As Oito Consciências e os Cinco Elementos

A natureza búddhica ou mente pura, essa sabedoria primordial, é acima de tudo vacuidade, lucidez e possibilidade infinita. É a clara luz, encontrada por todos os seres no fim da dissolução da consciência no momento da morte ou, no bardo da agonia, seguida pelo bardo da vacuidade. Esta clara luz ou sabedoria primordial básica tem como sua essência os cinco elementos principais: espaço, ar, fogo, água e terra. Como veremos, estes se transformam quando a mente e suas manifestações são modificadas.

Quando a natureza búddhica é modificada pela ignorância, ela se torna o solo universal do samsara. Como tal, ela é chamada a consciência universal ou fundamental, ou a oitava consciência. Ela abarca e permeia tudo e dela surgem todas as ilusões da consciência individual.

O desenvolvimento da delusão começa com a aparência da dualidade. O estado não-dual da vacuidade, lucidez e não-obstrução divide-se na dualidade sujeito-objeto e age a partir dessa percepção. Da vacuidade surge o "eu-sujeito", da lucidez surge o senso de "outro", e da não-obstrução surgem todos os relacionamentos baseados na atração, repulsão e ignorância. Com este divisão, ocorre a consciência contaminada ou dualista — a consciência de que alguém tem algo. Ela é referida como sendo contaminada porque é poluída com o dualismo, que é a sétima consciência. Esta consciência contaminada tem um séqüito de outras seis consciências, correspondentes às diferentes faculdades mentais: visual, auditiva, olfativa, gustativa, tátil e mental.

A Alteração dos Elementos na Mente e nos Bardos

Vazio, luminosa e infinita em potencial, a mente pode ser entendida como tendo cinco qualidades básicas: vacuidade, mobilidade, claridade, continuidade e estabilidade. Cada uma destas corresponde respectivamente a um dos cinco elementos principais do espaço, ar, fogo, água e terra. Já descrevemos a mente como não sendo uma coisa tangível; ela é indeterminada, onipresente e imaterial; é vacuidade, com a natureza do espaço. O espaço e os estados mentais surgem constantemente na mente; este movimento e flutuação são a natureza do elemento ar. Além disso, a mente é clara; ela pode ser conhecida, e essa lucidez clara é a natureza do elemento fogo. E a mente é contínua; suas experiências são um fluxo ininterrupto de pensamentos e percepções. Esta continuidade é a natureza do elemento água. Finalmente, a mente é o solo ou base a partir da qual surgem todas as coisas conhecíveis no samsara como no nirvana, e esta qualidade é a natureza do elemento terra.

As cinco qualidades da mente pura também têm a natureza dos cinco elementos. Entrando nas ilusões e dualidade, a mente é alterada, mas as produções da mente preservam a natureza dos cinco elementos em diferentes aspectos. Toda manifestação é o jogo da mente nas transformações dos cinco elementos principais. Além disso, há energias sutis sustentando a mente suas mutações, tradicionalmente chamados ventos ou ares. A mente, a consciência e a miríade de experiências diversas são produzidas por estes ventos-energias; são indistinguíveis da mente e são a energia que as anima e influencia.

As cinco qualidades básicas da mente que acabaram de ser descritas correspondem a cinco ventos muitos sutis cuja energia manifesta-se na mente como as cinco luminosidades essenciais que são referidas como sendo extremamente sutis. Elas são respectivamente azul, verde, vermelha, branca e amarela. Estas luminosidades começam a se manifestar no momento em que a consciência é restabelecida no fim do bardo da vacuidade. Elas fazem parte do processo do "nascimento", a emergência da consciência dualista. As experiências e projeções da consciência surgem subseqüentemente a partir das cinco luminosidades; elas produzem as aparências dos cinco elementos que são percebidos através da ilusão como o corpo mental e o mundo externo.

Todas as aparências ilusórias que a consciência experiencia são basicamente emanações da mente, a manifestação dos cinco elementos principais, ocorrendo inicialmente como qualidades essenciais da mente, então nos ventos e luminosidades, e finalmente como aparências. Cad um destes níveis tem a natureza dos diferentes elementos: espaço, ar, fogo, água e terra.

O processo de estruturar a consciência ocorre a cada momento, um todos os nossos estados de consciência, mas particularmente no começo do bardo do vir-a-ser. Então, durante esse bardo, pela interação dos cinco elementos, a consciência projeta a aparência de um corpo mental, uma forma sutil com a qual se identifica com um sujeito, enquanto ao mesmo tempo projeta estes objetos, percebidos de um modo ilusório como o mundo externo.

Então, este sujeito-consciência, identificado com seu corpo mental, desenvolve relacionamentos com estes projeções-forma que são gradualmente estruturadas como os outros agregados — sensações, representações e fatores. Os cinco agregados que juntos formar um individuo (formas, sensações, representações, fatores e consciência) são assim criados. Mas neste estágio do bardo do vir-a-ser, a consciência mental vive todas as suas experiências apenas dentro de si mesmo, e o indivíduo assim composto tem apenas quatro agregados e meio. Deste modo, as experiência do bardo do vir-a-ser durará até a concepção. No momento da concepção, a consciência migrante, feita de quatro agregados e meio, combina-se com elementos externos presentes no sêmen do pai e no óvulo da mãe. Então, o embrião concebido inclui todos os cinco elementos em seu aspecto interior — consciência — e em seus aspectos externos que vêm dos gametas dos pais.

Por um lado, os cinco elementos do espaço, ar, fogo, água e terra existem no embrião e então no corpo física, como cavidades, vento, calor, líquidos e sólidos; por outro lado, os eles existem como os princípios do estiramento, mobilidade, energia, fluidez e coesão. A forma tangível que o corpo adquire é o aspecto grosseiro do agregado da forma; um indivíduo feito de cinco agregados é assim criado, e gradualmente as cinco faculdades dos sentidos desenvolvem-se — visual, auditiva, olfativa, tátil, gustativa e mental.

No reino destas diferentes faculdades sensoriais da consciência mental, dois aspetos emergem — puro e impuro. As consciência contaminada e aflita procede da consciência dualista junto com tudo o que é negativo, como raiva, ambição, ignorância, apego, inveja e orgulho. Por outro lado, uma consciência mental positiva surge da sabedoria primordial com as qualidades da sabedoria, compaixão, amor e fé. Estes dois aspectos da consciência mental estendem-se através das seis consciências e das faculdades sensoriais. Isto resulta em uma variedade de experiências dos seis tipos de objetos — formas, sons, odores, sabores, objetos táteis e pensamentos.

Para fazer uma analogia, a consciência fundamental é como o mestre ou o rei; a consciência mental é como seu filho, o príncipe; e as seis consciência são como seus emissários. É assim como podemos distinguir as oito consciências, sua função em relação aos seus objetos pelo caminho das seis faculdades sensoriais.

A interação dos muitos elementos dentro do surgimento dependente ou tendrel faz surgir conceitos imensuráveis que controlam o corpo, a fala e a mente. Os vários karmas ativados por estas ilusões deixam marcas na consciência fundamental, muito semelhantes a sementes plantadas no solo. E, como os vários fatores interdependentes como fertilizadores, luz e umidade que fazem as sementes produzir uma colheita, as marcas kármicas deixadas na consciência fundamental produzem a colheita de uma massa de vidas felizes ou miseráveis, dependendo de essas marcas serem positivas ou negativas.

Kalu Rinpoche. Luminous mind: the way of the Buddha. Compilado por Denis Töndrup,
traduzido por Maria Montenegro, prefácio de S.S. o Dalai Lama.
Boston: Wisdom, 1997. Pág. 67-69.


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