O
Tratamento das Emoções Negativas
As quatro atenções
Livre do apego e de qualquer
preocupação com o corpo, o praticante se retira para um local
solitário para entregar-se à meditação. Esta repousa em primeiro
lugar sobre as "quatro completas atenções":
- a completa atenção ao
corpo;
- a completa atenção às
sensações;
- a completa atenção à
mente;
- a completa atenção aos
fenômenos.
Pela prática dessas quatro
atenções, a mente estabiliza-se. Elas são um equivalente do que
se chama a "pacificação mental" (sânsc. shamata,
tib. shine). A mente é focalizada sobre um único objeto,
sem se deixar influenciar por nenhum pensamento, qualquer que seja,
é claro, por nenhuma emoção conflituosa. Dessa forma, ela
permanece perfeitamente em repouso. A primeira das quatro atenções
completas é aquela voltada para o corpo. Baseia-se na assimilação
que fazemos de nossa pessoa ao nosso corpo. Nessa técnica, a mente
é fixada sobre esse simples sentimento de ser o corpo, sem
acrescentar nenhum julgamento nem nenhuma apreciação do tipo
"Este corpo é uma boa coisa ou ele é uma coisa ruim; ele é
agradável ou ele é doloroso; ele tem boa saúde ou uma saúde
ruim; ele existe ou ele não existe, etc." Está-se somente
presente na impressão de se ter um corpo, sem nenhuma distração.
Essa abordagem compreende numerosos métodos. Este é apenas um
deles.
Através do corpo, sensações
variadas são experimentadas: o frio ou o calor, a suavidade ou a
aspereza, etc. Quando, qualquer que seja a sensação sentida, ainda
sem julgamento, a mente permanece concentrada nela, sem distração,
chegamos à segunda completa atenção.
A terceira atenção recai
sobre as sensações da mente: a alegria ou o descontentamento, a
felicidade ou o sofrimento, não importa qual tipo de movimento
mental. Fica-se simplesmente presente a esses movimentos, sem
desenvolver os pensamentos ou segui-los. Basta observá-los de
maneira neutra.
A atenção aos fenômenos,
enfim, é praticada da mesma maneira, aplicando-se tanto às formas,
quanto ao sons, aos odores, etc. Quando, por exemplo, uma forma é
percebida pelo olhar, não se tenta desviar dela, também não se
faz nenhum julgamento, nem nenhum comentário – "Isso é
bonito ou não é, eu a aprecio ou eu não a aprecio..." –
mas deixa-se a mente colocada sobre o objeto percebido, sem distração,
simplesmente presente. O mesmo se faz com um som, um odor ou
qualquer objeto dos sentidos.
Nesse tipo de meditação, é
preciso compreender que a noção de mente se aplica ao presente:
tudo o que já foi produzido na mente não está mais lá; passado e
futuro não são reais. A mente no presente não é marcada pelo
tempo; ela também não tem nenhuma realidade material, nem cor, nem
forma, nem volume, etc. Nesse sentido, ela é a vacuidade na qual
tendemos a permanecer plenamente.
As quatro renúncias justas
Depois de ter exercitado
nessas quatro completas atenções, o praticante aborda as
"quatro renúncias justas", que se situam no plano moral:
por um lado, ele toma consciência dos atos negativos que já foram
cometidos, rejeitando-os como nocivos, ao mesmo tempo que procura não
mais cometê-los no futuro. Além disso, esforça-se para dar mais
força às tendências positivas já nascidas nele, assim como
conquistar aquelas que ainda não possui.
Tornar-se o fogo
Um outro elemento desta
abordagem é constituído pelos "quatro fundamentos dos prodígios".
Por isso entende-se ter atingido tais capacidades de concentração
que elas resultam na obtenção de poderes extraordinários. Aquele
que, com o poder de suas capacidades, medida sobre o elemento fogo,
pode fazê-lo com uma tal potência que efetivamente sentirá o
corpo como uma chama; se ele medita sobre o elemento água, sentirá
seu corpo como uma corrente de água. Ele pode operar os mesmos prodígios
concentrando-se sobre o vento ou sobre a terra. É por isso que na
história dos arhats e dos buddhas solitários do passado
encontra-se um certo número de casos em que, no momento da morte,
eles se transformam em uma bola de fogo, em uma massa de água ou
ainda em um raio de luz.
Prática das quatro atenções
Para termos uma certa idéia
desta abordagem de meditação, o melhor é praticarmos juntos as
quatro completas atenções que vimos anteriormente.
Em primeiro lugar,
pratiquemos a "atenção ao corpo". Tomamos consciência
do pensamento: "Eu sou o corpo", isolando-o de todo
contexto de apegos e de desejos que lhe é habituado associado.
Permanecemos sem outro pensamento e se ele aparecer, nós o cortamos
imediatamente. Mantemos uma presença no corpo ao qual nada
acrescentamos, sem distração.
Tomemos, agora, "a atenção
às sensações". Pode ser uma sensação de frio ou de calor,
uma cãibra, uma dor em uma certa parte do corpo ou um comichão,
uma sensação agradável ou desagradável. Qualquer que seja a
sensação sentida, a mente fica totalmente fixa nela, sem seguir
nenhum outro pensamento. Não se está então obrigado a se limitar
a uma sensação: se uma desaparece a outra surge, passamos de uma a
outra. Não se procura selecionar uma sensação ou outra, mas
concentra-se naquela que é a mais forte: pode-se, por exemplo,
sentir particularmente o calor, depois experimentar um comichão.
Abandonamos então a primeira pela Segunda.
O terceiro tipo de completa
atenção é "a atenção à mente". Não se refere neste
caso a um objeto exterior, mas ao que se produz interiormente, a
todas as expressões da mente, os pensamentos, as emoções, as
lembranças, etc. A meditação consiste simplesmente em estar
consciente dessas produções mentais sem entretanto considerar o
seu conteúdo. Se a mente permanece em um estado de repouso e paz,
fica-se consciente desse estado sem fazer nada de particular. Quando
os pensamentos se manifestam, não se os encoraja, particularmente
se eles são bons, gerados, por exemplo, pela devoção ou a compaixão,
do mesmo modo que não se procura afastá-los se eles são
negativos, provocados pela irritação, a cólera, o desejo, etc.
Está-se somente consciente do que se passa, seja para manter um
pensamento, seja para interrompê-lo.
Enfim, o quarto modo de atenção
é dirigido aos fenômenos exteriores, tais como nossos diferentes
sentidos os percebem. Na verdade, a totalidade do que permite a
manifestação, a saber, a mente que percebe, os órgãos dos
sentidos e os objetos exteriores, tudo isso constitui os fenômenos.
Nesse tipo de meditação, dirige-se a atenção para os objetos
percebidos, sem acrescentar nenhum julgamento. Durante os exercícios
de meditação que fazemos agora escutamos, por exemplo, o barulho
dos carros que chega da rua. Pode-se tomá-lo como objeto da atenção.
Não se pensa que se trata de um barulho agradável ou desagradável,
que é inconveniente ou não. Contenta-se em estar presente no
barulho.
Vimos agora o conjunto dessas
quatro completas atenções: ao corpo, às sensações, à mente,
aos fenômenos.
 |
Nesses exercícios, o mais
importante é a própria mente. Ainda uma vez, lembremo-nos que não
nos referimos aqui a alguma coisa limitada por uma forma, uma cor,
um volume ou uma localização; não se pode, por exemplo, dizer:
"Minha mente é alta ou baixa"; não são características
que lhe podem ser aplicadas. A mente é o que conhece, o que sente,
o que produz os pensamentos, as percepções e os sentimentos. Na
meditação não nos preocupamos com os pensamentos que já foram
produzidos no passado, nem por aqueles que serão produzidos no
futuro, mas unicamente pelo presente da mente: esta não tem lados,
frente e atrás, não tem limites, cor, etc. Ela é vazia. Não é
uma realidade que possa ser definida. Meditemos então, agora,
permanecendo simplesmente na mente indefinível.
Essas meditações levam a
uma mudança da percepção que temos de nós mesmos: nosso corpo é
visto como uma bolha na superfície da água, a palavra parece um
eco sem realidade própria, e os pensamentos parecem uma miragem.
Quanto ao mundo exterior, aparece para nós como um conjunto de
condições nocivas à prática.
|
Adotar esta visão, meditação
e ação é tomar um caminho seguro que leva infalivelmente à
liberação. Elas permitem desvencilhar-se do sofrimento desta existência
e conduz ao estado de arhat. Seu valor é, portanto, muito grande.
O Mahayana
e o tratamento das emoções: a transformação
O Mahayana baseia-se
no princípio de que não se deve se preocupar apenas com si mesmo,
e sim, considerar o outro como mais importante. Portanto, uma ênfase
particular é colocada sobre o amor e sobre a compaixão. Assim, no
início de qualquer prática, pensa-se que vai ser realizada com o
objetivo de poder liberar todos os seres do sofrimento e de poder
levá-los à felicidade definitiva. Do mesmo modo, ao final de uma
prática, dedica-se toda força positiva que emana dela para o bem
de todos os seres, para que se tornem livres dos sofrimentos, do
karma e das emoções conflituosas e para que alcancem finalmente o
estado de Buddha.
Extensão do Mahayana
O grande veículo
divide-se em dois aspectos: o "Mahayana dialético" e o
Vajrayana. Desses dois aspectos, o segundo é mais rico em métodos
e mais profundo. O Mahayana dialético, ensinado nos sutras,
considera a prática como uma causa que leva a um resultado,
enquanto que o Vajrayana, vindo dos tantras, considera, ao contrário,
o resultado como desde agora presente. Mais freqüentemente, quando
se fala do Mahayana, sem outra precisão, refere-se à primeira das
duas abordagens e não ao Vajrayana. É também ao Mahayana dialético
que o presente ensinamento será dedicado.
A bodhichitta
Encontramos o fundamento do
Mahayana na dupla noção de bodhichitta :
- a bodhichitta
relativa
- a bodhichitta
absoluta
A bodhichitta
relativa consiste no reconhecimento de que todos os seres foram
nosso pai ou nossa mãe no passado, e a seguir na observação de
nossa própria situação para compreender que ela é comum a todos;
ficamos felizes por causa dos acontecimentos agradáveis que nos
acontecem, infelizes se encontramos o sofrimento. Compreendendo que
todos os seres funcionam desse modo, desenvolvemos o amor e a
compaixão.
A bodhichitta absoluta é o
desenvolvimento, por meio do conhecimento justo, da compreensão da
natureza finalmente vazia de qualquer fenômeno. Pode-se, sem se
limitar a uma adesão intelectual, abordar a noção geral de
vacuidade por uma meditação discursiva baseada no raciocínio, mas
essa abordagem corre o risco de permanecer na superfície das
coisas. É preferível começar por compreender a natureza de nossa
própria mente: ela existe desde sempre, primordialmente; não tem
existência material: não tem forma, cor, volume etc.; não podendo
ser percebida como uma coisa, é, assim, vazia. Em seguida, com base
nessa compreensão, chega-se a uma certeza que apenas a experiência
da meditação pode proporcionar, além de todos os conceitos.
Quando se chega à certeza da vacuidade da mente, desenvolve-se, então,
a percepção de que todos os fenômenos – nosso corpo e o mundo
exterior – procedem de fato da mente. Sendo a própria mente vazia
por natureza, todas as suas produções também o são. Chega-se,
assim, à conclusão de que todas as coisas são vazias por
natureza.
Os três corpos do
samsara
Ainda que essa asserção da
vacuidade de todas as coisas possa nos parecer desconcertante, o
exemplo do sonho poderá nos torná-la mais compreensível. Quando
sonhamos, percebemos todo um mundo constituído de formas visíveis,
sons, objetos tangíveis que nos parecem reais. Entretanto, eles não
existem em parte alguma; eles são unicamente uma produção da
mente. Durante o sonho, eles parecem possuir a mesma realidade do
mundo que percebemos agora e é por isso que podem provocar a dor ou
o prazer. Mas quando estamos acordados, tudo o que parecia existir
durante o sonho – nosso corpo, o meio, as casas, etc. – tudo
isso desaparece. É apenas a mente, manifestando-se por meio de um
corpo onírico chamado o "corpo dos condicionamentos
latentes". O que é verdadeiro para o sonho, também o é para
nossa experiência presente, por meio do que se chama o "corpo
de maturidade kármica".
Quando abandonamos
este mundo, no momento da morte, os sentidos deixam de funcionar de
modo que o corpo e o mundo exterior não são mais percebidos. A
mente fica só. Ainda que ela seja vazia, produz de novo aparências
ilusórias, incluindo a visão, a audição, o tato, etc., tudo como
agora. A alegria, a dor, o medo, portanto, são também
experimentados, por meio de um "corpo mental", como se
todo o meio parecesse real.
A mente permanece
assim um certo tempo no bardo; depois, sob a força do karma, ela é
levada a renascer sob uma forma ou outra. Quando isso se produz,
todos os fenômenos que se manifestaram durante o bardo desaparecem.
Eles não existem mais em nenhuma parte. Então, é de novo o
"corpo de maturidade kármica" que dá continuidade, como
suporte de existência, em uma das seis classes de seres.
A totalidade de
nossa experiência no samsara desenvolve-se, então, por intermédio
desses três corpos: corpo de maturidade kármica, no estado de vigília,
corpo dos condicionamentos latentes, no sonho, corpo mental, no
bardo.
Vacuidade e compaixão
Saber que todos são
na realidade uma manifestação da mente, que ela mesma é vazia,
desprovida de qualquer característica material, e, sobre esse
fundamento, tomar o caminho das diferentes etapas da meditação –
a pacificação mental e a visão superior – caminho que leva à
realização desta vacuidade, é o que se chama a bodhichitta
absoluta.
Tendo como referência
essa vacuidade de todas as coisas, tomamos consciência que os
seres, pelo fato deles não a realizarem, mas tomarem o mundo como
real, são prisioneiros da engrenagem do desejo, da aversão e da
cegueira. Por esse fato, são sacudidos pelas incessantes ondas do
ciclo dos renascimentos, indo de sofrimento em sofrimento. Essa visão
da condição dolorosa dos seres, derivada da ignorância da
vacuidade, produz um ímpeto de amor e de compaixão: é a
bodhichitta relativa.
Essa bodhichitta
relativa é extremamente poderosa: ela nos permite purificar-se de
condicionamentos latentes e de muito karma negativo, assim como
acumular muito mérito e sabedoria. Essa purificação e essa
acumulação proporcionam, por sua vez, uma grande abertura para o
aprofundamento da experiência da vacuidade. Diz-se que permitem que
todas as qualidades cresçam da mesma maneira que as chuvas da monção
enchem os rios.
Guiados pela
vacuidade e pela compaixão, praticando as seis paramitas – o dom,
a ética, a paciência, a diligência, a concentração e o
conhecimento – percorre-se o caminho do Mahayana que, da primeira
à décima terra de bodhisattva, conduz ao estado de Buddha.
A transformação das emoções
Geralmente,
contam-se seis emoções principais, repartidas em dois grupos de três.
O desejo-apego, o ódio-aversão e a cegueira constituem a base
sobre a qual se implantam as outras três: do desejo-apego nasce a
possessividade, do ódio-aversão, o ciúme, da cegueira, o orgulho.
Essas seis emoções
conflituosas estão relacionadas com os renascimentos nos diferentes
mundos, segundo sua predominância:
- o ódio-aversão
conduz ao renascimento nos infernos;
- a possessividade,
no mundo dos espíritos ávidos;
- a cegueira, no
mundo animal;
- o desejo-apego,
no mundo humano;
- o ciúme,
no mundo dos semideuses.
- o orgulho, no mundo
dos deuses.
Razão do renascimento em uma
outra condição de existência, as emoções conflituosas são
modificadas pelos atos positivos e negativos: os primeiros produzem
as alegrias e as felicidades dos três mundos superiores (humanos,
semideuses e deuses), os segundos provocam os sofrimentos dos três
mundos inferiores (animais, espíritos ávidos e infernos).
Gradação das emoções
Podemos classificar as emoções
conflituosas segundo a quantidade de sofrimento que provocam. Desse
ponto de vista, o ódio-aversão aparece como o de conseqüências
mais pesadas, já que causa as dores extremas dos infernos. Em
segundo, vem a possessividade que provoca o renascimento no mundo
dos espíritos ávidos, já que a cegueira – a estupidez, o ciúme,
causa do renascimento entre os semideuses, envolvidos em querelas e
conflitos contínuos, sofrendo de uma insegurança permanente,
resultado de seu desejo de ter o que os outros possuem, em
particular os deuses.
O desejo-apego e o
orgulho são as duas emoções conflituosas cujo predomínio conduz
ao renascimento em mundos relativamente felizes, aqueles dos homens
ou dos deuses. Para que produzam esse resultado, é preciso,
entretanto, que intervenham outros fatores.
Tomemos o exemplo
dos deuses. Seu orgulho, isolado de qualquer contexto, leva-os a
pensar: "Eu sou forte, inteligente, alguém importante".
Foi preciso este orgulho, fortemente dominante com relação ao
desejo, à cólera, ao ciúme, etc. , para renascer nesse mundo. Se,
entretanto, os deuses gozam ali de todos os prazeres dos sentidos e
de uma longa vida, é porque a esse orgulho foi acrescentado um
forte potencial de karma positivo. À vida de um deus vai ser,
portanto, essa mistura de orgulho e de prazer dos sentidos no qual
as outras emoções só intervêm muito pouco.
Da mesma maneira,
uma predominância do desejo-apego origina a vida humana.
Entretanto, ela será nuançada por outros fatores: um karma
positivo anterior permitirá que seja feliz e longa, enquanto que um
karma negativo anterior produzirá doenças, pobreza e numerosas
dificuldades.
O desejo-apego não
é em si mesmo um defeito, como também não é a causa direta de
muitos atos negativos. Seu inconveniente é ser seguido de cólera,
ciúme, etc., que são muito nefastos.
Temos, então, seis
emoções conflituosas fundamentais; mas elas não poderiam
descrever toda a complexidade da situação. É por isso que
consideramos numerosas ramificações que levam a um número total
de 84 mil emoções conflituosas. Sua intervenção leva-nos a errar
continuamente no samsara.
As técnicas de
transformação das emoções são diferentes sob o Mahayana dialético
ou o Vajrayana. Iremos tratar aqui do primeiro, unindo a teoria à
meditação.
Refúgio e bodhichitta
Considerando-se que nos
situamos no contexto do Mahayana, primeiramente devemos lembrar que
não somente nós mesmos, mas todos os seres, são prisioneiros do
samsara. Desejamos, portanto, obter para nós mesmos a libertação
e a felicidade que resultam do Mahayana, assim como a capacidade de
ajudar os outros e conduzi-los a essa mesmas felicidade. Dado que
apenas as Três Jóias podem nos guiar nesse caminho, tomamos refúgio
nelas do fundo do coração. Depois, geramos a mente do Despertar, a
bodhichitta, pensando: "Para o bem de todos os seres, eu me
exercitarei na transformação das emoções segundo o ensinamento
do Mahayana".
No momento em que nós
recitamos a fórmula de tomada de refúgio, pensamos que, no céu a
nossa frente, estão os buddhas, os bodhisattvas e os textos
representando o ensinamento. Em sua presença, pensamos que nós
mesmos e todos os seres, com confiança e respeito, prosternamo-nos
e pedimo-lhes para nos proteger dos sofrimentos do samsara.
Ao final da recitação da
tomada de refúgio, pensamos que os buddhas e bodhisattvas emitem
uma imensa luz que toca todos os seres e os purifica de seus erros e
de seus véus. Depois, sentimos plenamente a graça recebida das Três
Jóias e guardamos por um momento a mente em repouso
Agora, lembramo-nos que todos
os seres das três esferas e dos seis mundos foram nosso pai e nossa
mãe em nossas vidas passadas. Todos cometem muitos atos negativos,
causa dos sofrimentos, e experimentam o resultado disso. Pensamos
que é preciso retirá-los do oceano de sofrimentos do samsara e
trazê-los ao estado de Buddha e que, para fazer isso, iremos
praticar a meditação do Mahayana. Com esse pensamento recitamos a
fórmula do desenvolvimento da mente do Despertar.
Transformação da
cegueira
Tomemos agora a postura de
meditação, as costas bem retas, e deixemos nossa mente em repouso.
Nessa mente em repouso, o desejo-apego, o ódio-aversão, a
possessividade, o ciúme e o orgulho estão inativos. Constata-se,
entretanto, a presença da cegueira que é a base das outras emoções.
Esta cegueira significa que não compreendemos as implicações de
nossos atos e de nossa situação; significa também que, quando um
pensamento ou uma emoção se produzem, nós não vemos, fora do
simples sentir do pensamento ou da emoção, qual é a sua natureza
e origem. Primeiramente, iremos meditar tomando por base essa
cegueira.
A cegueira vem da ignorância
(sânsc. avidya) fundamental. Ainda que sejam muito semelhantes pode-se
dizer que a ignorância é o fato de a mente nada perceber, e a
cegueira, o fato de nada compreender. Podemos comparar essas duas noções
à obscuridade, uma obscuridade sem lua, sem estrelas, sem vela, sem
eletricidade.
Precisamos transformar essa
cegueira e essa ignorância, essa "in-consciência", em
consciência. Para fazer isso, permanecemos simplesmente na
vacuidade da mente, que possui de maneira inerente a capacidade de
consciência. Quando um pensamento ou uma emoção se elevam,
continuamos preservando nossa capacidade de percebê-los, de termos
consciência deles. Permanecemos na consciência de nosso estado
interior.
Essa meditação é muito fácil.
Se a mente permanece na vacuidade, ficamos simplesmente conscientes
dessa vacuidade. Quando um pensamento se produz, só temos que
reconhecê-lo, sem querer interrompê-lo, mas também sem segui-lo.
Depois, quando um outro pensamento se apresenta, de novo apenas
reconhecemos sua presença. É extremamente simples.
A cegueira é não-conhecimento.
Por esse processo nós a transformamos em conhecimento, em consciência
do que se passa. É muito fácil: a mente permanece simplesmente lúcida,
consciente, seja da ausência de pensamentos, seja dos pensamentos
que se produzem. Não há nada a rejeitar ou nada a produzir. A própria
não-consciência se transforma em consciência.
Esta meditação, que pode
ser feita regularmente, é semelhante à luz que afasta a
obscuridade da qual falamos há pouco. Ela é um meio de desenvolver
a paramita do conhecimento.
Transformação do desejo
Em segundo lugar, tomemos o
desejo. Como podemos transformá-lo em experiência de felicidade?
Tomemos o desejo sexual: ele ocorre ao vermos uma bela mulher ou um
belo homem e provoca uma sensação agradável, ao mesmo tempo física
e mental. A esta sensação vai se acrescentar um elemento
complicador: a sede de possuir o objeto do desejo. Esta sede é um
produto da cegueira que não vê que a primeira sensação agradável
é suficiente. Faz acreditar que a posse também é necessária.
Supondo que um homem veja uma
mulher bonita, o desejo faz com que ele experimente logo uma sensação
física e mental agradável. Ao mesmo tempo, a cegueira provoca uma
vontade de posse, da qual se espera que consolide a experiência de
felicidade. No contexto da meditação que visa transformar as emoções,
detém-se na sensação de felicidade produzida pelo desejo, sem
considerá-la como uma coisa ruim, sem querer rejeitá-la. Fica-se
consciente dessa felicidade, lucidamente, e ele é experimentada sem
que se deixe levar pela sede que queria possuir o objeto.
Assim, a alegria proveniente
do desejo não causa nenhum problema. Quando pensamos em alguém que
amamos, eleva-se espontaneamente uma alegria interior e um bem-estar
físico. Permanecemos simplesmente não-distraídos nessa sensação
de alegria, sem sermos tomados pelas complicações devidas à sede
de posse. O fato de permanecermos nessa sensação, faz com que ela
cresça e leva-nos a um estado de felicidade natural. Meditar assim
é extremamente benéfico.
Meditemos, então, agora,
pensando em alguém ou em um objeto que nos atraia particularmente,
depois, permanecemos na sensação agradável provocada por esse
pensamento.
O mercador e a cortesã
Um sutra relata uma história
que ilustra esta maneira de abordar o desejo.
Em um certo país, um homem,
rico e prudente, dirigia um comércio importante, por conta do qual
trabalhavam numerosos negociantes. Um dia ele organizou uma caravana
para ir negociar em um país longínquo, conhecido por seus recursos
abundantes, reputado por ser governado por um monarca justo e
sábio e, mais ainda, por ser a moradia de uma cortesã de incomparável
beleza, que fazia fortuna vendendo seus charmes aos mercadores de
passagem.
Quando os mercadores chegaram
à cidade onde ela trabalhava, só falavam de seu charme, de seus
atrativos, de sua reputação. Só pensavam em pagar sua parte para
não perder uma tão boa oportunidade. Todos, exceto um, o chefe
deles, que tentava fazê-los raciocinar:
— Nós fizemos uma longa
viagem com um objetivo bem preciso: comerciar para ganhar dinheiro.
Ora, ao contrário, tenho a impressão que vocês se apressam em
gastá-lo. Vocês desejam possuir essa cortesã: o que ganharão com
isso? Vão perder seu dinheiro e arriscar a saúde. Com certeza terão
um momento de prazer físico, mas ele será breve e não vale o que
vocês estão prestes a pagar. Não nego que esta mulher seja
atraente e admito que eu mesmo sinto desejo por ela. Esse desejo me
dá alegria: guardo esta alegria sem perder meu dinheiro, nem minha
saúde. Por que vocês não fazem como eu?
Os mercadores não ficaram
muito convencidos com esse discurso. Eles desejavam a cortesã.
Tiveram-na e dilapidaram todos os seus bens.
A cortesã ficou, por sua
vez, bastante contrariada com a atitude do chefe deles. Estava
ofendida por ter sido desdenhada, ainda mais por saber que ele era
muito rico. Perguntou aos companheiros dele o que o levava a
rejeitar seus serviços.
— Não é que ele a ignore
– responderam. Ele até sabe que você é muito bonita e muito
desejável. Mas ele diz que a alegria que nasce na mente dele ao
pensar em você é suficiente. Ele não sente necessidade de ir além.
Essas explicações
contrariaram ainda mais a cortesã. De uma certa maneira, o chefe
dos mercadores a queria! Ele se aproveitava de sua pessoa, já que
experimentava a alegria de pensar nela, mas não queria fazer nenhum
pagamento. Para ser recompensada e para se vingar do desprezo do
mercador, pensou em uma estratégia. Dirigiu-se ao rei para se
queixar. Todavia, não podendo acusar um homem simplesmente por
pensar nela, declarou que um certo chefe dos mercadores tinha vindo
várias vezes em sua casa mas se recusava a pagá-la. O rei devia
fazer-lhe justiça.
O rei convocou o acusado para
ouvir sua defesa. Este, desmentiu as acusações da cortesã. Sim,
é verdade, era sensível como todo mundo aos charmes da cortesã,
mas ele se contentava com a alegria que sentia ao pensar nela. O
rei, logo convencido de que se tratava de um homem direito e
honesto, aceitou sem hesitação sua versão dos fatos. Quanto à
reparação que a cortesã pedia, ela lhe seria concedida.
Comunicou à cortesã que na
manhã seguinte o mercador pagaria tudo o que lhe devia e que para
receber ela deveria ir até a margem de um pequeno lago próximo à
cidade.
Qual não foi a alegria da
cortesã quando, de manhã, ela viu toda a caravana do mercador
alinhada sobre a margem do lago! Ela ficaria rica e seria vingada!
Sua alegria durou pouco. O rei, aproximando-se dela, disse:
— Este mercador não foi em
sua casa para usufruir de seus charmes, mas é verdade que ele tira,
em pensamento, um certo proveito deles. Portanto, é justo que você
seja paga por isso. Já que o mercador está feliz com o reflexo de
sua beleza em sua mente, é natural que você seja paga com o
reflexo de sua beleza; ela está aí: sobre o lago.
Neste método, não se trata
de abandonar completamente a vida mundana e rejeitar o contato com
as mulheres ou com os homens. Do desejo, guarda-se apenas a alegria,
a sensação de felicidade; não entrando em complicações
ulteriores e não cometendo atos negativos, aproxima-se do estado de
Buddha. Nas seis paramitas, este tratamento do desejo inscreve-se no
da ética.
Transformação
da aversão
No Mahayana, os
meios de tratar o ódio-aversão são tão numerosos, quanto é
forte a insistência sobre o amor e a compaixão. Vejamos,
simplesmente aqui como abordar o ódio-aversão do ponto de vista da
meditação.
Quando um forte
acesso de cólera se manifesta, produz-se ao mesmo tempo na mente
uma grande vivacidade, um grande vigor, como um raio que proporciona
um possante dinamismo. Entretanto, mais uma vez, por causa da
cegueira, esse vigor não é reconhecido; deixamo-nos levar pelas
complicações que o acompanham, dirigidas ao objeto que suscitou
nossa cólera: pensamos em prejudicar, bater ou matar. Contudo, a
essência dessa cólera, longe de se situar na obscuridade,é uma
grande claridade. É preciso, portanto, que olhemos essa essência,
permanecendo sem distração nessa claridade. Assim operamos a
transformação da emoção: a cólera é transformada em claridade.
Para realizar nosso
exercício de meditação, pensemos agora em uma pessoa ou uma situação
que provoque nossa cólera. Sem seguir o movimento dessa cólera,
permanecemos sem distração na claridade que a acompanha.
Assim, cada vez que se
produzir em vocês um movimento de cólera ou de aversão, vocês
podem permanecer na essência clara que a subentende, sem procurar
rejeitar ou seguir a cólera, mas fixando-se em sua vivacidade.
Desse modo a cólera se transformará em claridade.
Transformação do orgulho
"Sou melhor que os outros;
sou muito inteligente; sou importante": esses pensamentos característicos
de um forte apego ao "eu" constituem o orgulho. Quando o orgulho
se produz, permanece-se neutro diante dele, sem rejeita-lo ou
segui-lo, conservando simplesmente a mente nesse sentimento, sem
distração; a partir de então esse orgulho, comparável a uma
montanha, encontra-se naturalmente aplainado. O "eu" perde sua
supervalorização.
Na medida em que
aprendemos a meditar dessa maneira, as numerosas ocasiões em que o
orgulho se eleva em nossa mente acabam sendo muito proveitosas, pois
transformam no suporte para o desenvolvimento da quinta paramita,
a da concentração. Ao mesmo tempo, o orgulho, nascido da assimilação
de um "eu", quando se apaga pelo fato de olharmos sua essência,
dá lugar à percepção da ausência do eu.
Transformação da
possessividade
Todos nós somos
marcados pelo conjunto das emoções conflituosas. Dentre elas, a
possessividade, que se aplica ao nosso corpo, a nossa casa, a
qualquer de nossos bens, está sempre muito presente e é muito
forte. Qualquer que seja a forma que ela se apresente, podemos
neutraliza-la pelo dom praticado em diferentes graus: o dom dos bens
materiais é o primeiro grau, o dom de sua família é o segundo, o
dom de seu sangue e de sua carne constitui a forma mais elevada. O
Mahayana oferece assim uma grande variedade de meios, colocando em
prática a generosidade para suplantar a possessividade.
Do ponto de vista da
meditação, onde nos situamos agora, quando a possessividade se
produz, nós a tratamos do mesmo modo que as emoções precedentes:
sem segui-las ou rejeita-la, permanecemos simplesmente no sentimento
que é a sua base. Assim, a possessividade ordinária se tornará um
sentimento de contentamento, neutro, do qual se apagará
espontaneamente o caráter nocivo. Quando a possessividade
desaparece, ela é automaticamente transformada em seu oposto: uma
generosidade fundamental.
Transformação do ciúme
O ciúme é comparável
a um espinho: espeta não somente os outros, mas volta-se também
contra aquele que o concebe, deixando-o muito incomodado e
tornando-o infeliz. Cada vez que o ciúme se elevar, permaneçamos
simplesmente fixados nele, sem segui-lo ou rejeita-lo: ele se
apaziguará automaticamente e não poderá "espetar". Encontrará
espontaneamente sua essência que é a paz interior. Assim, o ciúme
é transformado em paz, ao mesmo tempo que, do ponto de vista das
seis paramitas, ele se encontra associado à quarta, a
diligencia.
Dessa forma, vimos
brevemente como abordar as seis principais emoções conflituosas
por meio da meditação. Entretanto, é à transformação das três
primeiras – desejo-apego, ódio-aversão e cegueira – que é
necessário se dedicar primeiramente. Assim, o desejo – apego
será transformado em felicidade vazia, o ódio-aversão em
claridade vazia e a cegueira em conhecimento. Isto mostra como esse
tipo de meditação sobre as emoções é benéfico. As três emoções
de base são para nós a fonte mais abundante de atos negativos, de
problemas e de sofrimentos; por isso, é necessário aborda-los em
primeiro lugar. As outras três – possessividade, orgulho e ciúme
– são apenas corolários.
Todas as emoções
conflituosas vêm da mente. Para concluir, permanecemos um momento
na vacuidade da mente, depois dedicaremos o mérito deste
ensinamento e dessa prática ao bem-estar de todos os seres.
O
Vajrayana e o tratamento das emoções:
o simples reconhecimento
Ao longo deste
ensinamento, iremos considerar, na perspectiva do Vajrayana, como
se opera, pela meditação, a liberação das emoções
conflituosas em seu simples reconhecimento.
O Vajrayana, de um
modo geral, oferece instruções que tratam de maneira específica
os pensamentos e as emoções, de modo a permitir um progresso
muito rápido no caminho do Despertar. Considerando-se que os
humanos pertencem a um domínio de manifestação chamado a
"esfera do desejo", uma atenção especial é dada ao
desejo-apego. Estabelece-se particularmente uma correspondência
entre as quatro classes de tantras e os quatro graus de
complexidade crescente de satisfação do desejo sexual que eles
permitem tratar.
Tantras e o desejo sexual
Considera-se que
nos primórdios deste mundo, o desejo que surgia entre os homens e
as mulheres era saciado com uma simples troca de olhares. A esse
grau corresponde o Kriya tantra.
Em segundo lugar,
os homens e as mulheres sentiram necessidade de sorrir para
exprimir e satisfazer seus sentimentos de atração recíproca. O Charya
tantra se aplica a este nível.
Em terceiro lugar,
surgiu o desejo de um certo contato físico, especialmente o
desejo de tocar as mãos, ao que corresponde o Yoga tantra.
Enfim, o desejo
sexual só pôde ser preenchido pela união física e é neste
estado que entra em jogo o Anuttara yoga tantra..
Sinais de sucesso
Todos esses métodos buscam
uma certa eficácia. Os homens, por exemplo, cultivam os campos;
ficam exaustos de trabalhar, plantar, tratar as terras. Isto só
tem sentido tendo em vista uma boa colheita, lucrativa para
aqueles que trabalharam. Nesse caso, pode-se dizer que o cultivo
foi um sucesso. Se, ao contrário, apesar do trabalho despendido,
não se obtém uma colheita, simplesmente perdeu-se tempo e
energia. Do mesmo modo, em numerosas tradições espirituais
mestres variados dão instruções variadas. Essas instruções têm
por função ser benéficas para a mente, em particular servir
como remédio às emoções conflituosas. Se, pela prática e
meditação que procedem dos ensinamentos, as emoções diminuem,
isto significa que a meditação é fecunda. Quando, ao contrário,
as emoções permanecem estáveis ou até aumentam, é sinal de
que a meditação é estéril. Ela não alcançou seu objetivo.
 |
O
Buddha distinguiu os resultados que decorrem do estudo e
aqueles que decorrem da meditação. Dizia que um bom
erudito poderia ser reconhecido pelo fato de ter uma grande
fé nos mestres e nas Três Jóias, pela compaixão pelos
seres, por uma certa imparcialidade na abordagem das posições
filosóficas das diferentes escolas. O comportamento do bom
erudito é comparado a uma pequena bola de lã que cai na água.
A lã não faz barulho, nem redemoinho; do mesmo modo, o bom
erudito é uma pessoa discreta e doce, que não apresenta em
seu caráter nem rudeza, nem tendência à agitação. De um
outro lado, a meditação conduz à ausência de emoções
conflituosas. Se a meditação permite-nos rejeitar as emoções,
transforma-las ou libera-las na mente, em todos os casos
reconhecem-se seus frutos pela diminuição das emoções. |
Felicidade e infelicidade
do ocidente
Os americanos e os
canadenses são certamente pessoas que possuem um grande mérito
proveniente de suas vidas passadas. Deduzimos isso pelo fato de,
por um lado, suas condições de vida exteriores serem extraordinárias
e, por outro lado, por terem podido receber ensinamentos, iniciações
e instruções da prática de personalidades eminentes como o
Dalai-Lama, o Karmapa, Dilgo Khyentse Rinpoche, Situ Rinpoche,
Shamar Rinpoche, ou Jamgön Kongtrül Rinpoche. Têm também
a sorte de terem se estabelecido em seu território lamas tão notáveis
como Trungpa Rinpoche e outros. A América do Norte dispõe, então,
de um grande potencial positivo.
O país é belo,
as casas muito confortáveis, a prosperidade evidente em todos os
setores, a começar pela alimentação e roupas. A abundância e a
qualidade dos bens materiais são tais, que acreditamos estar no
mundo dos deuses. Primeiramente, somos levados a pensar que as
pessoas que vivem num tal contexto só podem ser
felizes.Entretanto, a mente dos norte-americanos não parece
sempre de acordo com seu ambiente: ao invés de encontrar ali
felicidade, percebem-se muitas dificuldades, insatisfações e
sofrimentos. De onde vêm esses problemas? Das emoções
conflituosas, mais particularmente do desejo-apego, que os
ocidentais não sabem transformar nem afastar. Parece-me que se as
emoções perdessem seu poder, o país se tornaria um lugar
extraordinário, onde a alegria e a paz se casariam com a
prosperidade.
Um provérbio
tibetano diz:
Barriga vazia só
pensa no roubo,
Barriga cheia só
pensa no desejo.
Isto significa que quem não
tem nada para comer é atormentado pela maneira mais imediata de
conseguir alimento; quanto àquele que está saciado, sua mente é
atormentada pelos prazeres dos sentidos. Parece-me que os
ocidentais, mais freqüentemente, têm a barriga cheia...
É por isso que a
utilização de meios que permitem dissipar as emoções
conflituosas e particularmente o desejo, parece-me indicada para
conduzir a uma verdadeira paz e a uma verdadeira felicidade.
Origem das emoções
Vimos, com relação
ao Mahayana, métodos que permitem transformar as emoções. Há
no Vajrayana métodos que visam purificar as emoções para que
elas se tornem as cinco sabedorias ou os cinco buddhas Patriarcas.
Esses métodos implicam visualizações complexas que não podem
ser ensinadas em público e não podemos, portanto, aborda-las
aqui. Entretanto, existe no Vajrayana uma outra abordagem das emoções,
fácil de expor e de praticar, muito benéfica, que consiste no
"simples reconhecimento".
Para abordar este
método, é preciso, inicialmente, compreender de onde vêm as emoções.
É evidente, em primeiro lugar, que as emoções não são
produzidas nem pelo corpo, nem pela palavra. Tomemos um cadáver:
ele permanece um envelope físico, mas desprovido de mente. Ninguém
nunca ouviu falar de um cadáver experimentando o desejo, a cólera,
o ciúme ou o orgulho. Portanto, não podemos atribuir de modo
algum as emoções ao corpo. Ele não possui nenhuma faculdade
para experimenta-las. A palavra também não possui essa
faculdade: é apenas um acúmulo de sons, comparável a um eco,
logo, desprovida ela própria da capacidade de experimentar o que
quer que seja.
As emoções só
podem vir da própria mente. Isto não significa que o corpo e a
palavra não estejam implicados no processo emocional; mas eles o
estão a título de executantes ou de servidores. Eles não são
os mestres da situação. Se a mente, por exemplo, pensa que é
preciso abrir a janela, é o corpo que vai abri-la; se a mente
pensa que é preciso acender a luz ou ir embora, é o corpo que
vai acionar o interruptor ou se deslocar. O corpo só pode
intervir a serviço da mente, mas ele mesmo não toma nenhuma
iniciativa. Do mesmo modo, o corpo não dirige as emoções
conflituosas, mas se coloca a serviço da mente que as produz.
A mente é quadrada?
As emoções conflituosas vêm,
portanto, da mente. O que é essa mente que as gera? O Buddha
descreveu a mente como desprovida de cor, de forma, de volume, de
tamanho, de toda determinação de ordem material. Sem dúvida,
podemos admitir que ela é assim, mas teremos uma convicção mais
forte se procedermos pessoalmente a um exame de nossa própria
mente: Qual é sua cor? É quadrada, redonda ou triangular? Mede
dois ou três quilômetros? Ocupa uma grande ou uma pequena superfície?
É preciso que examinemos esses diferentes pontos, diretamente,
tomando nossa própria mente como referência. Assim, devemos
meditar, primeiramente, olhando nossa mente, depois olhando as emoções
conflituosas.
Benefício do refúgio
Ao final da recitação
pensamos que os buddhas e todos os aspectos do refúgio emitem
raios de luz semelhantes aos do sol; eles tocam todos os seres,
liberando-os de todos sofrimentos e de todas as impurezas, e
depois conferem-lhes a bênção do corpo, da palavra e da mente
Despertos. Com esse pensamento, conservamos a mente alguns
momentos em repouso.
Se pudermos recitar nem que
por apenas sete vezes por dia esta tomada de refúgio, retiraremos
um grande benefício disso. Nesta vida, estaremos protegidos do
sofrimento, nossa mente se voltará para o dharma e
poderemos avançar por um caminho sem obstáculos.Não somente
isso, mas em todas as nossas vidas futuras, nos encontraremos na
esfera das Três Jóias e das Três Raízes, até que obtenhamos o
Despertar. Não pensem que esta recitação cotidiana da tomada de
refúgio seja algo de insignificante; seu alcance é muito grande.
O Buddha disse muito claramente que aquele que o fizesse,
quaisquer que sejam os atos negativos que pudesse cometer, não
poderia, depois desta vida, renascer nos mundos inferiores. Não
se deve ter dúvidas sobre isso.
Após a tomada de refúgio,
recitamos a geração da mente do Despertar. Todos os seres das três
esferas e dos seis mundos vivem no sofrimento. Pensamos que é
preciso a todos liberar e conduzi-los à felicidade definitiva do
estado de Buddha e que, por essa razão, iremos meditar.
Em seguida, pensamos que os
buddhas e os diferentes aspectos do refúgio, felizes com nossa
motivação, reabsorvem-se em uma luz que se funde em nós.
Imaginamos, assim, que o corpo, a palavra e a mente dos buddhas
tornaram-se um com o nosso corpo, nossa palavra e nossa mente e
mantemos a mente um momento em repouso.
Procurando a mente como um
alfinete
Iremos agora meditar no
estado de vacuidade da mente. Pensamos normalmente: "Tenho uma
mente" e tendemos a localiza-la no corpo. Alguns pensam que ela
se encontra na cabeça, outros no coração; são apenas opiniões
que não correspondem a um exame direto. De fato, não sabemos
verdadeiramente o que é a mente.
Sob o poder de uma ignorância
fundamental, a mente é assimilada a um "eu" e pensa "eu, eu
existo, eu sou este corpo". Esta identificação ao corpo
recobre a totalidade de nosso organismo físico; não poderíamos
limita-la à cabeça ou ao coração. Podemos verificar isso de
modo simples com um alfinete: se espetarmos a mão, será a mente
que sentirá a dor; se espetarmos o pé será a mente que sentirá
a dor. Qualquer que seja a parte do corpo que espetarmos, sempre
será a mente que sentirá a dor. Isso prova que a mente está
presente em todo nosso corpo e não somente em uma parte.
A participação da mente não
se limita ao corpo, mas se estende, por intermédio dos órgãos
dos sentidos, ao mundo exterior. A própria mente é um
"potencial de consciência" que se diversifica nas seis consciências
sensoriais: consciências visual, auditiva, olfativa, gustativa, tátil
e mental. Ligadas aos órgãos dos sentidos, elas percebem os
objetos exteriores correspondentes: formas, sons, odores, etc.
Portanto, a mente é parte integrante da percepção do mundo.
De uma certa maneira, a
mente nem mesmo é limitada pelas distâncias físicas. Se
pensarmos na China ou na Índia, esses países aparecem em nossa
imaginação. Isso não quer dizer, é claro, que nos deslocaremos
rapidamente para um ou outro desses países longínquos; basta,
com efeito, que uma pessoa ao nosso lado diga alguma coisa que
atraia nossa atenção para que nossa consciência auditiva nos
recoloque no contexto presente. Mas esta faculdade que tem nossa
mente de passear em imaginação, sem limitações, é um índice
de sua onipresença.
A mente é fundamentalmente
a mesma para todos os seres. Se tomarmos um pequeno inseto, do
tamanho da ponta de uma agulha, ele é dotado, como nós, da
faculdade de sentir: experimenta o medo, a fome, a sede, todos os
tipos de sensações. Um elefante possui, ele também, as mesmas
capacidades. Os condicionamentos kármicos impõem diferenças na
intensidade e nas modalidades do que é percebido, mas encontramos
uma mesma mente como fundamento do sentir.
Meditação sobre a mente
Essa mente que penetra
todas as coisas, essa mente comum a todos, precisamos compreender
o que ela é.
A mente, em primeiro lugar,
é vazia, no sentido de que não existe enquanto objeto: não
tem cor, nem forma, nem peso, etc. Também não tem lado, nem
fronteira, nem centro, nem circunferência. Nada sendo
materialmente, é semelhante ao espaço. É necessário saber
isto, pois a vacuidade é muito diferente da experiência que
temos agora de nossa mente: algo de muito pequeno, que chamamos
"eu" , algo limitado ao nosso corpo, algo estreito e conseqüentemente
fonte de numerosos problemas.
Deixando nossas costas bem
retas, meditamos nessa vacuidade vasta como o espaço, a mente
aberta.
"Tenho uma mente; ela se
encontra em meu corpo; quero ter as coisas que me agradam, evitar
o que me desagrada": este modo de funcionamento constitui um
fardo pesado que nos causa muitos aborrecimentos. Se, ao contrário,
colocarmo-nos em um estado de abertura e de tranqüilidade onde
reconhecemos a mente tal como ela é verdadeiramente, penetrando
todas as coisas, desprovida de qualquer limitação material,
experimentamos, então, naturalmente, uma sensação de calma e
leveza, sem nenhuma complexidade.
A vacuidade da mente na
qual nos colocamos é semelhante ao espaço, não um espaço
obscuro onde não brilham nem o sol, nem a lua, nem mesmo as
estrelas, mas um espaço iluminado pelo sol, límpido e vasto.
Quando nos colocamos na natureza da mente, em sua vacuidade,
devemos fazê-lo com essa qualidade de abertura e limpidez. Em
segundo lugar, meditamos, então, sobre a "claridade" da
mente. Vacuidade e claridade não são dois aspectos que poderiam
ser isolados, ficando cada qual de um lado diferente. Da mesma
maneira que num dia ensolarado o céu e a luz são apenas um, a
claridade e a vacuidade da mente estão indissoluvelmente
misturadas.
Vacuidade e claridade são,
em si mesmas, inertes: elas não podem gerar nenhum ato benéfico
ou negativo, não podem engendrar nem pensamentos nem emoções
conflituosas. Quando permanecemos no estado de
claridade-vacuidade, semelhante ao espaço vazio, há ao mesmo
tempo uma qualidade conhecedora, uma inteligência (sct. vidya,
tib. Rikpa) que está consciente da claridade e da
vacuidade. A vacuidade-claridade é como a palma da mão e nessa
inteligência, como a percepção evidente que temos dela.
Todavia, na natureza da mente nada divide esses três aspectos.
Meditemos, agora, tomando particularmente consciência dessa
inteligência.
A mente espaçosa
Assim, a mente é descrita
sob esses três aspectos: vacuidade, claridade, inteligência.
Caso se medite apoiado nesses três aspectos, de modo muito vasto,
muito amplo – praticando-se a pacificação mental, a visão
superior ou as fases de criação e de conclusão das divindades
do Vajrayana – isto produzirá um grande conforto, uma grande
facilidade e aumentará a eficácia. Se, ao contrário,
permanecermos na nossa percepção comum: "Este sou eu, eu estou
nesse corpo", as mesmas práticas serão realizadas com
dificuldade, de maneira estreita, como se estivéssemos presos num
desfiladeiro estreito do qual não saberíamos como sair.
Portanto, é muito importante saber meditar da maneira que
acabamos de mostrar.
Mesmo quando o lama que dá
as instruções sobre a pacificação mental, a visão superior ou
as meditações das divindades seja perfeito, se o discípulo
abordar essas técnicas com a mente fechada em si mesma, nunca verá
o desenvolvimento das qualidades que delas decorrem. Ao contrário,
corre um grande risco de se irritar por causa do lama e de ficar
ressentido com ele!
Essa mente, união da
vacuidade, da claridade e da inteligência, vai em direção ao
estado de Buddha; mas é ela também que erra no samsara. Quando
meditamos, é a mente que medita; quando se elevam emoções
conflituosas ou pensamentos, é ela que os experimenta. Nada é
experimentado fora da mente.
A mente em pleno vôo
Caso se medite tendo
compreendido bem essa tríplice natureza – vacuidade, claridade
e inteligência – da mente, medita-se com a liberdade de um pássaro
que voa no céu. Nada obstrui a sua rota; pode ir aonde quiser.
Nossa meditação será, então, eficaz. Caso contrário, seremos
como uma criatura com muitas patas presa num espaço muito
pequeno.
Durante a meditação,
algumas pessoas sentem dor de cabeça, outras dor nos olhos, nos
ombros, ou ainda sentem incômodos em outras partes do corpo.
Todas essas dores vêm de uma mente em uma atitude fechada.
Podemos comparar nossa
mente dotada desses três aspectos com o mar. As emoções
conflituosas e os pensamentos que nela se produzem são como as
ondas. As ondas do mar são muito numerosas; mas elas são apenas
água, a mesma água do mar. Do mesmo modo, todos os pensamentos e
todas as emoções procedem da mente e se reabsorvem na mente.
Pode ser útil meditar na beira do mar: pode-se ver, vindo de
longe, pequenas ondas que se formam, que depois crescem até
ficarem enormes e parecerem capazes de destruir tudo em sua
passagem. As ondas voltam em seguida para o mar e não sobra nada
delas. As emoções e os pensamentos, do mesmo modo, elevam-se em
nossa mente, ganham um enorme poder e acabam por voltar para a
vacuidade não sobrando nada deles. Depois surgem outros, que por
sua vez se dissipam, para dar lugar a outros.
Sejam, então, hábeis ao
meditar. Quando, por exemplo, um desejo poderoso, quase irresistível,
eleva-se na mente, tomem a postura de meditação e permaneçam em
um estado de grande abertura. Quando o desejo se elevar, olhem
simplesmente a mente neste desejo que se eleva, sem se deixarem
distrair por outra coisa; o desejo se liberará então por si
mesmo na vacuidade. Cada vez que ele voltar, olhem-no da mesma
maneira e cada vez ele se desfará. Ao meditar assim, o desejo se
libera na consciência primordial. A partir de então as próprias
manifestações das emoções serão benéficas e não poderão
mais incomodá-los.
Reconhecer a essência
Tentemos, agora, fazer a
experiência da qual falamos. Tomando a postura de meditação
correta, deixemos que nossa mente repouse na vacuidade, na
claridade e na inteligência. Sem dúvida, irão surgir
pensamentos de desejo, de cólera ou de ciúme. Quando se
manifestarem, permaneçamos com relação a eles em um estado de
simples reconhecimento. Não devemos pensar que devem desaparecer
ou que é preciso pará-los, mas simplesmente reconhecer sua essência.
Desse modo eles se liberam por si mesmos.
Nesse tipo de meditação,
todas as emoções conflituosas são tratadas do mesmo modo. Mesmo
quando se elevam em grande número, é uma boa coisa. Não se deve
rejeita-las. Basta reconhecer sua essência; isto não é difícil.
É por essa razão que dizemos que elas se liberam por si mesmas.
A emoção principal que
vocês encontram é, sem dúvida, o desejo-apego. Se puderem
aprender a tratá-la mediante esse tipo de meditação, poderão
em seguida estender essa abordagem às outras emoções. Gampopa
comparava a meditação a um fogo; quanto mais se alimenta o fogo
com madeira, mais potente e vivo ele se torna. Para o praticante,
da mesma maneira, quanto mais a meditação encontra emoções
conflituosas, mais forte brilha a consciência primordial.
Quando, após o trabalho,
vocês se sentem cansados, mental e fisicamente, se estabelecerem
a mente nesse estado aberto e espaçoso do qual falamos, o cansaço
logo desaparecerá; vocês se sentirão relaxados e tranqüilos.
Quando, por outro lado, uma forte emoção conflituosa se eleva,
se, do mesmo modo, vocês colocarem a mente em um estado
semelhante ao espaço, a emoção se liberará por si mesma. Isso
será extremamente proveitoso.
Em primeiro lugar, é
preciso compreender bem no que consiste esse tipo de meditação,
depois aplica-la. Antes de mais nada, talvez não seja tão fácil
compreendê-la como falar dela; depois, tendo compreendido-a, se não
se praticá-la, não se poderá extrair nenhum benefício dela.
Logo após ter alcançado o Despertar, o Buddha disse:
Encontrei um dharma
semelhante à ambrósia,
Profundo, pacífico,
simples, indiviso, radiante.
Como ninguém
compreenderia o que eu poderia mostrar,
Permanecerei mudo
no meio da floresta.
Então, ele permaneceu
absorvido em sua meditação. Algumas semanas mais tarde, os
grandes deuses da Índia védica, Brahma e Indra, vieram lhe
implorar para que ensinasse aos homens que, sem ninguém para guiá-los,
eram como cegos no samsara. Atendendo a esse pedido,
aceitou ensina-los.
Questão: Essa prática,
na qual as emoções se liberam por si mesmas, é suficiente para
chegar ao Despertar?
Kalu Rinpoche: Sim, é possível, pois ela permite que
as emoções se transformem em sabedorias, mais precisamente
naquilo que, no nível do Despertar, é chamado as "cinco
sabedorias" e que, no nível dos meios, é representado pelos
cinco "buddhas Patriarcas".
Questão: Rinpoche
explicou-nos que as emoções se elevavam da mente e voltavam para
ela. Mas, quando penso em minha própria experiência, não vejo
muito bem, nesse caso, o que se chama mente. É apenas uma
palavra, mas que não designa nada em particular. Acredito ter uma
mente, mas não posso encontra-la.
Kalu Rinpoche: Para responder a essa questão, podemos
tomar uma citação do Terceiro Karmapa, Rangjung Dorje:
A mente: não há mente, ela é vazia de essência mental;
Vazia, ela é ao
mesmo tempo livre e se manifesta em todas as coisas.
Possa um perfeito
exame eliminar toda indecisão.
A mente não é
existente: os próprios Vencedores não a vêem;
Ela não é
inexistente: é o fundamento universal do samsara e do nirvana;
Ela não é o amálgama
de contrários, mas a união, o caminho do meio;
Possa eu realizar o
aquilo-mesmo da mente desprovida de extremos.
Forneci-lhes os métodos
que, acredito, permitem que toda vez que se produzam emoções
conflituosas, pensamentos ou sofrimentos, eles se liberem por si
mesmos. Agora, depende de vocês coloca-los em prática ou não.
Vocês podem escolher permanecer enredados nas emoções
conflituosas ou então livrar-se delas. A escolha é sua: podem
continuar prisioneiros ou colocar-se em uma situação confortável,
deixando que as emoções liberem-se por si mesmas.
Kalu
Rinpoche. Ensinamentos Fundamentais do Budismo Tibetano:
Budismo Vivo, Budismo Profundo, Budismo Esotérico. Tradução
de Célia Gambini, revisão técnica de Antonio Carlos da
Ressurreição Xavier. Brasília: Shisil, 1999.
Para adquirir o livro, clique aqui.
|
|