclinações dos seres. Cada sistema existe para
encontrar as necessidades e habilidades específicas de diferentes
pessoas com diferentes mentalidades.
Pessoalmente,
fui discípulo de muitos mestres das quatro tradições tibetanas.
Estabeleci excelentes conexões com cada uma delas e tenho grande fé
em seus diferentes ensinamentos. Entre meus discípulos, há muitos
praticantes, lamas e monges destas quatro escolas tibetanas. Além
disso, gostaria que todos aqueles que seguem os meus ensinamentos
tivessem fé em todas as tradições. Considero-as imparcialmente, já
que todas elas são beneficiais para diferentes pessoas, com
afinidades específicas que são derivadas de suas conexões prévias.
Todas as tradições
insistem sobre a disciplina procedida de uma compreensão do karma
como um modo de mudar radicalmente o nosso pensamento condicionado,
e como a base para proceder ao estado de Buddha. Além disso, cada
tradição possui sua própria coleção de ensinamentos e instruções
práticas, surgidas das experiências pessoais dos mestres de cada
linhagem.
Em geral, ter fé
em todas as tradições é um sinal de profunda compreensão dos
ensinamentos. Porém, é absolutamente necessário engajar-se em uma
tradição, receber dela instruções detalhadas, ser introduzido às
suas práticas essenciais e, então, praticar principalmente estes
ensinamentos, de maneira apropriada.
Assim,
independente da escola ou mestre de quem se recebeu ensinamentos,
devemos tentar adotar uma atitude imparcial e nos devotar à prática
com aspiração total. Por outro lado, se meramente nos lembrarmos
de algumas frases aqui e ali, tomando apenas certos aspectos dos
ensinamentos, e brincarmos de ser praticantes, será bem difícil de
ganharmos qualquer benefício significativo.
Kalu
Rinpoche. Luminous mind: the way of the Buddha. Compilado
por Denis Töndrup,
traduzido por Maria Montenegro, prefácio de S.S. o Dalai Lama.
Boston: Wisdom, 1997. Pág. 3-6.
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